Crer ou não Crer [5]: morte e considerações finais

Esta é a última postagem minha sobre o livro escrito por Leandro Karnal e Fábio de Melo. Se chegou direto aqui, comece pelo começo. Como mencionei na parte 4, estou poupando comentários sobre duas partes do livro: Parte 5: “se Deus não existe, tudo é permitido?” e Parte 6: “ter fé faz falta?”; elas são somente repetições de temas anteriores somente com uma roupagem não muito diferente e não lançam luz sobre cada tópico. A parte 7, sobre a qual trato aqui, é bem diferente.

Finalmente temos uma conversa interessante. Fábio de Melo não tem a mesma postura que o religioso, católico ou evangélico, tradicional, o que restringe um pouco qualquer crítica. Karnal, por outro lado, concede todos os pontos e não traz novidade. Mas é uma conversa que reconhece a condição humana e identifica muitas respostas erradas à morte.

Mas o crítico não sobrevive de falar bem e eu encontro algo que acho extremamente irritante na exposição de Karnal (ou vocês acharam que eu só criticaria o padre?). Quando tratam do papel a que devem se prestar as pessoas quando alguém morre, a conversa toma um rumo comum:

Leandro Karnal: (…) E aí vem de novo o meu louvor ao pensamento religioso. Nada nem ninguém pode oferecer consolo a não ser a religião. Você não pode chegar a um enterro e usar a ciência para consolar uma mãe. Eu não posso chegar para uma mãe que perdeu um filho e dizer que seu filho é feito de unidade de carbono, e que toda unidade de carbono tende a desaparecer.

Padre Fábio: Seria uma interferência infeliz. Ou então dizer o que costumeiramente escutamos: “Hoje foi ele, amanhã pode ser qualquer um de nós!”.

Karnal: Isso é ciência. Mas se eu disser que seu filho “virou” um anjo e prepara o caminho para nós…

Padre Fábio: Ele está lá em cima rezando por nós, e vamos nos reencontrar por toda a eternidade, sim, isso consola.

Karnal: A ciência não seca lágrima, a religião seca, ou pelo menos dá dimensão à dor. Há várias formas de luto. Os cristãos consolam o morto. Alguns religiosos hoje, como judeus e adventistas, não insistem na mudança do julgamento de Deus.

Tem tanta coisa errada aí que eu sei por onde começar.

Qual é o papel da ciência?

A ciência, ou o método científico, tem como objetivo avaliar hipóteses com o objetivo de adquirir conhecimento. Ninguém deveria ir a um velório com o objetivo de investigar a realidade. As pessoas vão a velórios principalmente para consolar os vivos. Talvez, no caso de católicos e mórmons, também para salvar a alma do morto, mas fiquemos no primeiro caso. Isto diz respeito a como se comportar em sociedade, isto é, Ética. Tentar usar ciência para consolar o parente de um morto seria como tentar destrancar uma porta usando uma colher.

Como um ateu pode consolar alguém de luto?

Não pode. Bem, não não um ateu. Porque o ateísmo não contém instruções, não é uma cosmovisão que inclui ética. Então cada indivíduo deve encontrar na sua cosmovisão, na sua filosofia, a melhor forma de trazer consolo a quem sofre. Eu sou cético e, embora não adote o rótulo de humanista, é aí que encontro formas de atingir aquele objetivo. Eu poderia usar, por exemplo, os seguintes fatos incontroversos para consolar alguém que perdeu um ente querido:

  • A memória e as experiências compartilhadas fazem parte do que somos, e enquanto elas estiverem conosco, uma parte do que o falecido foi também estará.
  • Os vivos continuam aqui para dar o apoio que o morto não pode mais, quer seja emocional ou material.
  • Para os que em vida sofriam, não há mais for

Estes e outros fatos podem ser combinados em uma conversa incontroversa com o objetivo de consolar. Isso definitivamente não é ciência, nem deveria ser. Leandro Karnal mostra que pode ser um filósofo bem incompetente às vezes, e Fábio de Melo prova não merecer seu diploma em Filosofia.

Considerações finais

Recapitulando o que eu esperava encontrar no livro:

  1. O ponto de vista contrário é bem representado? Só Karnal faz isso. E o faz quase sempre como felação teológica, não para contestar ou questionar.
  2. Quais são os argumentos apresentados? Nenhum estruturado, quase nenhum novo. No máximo dois argumentos soltos novos, sendo uma analogia com o socialismo e o reconhecimento da ausência através dos símbolos.
  3. Os autores buscam um caminho para convergirem em conclusões? Não. Eles se satisfazem em discordar sem explorar os motivos e suas validades. Fábio de Melo, como o risco que apresentei, nem ao menos mostra se importar com verdades, bastando que adotar a crença torne a pessoa melhor. E Karnal nunca discorda ou parece detectar tal falha.

Para a maioria das pessoas, não vale a pena adquirir uma cópia. O livro é repetitivo e não aborda questão mais importante: como podemos saber se a religião é verdade? É uma conversa amigável, dominada pelo Fábio de Melo. Das 153 páginas do livro, 50 são de longos monólogos escritos por ele, destacando-se do diálogo que quase não existe. Se você nunca conheceu um católico, leia. Se nunca conheceu um ateu leia outra coisa — Hitchens pode ajudar bem mais.

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Ajude-me a decidir!

Ainda estou lendo Crer ou Não Crer, mas algumas mazelas da vida estão brecando um pouco o progresso da leitura. Enquanto isso, quero a sua ajuda. Não precisa olhar para os lados, é você mesmo. A audiência deste blog não é grande, mas chega a poucas dezenas de visitantes por dia. Eu ando pensando em coisas além do livro ou assuntos que surgem em conversas ao vivo ou pelas redes sociais, mas prefiro conversar com você sobre algo que lhe interesse. Eis algumas coisas que andam rodeando a minha mente:

  • Alma, identidade e pós-morte: o que se sabe, o que não se sabe e o que fingem não saber sobre quem somos e para onde (não) vamos depois da morte.
  • A importância que as pessoas dão para a possibilidade de descobrir novas informações que podem contradizer aquilo que acreditam, e talvez realizar algum experimento prático.
  • Investigar a velocidade com que influências intelectuais externas chegam ao Brasil, experimentando com a mais nova onda do 4chan — it’s okay to be…
  • Explicar o problema com o “argumento da melhor explicação” e compará-lo com ilusionismo

Mas como eu tenho que dedicar algum tempo à pesquisa e apresentação, gostaria primeiro de saber o que você gostaria de ver por aqui e, principalmente, o que poderia levá-lo a interagir. Porque, ao contrário do que estão fazendo com muita frequência, para mim o diálogo é mais importante do que ter pessoas que concordam comigo. Vote num assunto, quer seja um dos que mencionei ou não. Espero seu comentário.

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Milagre de Josué confirmado!

Em Josué 10 temos a fantástica estória de como o Sol milagrosamente parou no céu por quase um dia todo. E a NASA confirmou! Duas vezes! Na primeira, descobriu que a posição histórica do Sol estava incorreta sem o dia perdido. E na segunda, um físico israelense descobriu que na verdade se tratou de um eclipse…

Opa! Acho que um mentiroso esqueceu de avisar o outro. A primeira mentira é velha e já desmentida. Mas a segunda é nova e merece uma olhada melhor.

Vamos resumir as alegações:

  1. Josué batalhou no lugar X e perto do ano 1400AEC.
  2. O relato diz que o Sol escureceu
  3. Um eclipse anular aconteceu em 1207AEC, o único em 500 anos
  4. Conclusão: o relato bíblico é verdadeiro.

É só isso. Digamos que 2 e 3 estejam corretos: realmente aconteceu um eclipse em X. Como isso comprova que Josué esteve em X e fez tudo que a Bíblia diz? Um eclipse dura não mais que 7 minutos; como partimos disso e chegamos em “por quase um dia inteiro não se pôs”? Se ele precisava de escuridão e já era fim do dia, no que um eclipse ajudaria?

Nada faz qualquer sentido, e nenhuma das supostas descobertas confirmariam o texto bíblico.

Agora, será que há mais mentiras? Dr. Hezi Yitzhak existe, mas não parece haver estudo publicado por ele com esse conteúdo. Até a área de estudo dele não tem a ver com eclipses. Ou seja, parece que colocaram o nome dele na mentira para dar credibilidade. E eu nem conferi se realmente aconteceu um único eclipse em X no período mencionado.

Mentir por Jesus é tão comum que não surpreende. Mais sobre mentira:

O cachorro morto que merece ser chutado

Mentirosos profissionais

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Crer ou não Crer [4]: igreja é benéfica?

O tema principal desta parte do livro é a utilidade não mais da crença em si e sim da instituição que se forma ao seu redor. O diálogo é entre um ateu e um padre, então só podemos falar de ateísmo e catolicismo; não há e nem pode haver uma instituição que se forme sobre o ateísmo (um pouco sobre isso aqui), então tudo gira em torno da Igreja Católica Apostólica Romana, ou ICAR para os íntimos.

Eu encontro um argumento muito curto, mas totalmente novo para mim, na fala de Karnal: o socialismo é uma idéia jamais alcançada; Cuba, União Soviética e, mais recentemente, Venezuela são distorções do que o socialismo deveria ser. Da mesma forma, a ICAR seria uma distorção do que o cristianismo deveria ser. Agora partindo para a minha expansão do argumento, as duas distorções acontecem pelo mesmo motivo: são a consequência necessária dos meios pelos quais se vislumbra a idéia original. Aparentemente Fábio não entende o argumento, pois continua separando a igreja utópica intendida pelos fundadores da religião da religião criada pela tradição humana sem abordar o argumento em si. Pois ele confirma a extensão do argumento sem ver a relação positiva entre o que diz e o que o contradiz:

Esse é o meu empenho diário. Resgatar essa raiz, voltar às intenções de Jesus, ao desejo que Ele tinha de que Seus discípulos fossem promotores de uma nova sociedade. Que eles fossem promotores de uma nova forma de viver a relação om Deus. Que eles fossem deserdados de toda e qualquer cultura religiosa que os autorizasse a oprimir em nome da fé.

Pois é exatamente a promoção de uma nova sociedade que conduz, de uma forma ou outra, a impôr à sociedade contemporânea os valores extraídos, ou interpretados, do texto sagrado. E isso sempre deu e sempre vai dar errado.

Tangenciando o assunto principal, ainda busco as formas pelas quais as afirmações são justificadas. Nessa busca, algumas inconsistências ainda se destacam. Por exemplo:

A minha fé não afronta a minha racionalidade. Eu não preciso abrir mão da minha inteligência para crer como creio. E, quando eu me deparo com algum aspecto que considero nebuloso, eu opto por contemplar, em vez de responder. (pág. 81, grifo meu)

Note como o padre Fábio não consegue ver como fala duas coisas completamente contrárias em sequência: ele acha que acreditar em algo nebuloso de forma contemplativa em vez de responder é racional. Não! Racional seria rejeitar algo até que deixe de ser nebuloso!

Mas nem tudo está perdido. Durante todo o capítulo essas duas idéias, a de que a ICAR é uma falha de implementação, e de que o mistério faz parte da crença católica, se combinam na idéia de símbolos como mistério sagrado. Para o leitor ter uma idéia do que estou falando:

Particularmente também acho que a explicação do simbólico fragiliza sua força. Acho interessante quando a religião consegue incutir na pessoa a sensibilidade ao símbolo. Assim, ele não carece ser explicado e a gente se desprende um pouco dessa racionalização que fazemos de tudo, porque, sendo ocidentais, nós lamentavelmente temos a necessidade de racionalizar o tempo todo. Como padre enfrento esse problema diariamente. De vez em quando alguém me pergunta: “Como é o céu, padre?”. Honestamente ue respondo: “Não sei, querido, porque eu ainda não morri. Estou na mesma situação que você, sem saber como é”.

Novamente o assunto provê um novo ponto sobre o qual eu não havia pensado. Essa questão toda de simbologia é evitada na igreja evangélica, que é minha experiência religiosa majoritária. Os símbolos existem e são cada vez mais fortes, mas não se comparam à sua importância no catolicismo. Só que o símbolo é a representação daquilo que não está lá. As lápides e monumentos a pessoas existem porque a pessoa morreu, não está mais entre nós. As medalhas existem para lembrarmo-nos de algo que ficou no passado e não pode mais ser experimentado. Até os prêmios da academia de cinema para “realização de vida” (lifetime achievement award) dado a alguém em vida são frequentemente recebidos sob protesto de “eu não morri”, porque são símbolo de uma vida passada de brilhante atuação.

Sob essa ótica, o simbolismo católico pode ser visto como um reconhecimento de que as coisas a que os símbolos pretendem aproximar o religioso, “incutir na pessoa a sensibilidade ao símbolo”, na verdade não existem. Nenhum símbolo, como os evangélicos insistem, pode interagir com o crente, e Fábio reconhece isso, mas a alternativa — o símbolo serve para despertar algo dentro do crente — é a confissão de que não há nada externo ao crente, não há realidade tangível por trás do símbolo.

Eu só acho triste a perspectiva de que uma pessoa instruída não só não vê que o simbolismo católico torna evidente tanto a falência da ICAR quanto a irracionalidade da crença. Claro que tudo isso fica envolto no tema do livro, que é o propósito da religião ser tornar o indivíduo melhor, e isso obscurece a discussão a respeito do título do livro. Uma pena, de verdade.

Termina na Parte 5

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Mídia racista, manipulação de massas e sinalização de virtude

Apareceu na minha timeline no Facebook algumas vezes, então ao invés de repetir a mesma coisa várias vezes, escreverei só uma vez.

Já são quase 300 mortos em ataque terrorista na Somália.

Sem pele branca, sem olhos claros, sem comoção na mídia.

Copie e cole no seu perfil. Vamos subir a hashtag #PrayingForSomalia

Qual a crítica contida nesta pequena manifestação? Uma leitura ingênua pode levar a concluir que é contra o ataque terrorista na Somália. Mas note que a revolta não é pelo fato do ataque terrorista ter sido perpetrado, e sim por ele não estar sendo noticiado o suficiente, não causar “comoção na mídia”. E qual seria o motivo dessa comoção não acontecer? Racismo, claro!

O nível de ignorância em tal revolta é tão grande que tenho que começar do básico. Estou escrevendo rapidamente e a partir do mais simples senso comum, então pouparei fontes.

Mídia e seus veículos

A função da mídia é informar o indivíduo, mantê-lo a par dos fatos a ele relevantes. Veículos de mídia (jornais, canais de TV, websites) têm o propósito de obter lucro através do serviço de informar o indivíduo a respeito dos fatos a ele relevantes. O lucro depende e é restrito à atenção da audiência, portanto as notícias têm que ser priorizadas de acordo com a relevância e abrangência do veículo, e restritas pela disponibilidade de recursos — repórteres, colunistas, editores, fotógrafos, analistas, espaço no papel, etc..

A abrangência diz respeito ao público alvo do veículo de mídia. Um noticiário local trará notícias que afetam direta ou indiretamente a população da região. Não há, a princípio, motivo para uma lei municipal de Manaus virar notícia em Curitiba. E a relevância de um fato pode ser geográfica, política, econômica e/ou social.

Como a morte de 300 pessoas pode ser irrelevante?!

Em primeiro lugar, não é. O atentado terrorista na Somália foi notícia no Jornal Nacional da Globo, e continua presente em diversos veículos de notícia (R7 e Jovem Pan, por exemplo). A presença do fato na mídia é incontestável. Não é papel da mídia criar comoção, então talvez a reclamação seja quanto à falta de relevância dada ao fato. Acreditando que tal relevância não foi dada (do que desconfio), ela deveria?

O atentado aconteceu fora do continente americano. O Brasil não tem forte relação geográfica, política, econômica ou diplomática com a Somália, e não há confirmação de qualquer brasileiro entre as vítimas. Não existem comunidades brasileiras no país, assim como não há migração relevante para cá, e o turismo é igualmente escasso. A população é esmagadoramente muçulmana, sendo o Islã a religião oficial do país, e o ataque teve cunho político — foi feito por um grupo tentando tomar o poder. Então não há ligação geográfica, política, diplomática, econômica, cultural ou social direta entre o público alvo dos veículos de mídia e a Somália. É por este mesmo motivo que não se vê qualquer notícia sobre mutilação genital na África, muito menos clamor popular, mesmo que atinja praticamente metade das mulheres na Somália. E note que nada disso envolve a cor da pele dos somalis.

Para comparação, vejamos os casos de terrorismo em Paris: a cidade é destino turístico de muitos brasileiros; há um número relevante de migrantes nas duas direções, e no atentado houve brasileiros atingidos; o ataque foi direcionado à cultura ocidental — individualismo e liberalismo, da qual compartilhamos. Ou seja, mesmo havendo distância geográfica, há proximidade política, cultural e social, inclusive podendo afetar famílias dentro do públic o alvo. E nada disso envolve a cor de pele de franceses ou brasileiros.

Mídia racista!

Como disse, o protesto é contra o racismo na mídia. Afinal, se há comoção quando é com brancos europeus e não há quando é com negros africanos, só pode ser racismo. Embora já tenha explicado que este não é o caso, vale a pena olhar melhor para o que esta acusação significa. Quando alguém reclama que os veículos de mídia não apresentam aquilo que se deseja, confunde-se quem é o dono do veículo. Quem decide o que deve ser apresentado ou não é o editor, não o leitor. Cabe ao leitor não comprar o jornal, não assistir o canal e não acessar o site se a notícia não interessa. Isto faz com que a circulação diminua e o patrocinador não queira anunciar, conquanto um número suficiente leitores abandone o jornal. Ou seja, boicote.

Mas o boicote não é a estratégia utilizada para gerar mudança. Ao invés disso, usa-se a culpa: se você não é racista, compartilhe. A isso costuma-se chamar sinalização de virtude (explicação 1, explicação 2), a atitude de mostrar-se moralmente superior sem fazer coisa alguma. Pois é exatamente o que o texto original propõe: mostre sua indignação, e depois não faça coisa alguma. Não envie alimentos, não faça doações, não voluntarie seu trabalho, não adote um refugiado. Mas seja superior à mídia racista, faça parte da equipe de super-heróis da moral e dos bons costumes. Esta atitude costuma ser associada ao marxismo cultural, idéia de que a sociedade deve ser separada de acordo com classes (econômicas, raciais, sexuais, etc.) que lutam entre si, também conhecida como opressão sistêmica. Sim, por ironia do destino temos cristãos agindo como marxistas.

Eu nada tenho a ver com o ataque terrorista na Somália. E não sou hipócrita para ficar colocando hashtag em rede social sem ajudar uma pessoa sequer. São somalis brigando por um poder vazio, que se entendam.

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Crer ou não Crer [3]: a relevância da crença

Na parte 1 do livro o tópico foi a utilidade da fé, pelo menos para o Padre Fábio. Na parte 2, embora a intenção fosse falar sobre ciência e fé, novamente falou-se sobre a utilidade da fé. O que esperar da parte 3? Claro que pelo título já presumo que abordagem de Fábio será dizer que a crença é importante para tornar a pessoa melhor.

Mesmo sabendo o que esperar, sempre podemos encontrar algo que nos surpreenda. E como Fábio domina o livro em termos de participação, é claro que é mais dele que devo encontrar essas pérolas, como a que segue:

O amadurecimento Cristão é semelhante as regras do desenvolvimento do juízo moral em Piaget. Da anomia, quando ainda não sou capaz de seguir regras; à heteronomia, quando sigo porque repito o comportamento de alguém que segue; até chegar à autonomia, quando já tenho internalizado em mim o significado das regras. É em mim que percebo a dinâmica divina. — pág. 72

Quando escrevi sobre moral secular eu delineei as duas principais formas de adotar um código moral. Karnal, em menos palavras do que eu, questiona Fábio se a moral dele, isto é, a importância da crença para ele não é infantilizada pelo fato de ser autoritária. O padre não percebe porém que este é o caso. Se a interpretação dele de Piaget é correta eu acho que Piaget deve ser tirado das escolas. A internalização de regras não é autonomia. Autonomia é encontrar um caso em que as regras que você conhece não se aplicam e ser capaz de criar uma nova regra que seja boa. Internalizar regras de forma a aplicar seu sentido de forma instintiva a situações novas é mero adestramento. Essa idéia de internalização instintiva contra o raciocínio é esclarecida mais adiante.

Padre Fábio chega ao absurdo de adotar o pressuposicionalismo, quando menciona que Karnal experimenta Deus dentro de si mesmo não crendo. Não esperava isso de um católico, pois é um total abandono do diálogo, tornando seu interlocutor mero ouvinte. É o contrário do que espero de qualquer diálogo, inclusive do que estou lendo e aqui avaliando.

Como é um assunto mais que batido no decorrer do livro, faz sentido ter poucas páginas dedicadas a ele. Infelizmente, minhas expectativas não aumentam conforme leio a obra.

Continua na Parte 4

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O caráter da apologética

Eu sigo alguns canais de apologética, nem todos sérios, no Facebook; As páginas Respostas ao AteísmoNAPEC Apologética e Cosmovisão Cristã são algumas. Usando estas como modelos, aquela sempre repete ou referencia coisas de autoria de terceiros, enquanto esta apresenta teor próprio. Sempre que posso, procuro iniciar diáologos com as páginas e seus seguidores comentando as postagens e/ou provendo link para meu próprio conteúdo que responde ao que é apresentado.

Como o NAPEC é o único que provê conteúdo próprio e de alguma qualidade, é mais comum eu responder diretamente a algo que eles publicam. Antes de começar com esta abordagem, porém, eu entrei em contato direto com o site, e procurei expôr minhas preocupações e saná-las com a ajuda do João Rodrigom administrador do site e página do Facebook na época em que o contactei (início de Agosto). Um trecho dessa conversa por e-mail, para se ter uma idéia das minhas preocupações:

[Henrique]
Agradeço pela pronta resposta. Tem razão, o fato do site estar no ar pode ser um meio de estabelecer um diálogo — ou vários, contanto que haja pessoas olhando para eles e os respondendo e não excluindo-os conforme sua preferência. Acho que o diálogo produtivo deve ter equilíbrio de poder, de forma que ninguém tenha a possibilidade de remover o acesso a algo que foi dito e todos os participantes tenham a possibilidade de corrigir suas posições, quer de forma pública ou particular. Neste sentido sempre fico desconfiado ao fazer comentários em sites.
(…)

[João Rodrigo]
É realmente construtivo o debate limpo e honesto pois desta forma em modelo mais de “diálogo” podemos manter a ordem e o respeito.

Fique tranquilo pois não tenho o hábito de censura (risos), salvo quando a ordem e o respeito se foram.
(…)

Mesmo assim, por conta da minha cautela, sempre que desejo fazer algum comentário maior que um parágrafo procuro escrever no meu próprio blog (aqui) e referenciar no comentário, de forma que seja reaproveitável e esteja sob meu controle.

E aqui chegamos ao ponto essencial deste texto: o critério para disponibilização de conteúdo, ou comentários sobre conteúdo próprio, tem sido a concordância com seu próprio ponto de vista. O MBL publica vídeos do tipo “Fulano destrói opinião de Ciclano” sem a resposta de Ciclano, enquanto o Carta Capital publica vídeo “Ciclano humilha opinião de Fulano”, sem a resposta de Fulano, de forma que o importante é convencer as pessoas de se está certo, e não descobrir se suas justificativas são as melhores ou não. Eu faço todo esforço para convidar e manter diáologos com meus interlocutores (e se você não vê muito disso aqui é falta de coragem ou interesse, talvez justificado, dos leitores), exatamente para não criar essa bolha de idéias. A posição oficial do NAPEC me animou a comentar, mas mantendo o cuidado de manter meu conteúdo sob meu controle.

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A realidade, porém, é bem diferente das aparências. Desde algum tempo atrás, não sei exatamente quanto, o NAPEC não publica meus comentários no site deles e removeu um comentário na sua última publicação do Facebook. Um comentário de uma linha, basicamente, que somente convidava a considerar se a sua crença deve ter crédito se só pode ser verificada depois da morte, oportunidade à qual ninguém tem acesso.

O que essa postura denota? O que ela pode revelar a respeito da pessoa ou grupo que a adota? Meu cuidado em abir ao máximo os comentários, buscar o ponto de vista contrário e testá-lo, tem como objetivo adaptar minhas crenças à realidade. A única forma que eu consigo pensar de descartar minhas atitudes descritas até aqui é descartar esse valor essencial. Então parece existir algum valor maior do que a busca por conhecimento, pela verdade, por trás da atitude de quem bloqueia comentários e evita o diálogo com um Zé Ninguém como eu. Por mais que você admire algum grupo ou indivíduo, se a intenção dele em relação a você entra em conflito com a busca pela verdade, eu acho que você deveria tentar descobrir o que podem estar escondendo de você e por quê.

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Crer ou não Crer [2]: Ciência

Não entendi o propósito desta parte do livro. Ciência tem a ver com a busca de verdades objetivas, modelos mentais que representam a realidade que nós compartilhamos. Mas Karnal e Fábio continuam falando sobre a utilidade da crença religiosa e os riscos da sua ausência.

Há momentos em que Karnal tenta, através da sua especialidade em história, delinear que a existência de Deus é condicional á mente humana.

Como se trata de um historiador e um teólogo não é algo sobre o que eu tinha muita expectativa. Mas nem o pouco que eu tinha foi atendido. A conversa é superficial e talvez até esta parte do livro tenha recebido um título impróprio. Um assunto riquíssimo que é tratado por duas pessoas muito inteligentes em meras 17 páginas de diálogo.

Continua na Parte 3

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Crer ou não Crer [1]: Fé

Tanto a introdução por Mário Sérgio Cortella, a primeira pergunta de Karnal e a resposta de Fábio de Melo giram em torno de fé. Isso sem definir o que fé é, ao mesmo tempo que usam o termo de várias formas. Fábio de Melo começa com crença, passa por confiança e segue para epistemologia. Essa bagunça não é bom sinal.

O livro começa com Fábio explicando porque ele tem sua crença e escolheu a batina. Para não começar já esculaxando, devo resumir de forma benevolente: para ele, o cristianismo católico é uma forma de engrandecimento humano; é um sistema de crenças cujo objetivo é promover o bom relacionamento entre pessoas. Devo reconhecer que isso é muito nobre, mas que nada tem a ver com o objeto da crença ser ou não real.

Permita-me, caro leitor, prover um exemplo bem simples do que argumento: imagine que Cláudio é fumante inveterado, e não se importa ou não acredita que fumar aumenta drasticamente suas chances de ter câncer de pulmão, entre outros males. Mas eu convenço Cláudio de que, se ele não parar de fumar, seu pênis irá cair e ele imediatamente pára de fumar. A crença adquirida por Cláudio provocou uma mudança positiva na vida dele (parar de fumar), mas não tem qualquer base na realidade. Devo ressaltar que discordo veementemente da afirmação de que o cristianismo é uma força necessária e exclusivamente positiva na sociedade e no indivíduo, mas mesmo sua aparente eficácia para melhorar o caráter de uma pessoa não seria evidência de sua veracidade.

Fábio explica que sua crença em Deus é uma projeção no sobrenatural do carinho que experimentou da mãe somado à confiança que tem no ensino dela, aparentemente incauto da falta de validade epistêmica que tal explicação tem. Espero que em algum momento o Karnal sinalize que isso também não deveria ser suficiente para crer em qualquer coisa.

Em dado momento, Fábio inclusive admite a forma como a religião pode dominar a vida de uma pessoa:

A religião era o filtro por onde eu via e sentia a vida (p.19)

Isso faz com que Fábio de Melo reflita a forma mais infantil de crença no sobrenatural: Deus é a razão de tudo, mas nada faz; está em tudo, mas nunca aparece; faz tudo que é bom, mas sempre através de pessoas. Na página 25 o tom muda e Fábio descreve como orações não funcionam. O funcionamento do mundo independe delas. Ou, como ele prefere, Deus não é empregado de crente.

Fábio de Melo a princípio parece ter um estilo que quase lembra as maluquices do Deepak Chopra: muitos contrastes inúteis, muita alusão, pouca exposição. É difícil extrair o conteúdo do que diz, e quando o faço parece algo absolutamente insosso.

Karnal começa super tolerante: não questiona, não desafia, não tenta esclarecer idéias — nem para o leitor. Espero que isso não dure muito. Pelo menos na parte 1, sua participação responde sutilmente a essa idéia de que a motivação para ter uma crença é o engrandecimento humano. Tal abordagem é bem compatível com o que ele disse antes do lançamento do livro, algo de arrepiar (pelo menos para mim):

Eu gosto muito quando os ateus ouvem com atenção o ponto de vista de um religioso, e gosto muito quando um religioso tem fé e consegue ouvir o argumento de um ateu sem se abalar. Na minha idéia se você não se abala com questões variadas, das teológicas às sexuais, é porque você está bem resolvido.

— Leandro Karnal, em vídeo (1:51 – 2:12), grifo meu

Compare com Ricky Gervais, comediante formado com honras em Filosofia (fato que desconhecia até agora):

Crenças não mudam fatos. Fatos, se você for racional, deveriam mudar suas crenças.

— Ricky Gervais, em The Unbelievers

Karnal afirma, para resumir, que concorda com Fábio mas passou a não sentir necessidade da crença. A crença pode ajudar o progresso humano, mas ele passou a não precisar dela. E conforme estudou história, viu que Deus não é só desnecessário como uma criação humana — uma crença que morre junto com o crente. Mas é algo tão sutil que não duvido que o leitor desavisado não perceba isso no texto.

Continua na Parte 2

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Crer ou não Crer [0]: preparação

capaComprei um livro que chegou ontem em casa, Crer ou não Crer, escrito por Leandro Karnal e Fábio de Melo. Quando ouvi falar não criei grande expectativa, mas acho que pode ser uma leitura interessante. Em primeiro lugar, é um diálogo entre pessoas de pontos de vista distintos, que é o propósito de tudo que escrevo aqui; em segundo lugar, porque é sobre um dos assuntos principais deste blog: cristianismo e ateísmo; e finalmente, porque reflete razoavelmente meu panorama doméstico.

Antes de começar a ler, eu quero listar coisas que eu gostaria de encontrar, ou perguntas que eu gostaria de ver respondidas, no decorrer do livro. Não é que eu ache que a qualidade do livro está ligada a esses critérios. Só para esclarecer, seria como eu começar a assistir a Game of Thrones agora, e esperar ver bastante sangue, cenários medievais e batalhas realistas. São só expectativas, coisas que me darão satisfação pessoal na experiência da leitura e não que têm a intenção de ajudar outros a decidirem se lêem o livro. Bem, eis o que eu gostaria de encontrar ou responder:

1. O ponto de vista contrário é bem representado?

Quando Karnal estiver falando das crenças cristãs, ele as apresenta inicialmente da mesma forma que Fábio de Melo, e vice-versa? Eu gostaria muito que isso aconteça. A pior forma de começar uma conversa é discordar de algo que seu interlocutor nem sequer defende.

2. Quais são os argumentos apresentados?

Isso vale para os dois lados. Eu acho que já ouvi todos os argumentos apologéticos. Será que o padre propõe algo na linha tradicional, ou algum tipo de apelo emocional, propondo que uma pessoa se torna melhor por acreditar? Será que ele se interessa mais por justificar apropriadamente as suas crenças ou avaliar os resultados de crer? E Karnal, se posiciona mais na questão da liberdade de crer, na falta de evidências para as crenças religiosas ou apresenta um caso mostrando não só que não se pode determinar que o cristianismo é verdadeiro, mas que é falso?

3. Os autores buscam um caminho para convergirem em conclusões?

Este é minha principal curiosidade. Qual é o objetivo de escrever um livro desse? Só mostrar que dá para conversar sobre o assunto? Acho que isso não é suficiente. Eu gostaria muito que alguém colocasse na mesa suas condições para mudar de crença, ou  pelo menos reconsiderar, seus critérios, e ver o esforço da outra parte para alcançar esses critérios ou criticá-los. Isso é exatamente o que tento fazer aqui, e no que vejo o maior valor de dialogar.

Enfim, pelos próximos dias começarei a ler o livro com esses aspectos em mente. Não sei ainda como publicarei minha opinião sobre ele, porque dependerá da estrutura do livro e do quanto eu terei a dizer.

Continua na Parte 1

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