Revisitando a Aposta de Pascal: mentira #4

Eu já tenho uma página dedicada à infame Aposta de Pascal, que apesar de curta é suficiente para iniciar um diálogo sobre o assunto. Nela eu descrevo os quatro enganos, ou mentiras, de tal proposta. Uso as palavras engano e mentira de forma equivalente porque é difícil determinar o intuito ou o conhecimento de quem fala.

Porém recentemente fui exposto a mais uma instância dela que levou-me a refletir sobre talvez a maior mentira, e agora exclusivamente no sentido pejorativo do termo, porque é impossível uma autoridade clerical ser tão ingênua ou ignorante. Enquanto esperava do lado de fora, por acaso ouvi através do computador na recepção do templo o apelo (e já tentei estabelecer um diálogo nesta igreja), que deixo abaixo em seu pleno teor (vá para 41:15 se não começar daí):

Aposta de Pascal aos 41:27 – 42:14

Embora a formulação nada tenha de diferente, talvez o contexto tenha levado-me a considerar que a seguine afirmação é uma mentira:

… e se ele não existe, você não perdeu nada

42:04 – 42:09

Isso porque este conceito contradiz tudo que a Bíblia diz e tudo que pastores pregam sobre ser cristão. A começar do primeiro mandamento, na versão de Deuteronômio:


Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças.

Deuteronômio 6:5 (grifo meu)

Portanto o mandamento não diz que a religião nada custa. Ele diz que custa tudo. Mas se alguém crê na Bíblia, o mesmo princípio encontra-se nas palavras atribuídas a Jesus:

E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará.

Marcos 8:34,35

Da mesma forma, vez após vez o chamado de Jesus supostamente era “vende tudo que tens, doa aos pobres, e segue-me”. Nem preciso apontar localização, qualquer um que leu a Bíblia reconhece estas palavras. Mais ainda, Paulo também apresenta o mesmo raciocínio:

Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. (…)
Como também eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar.

1 Coríntios 10:31,33 (grifo meu)

Isso sem falar na (mania de) perseguição profetizada no NT. E essa doutrina é amplamente reconhecida no meio cristão, como qualquer busca revela. Dois dias antes, o próprio pregador reconheceu esse princípio, no mesmo lugar e canal que mencionei antes (4:44 – 5:10, e posso apostar que há mais no decorrer do vídeo). A aposta de Pascal, na verdade, poderia muito bem ser rebatizada como Aposta de Thanos.

Com a única diferença sendo que se Deus não existe (e todas os enganos anteriormente mencionados se aplicam), nada foi alcançado — e ainda custou tudo, entregue nas mãos do pastor e da igreja.

E aí, o referido clérigo realmente mentiu? Eu falhei em ver sua ingenuidade? Eu estou enganado sobre o custo de ser cristão (e todo pregador na história do cristianismo)?

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Desembaralhando o telefone sem fio

Telefone sem fio é uma brincadeira muito conhecida, em que uma mensagem é cochichada ao pé do ouvido por um número de pessoas até que perca totalmente seu significado. Normalmente isso é um tanto engraçado, mas não quando se trata de informação séria.

Nos últimos tempos eu tenho lidado, tanto profissionalmente quando na informalidade, com este problema. A confusão do telefone sem fio ocorre porque não há um mecanismo de correção na transmissão da informação. Na brincadeira isso não é permitido, e na vida real muitas vezes não é conveniente ou interessante tomar ações que garantam a integridade da informação.

Habituados ao ordinário e evidências comuns

Quase toda informação com que lidamos é mundana. O que comemos, fazemos ou sabemos geralmente é uma repetição com pouca variação do que fizemos no passado, ou algo semelhante ao que tantas outras pessoas experimentam no cotidiano. Ninguém fica surpreso se eu disser que vários planetas no nosso sistema solar têm luas ao seu redor, porque sempre vemos a nossa. Se eu disser que tenho um cão, ninguém duvidará de mim porque é totalmente comum. Mas nada disso influencia nossas decisões ou filosofia.

Aí passamos ao que é um pouco mais relevante. Se eu pedir dez pratas emprestado e disser que pago amanhã, ninguém vai duvidar. É bem comum precisar de dinheiro e não ter porque fazemos tudo com cartão — pelo menos eu procuro não usar dinheiro. Mesmo que alguém não saiba que eu trabalho isso é praticamente presumível, e portanto a habilidade de obter o dinheiro em casa ou qualquer banco. Todos estes fatores, embora estatísticos e instintivos, funcionam como evidências para decidir pelo empréstimo das dez pratas (ver probabilidade inicial ou base rate). Mas se eu pedir mil, tudo muda: precisar do valor em dinheiro, obtê-lo em um dia… nossa experiência (evidência anedótica) nos leva a questionar a validade da alegação de poder pagar no dia seguinte.

Risco não é um fator consciente

Só que nem sempre intuímos o risco decorrente de aceitar — e retransmitir — uma informação incorreta. Se eu disser que já vi unicórnios marinhos ou que a cidade perdida de Atlântida foi encontrada sob o pacífico, não parece haver instinto que alerte meu interlocutor de que eu não apresentei os motivos pelos quais ele deve crer no que eu disse. Mas como isso não lhe prejudica, os mecanismos de defesa contra o engano podem não ser ativados.

O mesmo ocorre se eu disser que stubs ou mocks tornam testes mais rápidos, que homeopatia cura dor de cabeça, ou que o mundo só pode ter sido criado por uma inteligência. Se nada disso afeta o que eu faço todos os dias nem entra em conflito com o que creio, essas mensagens tornam-se facilmente aceitas e retransmitidas. 

O problema é que crenças informam decisões, e quanto mais informações incorretas alguém tiver, piores serão suas decisões. Se eu acredito que homeopatia cura câncer porque nunca tive câncer, é provável eu recomendar um tratamento que não funciona a alguém que precisa de ajuda. Se eu acredito que mocks são perfeitos porque tornam testes mais rápidos, eu corro o risco de entrar num mocking hell.

Como reconstruir a mensagem

Esta semana eu ouvi alguém usar o resultado de um telefone sem fio para propagar uma informação suspeita. Como eu treinei meu sensor para detectar informações suspeitas mesmo que aparentemente irrelevantes, os alarmes soaram imediatamente. A alegação foi que a estrutura heptádica da Bíblia prova que ela foi planejada por uma mente superior. E o que seria essa tal estrutura? É uma derivação, por gematria , de padrões como a frequência do número 7 e seus múltiplos em palavras, frases, posições, etc., por toda a Bíblia. Se eu acreditasse que a Bíblia é divinamente inspirada, talvez eu aceitasse isso sem questionamentos (como já vi acontecer).

Então eu fui atrás de conferir se é isso mesmo. Não encontrei algo em português. É um sinal de alerta, porque quando algo tem relevância (como demonstrar que a Bíblia tem origem ou influência divina) é reproduzido em várias línguas. Fui atrás em inglês, achei exatamente o que eu tinha ouvido.

Mesmo assim, o conteúdo da mensagem era aquele do telefone sem fio: algo sem sentido por si só. Dizer que tenho um número par de moedas no bolso não é evidência de que as tenho em número par. Da mesma forma, a mensagem que eu ouvia não continha as peças necessárias para eu avaliar se havia algum erro na transmissão da mensagem, ou nos fatos nela contidos. Eu teria que descobrir a forma original.

Para reconstruir a mensagem original eu devo voltar ao primeiro que a recitou, não ao último que a retransmitiu. Então, de link em link e de termo em termo, cheguei a Ivan Panin em 1928. Agora eu podia abordar o assunto, e não o balbúcio do telefone sem fio. E o que encontrei foi que o dito matemático cometeu diversos erros indetectáveis na mensagem que eu originalmente recebi:

  • Manipulação de dados (troca de palavras para obter os resultados esperados)
  • Inconsistência de método (troca do sistema utilizado para obter os resultados esperados)
  • Aplicação seletiva (reportou somente os trechos em que o método manipulado funciona)

Embora eu não tivesse acesso ao conteúdo original nem a capacidade técnica para o avaliar, eu pude voltar no telefone sem fio e encontrar alguém que fez o que eu queria e ofereceu a informação de forma que ela pode ser verificada por qualquer outro com os mesmos conhecimentos. Para resumir, fiz 4 coisas:

  1. Identifiquei uma alegação questionável
  2. Fiz o caminho inverso do telefone sem fio, verificando de onde cada um obteve sua informação até a original
  3. Procurei saber se alguém com conhecimento relevante avaliou a alegação
  4. Avaliei a qualidade das evidências dadas por ambos os lados

Tudo isso permitiu-me verificar que a informação inicial era a propagação de uma lenda baseada em mentiras. E isso acontece com uma frequência alarmante.

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Cada um tem sua crença

Na série Ditados Populares contemporâneos, chegou a hora de outro campeão:

Cada um tem sua crença (ou opinião)

A idéia do ditado é que a sua crença é tão válida quanto a minha, portanto não adianta discordarmos porque só levará a desavenças. Devemos expressar nossas opiniões, ouvir a do outro com respeito e não caçoar ou sequer dizer que está errada. Pois as pessoas não mudam de opinião por conta do que ouvem.

Acho que já dá para entender porque eu acho que é mais um ditado cujo resultado é a propagação da ignorância e o sepultamento do diálogo.

Toda opinião é válida?

Uma versão de justificativa é dizer que toda opinião é válida. Embora eu não discorde, esta é uma instância de equívoco (Um Livro Ilustrado de Maus Argumentos, página 16): válida significa que tem valor, que serve para alguma coisa, não que é verdadeira — e portanto indiscutível. Normalmente, quando alguém diz que “toda opinião é válida”, a denota que “cada um tem sua verdade”, isto é, que todas as opiniões têm o mesmo valor. Quando eu uso essa expressão, indico que todos têm o direito — ou até o dever — de expressar suas opiniões, certas ou erradas.

Afinal, quantas verdades existem?

A validade de uma opinião também não significa que existem duas ou mais verdades. Se eu e meu interlocutor discordamos sobre um assunto de tal forma que nossas opiniões ou crenças são mutuamente exclusivas, há no mínimo um fato: pelo menos uma opinião está errada. Se eu acredito que há um número ímpar de moedas na minha carteira e você acredita que esse número é par, não podemos simplesmente “concordar em discordar” e ir para casa. Temos que investigar os fatos; eu devo abrir a carteira, contamos as moedas juntos. Da próxima vez em que nos encontrarmos, por mais que eu não goste de ter um número par de moedas, se você estiver certo eu tenho que dizer que o número é par (caso não tenha mudado, claro).

Mas Henrique, não dá para investigar tudo em que eu acredito!

Um autor disse sabiamente que toda crença é como um aluguel: você deve acreditar em algo enquanto isso lhe paga em previsões que se concretizam. Eu acredito que exercícios regulares conduzem a saúde e disposição física enquanto fazer exercícios regulares conduzir a saúde e disposição física, e parar de fazer exercícios regulares tiver o efeito contrário ou nenhum. E se uma crença não produz resultados tangíveis, ou se a crença não tem diferença da descrença, eu a descarto. Uma crença que não paga seu aluguel é despejada. Assim a casa fica arrumada para receber crenças melhores.

Talvez saber se há um número par ou ímpar de moedas na minha carteira seja irrelevante. Neste caso, eu não preciso ter uma opinião a respeito  e responder simplesmente “não sei, e não me importo”. Mas este raramente é o caso de quem diz acreditar em coisas porque é sua opinião. Isso costuma estar no âmbito de assuntos relevantes para quem crê mas não consegue justificar.

Acreditar em meio à ignorância

Digamos que eu quero — ou tenho que — atravessar uma rua, mas não tenho visibilidade suficiente para determinar que posso atravessar em segurança. Não posso simplesmente não atravessar (não decidir quando atravessar). Mas não estou em completa ignorância. Eu posso estimar quão rápido os carros chegam a partir de onde consigo enxergar e correr de acordo com esse tempo. Ou posso tentar voltar para trás se surgir perigo.

O exemplo acima, se comparado com opiniões em assuntos cheios de incógnitas, seria como tirar a rua. Que utilidade poderia haver em decidir quando atravessar uma rua que pode não estar à sua frente? Nas questões do pós-morte, divindades e outras idéias religiosas, não há qualquer conhecimento periférico — nenhum demonstrado, no mínimo. Então você é levado a crer que tem uma decisão a fazer (você tem que atravessar a rua), mas ninguém demonstrou que a decisão é possível (ninguém sabe se a rua existe).

Disfarce

É comum a impressão de que o ditado serve como cortina de fumaça. É um sinal de que, se a curiosidade passar desse ponto, descobre-se que não há fundamento para a opinião. Logo, a difícil decisão de abandonar uma crença infundada é posta diante de si. Eu vejo “cada um tem sua crença” como um encerramento potencialmente positivo para uma conversa. Significa que o limite do que a pessoa acha que sabe foi alcançado e ela não está pronta para crescer um pouco mais. E se você já disse isso, considere o porquê.

Estou errado? Você usa isso para algo além de não ter que apresentar os fundamentos da opinião que expressou? O meu fundamento é só o pequeno conjunto de conversas que tive e ouvi, portanto seria fantástico testar minhas hipóteses e descobrir-me certo ou errado.

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Varandas e telas

Esta é a tradução de uma crônica pessoal fantástica que encontrei no Godless in Dixie. Embora eu não compartilhe da história que ela narra, as experiências são essencialmente as mesmas. Achei que seria de grande valia expôr esta crônica em português. Com a palavra, Lori Arnold:


Revelar meu ateísmo online foi um dos momentos mais aterrorizantes da minha vida. Ainda lembro como meu coração disparava, como eu segurava a publicação na pasta de rascunhos por dias, tentando decidir se deveria publicar ou não. Como eu perguntei ao meu então esposo várias vezes se ele ficava confortável com a minha revelação sobre nós. Como eu me preocupava com todas as pessoas aborrecidas, com todas as portas que seriam batidas na minha cara.

Eu acabei publicando apesar de todos os meus medos, com mãos trêmulas mas um grande alívio. A verdade era pública. Eu finalmente podia ser honesta. Agora, a reação.

Não o que eu esperava

Surpreendentemente, a reação foi mais positiva do que eu jamais poderia esperar. Algumas pessoas desfizeram a amizade no Facebook. Algumas pessoas pararam de falar comigo. Mas a maioria absoluta ofereceu-me sua própria fé e orações, o que agradeci. Alguns confidenciaram que minha história era profundamente familiar e refletia seus próprios sentimentos e experiências.

Pensei que talvez revelar meu ateísmo não fosse tão terrível quanto todos disseram que seria. Afinal, pouquíssimas portas foram de fato batidas na minha cara, longe daquilo para que me preparei. Aqueles que nunca foram amigos próximos, para início de conversa.

Mesmo assim…

Conforme o tempo passou, comecei a notar uma nuance que não reconheci a princípio. Logo notei que certas pessoas pareciam se acanhar, levantar a guarda. Eles não me excluíram, mas deram certa distância. Isso era esperado, eu acho. Eu imaginei que muitas pessoas por aqui nada soubessem de ateus além dos tipos anti-religiosos barulhentos, insistentes, e sinceramente não muito gentis. Eles provavelmente tinham razão para ficarem preocupados, um pouco temerosos, um pouco incertos do quanto eu mudaria. Notei pessoas que não fecharam a porta na minha cara mas pelo menos deram um passo atrás. Um passo curioso, talvez, ou quem sabe suspeito. Havia uma distância que não estava lá antes.

great-white-screen-doors-and-how-to-install-a-screen-door-teeny-ideasUma tela. [N.T.: a maioria das casas norte-americanas têm, além da porta opaca, uma porta feita de tela, como de mosquiteiro, que permite tanto a passagem de vento como ver através dela, mas sem deixar a porta realmente aberta. É a esta que a autora se refere e que eu traduzo simplesmente como tela ]

Percebi que, como alguém que não quer encorajar demais um vendedor, as pessoas ficavvam atrás de suas telas para falar comigo. Elas não estavam me excluindo completamente, mas eu não era mais bem-vinda a entrar. Havia uma educação inquebrável e gentileza no geral, mas a relação tornou-se fria. A princípio dispensei como sendo minha imaginação, mas não era só isso. Pessoas que eu tinha certeza que me aceitariam por quem eu sou começaram a recuar para casa e para trás de suas telas para se certificarem de que eu não passe do limite.

Acho que manter a tela fechada é menor cruel do que bater a porta da frente, mas dói só um pouco menos. Conforme os meses se tornam anos, os relacionamentos mantidos eternamente por trás de uma tela tornam-se artificiais, sem confiança, isolados, como se tentássemos manter um relacionamento através de uma janela de prisão. Ela me mantém na defensiva, paranóica, sempre analisando demais. Isto é de verdade? Ele realmente sente-se assim? O que queria dizer quando disse aquilo?

Tive sorte por ter um número de amigos — até todo tipo de cristãos, do evangélico ao liberal e ao mórmon — que deixaram suas portas bem abertas. Pessoas que podem ver quem eu sou e ainda crerem que sou a mesma pessoa boa e confiável que sempre esforcei-me em ser. Duvido que todo ateu no Cinturão da Bíblia [N.T.: região Sul dos EUA em que a religiosidade é predominante] é tão afortunado. Também tenho sorte de saber com quem não me incomodar mais — as portas fechadas. Adeus a estes. Tal rejeição só facilita minha vida.

Mas e as telas? O que faço sobre estas?

Visão Embaçada

Pergunto-me se durante todos os anos em que eu era cristã eu também fiquei atrás de telas com meus amigos não-crentes. Espero que não. Mas também reconheço que tantos dos amigos e familiares que agora estão atras de telas para falar comigo provavelmente não percebem que o estão fazendo. É bem provável que eu tenha feito o mesmo.

Mesmo assim, machuca. Dói saber que a essência de quem eu sou nunca mudou, mas a percepção que aqueles que eu melhor conheço têm de mim mudou. De repnte, não sou mais a mesma pessoa gentil, compreensiva e atenciosa que costumava ser; agora sou vista com precaução, reserva, até reprovação. Minhas reais intenções ou pensamentos são suspeitos agora. Tudo que eu digo ou faço é visto pela visão embaçada da tela.

Acaba acontecendo nos dois sentidos. As pessoas na minha vida em quem eu outrora confiava tão explicitamente agora estão ofuscadas pela tela. Agora eu olho para eles com cuidado e desconfiança, porque é isso que muros, limites, cercas e telas fazem. Eles nos removem da intimidade que permite e nutre relacionamentos amorosos e com confiança. Eles nos alheiam, criam um “nós e eles”. Motivações são presumidas. A negatividade penetra. Palavras são selecionadas e então eliminadas completamente.

No fim das contas, a tela é um mecanismo de auto-proteção. Tememor o que não conhecemos. Ou talvez temamos o que pensamos conhecer. Tememos nossas emoções tanto quanto a situação. Quando penso nas telas que bloqueiam-me das pessoas que mais amo — minha família em particular — posso ver a dor do outro lado também. Vejo minha mãe chorando quando imagina eu indo para o inferno. Vejo meu pai se perguntando o que fez errado ao me criar. Vejo meu irmão manter seus filhos um pouquinho mais perto caso eu de alguma forma passe minha descrença a eles. Há uma necessidade de se protegerem de suas próprias preocupações e agonias, e aquela tela entre nós torna mais fácil as tolerar.

Mas ela deteriora o entendimento. Sufoca a comunicação. E o pior, ela embolora o amor.

Mas qual a solução? Eu jamais poderia entrar de vez naquela casa, e eles não podem realmente sair também. Não podemos realisticamente deixar a porta escancarada, então como resolvemos o problema das portas de tela sem deixar os mosquitos entrarem e o gato sair?

Nos encontramos na varanda.

Encontre-me na Varanda

Minha ex sogra é um exemplo perfeito de como duas pessoas com crenças opostas ainda podem sentar na cadeira da varanda juntas de mãos dadas e tomarem chá. Sei que ela sofre por seu filho e eu não sermos mais crentes — nem casados alias. Sei que seu peito dói pelos netos, e imagino as incontáveis lágrimas que chorou. Mas ela nunca se escondeu de nós em casa atrás de uma tela, nos mantendo fora, acenando à distância. Ela deu um passo para fora, sentindo-se um pouco fora da sua zona de conforto, para encontrar-me na varanda.

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Eu também tive que sair da minha zona de conforto para encontrá-la ali. Não é confortável ter que encarar a dor que minha descrença e o fim do meu casamento lhe causou, mas não quero me afastar ou evitá-la. Eu prefiro subir aqueles degraus e juntar-me a ela na varanda, ambas sentindo-nos um pouco inseguras sobre o que dizer mas permitindo que o amor preencha o silêncio.

É aí que eu espero um dia ter me exposto como crente com meus amigos incrédulos. Eles não estavam na igreja ou viagens missionárias, e eu também não estava exatamente onde eles estavam. Mas nos encontramos no meio. Eu os queria na igreja, talvez, e eles adorariam que eu vivesse livre com eles. Mas escolhemos nos encontrar em algum lugar no meio, em terreno neutro, porque a amizade era o que mais importava para nós.

Se cristãos — ou qualquer tipo de crente — se esconder atrás de suas telas (ou portas fechadas), eles nunca vão tocar as vidas que anseiam tocar, e vão perder a chance de relacionarem-se com pessoas fantásticas. se não-crentes ficarem fora da propriedade de crentes, querendo distância deles, perderão o amor e a amizade de umas pessoas maravilhosas. Há um desconforto dos dois lados, e às vezes há desentendimentos ou falhas na comunicação. Mas se pudermos nos juntar na varanda, podemos aprender a falar a língua um do outro e começar a entendermos um ao outro. Pode haver amor dado e recebido livremente.

Para mim, é desconfortável ás vezes sentir como se fosse o projeto missionário de alguém. Eu tenho confiança no que creio (e no que não creio); não quero ser evangelizada, “alcançada”, ou pelo amor de pedro, “mostrada amor”. Às vezes, subir aqueles degraus à varanda é assustador. Contudo, a não ser que tente, nunca saberei se o que me espera é uma agenda religiosa para me “salvar” ou uma genuína aceitação amorosa de mim exatamente como sou.

Para você, é desconfortável sentir-se julgado ou ridicularizado por suas crenças. Sair de trás da porta pode fazer com que se sinta vulnerável à zombaria ou rejeição. Pode torná-lo vulnerável à sua própria dor e preocupação por nossas almas. Ninguém quer ser zombado nem atacado, e parece melhor prevenir do que remediar. Contudo, a não ser que nos encontremos na varanda, você nunca saberá se o que lhe espera é uma agenda anti-religiosa ou aceitação amorosa genuína exatamente de quem você é.

Estou cansada de tentar conversar através de uma tela. Preciso que você dê um passo para fora e segure minha mão. Vamos curtir, tomar uma. Podemos mexer o gelo nos nossos copos em silêncio se preciso. Mas por favor venha sentar na varanda comigo. E quando for eu a descer os degraus e distanciar-me de você, eu preciso encontrar a coragem para voltar à varanda e convidar você de volta para fora.

Eu também preciso me abrir um pouco, mesmo que signifique rejeição e desaprovação. Vamos achar o meio-termo. Balancemos juntos no ar meio húmido, numa cadeira meio dura e deixar a leve brisa do entendimento e amor que faz sentarmos juntos naquela varanda valer toda a inquietação que diferenças tão fundamentais causam em nós dois. Quem sabe, podemos descobrir que temos mais em comum do que nos lembrávamos.


Notas deste humilde tradutor: embora eu compartilhe de muito da experiência, não compartilho de todas as conclusões. Alguns encontros na varanda servem para decidir se eles devem tornar-se frequentes ou se eu não devo voltar a visitar. Algumas pessoas podem não estar prontas para sair à varanda, mas é importante que ambas estejam cientes deste fato.

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Justiça negada/concedida [3]: teorias de justiça

Aqui termina minha leitura do livro que ganhei. Se alguém caiu de pára-quedas, comece do prólogo.

A releitura da Bíblia continua por quase todo o livro, que posso resumir em: Jesus foi preso, torturado e condenado em desacordo com as leis mosaicas e romanas, portanto injustamente; a abordagem é praticamente a mesma de alguns autores mais conhecidos, como Max Lucado ou Augusto Cury, nada que eu não tenha ouvido diversas vezes enquanto era evangélico. Pulei quase todo o segundo terço do livro por conta disso. Os últimos capítulos não mudam de tom, propondo somente que através disso Deus teria operado sua própria justiça. Já tratei de tudo isso ser histórico ou não.

A única observação que vale a pena fazer a respeito do que eu pulei é: tratar o desrespeito à lei sem justificar o porquê de a lei ser adequada é uma forma de justiça contratual, a única diferença sendo que o contrato é estabelecido de forma autoritária, ou teoria de ordenação divina, quer por parte do César ou do deus cristão.

Ao encontrar um capítulo entitulado A Justiça Divina pareceu que eu chegara na parte do livro. A minha esperança era finalmente encontrar uma proposta de teoria de justiça em que o sacrifício vicário fizesse sentido. Vejamos:

Deus é justo. Depreende-se desta afirmação que Ele faz justiça. A justiça não é perdão; aliás, o perdão resulta da prática de uma injustiça. A justiça pune o transgressor pelo mal praticado, através da aplicação da lei.

Deus é justo?! Discordo. Mas OK, esta é uma defesa de retribuição. Na verdade, de retribuição solidária, pois Deus pune ofensas cometidas contra outrem. De qualquer forma, aparentemente a “justiça divina” é contrária à justiça de Jesus, como pude ler no primeiro capítulo. Faria o autor algum esforço para resolver esse impasse?

(…) quando perdoamos damos quitação do mal que outra pessoa praticou, ficando a mesma livre e desonerada de qualquer dever para conosco, apesar de ser injusto, na medida em que o transgressor fica livre, vestido na roupagem de inocente e o inocente é condenado (tem de suportar o preço do mal), como se fosse ele o transgressor.

Aqui o autor parece tentar colocar uma roupagem vicária no perdão, agora talvez sob o conceito de justiça restitutiva (que eu aprendi primeiro, se bem recordo-me, em A Ética da Liberdade, cujo capítulo 19 é bem mais claro sobre isso). Nesta teoria, o objetivo é manter ou restaurar a integridade da vítima, através da reparação de danos. Se a vítima perdoa, é ela quem arca com o dano ou prejuízo. O problema é que no caso da restituição não existe perdão solidário: é possível alguém reparar o dano em favor de um terceiro, mas isso ainda é reparação e não perdão. O problema da reparação solidária (ou vicária) é que ela não traz consigo utilidade, isto é, não promove a dissuasão de potenciais criminosos — Rothbard também trata disso no livro que mencionei. De facto, Daniel Kahneman ganhou o Nobel de Ciências Econômicas de 2002 exatamente por estabelecer indiretamente, entre outras coisas, quanto deve ser restituído para promover a dissuasão de crimes (acho que há um pouco disso no final de Thinking, Fast and Slow). Mas eu já vou muito além do livro que leio.

De acordo com a Bíblia, o ser humano está condenado diante de Deus não por praticar más obras, mas pela natureza que transporta dentro de si, natureza esta, que o afasta de Deus e o leva a ter condutas que Deus proíbe através da Sua Lei Reguladora, pois tais ações conduzem à degradação do ser humano e ao proveito de uns, pelo sofrimento de outros.

Aqui vemos a salada de teorias à qual estou me acostumando: se o homem está condenado por causa do que é, estamos diante de uma condenação não justificada sob qualquer teoria; se por condutas proibidas por lei, mandamento divino; e se porque as ações conduzem ao proveito em detrimento de outrem, lei natural. Ao invés de afunilar o conceito de justiça que adota, o autor parece atirar para todo lado (seria uma preparação para o atirador de elite texano?). Porque ao apresentar todas as teorias de justiça como válidas — mandamento divino, retribuição e restituição — o sacrifício vicário tem que satisfazer a todas elas. Mas já vimos que a uma (retribuição) é impossível — e posso explorar mais essa afirmação se necessário.

Blue balls

O resto do livro não resolve esse impasse. Diz que Jesus pagou a dívida, como diz a Bíblia, contra nós. Mas que dívida seria essa? A natureza humana (que conduz a práticas indesejáveis)? Nunca vi alguém livre disso, mas estou disposto a apreciar demonstração se tal existir. Sofrer punição em lugar de alguém? Isso não existe, teoria retributiva não tolera pena vicária. E de qualquer forma, que pena seria essa?

Quem tem emprego trabalha todos os dias em troca de algo, normalmente dinheiro. Isso não é uma condenação, mesmo que o trabalho seja sofrido. Fazemos o que nos propomos a cumprir e recebemos um prêmio. Segundo a lenda, Jesus fez o que se propôs a cumprir (morrer na cruz) e recebeu o prêmio (vida eterna, domínio, divindade, etc.). Até a Bíblia reconhece que ele foi promovido. Mesmo que tudo fosse verdade (e devo insistir que sabemos não ser), estar morto temporariamente e ressuscitar não é morrer, muito menos sacrifício.

Ademais, como pode Deus perdoar alguém? Por acaso pode alguém prejudicar, magoar física ou psicologicamente a Deus? Exceto sob mandamento divino, que trato a seguir, sob que justificativa poderia Deus perdoar algo que foi cometido a uma pessoa? Se ele não restitui o dano causado, de que vale o perdão? Nem mesmo no utilitarismo isso faz sentido, pois só ajuda o criminoso.

Finalmente, a única coisa que sobrou foi a justiça sob teoria de mandamento divino. Sob esta, tudo estaria justificado com um simples “porque Deus quis”. Mas esta é uma teoria de justiça tão defasada que foi desmontada séculos antes da era cristã, no diálogo de Platão conhecido como Eutífron.

Epílogo

É isso. Antes de começar a ler, esperava encontrar uma teoria de justiça válida em que o sacrifício vicário fizesse sentido. Não encontrei sequer uma teoria de justiça concisa. Esperava encontrar justificativa para acreditar que tal sacrifício ocorreu, mas foram dados argumentos repetidos e dentre os piores que já ouvi nos meus anos de investigação no mundo da apologética cristã.

O livro claramente foi escrito para cristãos. Os sinais do bom jornalismo e da boa argumentação não estão presentes, como argumentos estruturados e referências, e tudo é dito com base nos dogmas cristãos — protestantes, para ser mais preciso — sem qualquer preocupação em convencer alguém a adotá-los.

Enfim, nada de novo. Mudo a abordagem com relação a material proposto? Ainda não sei. Provavelmente dependerá de quanto diálogo houver em torno destas 4 publicações. Ah, e o que espero do diálogo? Como alguém poderia convencer-me a revisitar o que eu disse? Aqui estão alguns exemplos:

  • Com relação ao prólogo, eu deveria ter expectativas diferentes? Deveria esperar algo diferente do que uma teoria de justiça e como ela aceita sacrifício vicário?
  • A historicidade do Jesus religioso é irrelevante para a questão? Se é necessária como penso, existe justificativa para acreditar no personagem religioso?
  • Uma teoria unificada de justiça foi apresentada e eu não a identifiquei no texto? Ela resolve os problemas que destaquei aqui?

Fica aqui o diálogo aberto para participação de qualquer um, desde o autor a alguém que eu não conheço ainda. Vida longa e próspera!

Atualização: menos de uma hora antes de esta publicação vir à tona (já estava escrita) fui notificado que tanto quem deu-me o livro quanto o autor não estão mais dispostos a conversar comigo sobre ele, após ver o que eu escrevi antes. A interpretação disto fica a cargo do leitor.

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Justiça negada/concedida [2]: utilitarismo e ironias do destino

Esta publicação é a continuação da leitura que comecei esta semana, e se o leitor quiser saber mais comece do começo. Aqui termino o segundo tema do capítulo 1, que toma um terço do livro, e destaco o que pode ser útil para o resto da leitura. A primeira ironia de hoje é que eu tenho que fazer exegese para extrair algum significado do livro neste ponto.

Eu não sou jurista, nem formado em Direito. Minha formação em Filosofia é informal, mas nem por isso é dispensável. Como diz o ditado: em terra de cego, quem tem um olho é rei. Depois de anos de prática, arrisco dizer que o olho que tenho funciona razoavelmente. E como disse no prólogo à leitura, um dos meus focos é entender que teoria de justiça o autor propõe. Antes de qualquer coisa, devo esclarecer que uso teoria no sentido coloquial, sinônimo de tese, e não no sentido mais formal de conhecimento.

Neste sentido, metade do primeiro capítulo se dedica a recontar estórias bíblicas. E no decorrer delas, meio que emerge um enaltecimento de duas teorias de justiça. Como não é algo que eu uso no dia-a-dia e que pouco explorei nos últimos anos, uso a Wikipédia para guiar-me nas teorias existentes. Dos exemplos no capítulo 1, um padrão emerge: um criminoso arrependido e reformado é melhor que um criminoso punido. Esta é a idéia central da justiça utilitária, que estou acostumado a ver apologistas criticarem (como não vem ao caso agora). Por exemplo, no caso da mulher adúltera: o justo (na mentalidade retributiva) seria puní-la, mas perder-se-ia uma vida que pode ser reformada; e é exatamente o que Jesus propõe, a mudança de hábitos. Há um pouco do princípio da restauração no caso de Zaqueu (um cuja interpretação passei a discordar enquanto ainda crente), mas é algo inconsistente nos exemplos dados.

Vale notar que o utilitarismo não parece compatível com o sacrifício vicário. Agora que penso a respeito, primeiro é preciso determinar a utilidade do sacrifício vicário em comparação com a mera crença neste. Eu aceitaria como evidência um estudo que mostre que uma pessoa altera suas atitudes de acordo com os factos mesmo que sua percepção deles seja distorcida, mas o que encontro é a evidência do contrário: o experimento de Milgram indica que as pessoas reagem não ao que é necessariamente real, mas ao que é percebido, isto é, o que altera o comportamento é a crença e não o facto. Neste sentido, defender que o sacrifício vicário (cuja teoria de punição não foi exposta ainda) produz transformação do caráter (utilidade) não tem relação com a realidade do sacrifício vicário, ou seja, a utilidade é produzida quer o sacrifício ocorra ou não, bastando o indivíduo crer nele. E assim, ironicamente, voltamos à aposta de Pascal.

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Justiça negada/consumada [1]: uma jornada tediosa

Hoje comecei a ler o livro que ganhei. Acho que já li tanta apologética que ganhei o poder da profecia. Ganhar o livro foi um ato de “plantar a palavra” ou iniciar um diálogo? O tempo dirá. Mas o que a leitura já confirma são minhas previsões iniciais. Embora não seja surpresa, é uma certa decepção. O primeiro capítulo toma um terço do livro, e o número de falhas desde a introdução é tão grande que tenho que fazer uma pausa para anotações.

No séc. XIX teve início a corrente que começou a contestar a existência do homem Jesus de Nazaré, até então a existência de tal personagem nunca fora contestada. A ideia se realmente Jesus de Nazaré existiu mesmo ou não, se alegadamente não passa apenas de uma personagem mitológica criada pela mente das pessoas, atravessou para o Séc. XX, mas não teve força para continuar. Hoje são poucos os que mantêm essa ideia de pé.

A primeira sentença da introdução está errada e o parágrafo em que está contida mostra o nível intelectual encontrado no decorrer das próximas páginas (duraria ele pelo livro todo? Continua nos próximos capítulos…). A idéia de que o Jesus religioso nunca foi baseado em um Jesus histórico torna-se mainstream no século XVIII, com Thomas Paine. É um erro tolo? Sim, mas um que mostra o cuidado que o autor tem com suas alegações — bastava consultar a Wikipédia.

Ademais, o que acontecia com quem contestasse o mais essencial dos dogmas cristãos antes do que chamamos Renascença? Morte (novamente, Wikipédia). Então vamos reescrever o argumento — intencional ou não — do primeiro parágrafo do livro:

  1. Por muito tempo as pessoas acreditaram que pelo menos um Jesus histórico existiu, no qual o religioso foi inspirado.
  2. Qualquer que questionasse a existência de Jesus seria condenado à morte.
  3. Ninguém contestou a existência de Jesus enquanto havia pena de morte para tal ato.
  4. Conclusão: é seguro acreditar que um Jesus histórico realmente existiu.

Isso é tão tolo (mesmo sem a segunda parte da premissa 3) que não terei o trabalho de contra-argumentar.

Espantalhos e enganos

Mas quais os escritos mais fidedignos que podemos consultar para saber mais acerca do Homem Jesus senão os daqueles que viveram com Ele, comeram com Ele e andaram com Ele?

O autor usa a ingenuidade do leitor (novamente, o público alvo é cristão) e talvez a própria para reforçar idéias que sabe-se com total certeza no meio acadêmico não serem verdade (há dúvida em um caso). Um exemplo dos mais óbvios é o acima, ainda na introdução. Para quem não lê fontes não existem escritos de pessoa alguma que viveu com Jesus; simples assim.

O primeiro capítulo não segue diferente da introdução, apresentando ao leitor os argumentos que céticos não usam para mostrar como eles são tolos. Claro que ele não cita os argumentos como apresentados por seus opositores, ou o engano seria óbvio. E ainda apresenta a forma mais fraca da aposta de Pascal como se fosse uma bala de prata. E se você desconhece a aposta ou está com preguiça de ler o link acima, eis um resumo reescrito:

Você tem um bilhão de Euros. Mil pessoas fazem a seguinte oferta: dê-me todo seu dinheiro, ficando só com o essencial para sobreviver, e quando você morrer eu lhe dou cem bilhões de Euros; se você não aceitar, algumas dessas pessoas ameaçam torturar-lhe eternamente depois que você morrer. Você tem duas opções: escolher uma das apostas sem garantia alguma, ou ficar com seu dinheiro.

Claro que o dinheiro é sua vida e cada pessoa que oferece o trato é uma religião. Escolher ficar com o dinheiro é não entrar na aposta, aproveitar a vida, porque ninguém sabe se você verá a cor dele depois de morrer. Todos eles podem estar mentindo ou serem incapazes de entregar o que oferecem. São três mentiras que nem mesmo Pascal ousou publicar em vida.

O capítulo segue distorcendo a Epistemologia de acordo com o método tradicional dos apologistas, e eu já escrevi mais do que o suficiente neste humilde blog para repetir novamente (Mas o que é “verdade de Deus”?, Re[3]: Ciência e fé cristã são exemplos úteis provavelmente no decorrer do livro todo). Para além disso, apresenta uma releitura de algumas lendas cristãs focadas no caráter de Jesus ao estilo Augusto Cury (mais sobre isso na próxima publicação) sem apresentar um caso em favor do Jesus histórico.

Checkpoint

No prólogo eu escrevi, e cito (agora sou tão importante que cito a mim mesmo):

Dado seu volume e aparente público alvo, acho difícil o livro tratar de aspectos complexos como a historicidade de Jesus. Richard Carrier precisou de dois extensos volumes (Proving History e On the Historicity of Jesus) só para este assunto. Não será surpresa se o autor tomar este aspecto totalmente como pressuposto, na forma da profissão de fé protestante — literalismo, e já comentei sobre como isso é um golpe. Enfim, acho que isso pode ganhar pinceladas e referências a material existente, no máximo.

O facto de eu poder prever o que o autor escreveu antes de ler torna-me um tipo de profeta? Nada que vi até agora foi surpreendente ou ao mesmo tempo relevante e verdadeiro. Espero que a tendência mude.

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Justiça negada/consumada: prólogo

Ontem ganhei um livro de apologética cristã ou pregação, ainda não tenho certeza, de um amigo. Sob a condição de poder dialogar sobre ele, aceitei ler. Em retrospecto, eu deveria condicionar ao mesmo: a leitura de um livreto de contra-apologética ou algumas páginas deste singelo site/blog. Se eu pudesse voltar atrás e fazer essa condição, recomendaria as duas primeiras partes de Losing Faith in Faith, de Dan Barker (alguns capítulos aqui). Seria algo de tamanho comparável ao conteúdo proposto a mim.

Este é o prólogo à leitura que estou prestes a começar. Aqui expressarei o que espero encontrar numa boa apresentação do caso para comparar com o que realmente encontrarei.

Tema

O livro trata, segundo foi-me informado, de um relato do que Jesus teria justificado, isto é, dos crimes da humanidade e como Jesus os teria pago.

É um desafio e tanto. O autor, pastor da igreja do amigo que deu-me o livro, precisa expor uma teoria de justiça que justifique a condenação vicária, o que é bem difícil por si só. E é só o começo: ainda precisa justificar como a promoção de Jesus a divindade, em qualquer forma que aceite, representa um sacrifício e como ele pode ser válido para um número infinito de crimes mesmo sendo de curtíssima duração, independentemente da intensidade.

Para se ter dimensão do tamanho do desafio, hoje existem duas teorias de justiça concorrentes aplicáveis na maioria dos países: punição e restituição — utilitarismo em um ou outro lugar. Ambas rejeitam o sacrifício vicário, portanto se o autor demonstrar que é uma teoria válida ele potencialmente viraria o sistema jurídico mundial de cabeça para baixo. Seria um feito de grande genialidade fazer isso em vista de séculos, senão milênios, de evolução no pensamento filosófico que nos trouxeram até aqui. Mas dado o tamanho do livro e o público alvo, minha expectativa começa embaixo.

Pressupostos e público alvo

Não espero que o livro seja escrito para não cristãos, como quase todo material de apologética e minhas interações com apologistas indicam. Mas como recebi o livro de alguém que sabe que eu sou um apóstata, tenho que tratar como se incluísse a mim.

Dado seu volume e aparente público alvo, acho difícil o livro tratar de aspectos complexos como a historicidade de Jesus. Richard Carrier precisou de dois extensos volumes (Proving History e On the Historicity of Jesus) só para este assunto. Não será surpresa se o autor tomar este aspecto totalmente como pressuposto, na forma da profissão de fé protestante — literalismo, e já comentei sobre como isso é um golpe. Enfim, acho que isso pode ganhar pinceladas e referências a material existente, no máximo. A contra-capa, assim como a propaganda no site da igreja, dá indício do tipo de referência que digo:

Temos de investigar e interpretar a mesma tendo como ponto de partida os documentos que ela nos deixou, sendo que alguns neste caso concreto são o registo de testemunhos daqueles que presenciaram tais acontecimentos. (grifo meu)

Este é o tipo de falsidade que apologistas proclamam e que espero (um tanto decepcionado) servir como base para o livro. Não existem registros de testemunhos. O que há são relatos anônimos, contraditórios e implausíveis atribuídos sem justificação a alegadas testemunhas (On The Historicity Of Jesus, Nailed, Forged, só como alguns exemplos). Então vamos listar quais pressupostos eu espero encontrar, embora rejeite, os quais surpreender-me-ão caso enconte justificativa:

  • Jesus foi uma pessoa de carne e osso, que morreu e ressuscitou
  • os evangelhos são a reprodução do relato de testmunhas oculares do ministério de Jesus
  • os evangelhos são relatos fiéis da vida e obra de Jesus, assim como da teologia que as envolvem
  • somente o que está na Bíblia é confiável a respeito de Jesus, e nada do que está fora dela o é
  • “pecado” (em alguma forma) é um conceito válido

Todos estes provavelmente servem de base para o livro, e a leitura mostrará se estou errado.

O que está ao alcance?

Este livro não tem o escopo necessário para me re-converter ao cristianismo — sinto muito. Mas ele poderia dar um passo significativo para mudar minha opinião do cristianismo em si. No que cerca o que o livro trata, eis minhas atuais conclusões e o que pode ser mudado:

  • O deus cristão, como descrito na Bíblia, é extremamente cruel. Se o autor conseguir demonstrar que sacrifício vicário se encaixa em uma teoria de justiça e punição válida, eu posso aceitar que o deus do Novo Testamento, se existisse, seria um pouco — bem pouco — menos mau, talvez às vezes bom.
  • Religiões em geral e o cristianismo em especial fazem três tipos de alegações: demonstravelmente falsas (como a inerrância bíblica), não demonstravelmente verdadeiras (como até a existência de um Jesus histórico em qualquer forma), e irrelevantes. Uma lista de coisas que Jesus teria justificado, se demonstravelmente verdadeira, sairia da segunda e entraria na última categoria, a princípio. Para ser relevante teria que reverter séculos de buscas sem sucesso por um Jesus bíblico.

Interações

Esta publicação serve para expôr a partir de onde leio este livro: minha mentalidade e expectativas. Como mencionei, a condição para ler foi estabelecer um diálogo. E como busco toda transparência possível, este blog servirá como a minha versão do diálogo. Convidarei tanto quem deu-me o livro quanto quem o escreveu a responder às minhas reações aqui ou pessoalmente. Se aqui, nada será censurado, moderado, bloqueado ou alterado. Se pessoalmente, eu reproduzirei o mais fielmente possível o que resultar. Talvez seja possível gravar vídeo ou áudio, fazer um Google Hangout ou algo do gênero caso os envolvidos não estejam dispostos a escrever nem deixar as próprias palavras nas minhas mãos. Pessoalmente, prefiro a escrita por ser mais fácil revisar antes de publicar e também de citar mais tarde.

Nota: a revisão toda foi feita em 3 partes: uma jornada tediosautilitarismo e ironias do destino, e teorias de justiça.

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Lições das eleições brasileiras 2018: a democracia nos torna iguais, e isso é ruim

Há alguns dias escrevi sobre a primeira lição que aprendi com as eleições brasileiras deste ano. Hoje eu quero expôr algo que é ao mesmo tempo óbvio e extremamente controverso. O óbvio é que a democracia entra no conjunto de coisas que nos tornam iguais, tal qual a morte ou a diarréia. Não importa o quão rico ou pobre, forte ou fraco, intelectual ou ingênuo, o voto de todo indivíduo é contado exatamente com o mesmo valor.

Através da história, aliás, esta foi a luta de todo coletivo excluído: escravos, depois ex-escravos, mulheres, imigrantes… todos ganharam o direito a um voto e todos, na hora de escolher os governantes de um país, são iguais. Isso é óbvio.

Chegou a hora de respirar fundo.

Toda decisão tem o mesmo valor?

Existem algumas formas de decidir que são melhores do que outras. Parece-me quase auto-evidente, por exemplo, que jogar uma moeda ao alto é pior do que considerar prós e contras ao ser confrontado com qualquer escolha. Quando estamos com problemas, procuramos um especialista na área e não o consenso da população em geral. Na hora de escolher a companhia aérea para viajar, não escolhemos de acordo com a que a maioria usa; espero que uma empresa cujos aviões caiam com menor frequência seja vista como uma opção obviamente melhor do que o oposto, caso todo o resto seja igual.

Se duas pessoas discordam, claro que cada uma tem o direito à sua opinião. Mas a qual delas devemos dar ouvidos? Eu defendo que seja à que oferece argumentos coerentes, apoiados por evidências e que tem critérios para mudar sua opinião, e não à que baliza sua opinião de acordo com os próprios interesses — só um exemplo sem relação intencional com a realidade. Por isso consideramos a opinião de um cientista mais relevante do que a de um leigo.

Se cada voto é a decisão de um indivíduo, por que então todos os votos têm o mesmo valor? Por que o voto de alguém que estudou o programa de governo dos candidatos e os avaliou de acordo com seus próprios valores vale o mesmo que de alguém que é analfabeto funcional e não conhece as propostas de qualquer candidato, nem mesmo do seu preferido?

Não sei para o leitor, a mim parece óbvio que jamais alguém permitira que uma decisão que afeta sua própria vida fosse influenciada por quem não tem a menor capacidade para avaliar a melhor opção. Mas é exatamente a esta influência que a democracia submete quem ela adota.

Quem se beneficia dessa pseudo-igualdade?

Imagine agora dois cenários: no primeiro, alguém deseja que um grupo tome a melhor decisão possível. É interesse do proponente oferecer a maior quantidade de informações disponíveis e garantir que as pessoas raciocinem corretamente para avaliar tais informações. No segundo, alguém deseja que um grupo tome a uma decisão que beneficie somente a si, em detrimento do grupo. É de seu interesse ofuscar informações, ter o maior número de pessoas influenciáveis e com interesses próprios que possam ser usados para guiar suas decisões.

Quando a mídia publica informações falsas sobre qualquer candidato (normalmente mais de um), quando campanhas se dedicam mais a jingles e frases de impacto do que divulgar o programa de governo e seus princípios, quando pesquisa após pesquisa mostra que o voto importante é o chamado útil, isso se assemelha ao cenário em que o interessante é buscar uma decisão que não é necessariamente a melhor (podendo ser a pior), mas que beneficia quem almeja benefício próprio.

Eu sou contra a democracia (atual)

Sim, por tudo isso eu sou contra a democracia da forma como hoje é implementada. Acredito que nem todos os cidadãos devam ter direito a voto, ou pelo menos que a validade do voto deveria ser condicionada à demonstração da capacidade do cidadão de tomar uma decisão coerente com bons valores e anseios para a coletividade por ele afetada, quer cidade ou nação.

Acredito profundamente que é exatamente esta faceta da democracia que impede países assolados por guerras de se reerguerem. E é ela também que causa a queda daqueles que já foram considerados impérios hegemônicos. Eu sou a favor de um povo determinar seu próprio destino, mas acredito que somente aqueles com a capacidade mínima de avaliar as consequências de certas decisões deveriam ter voz em tal determinação. E hoje vejo como isso deveria ser óbvio, mas por algum motivo não é. Obrigado, Brasil, por mais uma lição.

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Lições das eleições brasileiras de 2018: “direita” não existe

As eleições brasileiras de 2018, embora sejam talvez as mais ridículas da história do país, têm algumas lições a ensinar. A primeira que posso compartilhar é esta, de que “direita”, como eixo do espectro político, não existe.

A questão na verdade é mais abrangente, e começa no meio do século XX. Ao ler O Caminho da Servidão, de Frank Hayek, aprendi que o Nazismo era socialista em sua origem, e coletivista do começo ao fim. Desde então me questionei sobre a natureza da polarização esquerda-direita e nunca consegui descobrir onde eu estava. Como comparação, é fácil enxergar a diferença entre autoritarismo e liberalismo, ou entre coletivismo e individualismo. E claramente o Nazismo (nome que mistura nacionalismo e socialismo) não era liberal nem individualista, assim como o que chamam de esquerda. Mesmo assim, aqueles que se denotam “de esquerda” alegam que o Nazismo foi de “extrema direita”.

Ministério da verdade

Eu nunca li 1984. Mas um conceito que a fantasia distópica de Orwell examina é a existência de um Ministério da Verdade, que controla a narrativa, como a história é contada e conhecida pela população. E assim, em conjunto com outros recursos, controla o que a população sabe e pensa. No Brasil isto acontece constantemente: da criação da Comissão Nacional da Verdade, cujo único intuito foi expor violações aos direitos humanos do regime (ou ditadura) militar e jamais os benefícios dela, à campanha transnacional de ataques a Bolsonaro (em sua maioria com base em falsidades), há clara vontade da auto-denominada esquerda de controlar como a história passada e presente é contada.

Há algum tempo vi dois vídeos de uma pessoa que se autodenomina Dr. Layman (Doutor Leigo) sobre o assunto, abordando o filme 300 de Esparta e como História tamb]em é mitologia. E parece que é isso que acontece com a nossa história: a repetição e o domínio da narração são usados para moldar a verdade, e não o contrário.

Capitalismo

Permita o leitor que eu use um exemplo disso: capitalismo. Este é um termo que surgiu com Marx. Antes dele, o capital era tido como uma utilidade no sentido moral, um meio para se alcançar fins auto-determinados. Marx redefiniu o capital como sendo um fim em si próprio e delineou o que seria capitalismo, colocando-se em oposição a ele. Sim, Capitalismo é um espantalho. Mas como Marx e o socialismo dominaram a narrativa política através dos séculos XIX e XX, quem se opõe ao socialismo vê-se obrigado a defender o capitalismo — que nunca existiu. Não que a confusão entre capital como meio e fim nunca tenha existido, ou que consumismo não seja um problema. Mas definir isto como sendo o contrário de socialismo e a única alternativa a ele é um erro de proporções soviéticas.

Da mesma forma, a influência da mídia é usada para denegrir o candidato que não se deseja eleito (compare as notícias sobre Trump ou Bolsonaro às sobre Maduro, tanto em tom quanto em volume) e qualquer outra posição política. Quaisquer que sejam as influências, a mídia tradicional tornou-se o Ministério da Verdade.

A não-esquerda

E esquerda é bem definida. Pelo menos o é no Brasil: coletivista, defende a expropriação em favor da manutenção de benefícios sociais e o planejamento global da economia através de agências reguladoras, protecionismo e controle de estatais e monopólios. Mas o que é a direita? Se alguém é individualista mas defende a manutenção de estatais e monopólios, essa pessoa ainda é de esquerda? Se defende a liberalização da economia, com menor regulação do mercado e privatização de estatais, mas trata os direitos de forma coletiva, ainda é de esquerda?

Há várias formas de pensamento político que divergem do que é classificado esquerda. E classifica-se a qualquer oposição à esquerda como direita. Um exemplo vem da Wikipédia em português:

Eatwell e O’Sullivan dividem a Direita em cinco tipos: ‘reacionária’, ‘moderada’, ‘radical’, ‘extrema’, e ‘nova’. Cada um destes “estilos de pensamento” são vistos como “respostas para a esquerda”, incluindo tanto o liberalismo e o socialismo, que surgiram desde a Revolução Francesa de 1789.

  • A “direita reacionária” olha para o passado e é “aristocrática, religiosa e autoritária”.
  • A “direita moderada” é tipificada pelos escritos de Edmund Burke. É tolerante a mudança, desde que seja gradual e aceita alguns aspectos do liberalismo, incluindo o Estado de direito e o capitalismo, embora veja o radical laissez-faire e o individualismo como muito prejudiciais para a sociedade. Muitas vezes, promove políticas de assistência social e nacionalismo.
  • A “direita radical” é um termo desenvolvido depois da Segunda Guerra Mundial para descrever grupos tão diferentes como macarthismo, a John Birch Society, o Republikaner Parte na Alemanha Ocidental e assim por diante. Eatwell salienta que esse uso tem “grandes problemas tipológicos” e que o termo “também tem sido aplicado a evoluções claramente democráticas”, incluindo o populismo de direita e vários outros subtipos.
  • A “extrema-direita” tem quatro características de acordo com Roger Eatwell: “1) anti-democracia, 2) o nacionalismo, 3) o racismo; 4) o estado forte”. Ele acrescenta que a violência agora não é mais uma característica.
  • A “nova direita” consiste dos conservadores liberais, que enfatizam um governo pequeno, mercados livres e a iniciativa individual.

Note o leitor que as características associadas à direita são todas negativas, pelo menos do ponto de vista da narrativa: aristocracia, religiosidade (como ferramenta política), autoritarismo, rejeição de mudança, nacionalismo, populismo, anti-democracia, racismo. Em contrapartida, todos os atenuantes são associados a características da esquerda persistentes nos “moderados”: liberalismo, estado de direito, assistência social.

E ao observar como os pensadores “de direita” se posicionam, nota-se uma grande diversidade de idéias. Mesmo nesta breve descrição da Wikipédia, é possível ver como um apoiador da “nova direita” seria oposto a um de qualquer outra vertente, e o mesmo é válido para quase todas as outras subdivisões. A narrativa, então, é uma clara divisão entre nós e eles, mocinhos e bandidos, longe da verdade — características marcantes de um MITO.

E agora?

Há elementos para acreditar que a dicotomia esquerda-direita, ou mesmo o espectro bipolar, é parte da mitologia da auto-denominada esquerda. A minha abordagem preferencial é, quando alguém aborda algo a partir dessa ótica, trocar essa linguagem pelo que faz sentido no contexto atual. Talvez mencionar o erro.

— A direita é fascista!
— Classificar um grupo diverso de pessoas e idéias como “direita” parece um erro. Por que não conversamos sobre ações específicas e o que as torna fascistas?

Claro que fazer alguém dialogar racionalmente sobre política, em especial entre leigos e na década atual, é um desafio. Mas um que eu estou disposto a encarar. Ainda há outras lições que eu aprendi com estas eleições, depois conto. Abraço!

 

Aviso intelectual: omiti todas as evidências para exercitar o diálogo com quem esteja interessado. Como sempre, posso apresentá-las no contexto de um diálogo e mudar de opinião.

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