Re: Há relação entre ateísmo e pensamento de esquerda?

De tempos em tempos, e cada vez menos freqüentemente, dou uma olhada nos principais meios de comunicação (de cada nicho) para saber se alguém está sendo difamado. A intenção é, como sempre, tentar furar a bolha. Não sei quão recentemente (porque não há data, mas há comentários desde 20/04/2018), o Gospel Prime publicou um artigo de opinião entitulado Há relação entre o ateísmo e pensamento de esquerda?, que logicamente chamou-me a atenção.

A expectativa inicial, claro, era de encontrar uma resposta positiva, restando poder ser surpreendido por uma boa argumentação justificando esta resposta, que deveria conter:

  1. Fontes: um bom autor aponta suas fontes com referências precisas.
  2. Citações: principalmente quando se fala de alguém que não compartilha da opinião do autor, convém retratar a posição nas palavras de quem a defende.
  3. Ausência de falhas lógicas: principalmente em se tratando de um artigo relacionando duas posições das quais o autor presumidamente discorda, é comum usar ataques pessoais, envenenar o poço e apelo à consequência.

Mas eu espero ser surpreendido. Uma vez que este assunto é velho e muito discutido, sempre há esperança de que alguém bem informado faça uma boa exposição. Olhemos mais de perto…

O subtítulo do artigo começa dando sinais de que eu não serei surpreendido:

O próprio Karl Marx, em sua arrogância, rotulava a religião como o “ópio do povo”.

O autor abre com um ataque pessoal. O fato de Karl Marx ser arrogante torna sua afirmação incorreta? Claro que não. Ela pode ser incorreta por diversos motivos, mas sua arrogância, quer exista ou não, não é um deles.

Esquerda e direita

Definir rótulos num espectro político é tarefa difícil. Pessoalmente, o que tenho visto com mais freqüência é a divisão em dois eixos: esquerda/direita, e autoritarismo/libertarismo. Já fiz meia dúzia de testes (sem links porque não confio no método de qualquer deles) e, embora todos me classifiquem como liberal, alguns me colocam na direita e outros na esquerda, variando muito na intensidade. Isso porque todos eles classificam alguém de acordo com suas conclusões, não motivações. E é exatamente isso que Leandro dispensa em dois momentos:

Por exemplo, na cabeça desta pessoa, ser de “esquerda” é ser solidário com os mais necessitados, estar atento aos anseios das minorias, mas, é óbvio que para alguém ser solidário e preocupado com tais questões, ela não necessariamente deve comungar de um pensamento político X ou Y. Penso que isso tem muito mais a ver com o caráter individual que cada um leva dentro de si.

(…) Se formos analisar a literatura de pensadores de esquerda, veremos que eles buscam reduzir a compreensão da realidade humana ao longo dos séculos como uma luta de classes.

Ora, não importa se alguém compreende a realidade humana como luta de classes ou formula seu sistema político através da maximização de direitos individuais; independentemente de justificativas, se a pessoa é a favor de regular o mercado, é colocada à esquerda e se é a favor de regular a moral é classificada no espectro autoritário. É isso que torna o marxismo tanto de esquerda como autoritário (ou totalitário), e não a luta de classes como base filosófica.

Ademais, para o pensamento de esquerda, as instituições em geral (família tradicional, igreja, exército, polícia, etc.) são vistas como instrumentos dos opressores

E fecho esta seção apontando que o autor mistura equívoco de termos com o apelo à conseqüência: ver as instituições como instrumentos de opressão é característica do marxismo, não do pensamento de esquerda. E o autor continua alegando que porque a esquerda (marxismo) tem este resultado, ela é incorreta ou maligna. Em nenhum momento ele apresenta ou avalia as justificativas de qualquer pessoa para estas posições.

Substituição

Ao caminhar para suas conclusões finais, Leonardo revela que ele não está respondendo à questão que se propõe:

Assim, alguém que comunga deste pensamento e é de uma igreja, passa muitas vezes a ser extremamente crítico a tudo da igreja, muitas vezes caindo em um cinismo que não se dá conta, pois ao mesmo tempo que critica tudo e todos na igreja, mesmo assim continua ali. (…)

Com efeito, a tendência desta pessoa é ir se afastando mais e mais da igreja e com isso a fé ir se enfraquecendo, quando não sumindo.

A pergunta que foi abordada no texto é “o pensamento de esquerda (marxista) é compatível com o cristianismo?”, e não a que consta no título. Isto é conhecido como heurística de substituição. Que tal então reformular a pergunta? Sabendo o que ele respondeu, podemos ver se o mesmo raciocínio (com as devidas correções) se aplica a sistemas antagônicos ao marxismo.

Há relação entre ateísmo e liberalismo clássico?

Não confie em mim quando falo da natureza do liberalismo clássico, e sim em um dos seus grandes defensores, Murray N. Rothbard:

A declaração de que existe uma ordem de lei natural, resumidamente, deixa em aberto a questão de se foi ou não Deus quem criou tal ordem; e a afirmação de que a razão humana tem capacidade para descobrir a ordem natural deixa em aberto a questão de esta razão ter ou não sido dada ao homem por Deus. A afirmação de uma ordem de leis naturais passível de descoberta pela razão não é, por si só, nem pró e nem antirreligiosa. — A Ética da Liberdade, pág. 58 (grifo meu)
Rothbard fundamenta todo um sistema ético e político em torno da propriedade de si:
O homem, através da introspecção de sua própria consciência, também descobre o fato natural primordial que é sua sua liberdade: sua liberdade de escolher, sua liberdade de usar ou de não usar sua razão em qualquer assunto existente. Em resumo, a ocorrência natural de seu “livre arbítrio”. Ele também verifica o fato natural do comando de sua mente sobre seu corpo e suas ações: ou seja, de sua propriedade natural sobre si mesmo. — pág. 88

Claramente, o liberalismo clássico é derivado da razão, independentemente de qualquer religião ser verdadeira ou de qualquer deus existir. É um sistema político totalmente secular, e segundo a maioria das definições, ateu. Seria então compatível com o cristianismo? Eu proponho que seja possível argumentar que sim. Pois um dos fundamentos do cristianismo é que o homem não pertence a si mesmo, mas a Deus (Lv 17, 1 Sm 2). Tenho para mim que isto é tão óbvio para o crente que não preciso justificar.

O liberalismo, portanto, é baseado em algo contrário à doutrina cristã. Mesmo Rothbard dizendo que não, em pelo menos um conjunto de dogmas o liberalismo é anti-cristão (ele mesmo reconhece que os adeptos de Aquino adotam essa visão, pág. 57).

É difícil pensar em algo mais alinhado à direita liberal do que Rothbard. Se tanto esquerda autoritária quanto direita liberal são opostos a doutrinas cristãs, que sistema político não o é? É esta reflexão que gostaria de ver sendo feita por um crente.

Anúncios
Publicado em Contra-apologética, Política, Religião | Deixe um comentário

O elo mais fraco

chainDizem que uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco. O mesmo princípio se aplica quando alguém quer lhe convencer. Preste atenção em qualquer conversa em que estão lhe vendendo uma idéia. Seja religião, ideologia política ou conspiração, o seu interlocutor irá, talvez até de forma automática, testar cada elo da sua corrente até encontrar um que seja fraco o suficiente. Permita-me usar o exemplo mais comum, na apologética cristã, e depois um mais moderno, não religioso, para propor que é um fenômeno universal.

Mas e o…?

Toda conversa séria com um apologista passa por uma série de testes. Ele fará uma afirmação (a conclusão preferida) e questionará se você pode determinar que este não é o caso. Algo como se Deus não existe, como o Universo foi criado?. Se você puder indicar que consegue explorar o assunto satisfatoriamente, ele não insistirá ou admitirá que sua afirmação está incorreta. Ao invés disso, trocará o assunto para outro, do surgimento da vida à confiabilidade das escrituras, profecias… cada assunto é o apologista verificando qual é o elo mais fraco, isto é, em que tópico seu interlocutor não tem conhecimento suficiente, para que ele possa apresentar um argumento cuja validade não possa ser avaliada e tenha maior probabilidade de ser aceito.

Da mesma forma, uma feminista vai apresentar cada um dos argumentos em favor do feminismo de forma sequencial e sem explorar se são válidos ou não, esperando que algum cole: as mulheres ganham menos, têm menos direitos, são discriminadas, cultura do estupro… e quando algum não for rejeitado, é esse que vale.

50 perguntas para [preencha inimigo]

Esta forma de testar qual é o elo mais fraco da corrente é popularmente expressado em receitas do tipo perguntas para…, muito comuns no YouTube. Perguntas para esquerdistas, ateus, coxinhas, cristãos, desarmamentistas, e qualquer opinião que pensar. E o bombardeio de perguntas tem o mesmo formato: quem responde escolherá as mais fáceis, e quem pergunta ressaltará o fato de que nem todas foram respondidas, ou atacará somente as respostas mais “fracas”.

Corrente não, cerco sim

Em estratégia militar, a forma mais prática de dominar um território bem defendido é fazer um cerco: restringir o acesso a recursos externos para fazer com que o oponente saia à batalha. Eu não acho que um diálogo seja uma batalha, mas vale a mesma idéia: restrinja as rotas de fuga e trate do assunto mais importante.

Entendo que todos estes assuntos sejam relevantes, mas nossa conversa será muito confusa se tratarmos de todos. Que tal tratarmos somente de X? Se for real, ele basta; caso contrário, podemos averiguar se é falso ou se não podemos chegar a conclusão alguma a partir da rejeição de X.

É importante, a meu ver, tornar as pessoas conscientes de que estão fugindo de pensar a respeito do porquê chegaram a suas conclusões. Por que alguém trocaria de justificativa ao ter a atual confrontada? O que aconteceria num julgamento se algo semelhante acontecesse?

A apologética é uma perversão da ciência

Novamente, quando falo de apologética refiro-me à defesa de uma conclusão à revelia dos fatos ou da razão.

Alguém lendo esta publicação pode propor a seguinte objeção: invalidar um único aspecto de uma tese é exatamente o que cientistas fazem para avançar o conhecimento. Ou, como melhor escrito na Wikipédia:

Há um único conjunto de fatos naturais, sobre o qual as mais variadas teorias científicas válidas se assentam. Apesar de um subconjunto de fatos em particulares ser destacado para integrar determinada teoria, nenhum paradigma válido – nenhuma teoria em vigor – pode conter ideias que contrastem com qualquer dos demais fatos científicos conhecidos, independente da área científica da qual este seja proveniente ou da área na qual este seja (mais) relevante. Se isto ocorrer, a teoria DEVE ser reformulada; esta encontra-se impelida a evoluir

A apologética perverte este princípio válido através de dois truques, chamados de inversão do ônus da prova (advogados trabalhistas deveriam conhecer bem este termo e quando usar o recurso apropriadamente) e apelo à ignorância (Um Livro Ilustrado de Maus Argumentos, pág. 26). Em suma, o que o apologista faz é a seguinte transformação:

Meu conjunto de hipóteses é válido, portanto todas as previsões dele derivadas são verdadeiras.

… vira…

Enquanto eu mostrar uma previsão que você não saiba ser falsa, meu conjunto de hipóteses deve ser considerado válido.

A prática leva à perfeição

Há uns dez dias tive uma conversa em que essa tática de distração foi usada. A parte positiva é que eu estudei tanto o assunto e já ouvi tantas vezes as mesmas afirmações que posso responder e dar fontes a todos os argumentos apresentados. Mas eu ainda caio na tática. É preciso calma e ponderar a situação, praticar sozinho e até em comentários de redes sociais. Estamos tratando do mesmo assunto em que começamos? Por que o argumento mudou? Temos que nos fazer estas perguntas o tempo todo, pois é um desvio que parece até instintivo. Creio que se fizermos esse pequeno ajuste, tornaremos o mundo um tanto melhor.

Publicado em Ciência, Contra-apologética, Feminismo, Política, Religião, Sem categoria | Deixe um comentário

Adeus, Brasil

Há alguns meses, eu deixei meu país natal, o Brasil. O meu destino não é importante agora. O que eu quero mesmo explicar — mesmo que ninguém tenha perguntado — é porque tomei essa decisão e porque os brasileiros devem se preocupar.

byebye-brasil

Pessoal e intransferível

Eu sou um pai de família. É estranho falar isso numa época em que o feminismo exige o fim das responsabilidades baseadas em gênero, mas a realidade pura e simples é que eu tenho de zelar pelo bem-estar da minha família. Esta responsabilidade não pode ser transferida “para a sociedade”, na forma de auxílio social por exemplo, porque eu sou parte da sociedade; como uma sociedade em que indivíduos não são responsáveis por si pode ser responsável pelos seus membros?

O melhor do Brasil é o brasileiro… pobre

Sendo minha responsabilidade zelar pelo bem-estar de esposa e filhos, eu fazia o que estava ao meu alcance. Segundo a ABEP, estávamos na classe B1 no Critério Brasil. Ou seja, segundo as medidas oficiais nós tínhamos uma vida confortável. E o que uma pessoa assim merece? Segundo o Brasil, ter o que conquista tomado de si e redistribuído a quem não conquistou coisa alguma. Ou seja, se você ganha mais do que o resto, independentemente de como usa o que ganha, tem que dar o que tem ao governo para que sustente o pobre através de impostos altíssimos.

No Brasil, tudo tem que ser feito duas vezes para se conseguir algum resultado. O governo cobra impostos para sustentar o sistema  de ensino, que é precário; para dar a mínima formação aos nossos filhos, temos que pô-los em escola particular. Só com o único filho em idade escolar, gastávamos mais de 20 mil Reais por ano. Os impostos também deveriam servir para a segurança pública, mas para ter o mínimo de segurança tínhamos que viver em um condomínio fechado com segurança 24 horas, a custo anual de outros 4 mil Reais. E isso é só para garantir que ninguém entrasse na nossa casa. Também entende-se que os impostos pagos vão para transporte público, e nunca vi uma cidade de um milhão de habitantes, rica como Campinas, não ter metrô. Ou seja, para trabalhar eu tinha que ter um carro (e outro para minha esposa também trabalhar). Contando isso e muito mais, para minha família ter as mínimas condições de vida precisávamos de dois empregos e não sobrava um tostão para aproveitar a vida.

Eu poderia continuar por horas, mencionando os aumentos muito acima da inflação sobre serviços básicos, impostos sobre consumo e falta de atualização do imposto de renda. Mas vou resumir tudo isto numa só idéia: no Brasil, não ser pobre é crime. Segundo pesquisa do IBOPE/CNI (p.13-14), os brasileiros rejeitam um candidato a cargo eletivo que seja rico, preferindo o pobre. Segundo a pesquisa, ser rico é um defeito tão grande quanto ser ateu, e ser pobre é uma virtude tão grande quanto “acreditar em Deus”, e os únicos candidatos que têm chance de ganhar são os piores — populistas econômicos e religiosos ignorantes. A pesquisa citada se junta a outras para demonstrar que, em todos os aspectos, o Brasile me odeia.

Motim ou bote salva-vidas?

É dito que o Brasil é um país em desenvolvimento. Há 40 anos, países em desenvolvimento na Ásia foram chamados de Tigres Asiáticos. Coréia do Sul e Brasil eram considerados no mesmo patamar. Hoje aquele é um país desenvolvido, e o Brasil continua em desenvolvimento. Discordo. O país está afundando. Governantes incompetentes e corruptos estão saqueando o povo, semeando o ódio à riqueza e o desprezo à inteligência. Numa situação desta, só há duas opções: revolução ou retirada.

Eu adoraria poder lutar pelo meu país, mesmo que ele me odeie. Mas isso custaria um preço muito caro para a minha família. Por isso resolvi pular do barco. E não sou o único. Quem tem condições e percebe que não é mais bem-vindo está fugindo do país. Na empresa em que trabalhava até o ano passado pelo menos 5% dos funcionários saíram para trabalhar no exterior em um único ano. Isso não é coincidência.

Vai ficar?

Exatamente porque o Brasil só gosta de pobre, os que não querem ser estão fugindo. E de quem o governo cobrará impostos? A renda de quem será redistribuída? Pois é, um país que odeia ricos está fadado à pobreza — sim, este é um argumento puramente pragmático. E quem fica, até que a revolução aconteça, tem seu destino traçado. Há um fio de esperança em 2018. Não será surpresa essa esperança ser frustrada, já que historicamente o fator que determina o resultado das eleições é o tempo de horário eleitoral gratuito e a esperança está exatamente no menor dos partidos, o Novo.

1250991947631

Eu saí porque não aguentava mais ser odiado e assaltado por tentar alcançar alguma coisa. Você que ainda fica tem poucas opções: recomeçar onde seja aceito, empobrecer para o ser, ou arriscar a vida e o sustento em favor dos seus compatriotas, se tornando ativo na política e sociedade — e não estou falando de compartilhar coisas no Facebook e Instagram. Nenhuma dessas opções é confortável, eu sei, mas quem não tomar uma decisão terá uma tomada por si.

Bem, esse é o resumo do porquê eu não pretendo mais pôr os pés no meu país natal. Num outro dia eu conto para onde fui, o que eu vi até agora e como é viver em outro país. Até a próxima!

Publicado em Desabafo, Política, Sociedade | Deixe um comentário

A relação intrínseca entre feminismo e Islã

Dos fatos

Há décadas existem, no Reino Unido, grupos organizados atuando na exploração sexual de meninas. Elas são aliciadas, estupradas, raptadas e oferecidas como prostitutas contra sua vontade. Estas gangues fizeram milhares de vítimas, tendo os casos recentemente revelados acontecido nas cidades de Telford e Rotherham. Abaixo seguem algumas das notícias em inglês e algumas partes traduzidas para ajudar o leitor que não domina a língua.

Uma investigação do Sunday Mirror alega que centenas de meninas foram abusadas em Telford, Shropshire, desde os anos 80. — BBC
A representante da cidade no congresso, Lucy Allan, disse que levaria o assunto ao Parlamento e solicita uma investigação independente.
A Polícia de West Mercia disse que levou todas as alegações “de forma extremamente séria” mas as últimas informações “não eram novas”.

Como assim, as últimas informações “não eram novas”? Como a polícia fica sabendo de casos de abuso sexual de meninas e não age? A matéria da BBC deixa mais perguntas do que respostas no ar, então vamos olhar a investigação do Mirror, sua fonte:

Mil crianças podem ter sofrido sem misericórdia nas mãos de pervertidos e torturadores em Telford desde os anos 80.
Meninas de até 11 anos foram aliciadas de suas famílias para serem drogadas, agredidas e estupradas numa endemia que, segundo as vítimas, continua a ocorrer.
TRÊS pessoas foram assassinadas e outras duas morreram em tragédias ligadas ao escândalo.
A investigação de 18 meses do Mirror revela abusos em níveis sem precedentes. Descobrimos que:

  • Assistentes sociais sabiam do abuso nos anos 90 mas a polícia levou uma década para iniciar investigação
  • Conselheiros viam crianças abusadas e traficadas como “prostitutas” ao invés de vítimas, de acordo com arquivos não consultados anteriormente
  • Autoridades não guardaram detalhes dos abusadores de comunidades asiáticas por medo de “racismo”
  • A polícia não investigou um caso recente cinco vezes até a intervenção de um representante no congresso
  • Uma vítima disse que policiais tentaram impedi-la de descobrir o porquê de seus abusadores não terem sido indiciados porque temiam que ela falasse conosco

Teme-se que a escala dos abusos descobertos em Telford — cidade de 170.000 habitantes — seja a mais brutal e duradoura de todas.

Então a polícia identificou os abusadores como sendo “asiáticos” mas não usou isto como perfil em investigação por medo de acusações de “racismo”. Mas a Ásia é enorme e diversa, de que tipo de “asiáticos” eles estão falando: japoneses, chineses, tibetanos, vietnamitas, mongóis, russos, indianos, árabes? Todos ou um subconjunto? Continuemos na mesma reportagem…

Nossa investigação — baseada em documentos obtidos sob a Lei de Acesso à Informação — descobriu que dois predadores pedófilos começaram a focar em meninas de um lar para crianças em 1981.

Um dos abusadores ganhava milhares [de Libras] por noite traficando meninas pelo país por sexo com centenas de homens, de acordo com uma vítima.

Em outro caso, uma garota de 14 anos foi aliciada por um asiático de 18 em 1985. Depois de ter um bebê, ele a passou para seus amigos para terem relações sexuais e eles alegadamente a estupraram.

Novamente, “asiático”. Algum nome ou foto? Seria muito fácil identificar a origem étnica ou cultural dos criminosos. Um nome composto por monossílabos seria chinês, alternando fonemas de vogais e consoantes de forma equilibrada seria japonês, comprido e cheio de consoantes, indiano, com derivados de “Mohammed” e “Allah” seria muçulmano (desde o Oriente Médio até a Indonésia) e por aí vai. Porque embora a etnia de uma pessoa nada informe sobre seu comportamento, suas crenças sim, quer religiosas ou culturais. E creio ser autoevidente que devemos evitar ou combater sistemas de crenças, religiosas ou culturais, que levem ao abuso de meninas. Mas ao mesmo tempo a matéria informa que a polícia escondeu as características dos criminosos por temor de racismo, ela também dá informações totalmente irrelevantes e incompletas. Mas espere! Apesar de a matéria citar “asiáticos” 5 vezes, existe uma menção por nome:

Lucy Lowe, 16 anos, foi morta em 2000 com sua mãe e irmã após seu abusador de 26 anos Azhar Ali Mehmood atear fogo à sua casa. Cabbie Mehmood aliciou Lucy em 1997 e ela tinha só 14 anos quando deu à luz sua filha.

Hmm… então pelo menos um dos “asiáticos” na verdade parece ser um muçulmano asiático. Será coincidência? Temos que procurar respostas em outras matérias. No próprio Sunday Mirror, ao entrar na meta-matéria “tudo sobre abuso sexual”, vemos imagens de vários “asiáticos” relacionados a estes escândalos recentes. Olhe as imagens por si mesmo, caro leitor. Não querendo ser presunçoso, mas tendo trabalhado em T.I. por vários anos, o que me levou a conhecer gente de várias culturas, não me parece que sejam japoneses ou russos; parece claro que são pessoas do sul da Ásia, desde a India até a Arábia. Mas essa região contém todo tipo de tradição: hindus, muçulmanos, sikhs, budistas, cristãos, e todos variando desde o muito tradicional ao bem secular.

Certamente as vítimas podem informar que tipo de discurso seus abusadores usavam, que costumes praticavam, como justificavam os abusos. Talvez os próprios abusadores, uma vez finalmente indiciados, tentem justificar seus atos. Tanto a Polícia quanto as matérias iniciais parecem intencionalmente omitir estas informações. Veja por exemplo esta manchete do Mirror: Ligações de gangue a outros grupos asiáticos de exploração sexual “expostos” e informante se esconde após ameaças de morte”; na matéria são citados 17 homens e 1 mulher, e somente o nome desta é informado. As fotos de 8 destes homens são mostradas, e o padrão visto até aqui se repete. Mas sempre tem alguém que viu os dados originais e está disposto a os expor.

Os dissidentes

Embora polícia e jornais ocultem a motivação dos crimes — ou a sua racionalização –, algumas pessoas se manifestam, quer por serem afetadas pela forma como os fatos são comunicados, quer por repúdio à manipulação da mídia. Embora ainda estejam restritos aos meios de comunicação minoritários ou redes sociais, às vezes alguma matéria chega aos grandes jornais. Veja estas duas manchetes, por exemplo:

Em contraste, o tipo de análise que se faz da situação é: Pesquisadores britânico-paquistaneses dizem que 84% dos membros de gangues de estupradores são asiáticos (grifo meu).

E o que isso tem a ver com feminismo?

Não só com feminismo, mas com justiça social em geral. Note o leitor que o padrão de desonestidade da polícia, políticos e mídia “liberais” é descaracterizar a hipótese de causalidade dos fatos em questão, usando uma característica irrelevante e tão abrangente quanto possível para descrever os causadores. Agora pergunto, quando os problemas abordados pelo feminismo (contemporâneo ou da terceira onda) são expostos, que discurso é usado? Quem promove a “cultura do estupro”? Homens! De quem é a culpa pela “diferença salarial”? Dos homens! Quem comete atentados em massa com armas? Homens brancos!

Nada a respeito de homens leva a qualquer dos problemas que feministas alegam existir. Da mesma forma que nada a respeito de ser asiático leva a gangues de estupradores e aliciadores. Harvey Weinstein ter cometido estupros não implica qualquer outro homem só porque Weinstein é homem. Mas se feministas e “liberais” conseguem vender a idéia para uma massa de analfabetos funcionais, eles acumulam poder e ganham massa de manobra, abusando da democracia para seu benefício próprio.

É hora de identificar a ignorância, desonestidade e manipulação pelo que são. Ou permitiremos que um bando de covardes entreguem a civilização ocidental e a república (todas elas) para um bando de bárbaros com sede de sangue e poder.

Publicado em Acontecimentos, Feminismo, Política, Sociedade | Deixe um comentário

Nem todo dinheiro é igual

Na publicação anterior propus uma conversa sobre geração de riqueza e como acontece numa economia — livre ou não, e hoje quero apresentar um contraponto: a destruição de riqueza. O conceito em si é bem óbvio, pois se houvesse somente geração de riqueza teríamos riqueza infinita e não é isso que vemos. No decorrer desta publicação usarei um conceito tradicional mas que talvez alguns não conheçam, o utilitarismo. Seu uso será restrito à economia, então peço que o leitor evite comentar sobre o uso deste sistema em ética.

Nos parágrafos a seguir descrevo o que acredito ser um gradiente de destruição de riqueza e termino colocando problemas normalmente nem sequer discutidos que emergem dessas diferenças na destruição de riqueza. Devo também adiantar que não acredito que toda destruição de riqueza é ruim, o que ficará claro na apresentação em si.

Consumo e deterioração

Bens de consumo são, por natureza, temporários. Alimentos são consumidos, de forma que num momento inicial um indivíduo não tem prato de comida, então ele usa certo dinheiro (a riqueza que ele mesmo gerou) para adquirir alimento, que é consumido imediatamente. No final, o indivíduo se encontra novamente sem o prato de comida e sem o dinheiro que usou para comprá-lo. Obviamente sua riqueza foi, mesmo que parcialmente e por necessidade, subtraída. Algo semelhante acontece com bens mais duráveis: carros quebram e precisam de manutenção, eletrodoméstigos estragam, copos se quebram… quase tudo tem um prazo de validade. E toda vez que algo precisa ser reparado ou substituído, a riqueza gasta para adquirir o bem agora indesejado foi consumida. É claro que o valor do bem foi transformado em utilidade ao usufruir do bem e portanto o valor foi transferido do bem para o indivíduo, mas a riqueza em si é externa ao indivíduo e portanto é, invariavelmente, eliminada ou no mínimo reduzida.

Também é comum o bem em si ser danificado ou perdido antes que se lhe dê uma utilidade — um acidente no transporte, por exemplo. Neste caso a riqueza teve o seu valor utilitário anulado acidentalmente, embora ela tivesse valor utilitário inicial. É a esta redução do valor de um bem sem a sua utilização que chamo de destruição de riqueza. Em física, seria o equivalente a reduzir a energia potencial de um corpo sem transformá-la em energia cinética.

Futilidades

Nem tudo tem o mesmo valor utilitário. Pode-se argumentar que um prato de comida o mesmo valor utilitário que outro, mas o valor econômico dos dois pode ser diferente. Assim como algo que não tem qualquer valor utilitário pode ter um grande valor econômico, como uma camisa de time de futebol. Não digo que certas coisas não têm valor. Somente que a natureza do valor atribuído cada coisa é diferente. Comida não é o mesmo que torcida de futebol, um carro não é o mesmo que um concerto musical de qualquer gênero, de forma que o valor de algo não essencial é diretamente proporcional à abundância de produtos essenciais.

Na prática, creio que a afirmação possa ser resumida, consoante à publicação anterior, que certas coisas que têm valor econômico não geram riqueza.

Charlatanismo e corrupção

Se nem tudo que tem valor econômico gera riqueza, com certeza também há casos em que produtos ou atividades não têm valor econômico e mesmo assim consomem recursos. Charlatanismo é o caso mais óbvio: alguém vende um produto ou serviço que sabe não funcionar para o propósito anunciado, contando com a ignorância ou desespero da outra parte. Em termos mais práticos, algo sem utilidade é vendido. Exemplos tradicionais incluem loteria, medicina alternativa (Reiki e Homeopatia, entre outros), para se ter uma idéia. De outro lado da destruição de riqueza está a corrupção, o desvio de recursos de um propósito para benefício próprio tem praticamente o mesmo resultado: a riqueza gerada pelo indivíduo não é transformada em utilidade para si.

Todo dinheiro é igual?

Agora, compare duas comunidades: uma que produz alimentos, e outra que se sustenta do turismo. Faz sentido que as pessoas da primeira gastem seu dinheiro na última; mas e o contrário? Se a produção de alimentos aumentasse e o turismo diminuísse, todos continuariam tendo a possibilidade de vida confortável. Mas se a disponibilidade de turismo aumentasse e a produção de alimentos diminuísse, todos teriam dificuldades. Então parece-me que não faz sentido classificar toda riqueza como igual, sob o risco de criar uma sociedade cuja “geração de riqueza” se baseie em futilidades ou charlatanismo, resultando na ilusão de crescimento econômico mas realmente só criando dificuldades — dívida.

Recentemente surgiram rumores de uma guerra econômica por parte dos EUA através da taxação de produtos importados ou exportados — não sei dos detalhes. Mas uma coisa é evidente: se os Estados Unidos são independentes com relação aos bens essenciais e energia enquanto a União Européia depende da importação de produtos, fica claro quem gera riqueza com maior utilidade e quem é dispensável.

À luz destas considerações, deveria haver uma diferença entre o dinheiro ganho com a a produção de bens de consumo e entretenimento, por exemplo? Os milhões que um jogador de futebol ganha (totalmente sem justificativa, a meu ver) deveriam valer mais que os milhares que um agricultor ganha produzindo algo de valor real? Que sistema esse tipo de mudança produziria?

 

Publicado em Política | Deixe um comentário

Introdução à economia para eleitores

Há muita propaganda por aí sobre política e suas inclinações, do populismo ao individualismo, do assistencialismo ao liberalismo, mas pouco se fala sobre a economia em si, sobre princípios e consequências. Quando o eleitor não está ciente de princípios elementares de governança, pode votar em um candidato que promete aquilo que não pode cumprir mesmo que se alinhe aos seus próprios valores.

Meu propósito aqui é, portanto, lembrar meus compatriotas desses princípios, desses fatos praticamente auto-evidentes para que saibam identificar que candidatos são obviamente incompetentes. Claro que alguém pode enganar o radar, mas o populista que não liga para o bom funcionamento do país ou o incompetente que não conhece o mínimo para fazer um bom trabalho no comando de uma comunidade serão expostos.

A origem do dinheiro

Primeiro vamos olhar para o que move sociedades: dinheiro. A economia está no centro da operação de qualquer sociedade. É com ele que se faz tudo, de escolas a assistência social. Então é preciso entender de onde vem o dinheiro para fazer tudo isso.

Em primeiro lugar, é preciso entender que riqueza não é um jogo de soma zero. Embora dinheiro seja a grosso modo uma commodity, riqueza não é. É possível gerar riqueza “do nada”. Por exemplo: digamos que José tenha um quintal, um pedaço de terra que ele não usa para qualquer coisa. José compra um quilo de sementes de tomate por certo valor A, usa água e fertilizantes de valor B e seu trabalho para produzir tomates que vende por valor final C. Se C for maior que a soma de A e B, José efetivamente produziu riqueza. É possível fazer a mesma análise para o mercado de serviços, mas basta ver que não é necessário haver transferência de riqueza para que haja enriquecimento. Pode ser que tal transferência seja conveniente, mas ela não é obrigatoriamente necessária. E para tudo que segue neste assunto, eis a definição geral de geração de riqueza que usarei:

A transformação, através do trabalho individual ou colectivo, dos atributos de um objeto para um estado em que tem valor maior do que o original para o indivíduo ou grupo que o adquire

Quem pode gerar riqueza?

Se a geração de riqueza depende do trabalho, o corolário óbvio é que somente pessoas podem gerar riqueza. Isso pelo menos até que tenhamos robôs independentes. Empresas podem gerar riqueza por serem formadas por pessoas. Governos não podem gerar riqueza. Portanto, tudo que um governo faz é consumo — através da riqueza gerada pelo povo que ele representa. É possível fazer uma mescla através de empresas estatais: se uma estatal dá lucro, pode-se dizer que o governo gera parte da riqueza que usa. Em outro momento trato de estatais em si, mas pensemos em estatais como órgãos separados da governança. De qualquer forma, o governo não tem dinheiro ou riqueza. Daí o famoso discurso de Margaret Thatcher:

O estado não tem dinheiro a não ser aquele que o povo ganha. Se o Estado quiser gastar mais, ele só pode fazê-lo pegando as tuas economias emprestadas, ou cobrando-te mais impostos. E não faz bem pensar que alguém irá pagar, pois tu és esse alguém. Não existe dinheiro público, somente dinheiro do cidadão pagador de impostos.

Isto significa que quando o governo português paga 831 milhões de Euros ao FMI ou o governo brasileiro paga 491 milhões de reais em dívidas do Rio de Janeiro, a realidade é que o cidadão está pagando por uma dívida assumida em seu nome pelo governo. Não há problema em tratar do orçamento do Estado como sendo algo de responsabilidade do governo (é para isso que os elegemos), mas é responsabilidade do cidadão escolher governantes competentes.

Mas como essa responsabilidade do produtor de riqueza é cumprida? No Brasil, por exemplo, um governante não pode ser removido por incompetência. Dilma Roussef foi um desastre como presidente, mas somente um crime de responsabilidade pôde trazer fim prematuro ao seu mandato. E ao mesmo tempo em que o eleitor não tem capacidade para votar, uma vez que menos da metade dos brasileiros (31%) tem alfabetização funcional intermediária ou melhor, não há limites mínimos que eliminem candidatos obviamente incapazes do processo eleitoral (talvez o caro leitor tenha ouvido falar de Tiririca e Lula). Ainda não encontrei números sobre Portugal, mas algumas análises qualitativas não são animadoras. Só há voto responsável se o eleitor for capaz de determinar qual candidato é objetivamente os melhor para conduzir os asuntos de sua alçada, mas a maioria dos eleitores não parece ser.

Muito há ainda a tratar dentro deste assunto: a validade do processo democrático atual, a mitigação da pobreza e seus efeitos, as consequências de cada abordagem. Mas por enquanto fica a lição para quem gera riqueza: trata teu dinheiro como tal mesmo quando a responsabilidade pela sua gestão está nas mãos de outrem.

 

Publicado em Sem categoria | 1 Comentário

Tim Mackie nada sabe, parte 3 (e última)

Esta é a última publicação sobre o podcast que recebi contendo uma conversa com Tim Mackie. Tenho um aviso final no último parágrafo, se não estiver interessado no resto eu peço que pule para o final. Como das outras vezes, versão também disponível em vídeo.

Resumindo, para recapitular. Alguém que nunca conversou comigo sugeriu um vídeo terrível com um pastor/apologista ignorante como se fosse uma autoridade em teologia ou qualquer outra coisa. Estou respondendo em texto e vídeo sem eufemismos. Se estiver interessado na fonte, volte para a primeira publicação. Aqui eu quero abordar somente uma besteira que Tim fala, talvez a maior: a Bíblia deve ser lida a partir de Jesus, dos evangelhos. Bem, e se Jesus for falso, uma lenda? Henrique, que horror! Como você pode dizer algo assim?!

Responda-me você: qual é a forma, a aparência de uma estória falsa contendo falsas promessas? Se eu lhe desafiasse a contar a maior mentira possível, como ela seria? Eis a minha versão:
  • Fama, grandes obras, milagres e mágica são coisa do passado. Eu não posso fazer nada disso agora, então qualquer mentira tem que ser no passado mais distante possível.
  • Se eu disser que fui um grande mágico, as pessoas exigirão que eu mostre, ou faça, mágica. Então tenho  que alegar que eu conheci um mágico. Eu vi com meus próprios olhos.
  • Digamos que eu queira seu dinheiro. Coincidentemente, estou em viagem de negócios e voltarei em uns meses. Então posso pedir um empréstimo e dizer que “pago em quatro meses”, aí fujo com a grana. Melhor ainda, eu digo que vou embora e “pago quando voltar”, mas nunca volto. Se o credor cobrar-me, eu sempre respondo “não se preocupe, eu ainda não voltei. Esere até que volte, aí pago” mas nunca volto.
  • Se eu for inventar uma mentira do nada, tem que ser algo que ninguém possa investigar. Não só no passado, mas em um lugar em que nenhuma evidência possa ser encontrada. Como num lugar devastado por um desastre natural ou guerra.
E se você ouvir uma estória que parece mentira, que outros sinais você deve procurar?
  • As pessoas que deveriam saber algo da estória parecem nunca ter ouvido falar nela.
  • Relatos independentes têm diferenças muito grandes. Como quando as coisas acontecem de forma diferente só para combinar com os objetios de quem conta cada versão.
  • Pessoas que contam estórias semelhantes têm um relacionamento ou interesses em comum. Como quando herdeiros de uma fortuna concordam sobre eventos improváveis que lhes beneficiariam.

E adivinhe o que encontramos nos evangelhos? Todas as alternativas acima! As estórias são contadas após a destruição de Jerusalém e do templo judeu, décadas depois dos fatos retratados. Jesus é famoso nas estórias, mas ninguém do mundo real jamais ouviu falar nele. Só Jesus (morto) e os apóstolos (mortos) podiam fazer milagres, e nem os autores dos evangelhos são conhecidos. Nenhuma promessa é cumprida (como Jesus voltar “em breve”) e as promessas pendentes são para depois que você morrer (bem-aventurados os humildes, pois serão exaltados — no céu). Os evangelhos discordam sobre quando, como e porque Jesus nasceu, começou e realizou seu ministério, morreu e ressurgiu. E isso tudo pode ser encontrado só lendo o maldito texto! Se voc~e sair um pouquinho da Bíblia, as coisas só pioram — leia qualquer coisa por Bart Ehrman para ter uma idéia.

axxvbov_700bEntão começar a ler a Bíblia por Jesus é como ler Star Wars acreditando em Luke Skywalker. É só uma mentira em que muita gente acredita. E eu garanto que se você primeiro estabelecer qualquer critério para acreditar ou rejeitar estórias, você se verá obrigado a rejeitar os evangelhos ou acreditar em qualquer golpe do vigário.

Finalmente, um aviso importante

Eu perdi duas horas ouvindo ao podcast e mais algumas respondendo em texto e vídeo. Chega. Se alguém quiser que eu veja algo, só abordarei se for uma conversa. A pessoa pelo menos apresentará seu caso E aresentará critérios para melhorar sua opinião OU o que levou a dar crédito às alegações. Não perderei mais tempo com pregação de igreja. Só para deixar claro, igreja é um lugar para concordar ou calar a boca e sair. Não comigo. Você fala, eu falo. Você ouve, eu ouço. Eu sou capaz de apresentar seu argumento tão bem quanto você, e espero o mesmo nível de respeito intelectual. Caso contrário, cai fora. Não sentarei mais na mesa das crianças. Compartilharei gozação quando achar engraçado, e darei risada de quem quiser pregar. De resto, tratarei de assuntos de adulto: política e sociedade. Vida longa e próspera!
Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Tim Mackie nada sabe, parte 2

Ok, se você não viu a parte um, leia antes ou veja o vídeo caso não queria ler esta publicação. Pouparei introduções, e se você não estiver afim de ler, veja o vídeo. Tim Mackie continua falando merda na segunda parte do vídeo, entre os minutos 20 e 40 aproximadamente. Aqui ele fala sobre a surpresa de encontrar coisas na Bíblia. Suas idéias básicas são sobre a natureza da humanidade e como as pessoas deveriam reagir sobre ler a Bíblia. Para quem não escutou ao podcast, embora eu recomende que o faça (se entender inglês), aqui está um resumo. E como tem coisas obviamente estúpidas, já tirarei a maior parte do caminho.

Homeopatia cristã

Quando Deus faz algo, segundo Tim, é através das pessoas. Então quanto menos parece que Deus está fazendo algo, mais ele realmente está fazendo. É como homeopatia: quanto mais diluído for um componente, mais potente ele se torna. Todos sabemos que isso é coisa de retardado, e se você não souber volte para a escola. Nem é nisso que os cristãos acreditam. Deus criou o universo através das pessoas? Foi José de Arimatéia que acordou Jesus depois de três dias? Os discípulos na verdade eram médicos curando doentes? Não, vocês acreditam que isso era Deus fazendo coisas na frente das pessoas. Foda-se a homeopatia, cristã ou não.

Tendências cognitivas

Segundo Tim, você encontra os resultados que deseja porque escolhe usar um sistema que faz isso por si. Isto é errado, de acordo com Tim — e eu concordo, viva! Bem, dê uma olhada no próximo tópico, que também segue cronologicamente no podcast.

Não se preocupe com as porcarias

Deus mandou Noé construir uma arca para sobreviver ao dilúvio; você termina de ler a estória achando que tem que construir uma arca? Deus disse que pode comprar escravos de outras nações; você devera terminar de ler isso e concluir que pode comprar escravos da África? Veja, leis são dadas num certo contexto e para certas pessoas. E se você não entende porque algo está escrito, é um mistério que pode ser resolvido com fé: confie que o que está lá existe por uma razão, e é boa. Mesmo se você não entender. Fé entra na estória para dar paz de espírito sobre coisas que parecem ridículas.Quando as pessoas estudam a Bíblia de verdade, ao invés de acreditar em qualquer merda que pastor fala, elas encontram coisas que vão contra o que pensavam. Tim não menciona algo específico, porém; presumo que seja porque ele acha conveniente deixar  doença se espalhar até que as sequelas sejam permanentes. De qualquer forma, ele diz ter mente aberta — por causa de Jesus. Então se algum fato parece estranho ele consulta Jesus e o resolve através dos seus ensinamentos. Então ele está pronto para ser surpreendido sempre. Sua cosmovisão não é baseada na sua habilidade de encontrar coerência, mas em Jesus. Enfim, as pessoas não deveriam ficar surpresas ao aprender coisas sobre a Bíblia. Ela contém informação sobre como os livros foram compostos nela mesma.

Preciso dizer mais?

Sim, preciso! A burrice é forte neste indivíduo, mas algumas pessoas estão tão estragadas pela fé que não vêem o óbvio. Para começar, a descrição de “mente aberta” dada por Tim é o oposto do que isso significa. Se minha mãe diz algo e eu ouço de um amigo que ela está errada, o que chamamos perguntar de novo à mnha mãe e dispor-me a acreditar em qualquer coisa que ela disser? As únicas respostas correta são “ingenuidade”, “credulidade”, e “burrice”! Ele é tão “mente aberta” que perdeu o cérebro para a igreja! Tere a mente aberta significa não ter medo de dizer “não sei”, “eu estava errado”, não “tenho fé”. E que tipo de cosmovisão sem vício é essa?

— Cara, a Bíbia é cheia de falsidades.
— hmm, sei não. Jesus, que achas?

Claro, esta é a versão sem tendência. Ao contrário de “bem, se é falsa deveríamos encontrar informações conflitantes, relatos incompatíveis com a história conhecida, e por aí vai; por outro lado, se não for besteira deveríamos encontrar informações que nos levem a evidências empíricas, não acessíveis aos escritores mas confirmadas mais tarde (pense em ondas gravitacionais), esse tipo de coisa”. Mas não, eu estou sendo muito restrito.

Tim Mackey é exatamente como todo apologista: um hipócrita. Ele faz exatamente o que condena, mente na cara dura e é completamente ignorante acerca do mundo real. Mas ele é pastor, estudou por anos para isso! Claro, assim como xamãs estudam cura espiritual. Ele erra até sobre o que os cristãos acreditam! Quando fala sobre o dilúvio contendo regras que os cristãos não seguem, ele nem sequer descreve crenças que os cristãos possuem. Cristãos acreditam que homossexualidade é pecado não porque a lei mosaica ainda se aplica (embora alguns o digam porque alega-se que Jesus mencionou algo assim), mas porque o fato de Deus ter criado uma lei os banindo significa que Deus odeia bixas, como a Westboro Baptist Church diz. Não é a lei, mas porque a lei foi feita em primeiro lugar.

phelps

Por fim, veja quão imoral o Deus de Tim é: ser bom significa somente amar e obedecer a Deus. Bondade não é algo sobre relacionamentos entre humanos, mas obediência. Eu espero que você entenda quão trivial é isso. Se não, considere Abraão e Isaque: quando Abraão ouve uma voz dizendo para sacrificar (matar) seu filho, a única resposta moral seria “vá se foder”. Ao invés disso, a louvada “moralidade” desse imbecil significa obedecer a Deus mesmo quando ele soa como um maníaco. Não, obrigado. Leve seu cristianismo para um manicômio.

Na próxima e última parte é hora finalmente de dar uma olhadinha sincera no evangelho de Tim Mackey.

 

Publicado em Contra-apologética, Desabafo, Religião | Deixe um comentário

Tim Mackie nada sabe, parte 1

Recebi algo em inglês e esta é a resposta em português. Se você não tem atenção ou disposição para ler este texto, assista ao vídeo gravado por mim mesmo.

Foi-me sugerido escutar a um episódio de podcast, publicado por um canal que eu não conheço nem tenho interesse em descobrir. Como sempre, a fonte completa aqui: The Bible and Western Christians: Do We Got It All Wrong?. Não sei quem originalmente indicou isto para mim, já que veio por alguém que não fala inglês. Mas uma coisa eu sei: aquela pessoa não me conhece. Nem um pouco. Ou qualquer cético. Ou qualquer coisa.

Resumo

A fonte é um episódio de uma hora e o leitor pode não ter a fluência ou paciência necessária para escutar. sendo este o caso, tentarei resumir o que ouvi. E se você achar que não estou sendo justo, escute o podcast e julgue por si. Os anfitriões recebem Tim Mackie, quem quer que seja, e ele faz algumas afirmações durante a conversa/pregação, principalmente:

  1. A Bíblia deve ser lida com a perspectiva de que é tudo sobre Jesus.
  2. A Bíblia deve ser interpretada, isto é, ela não foi escrita para ser lida por todos, em todas as épocas, do mesmo jeito.

Esta é a descrição informal da Teologia, nenhuma novidade. Ele só descreveu com eufemismos a hermenêutica (arte de afirmar que um texto não quer dizer o que diz) e a doutrina da infalibilidade conforme expressada pela maioria do clero cristão.

Tim menciona uma ou outra crítica a essas afirmações, e as apresenta de forma desonesta sem um pingo de vergonha na cara. Explorarei algumas destas críticas, na intenção de tentar fazer com que a pessoa que recomendou este vídeo tenha um vislumbre da realidade. Provavelmente jamais alcançarei Tim e os apresentadores, já com seus cérebros tomados demais pela infecção religiosa.

Por que precisamos ter esta conversa?

Em primeiro lugar, só precisamos interpretar texto quando o autor está ausente. A própria existência da hermenêutica é um reconhecimento de que Deus não está no meio de nós, ou pelo menos que sua presença não é diferente da sua ausência. Quando discordamos sobre algo que está escrito, podemos invocar o autor e pedir que esclareça para qualquer número de pessoas ao mesmo tempo e pelos mesmos meios.

O fato de que duas pessoas, cristãos ou não, precisam debater sobre qualquer aspecto de Deus é o reconhecimento público de que Deus não existe ou não liga para a questão. E este é sempre o caso, então deus não dá a mínima para bosta nenhuma. Então por que eu deveria ligar para religião?

O velho testamento não é um manual atemporal

Para referência, meu comentário aqui é principalmente sobre o que Tim Mackie vomita principalmente entre os minutos 16 e 22. Ele alega que as pessoas presumem que a Bíblia deveria ser lida de forma linear, do começo ao fim, como se escrita particularmente a elas.

Céticos não presumem que a Bíblia Hebraica (ou Velho Testamento, OT daqui em diante) contém regras que se aplicam a cristãos hoje. Alguns certamente acreditam que sim, mas isto nada tem a ver com qualquer crítica das regras contidas no VT. Quando eu olho para as leis e estórias no VT, as questões que eu tento responder são:

  • Do que Deus gosta?
  • Do que Deus não gosta?
  • As preferências de Deus mudam com o tempo?
  • Deus introduz novo conhecimento? Esse “conhecimento” é falso?
  • As preferências de Deus são diferentes das preferências das pessoas que falam em seu nome?

E tudo isso já presumindo a perspectiva cristã: que Deus existe, que a Bíblia é verdadeira quando o descreve, que estórias escritas como história são reais e por aí vai — aliás, a maior parte disso é baboseira.

Aí olhamos para as estórias e regras e concluímos que isto não é, e nunca foi, um ser justo ou bom; estas coisas só podem ter vindo de um sociopata da Idade do Bronze.

Olhemos para um único dentre vários exemplos:

Quando pelejarem dois homens, um contra o outro, e a mulher de um chegar para livrar a seu marido da mão do que o fere, e ela estender a sua mão, e lhe pegar pelas suas vergonhas, então cortar-lhe-ás a mão; não a poupará o teu olho. (Dt 25:11-12, vergonhas = genitália)

Nós céticos não estamos dizendo que cristãos deveriam fazer isto hoje. Só defendemos a moral objetiva. Você e eu sabemos que essa lei é errada. Se alguém deveria saber disso melhor que todos, seria Deus. E estas palavras são atribuídas diretamente a Deus.

Claro, alguém poderia ter influenciado o texto. Quero dizer, o bárbaro que pensou nesta lei não foi inspirado por Deus naquele exato momento. Então ou Deus nunca ficou sabendo, ou nunca se importou o suficiente para consertar as barbáries ditas em seu nome. Mas como poderíamos responsabilizar o Deus onisciente por deixar uma coisa pequena dessa passar?

Portando ou Deus é um bárbaro, ou não liga para o que dizem a seu respeito. Hermenêutica nenhuma pode mudar isso. Só a ignorância pode. Cristãos podem cobrir os ouvidos e fingir que estas leis nunca foram dadas, e só olhar para as coisas bonitas que Deus diz (ou foi alguém colocando mais palavras na boca dele?) e esperar os evangelhos — e depois falo da merda que eles contém.

Não, nós céticos e eu em particular não pensamos que o VT contém regras para todas as épocas. Só as vemos como o produto de trogloditas.

Publicado em Contra-apologética, Desabafo, Religião | 2 Comentários

Como melhorar o feminismo, parte 3: o papel da mulher

Alerta: esta publicação inclui somente fontes feministas ou neutras. Mesmo que delas discorde, não argumento contra a validade de tais fontes nem verifico se as suas bases são sólidas, e sim tento mostrar para onde leva o caminho que elas propõem. Neste momento, fica a cargo do leitor ler e avaliar as fontes aqui citadas e as fontes destas.

nurachi-corso-casalingheA terceira maior busca, novamente na minha opinião, do feminismo é reposicionar a mulher na sociedade. Historicamente sendo responsável pelo lar enquanto o homem fica a cargo da proteção e sustento da família, a mulher que escolhe outro caminho — o desenvolvimento profissional e individualismo fora da família — encontra dificuldades injustas, as quais já mencionei anteriormente. Ou, nas suas próprias palavras:

Os movimentos feministas são movimentos políticos com a meta de ter igualdade de direitos entre homens e mulheres, garantindo a participação da mulher na sociedade de forma igual aos homens, na política, nas empresas e mesmo em casa. (grifo meu)

Finalmente, o símbolo da emancipação feminina é levar a mesma vida “bem sucedida dos homens”: trabalhar para ganhar dinheiro e aproveitar a vida.

E se a mulher não quiser?

Problema da mulher. Para o feminismo empoderar as mulheres, é preciso que a mulher trabalhe. Mulher e homem têm que trabalhar com renda. Mulher e homem têm que cuidar da casa e criar os filhos. E se alguma mulher quiser ser bonita, casar e se estabelecer como a cuidadora do lar, de forma a dar mais liberdade para que o marido se esforce mais intensamente em uma profissão, ela também é machista.

Para o feminismo alcançar seus objetivos, importa que as mulheres defendam o feminismo, não que o feminismo defenda as mulheres. A mulher tem que fazer o que o feminismo manda.

Afinal, o que é o feminismo?

O feminismo, conforme vimos:

  1. Precisa controlar as relações de trabalho
  2. Precisa controlar o mercado
  3. Precisa controlar o que as pessoas querem fazer com suas vidas

O feminismo, portanto, não é simplesmente um movimento em defesa dos direitos das mulheres. Ele é um movimento político, como afirma Márcia Tiburi, que precisa seguir as doutrinas comunistas para alcançar seus objetivos, intencional ou acidentalmente. E para responder à pergunta que dá título a esta série, para melhorar o comunismo é essencial divorciá-lo do autoritarismo político e do marxismo social.

Se o leitor quiser ir mais fundo, fique à vontade. Pesquise o que pensadores feministas afirmam e o que defendem. E prove-me errado em uma coisa para que eu reconsidere esta conclusão: mostre-me uma única feminista que defenda esses três princípios que apresentei (falta de representatividade de 50%, diferença salarial, e a necessidade de a mulher ter as mesmas vontades dos homens) e que defenda o liberalismo clássico (essencialmente escola austríaca de economia e ética com base em liberdades individuais) ou que no mínimo seja contra o socialismo. Eu procurei, e não achei uma única instância em que a pessoa não discorde de pelo menos dois dos três princípios.

Minha dica portanto é, para resumir: explore junto com seu interlocutor que ações são necessárias para alcançar seus objetivos, e quando essas ações têm fim. Até a próxima!

Publicado em Contra-apologética, Feminismo | Deixe um comentário