Mentirosos profissionais

Pastores e apologistas mentem. Glyn Barret mentiu sobre ter participado brilhantemente de um debate com um ateu, Ravi Zacharias mente sobre suas credenciais, e eu já falei sobre o charlatanismo de William Lane Craig. Eu poderia passar horas mencionando casos em que autoridades eclesiásticas evangélicas (pastores, bispos, presbíteros e cia.) mentem sobre seu caráter ou sobre fatos que presenciaram. Mas para isso você pode ir até o site do Paulo Lopes e conferir quantos deles estão até indo para a cadeia.

Depois de anos de reflexão, eu passei a entender melhor quão prevalente é a desonestidade para líderes evangélicos. Ela chega ao nível doutrinário. E desta vez eu não vou ocultar nomes. Porque esta não é só uma carta de desabafo, mas também um desafio à honestidade, ou melhor, à ausência dela que eu pude conferir em primeira mão por várias vezes. O tipo de desonestidade que se espera de um fiel, mas não de um líder. Ou não se esperaria sem saber que o líder é, na verdade, um charlatão.

Quando eu estava no meu processo de desconversão, eu procurei o meu então pastor (título que hoje carrega somente descrédito para mim) para lhe mencionar as coisas que eu estava descobrindo e como eu poderia lidar com elas. Por exemplo, o fato de que não se sabe quem escreveu os evangelhos (e a certeza de que não foram os personagens que lhes dão nome), e ao tentar conversar com o rebanho a respeito disso, a reação de Fernando dos Reis Santos, da Igreja Missionária Resgate de Campinas foi: eu sei, mas eles não têm maturidade para lidar com isso. Sim, caros, seu pastor mente descaradamente para vocês. Ele sabe de coisas que podem fazer com que vocês dêem menos crédito à Bíblia e as esconde conscientemente e intencionalmente. Não só isso, como a reação do então pastor Luiz Carlos Prado, ao saber que eu havia descoberto a farsa que o cristianismo é, foi: então o que você está fazendo aqui? A mesma coisa que faço desde então, mas a intenção da igreja não é descobrir a verdade, e sim espalhar o evangelho, infectar a população como um vírus.

Mas não é só a igreja que eu frequentei que é cheia de mentirosos. Pastores que posam como intelectuais são os mais mentirosos. Um dia sentei-me para conversar com o pastor (ugh) Ricardo Agreste, da comunidade Chácara Primavera, logo depois da minha apostasia, quando ainda estava sem direção. Ele viu que não poderia mentir para mim, que eu já tinha ido longe demais no papo furado de sempre. Ele recomendou que eu lesse um livro de outro mentiroso, Tim Keller (The Reason for God), de mente aberta, o que fiz depois de alguns meses. Mandei-lhe uma avaliação de 35 páginas, a primeira com a única coisa boa que ele dizia e as outras com todas as mentiras que a contradiziam, e fui ignorado. À minha esposa ele disse que não valia a pena conversar comigo porque eu estava inflexível e sem disposição para ouvir. A palavra certa é esperto, caro pastor. Sim, ele mentiu à minha esposa porque viu que eu sabia demais.

Estes “homens de Deus” são mentirosos profissionais. Eu tentei ser um também. Tentei por alguns meses mentir sobre as farsas que vinha descobrindo, mas eu tenho consciência. Eu não consigo imaginar como seria tirar meu farto sustento do trabalho dos outros, muito menos sabendo que eu não o teria se compartilhasse tudo que sei ou encorajasse o convívio com quem sabe mais que eu. Pois é exatamente o que fazem esses mentirosos: eles enganam pessoas para fazerem o que eles acham que é certo e enriquecerem enquanto posam como autoridades morais e espirituais.

E você saberá que eles estão mentindo desta forma: nenhum deles encorajará você, que pensa que os conhece, a ter uma conversa honesta comigo. Tudo que você poderá fazer perto de mim é “testemunhar” por horas a fio, e ir embora acreditando que a palavra só precisa ser plantada para dar fruto; isso se a instrução não for ainda mais desonesta: ore, pois ele está sob influência do Diabo e nenhuma palavra sua poderá mudar isso. Esta será a marca da desonestidade que provará o que digo a respeito deles.

Mas eu não poderia acabar sem a possibilidade de refutação. Talvez eu esteja errado. Talvez eles estejam dispostos a conversar. Talvez eles não sejam intencionalmente mentirosos, e estejam só ingenuamente enganados — ou talvez eu esteja. E é exatamente isso que proponho: que qualquer crente, líder ou pastor (inclusive os que mencionei) sente-se comigo para conversar sobre a realidade.  E que esta conversa, feita de forma pacífica e integralmente registrada, esteja disponível para qualquer pessoa interessada. Ao vivo, via e-mail, Hangout, qualquer coisa serve. Contanto que não seja mais uma forma de apresentar uma visão unilateral e mentirosa sobre a realidade e o que um (ou este) apóstata sabe ou pensa.

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Por que a Teoria da Evolução é rejeitada por apologistas “a priori”

Sempre que encontro-me falando sobre descrença em divindades com alguém, especialmente cristãos, sempre há uma pergunta que vem nos primeiros minutos: “então você acha que nós viemos do nada?”, se referindo tanto ao surgimento da vida quanto da espécie humana. Hoje eu gostaria de elucidar o porquê disso acontecer. Para ser suscinto, intencionalmente suprimi toda citação bíblica formal, mas posso fornecer nos comentários sob demanda caso o leitor desconheça os detalhes.

toc-toc

Quando alguém se converte, normalmente acontece uma festa épica, um sentimento de amor profundo, de certeza de não estar só. Mas esse sentimento é um contrato e nunca são lidas as letras pequenas. Você acaba de ser salvo, mas salvo do quê? Ao ser salvo, você acaba de assinar embaixo da doutrina do pecado original. Não é que você fez coisas erradas e precisa de alguém para encobrir seus atos. Você é podre e precisa de alguém para lhe purificar. A corrente doutrinária começa aqui, pelo fim.

Eis a sequência cronológica da doutrina da salvação: Deus criou Adão e Eva perfeitos, mas eles pecaram e “estragaram” a linhagem humana. Todos os seus descendentes, uma vez expulsos do Éden, nascem com o pecado dentro de si, o que afasta o homem de Deus (“todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”). Esse pecado habita na alma do homem, que é parte essencialmente envolvida em escolhas morais e a que sobrevive à morte do corpo para ser julgada e levada ao seu destino final — céu ou inferno. Então a salvação depende de que:

  1. a humanidade seja uma criação especial de Deus, separada do resto da natureza
  2. todos os seres humanos descendam de um casal, Adão e Eva
  3. a natureza do ser humano seja no mínimo dupla, corpo e alma.

Aí vem a ciência com essa teoria de evolução, que através do estudo da natureza chega a conclusões totalmente inversas à doutrina da salvação:

  1. a humanidade é uma continuação da natureza, não diferente dos outros animais
  2. toda espécie, incluindo a humana, não emerge através de indivíduos e sim de grupos geograficamente isolados (ver Cladística ou Cladologia)
  3. moralidade e comportamento social são características evoluídas (herdadas), e portanto físicas.

jesuscampA Teoria da Evolução não pode ser aceita por alguém que aceita a doutrina da salvação a priori, ou seja, antes de avaliar seu mérito, simplesmente porque ela chega a conclusões que contradizem a dita doutrina. Mas o apologista (defensor da racionalidade da doutrina) pode cair em descrédito se disser que esse é o motivo. Então ele inventa (ou propaga) todo tipo de mentira que repouse sobre a ignorância científica da sua audiência:

  • A evolução não explica a origem da vida (como se esse fosse seu objetivo)
  • A Teoria da Evolução é “só uma teoria” (como se Teoria em ciência fosse o mesmo que hipótese)
  • Darwin viu que a evolução era um engano no fim da vida

… e por aí vai. E ao invés de expôr o porquê de essas e tantas outras afirmações serem mentiras, eu gostaria de convidar você, caro leitor, a avaliar o porquê de você rejeitar uma crença: se é porque ela vai contra outras crenças que você já possui e não consegue explicar, ou porque avaliou o mérito dela independentemente do que já acredita e viu que não é possível concluir o que é afirmado.

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Identidade e suas associações indevidas

O que você é? A resposta e esta pergunta é o que chamamos identidade. A identidade é, normalmente, o que um indivíduo interpreta como sendo o que lhe forma. Tudo que faz parte da identidade de alguém é visto como imutável, do mesmo jeito que seu CPF não muda. Mudanças na identidade de alguém são mal vistas: alguém que vê o time do coração como parte da identidade critica quem passa a torcer para outro time, mesmo que seja o seu: vira-casaca é o mais amigável dos rótulos dados. Para quem relaciona o time à identidade, alguém que troca de time não é tão íntegro quanto alguém que torce para o mesmo time a vida toda (mesmo que seja o time adversário). Provavelmente por isso que os times que não ganham muito continuam tendo torcedores — a fidelidade ao time é uma virtude, a marca de um torcedor íntegro.

A mesma associação normalmente acontece com diversas outras características que a pessoa atribui a si: classe social, religião, estado civil, e por aí vai. E associar-se a algo para criar uma identidade, embora não seja algo intrinsicamente errado, deve ser feito com cautela. Mesmo que você não esteja disposto, sua identidade muda o tempo todo.

Há muitos anos eu era um adolescente. Minha identidade naquela época era totalmente diferente, física e mentalmente, de forma que não podemos afirmar que eu sou aquela pessoa. Nosso conhecimento, compleição física e convicções mudam, e com isso nossa identidade. Mudança de identidade é natural, e de fato essencial para o amadurecimento em todas as fases da vida.

Diga-me com quem andas

Eu classifico as partes da identidade de alguém como associações internas e externas. As associações internas são aquelas que partem do indivíduo: seus valores, habilidades e traços físicos. E as externas são aquelas supridas por terceiros: religião, time de futebol, empregador, nacionalidade. É difícil expressar associações internas, mas é muito comum existirem grupos formados a partir delas, principalmente grupos de interesse, como esportes, jogos de tabuleiro, geeks e grupos de apoio. E assim uma associação interna se disfarça de externa: alguém é membro do partido X ao invés de portador dos valores que percebe no partido X ou projeta sobre ele.

Existe um risco em associações externas: você pode não conhecer completamente aquilo a que está associando sua identidade. Alguém pode, por exemplo, se identificar como partidário do partido X. Note que estou tratando de alguém que não só é filiado ao partido X, mas que torna isso parte do que ele é. E digamos que algo acontece no partido X que é contrário à visão que esse alguém tem dele. Não seria surpresa se a pessoa partisse em defesa do partido independentemente dos fatos, ou até distorcendo os fatos.

Ao mesmo tempo, imagine que há outra pessoa que toma o mesmo aspecto, ser partidário, como parte da identidade e projeta isso sobre o indivíduo anterior. Quando os podres do partido X são revelados, a mesma podridão é projetada sobre a identidade do partidário. A partir desse momento, cessa-se toda esperança de diálogo racional entre os indivíduos; qualquer forma de crítica é vista como ofensa, qualquer fato contraditório é negado, e toda mudança de opinião é vista como traição.

Mesmo que eu esteja usando exemplos vagos, você com certeza consegue identificar pessoas próximas a si que tornam essas associações externas parte da sua identidade, do time de futebol, à religião, à afiliação política. Mas há esperança…

O caminho da suspensão temporária

De forma transitiva ou intrínseca, é inevitável criar sua identidade através de associações externas. Alguns ou muitos de nossos valores são inspirados por grupos dos quais fazemos parte, de religião a agremiação política ou ideológica. Mas devemos estar prontos e nos acostumarmos à pratica de temporariamente dissociarmo-nos destes elementos externos para os examinar de forma criteriosa.

Se você é religioso, não significa deixar de acreditar na religião para avaliá-la. Significa encarar positivamente qualquer que seja o resultado de sua análise criteriosa: se ela se sustentar, sua confiança se solidifica mais; se não, você deixa uma crença inválida para trás. O que frequentemente acontece é o medo de deixar algo que é visto como parte de si, quer por seu valor intrínseco quanto pelas consequências previstas: ser visto como inimigo, ou imoral, racista, etc.. A meu ver, somente quando alguém está disposto a suspender temporariamente uma associação externa de identidade (ou quando essa associação não existe) pode haver um diálogo racional a respeito daquilo. E só através do diálogo racional (mesmo que interno) pode haver progresso real.

Saiba mais aqui:

Entendendo o conceito de identidade: https://en.wikipedia.org/wiki/Self-concept se souber inglês, ou https://pt.wikipedia.org/wiki/Identidade

Julia Galef sobre disposição mental (legendas em português): https://www.ted.com/talks/julia_galef_why_you_think_you_re_right_even_if_you_re_wrong?language=pt-br

Projeção, a forma como percebemos a nossa identidade no outro: https://pt.wikipedia.org/wiki/Proje%C3%A7%C3%A3o_(psicologia) (nota: não concordo com o mecanismo freudiano, mas reconheço o fato como mecanismo de formação de opiniões)

 

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Prefiro ter paz a razão (sério?)

paz_x_razao

Que coisa linda! É tão bom poder viver sem discussões, sem desavenças, sem discordâncias. Ninguém tem que se meter no que eu sigo, questionar minhas crenças ou escolhas. Eu sou um ser empoderado e independente… e possivelmente idiota.

Espero ter sua atenção agora. O que significa “ter razão”? A interpretação mais bondosa que posso dar a isso é “estar certo”. Então o pensamento é: “eu prefiro não ter um baita trabalho para mostrar que ele está errado à toa e, ao invés disso, escutar e ignorar”. O que esta posição ignora é: você pode estar errado; eu posso estar errado. E sabe o que é a coisa mais mágica que acontece quando você descobre que está errado? Você deixa de estar errado.

Quando alguém debate, discute, explora, questiona um assunto, o objetivo não deve ser a proteção de uma crença possuída, e sim a busca pela crença compatível com a realidade. Quando alguém não busca tais crenças, existe um potencial em tomar decisões incompatíveis com relações de causa e efeito que levariam a um resultado desejado, ou seja: você pode se ferrar. Se você acredita que alimentos transgênicos são perigosos e prefere não discutir isso, mas ter paz consumindo orgânicos, você pode estar desde gastando dinheiro à toa até consumindo um alimento menos saudável do que o transgênico (tem a ver com a necessidade de agrotóxicos, posso explicar sob demanda).

O valor, portanto, de estar certo ao invés de buscar a paz (interior) é exatamente o de não correr o risco de tornar-se voluntariamente ignorante, suscetível à influência de quem oferece paz em troca de proveito próprio, como políticos e charlatães. Do contrário você prefere a paz a perceber que está errado.

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O mito da meritocracia (resenha)

Meio que viralizou e é mais uma besteira de cunho ideológico. Vamos direto ao ponto, começando com a fonte:

A idéia é refletir no jogo os efeitos da vida real. Mas não é bem assim… os efeitos na vida real são consequências de atos individuais. E esse nem é meu maior problema com esse vídeo idiota. Ele simplesmente diz que existe um problema, sem propor explicitamente uma solução. Mas vamos à solução: todos jogam com a mesma regra, e recebem a mesma quantidade de recursos no início do jogo. Igualdade de oportunidade. Certo? Errado.

Permita-me, caro leitor, consertar o banco imobiliário da vida real: os jogadores começam o jogo com as mesmas regras e com a mesma quantidade de dinheiro; só que a cada duas horas de jogo, os jogadores dão lugar a seus respectivos sucessores, que continuam o jogo com os recursos que seus predecessores conseguiram. O jogo será justo para as gerações após a primeira?

Se sua resposta for não, você é um estatista. A solução que você sugere, implícita ou explícita é que o Estado cuide da vida de todos, garantindo que todos recebam a mesma educação e nenhuma herança.

Se sua resposta for sim, você entende que a vida não é justa, e que o Estado não deve limitar os recursos e bens que você destina para a formação dos seus filhos.

Igualdade de oportunidade significa que o Estado não impõe limitações artificiais sobre o que os cidadãos podem fazer, em especial sobre sua ascensão social. O Estado reconhece que algumas pessoas nascerão na pobreza e outras na riqueza, porém não limita o acesso aos recursos pelo rico, nem a ascensão social ao pobre. No exemplo que construí, o jogador que herdar mais recursos dificilmente terminará sua rodada em último lugar, assim como o que herdar menos recursos dificilmente terminará sua rodada em primeiro lugar. Mas os esforços deste podem levá-lo a uma melhor posição no final da rodada, assim como a incompetência daquele pode permitir que outro lhe tome a liderança. Isto é igualdade de oportunidade, que alguns chamam de meritocracia. O contrário disso é a divisão de uma sociedade em castas ou totalitarismo.

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Números não existem

Quando se fala sobre coisas que existem ou não e o sobrenatural, é comum ouvir-se o argumento de que os números provam que há uma dimensão que vai além do material — dualismo e idealismo. E se números podem existir fora da dimensão material, então outras coisas também podem.

Esta idéia, não é de se surpreender, vem de Platão e outros filósofos antigos. Especificamente Platão descreve o mundo como algo que reflete um plano superior. Um artista tenta reproduzir e identificar coisas belas, mas o verdadeiro filósofo busca a essência da beleza, e não coisas que refletem esta forma. E todos os conceitos humanos, dos números à justiça, existem nesse que é chamado de plano ou dimensão das formas.

Nesse mesmo compasso, números são entidades não-físicas. O número 7 existe, podemos realizar operações matemáticas com ele, mas não podemos apontar para algo que seja o número 7. Da mesma forma a mente, por exemplo: podemos ver a mente operando, tomando decisões, mas não há algo para que possamos apontar e dizer esta é a mente. No máximo podemos apontar para o cérebro e dizer que a mente está ali. Mas o cérebro não é a mente, visto que um cérebro sozinho (sem vida) não produz qualquer efeito da mente (7 cachorros não são o número 7).

Mas se começarmos a expandir esse conceito, vemos que existem muitas outras coisas que existem nessa dimensão das formas: família, por exemplo. Você e seus parentes, quando considerados juntos, são chamados de família. Mas vocês não são família, e sim indivíduos. Nós conseguimos pensar na família de forma independente do indivíduo, considerar leis sobre a família. Podemos pensar em um exemplo após o outro de entidades imateriais, e a situação fica cada vez mais estranhas.

Que tal então inverter a forma de ver esses conceitos? Sempre que pensamos em algo material, ou em um conjunto de coisas materiais, surgem estas propriedades adicionais. Sempre que eu tenho indivíduos que dividem a mesma ancestralidade, surge a propriedade “família” neste conjunto. Sempre que eu tenho um conjunto de indivíduos, a quantidade deles surge como propriedade do conjunto. E quando o conjunto se desfaz, a propriedade desaparece. E eu consigo pensar na propriedade de forma abstrata, da mesma forma que eu consigo pensar no conjunto ou até mesmo nas propriedades inerentes ao conjunto (ancestralidade comum, repetição, etc.) para que essa propriedade transitória possa ser trabalhada conceitualmente.

Como essas propriedades surgem somente quando temos um conjunto de elementos ou de outras propriedades, elas são chamadas de propriedades emergentes. Números, família, a mente, e muito mais podem ser descritos como propriedades emergentes.

Voltando aos números, uma vez que são propriedades emergentes de conjuntos, sua “existência” pode ser demonstrada exatamente através da sua emergência em conjuntos. Deixe-me dar um exemplo mais claro: o número 7 existe? Sim, ele é uma propriedade emergente de conjuntos com essa quantidade de elementos. Por exemplo: [ 😂 😂 😂 😂 😂 😂 😂 ] é um conjunto de símbolos repetidos. A quantidade de vezes que esse símbolo aparece é 7. Esta quantidade, este número, pode aparecer em outros conjuntos e podemos conversar sobre o número 7 independentemente de qualquer conjunto, mas o número 7 somente existe de forma concreta quando temos um conjunto. Então o número 7 (e qualquer outro) pode ser demonstrado, criado, destruído e conceitualizado no plano material. Mas ele não pode ser demonstrado existir como uma forma platônica.

O número 7 não existe num plano superior, assim como todas as outras propriedades emergetes que conhecemos. Desta forma, a “existência” de números e propriedades emergentes indica que a única dimensão em que podemos interagir é a material.

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O Poder Corrompe(?)

Especialmente em tempos de Lava-Jato, esta é uma frase muito repetida. Mas ela pode estar errada. Afinal, de onde vem e para que serve o velho ditado, “o poder corrompe”? A quem beneficia ele ter crédito, independentemente da sua veracidade? Eu me proponho a avaliar estas questões, e espero que você, leitor, faça esta exploração comigo.

As diferentes visões sobre poder

spiderman

Herói ou futuro vilão?

Eu só comecei a ouvir que “o poder corrompe” no final da minha adolescência, até onde me lembro. Até então, poder era algo que deveria ser reservado aos virtuosos. Tio Ben, do Homem-Aranha, expressa bem essa idéia: “Com grande poder, vem grande responsabilidade”. Também nas histórias em quadrinhos, Superhomem recebe extraordinário poder e cresce como o mais nobre ser na Terra. Se voltarmos mais ainda, a estória de Robin Hood gira em torno da necessidade de destronar João, um déspota. Se imaginarmos esses personagens pensando que “o poder corrompe”, as estórias seriam bem diferentes: Tio Ben aconselharia Peter a não usar seus poderes; os Kent abandonariam Clark (Kalel) antes que se tornasse um vilão. Claramente eles não foram imaginados por alguém que considerava o poder uma força maligna. A existência do poder, em todas essas estórias, é inevitável; a importância é dada em fazer com que ele esteja nas mãos de quem se dispõe a praticar o bem.

Mesmo se considerarmos pensadores mais eruditos, Platão já propunha a mesma consideração em A República: a classe da qual sairiam os governantes deveria ser preparada e educada para ser a mais virtuosa dentre o povo. Ao mesmo tempo, ele parece namorar com o conceito de que o poder corrompe, propondo que esta classe não seja criada na riqueza (se alguém quiser colocar as citações, fique à vontade; eu não tenho uma boa ferramenta de busca para vasculhar essa imensa obra). Mas mesmo Platão restringe a idéia de corrupção associada ao poder às mentes em formação, reforçando o conceito de que o poder deve estar nas mãos dos sábios — “enquanto os filósofos não forem reis e reis, filósofos, o povo não terá paz”.

Surge um ditado

Um ditado não precisa ser verdadeiro para pegar. Basta que seja dito por alguém famoso. E quem tornou famoso o nosso ditado foi Lord Acton, político britânico do século XIX. Acton não foi o inventor do ditado, meramente ecoando uma idéia presente na política britânica desde pelo menos o século anterior a ele.

O fato de o ditado ter se popularizado na política talvez explique por que ele é usado principalmente ainda neste meio. E o fato de os corruptos serem mais visíveis exatamente onde eles têm mais poder ajuda a propagar a idéia. Em O Caminho da Servidão, Frank Hayek destaca que na política convém exatamente aos corruptos que esta idéia seja prevalente. Afinal, se o cidadão honrado evita chegar ao poder absoluto parra não se envolver com a corrupção, o espaço fica aberto para aquele que não vê problema nisso. E assim, ao ver cada vez mais corruptos no poder, o ditado ganha força proporcional.

Daqui em diante

Aqui começo um pouco de especulação, embora com muita base teórica. Acredito que a popularização da idéia de que o poder corrompe vem de um erro cognitivo, uma falácia lógica conhecida como post hoc, ergo propter hoc (depois disto, portanto por causa disto). Suponhamos que Fulano seja um cidadão comum; depois que Fulano torna-se prefeito, ele começa a desviar recursos da cidade; conclui-se que foi o cargo de prefeito que fez com que Fulano cometesse o crime, pois não o faria se não o fosse. Logo, o poder corrompeu Fulano.

Compare com o caso da dança da chuva: os índios de uma aldeia precisam que chova no início da primavera para plantar seus vegetais; quando não chove logo, eles começam a fazer a dança da chuva até que chova. Às vezes demora mais, às vezes menos, mas sempre que fazem a dança, chove. Podemos dizer que, porque choveu depois de dançarem, a dança causou a chuva? Espero que sua resposta também seja “não”.

Alguém pode argumentar que Fulano não seria capaz de fazer o que hipoteticamente fez sem o poder adquirido. Mas uma pessoa não seria capaz de pendurar um quadro sem um martelo; deveríamos dizer que martelos fazem com que pessoas coloquem pregos em paredes? Claro que não! Assim como um martelo não é um agente, algo com uma vontade ou capaz de impôr vontade a alguém, o poder (nas suas diversas formas) também não o é. O poder é uma ferramenta que obedece a vontade daquele que o maneja.

Agora quero que considere, em ordem inversa, o que acabo de expôr; “o poder corrompe”:

  1. é uma idéia errada
  2. beneficia a perpetuação da corrupção em posições de poder
  3. desencoraja sua busca por pessoas de bem
  4. deve estar nas mãos de pessoas com sua ética solidificada

Sugiro fortemente que você deixe de usar este ditado, e corrija quem quer que o diga. O poder é necessário para grandes feitos, e vem acompanhado de grande responsabilidade. Tio Ben 1 x 0 Lord Acton.

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Querido calvinista

Vamos conversar sobre algo que talvez eu entenda errado ou de forma incompleta, e muito controverso. Então quero primeiro expor o que eu entendo a respeito de calvinismo, para então tentar conversar sobre ele.

Calvinismo, livre-arbítrio e destino

Com o objetivo de ser o mais suscinto possível, tentarei restringir minha exposição à visão calvinista de livre-arbítrio e como isso afeta a história da humanidade e de indivíduos específicos, reais ou hipotéticos.

“Livre-arbítrio” geral diz respeito à habilidade de decidir entre possíveis ações. Existem diversas hipóteses a respeito da natureza do livre-arbítrio, mas a posição calvinista é de que ele não existe em qualquer esfera.

Esta idéia da soberania de Deus era a doutrina mais central de Calvino. Ela significa que nada é deixado à sorte ou livre-arbítrio humano. Foi isto que o levou a colocar tamanha ênfase na doutrina da predestinação — a idéia de que Deus, não nós, decide se seremos salvos.

O plano divino é, portanto, universal: ele envolve todos os aspectos da vida humana e todos os indivíduos que já existiram ou estão por existir — não há um fio de cabelo que caia da sua cabeça sem que Deus saiba ou planeje. É como se nossas vidas fossem filmes que Deus já assistiu trezentas vezes e continua curtindo ver.

Que tipo de deus é esse?

Eu entendo, porém, que o calvinista não responsabilize Deus por tudo que acontece — só pelas coisas boas, uma vez que as coisas ruins acontecem por causa do pecado. Mas quero que meu amigo entenda que não-calvinistas vêm da seguinte forma: se algo ruim acontece e Deus é calvinista, ele sabe o que vai acontecer sem sua intervenção e incluiu este fato em seu plano antes que ele ocorra. Então ele planejou ou permitiu todas as mazelas da humanidade, passadas, presentes e futuras.

A soberania de Deus, dentro do Calvinismo, significa que não há forma de escapar ao chamado “problema do mal” postulado por Epicuro:

  • Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.
  • Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.
  • Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

A única forma de escapar do paradoxo é acreditar que Deus não se importa com assuntos humanos. E esta é, meu caro calvinista, a causa de existirem não-calvinistas: há quem ache esse deus sem coração. Sua lógica, como a da inteligência artificial V.I.K.Y. de Eu, Robô, é inegável, porém sem empatia.

Veja o caso real de uma pessoa que conheço — e aposto que há dezenas de casos semelhantes. Ela nasceu surda por conta de uma complicação na gravidez; algo totalmente acidental, do ponto de vista humano. Não acompanhei pessoalmente sua infância e adolescência, mas nos dez anos que passei na mesma igreja que ela vi milagreiros e missionários orarem e suplicarem com ela por cura para sua surdez, espero que com sinceridade e fé de que Deus queria dar essa alegria a ela. E, uma vez que Jesus prometeu que aquilo que fosse pedido em seu nome seria feito, um pedido tão nobre só poderia ser atendido. Mas não foi. Para o calvinista, parece-me lógico que Deus simplesmente queria que ela continuasse surda, que isto era o melhor para ela. Mas recentemente, ela fez implante coclear que lhe permitiu ouvir. Algo que, para ela e todos que a amam, foi maravilhoso. Mas, uma vez que Deus queria que continuasse surda, parece-me que teria sido, para o Deus calvinista, um ato de rebeldia.

Claro, o calvinista pode dizer que esta surda não agiu livremente ao conseguir o implante coclear. Mas esta parece-me uma versão estranha dos fatos: quando ela queria e pediu para ouvir, embora Deus pudesse atender ele resolveu não fazê-lo; então ele resolveu fazê-la pensar que decidiu resolver o problema sem ele? Eu entendo a sua lógica, mas que tipo de plano é esse?

Ou então considere o câncer infantil: segundo o INCA, o câncer (em suas diversas formas) afeta mais de dez mil crianças por ano só no Brasil, e pelo menos 20% delas não podem ser curadas, resultando na morte de mais de duas mil delas. E isso porque Deus tem um plano. Eu entendo sua lógica. Talvez haja um bem maior que advenha disso — talvez, muito remotamente. Mas que tipo de plano inclui matar duas mil crianças em meio a tremendo sofrimento?

 

Espero, amigo calvinista, que você entenda que não é por discordar da sua interpretação da Bíblia que outros cristãos discordam de você. Espero que entenda que o seu deus é, para outros cristãos e para humanistas, a personificação da falta de interesse pelo ser humano. Esse deus não é melhor que V.I.K.Y., e com certeza moralmente inferior a qualquer pessoa de bem. Como ele poderia ser o autor da moral? Deixando de lado a falta de senso em tal ato por um instante, como poderia, sendo em tal dimensão desconectado do sofrimento humano, oferecer um sacrifício pela humanidade? Sinto muito, caro calvinista. Eu sei, como estudioso pouco erudito da religião cristã, que seu deus não existe. Mas se eu não soubesse, esperaria que ele não existisse. Não entendo como você consegue viver como se ele fosse seu soberano.

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“Por acaso” não é resposta

Quando alguém diz que rejeita uma explicação, em qualquer assunto, a primeira zombaria que escuta é achar que algum efeito acontece ou aconteceu “por acaso”:

— Então você acha que o universo surgiu por acaso?

— A vida então surgiu por acaso?

— A s pessoas vão começar a se comportar bem por acaso?

— E o dinheiro vai aparecer no seu bolso por acaso?

Estes são só alguns dos exemplos que estamos acostumados (em maior ou menor frequência) a ouvir. O pior é que algumas pessoas de fato defendem a posição zombada.

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“Aconteceu por acaso” não é resposta. A resposta correta é “eu não sei”. Talvez existam pessoas que acreditam que o acaso é uma força da natureza e que, se uma coisa for feita repetidamente infinitas vezes, o resultado pode ser diferente de vez em quando. Eu não falo por estas pessoas. A partir daqui, falo por mim e por quem mais concordar comigo.

Para ilustrar o que quero dizer, imagine-se jogando cara ou coroa. Às vezes sai cara, às vezes coroa, mas você dificilmente consegue acertar o resultado. E o que faz com que a moeda caia de um lado ou outro? A resposta mais simples é: o acaso; mas esta não é uma resposta satisfatória. Se considerarmos a Física clássica, podemos imaginar o que influencia no resultado de cada jogada: a força (linear e angular) com que a moeda é lançada, a altura à qual ela é capturada e a resistência do ar são alguns fatores a se considerar. Não temos como medir e calcular esses fatores quando a moeda é lançada para prever o resultado, nem controlar a força de lançamento ou a altura de captura para controlar o resultado. E não poder prever ou controlar o resultado de uma interação na realidade tem nome: ignorância. Portanto, dizer que o resultado do cara ou coroa é determinado ao acaso ou por sorte é um atalho para não alegar ignorância.

Admitir ignorância não é ruim. Não há problema em dizer “eu não sei”. É a porta de entrada para a resposta real. Nada acontece por acaso. Mas também nem tudo acontece com um propósito. Uma coisa que percebi algum tempo depois de descobrir que eu não sei muita coisa, e que dava apelidos para minha ignorância, foi que as outras pessoas fazem o mesmo. Para muitos, as coisas acontecem não só por acaso, mas também porque Deus quisdestinoa vida é assim… todos apelidos para a sua própria ignorância.

E neste momento em que você se descobre em um planeta coberto 70% por ignorância, uma questão se torna essencial: como eu sei que estou pisando em terra firme? Como saber que algo que você pensa saber não é só mais um apelido para mais ignorância? Como saber se o caminho que me é apontado leva a uma ilha ou outro mar? A resposta a esta questão muda tudo.

Então eu lhe pergunto: para quantas perguntas a sua resposta é uma desculpa para não admitir a própria ignorância?

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