Qual a religião de Mário Sérgio Cortella?

Uma das páginas mais visitadas neste humilde blog é sobre o filósofo Mário Sérgio Cortella. E o motivo disso é que as pessoas querem saber no que ele acredita, visto que a pergunta que entitula esta publicação é exatamente o que as traz aqui. E por que alguém precisaria buscar no Google algo que normalmente é tão óbvio nas pessoas? A resposta é simples: porque Cortella esconde sua religiosidade através de discursos enrolados, como todo filósofo de cadeira de balanço. Vejam, por exemplo, a resposta à pergunta direta da repórter no vídeo abaixo (avance para 3:14):

O objetivo desta publicação é traduzir o filosofês de Cortella para os leigos. Vamos partir direto para a conclusão, porque hoje quero economizar o tempo do leitor: Cortella é deísta. Ele tem a sua própria concepção de um tipo de deus desconhecido e inalcançável, que varia de acordo com o diálogo. E varia dentro de um mesmo diálogo.

Note que no vídeo acima Cortella não responde se acredita em Deus. Quando a repórter pergunta, e um filósofo deveria interpretar a pergunta antes de responder, ela se refere ao deus cristão. Claramente, Cortella não acredita nele. Ele sabe que a crença nesse deus é absolutamente infundada, como qualquer filósofo com o mínimo de formação pode inferir. Mas há problemas essenciais que o forçam a jamais admitir isso e sempre fugir da pergunta como ele fez aí: se ele o fizer, perde o emprego.

Cortella teve toda sua formação em instituições ligadas à Igreja Católica (ICAR daqui em diante) e ainda é professor titular do departamento de Teologia da PUC, e se admitir publicamente que o cristianismo é falso (ou mesmo não demonstrado como verdadeiro) ele perde o emprego. Simples assim. Então Cortella, conscientemente ou não, dá o nome vago de deus — ou permite que outras pessoas o façam por si, como nessa entrevista — para a ignorância dele próprio e dos seus interlocutores.

Como eu tirei tudo isso de uma simples resposta numa entrevista? Vamos lá:

— Cortella, você acredita em Deus?

— Olha, a idéia de Deus é muito variada…

A pergunta exige resposta simnão, ou um pedido para esclarecer a pergunta. Mas ele foge das três opções. Lembra muito Pinóquio em Shrek 2. E como Pinóquio, alguém só faz isso porque não pode dizer o que dele se espera nem negar o que é verdade.

… não existe só a idéia de deus; pode ser no plural, pode ser deuses, pode ser deusa…

Aqui Cortella introduz a noção de que a crença não é em algo real e sim num conceito. Portanto ele pode passar a tratar a crença como uma afirmação verdadeira em relação a um conceito, e não a algo real.

…pode ser uma força, pode ser uma crença na própria energia humana…

Note que Cortela está traçando um caminho cada vez mais longo para fugir da pergunta, que foi a respeito de si. Ele passa a tratar não do que ele, e sim do que outras pessoas acreditam.

… aquilo que é superior e anterior a nós pode ter vários nomes

Aqui Cortella dá a dica sobre que tipo de crença ele possui ou comunica, para o bom entendedor: “aquilo que é superior e anterior” é só um apelido para “aquilo que desconhecemos”.

Se você disser que eu acredito em Deus, eu teria que te retornar a pergunta dizendo: qual deles? Como [ele] é?

Aos 3:52, note como  a reporter tenta exatamente esclarecer a réplica. Mas Cortella não permite porque isso mina sua estratégia de fugir dela.  Isso porque o pedido de esclarecimento é hipotético: eu teria que te retornar a pergunta.

Acredito eu, Cortella, em alguma força que faz com que a vida não seja mera biologia, mera materialidade? Sim. Essa força pode ser denominada Deus? Por alguns. Outras pessoas não têm esse tipo de percepção, nem precisam ter. (…) Acredito eu numa força, que a vida não é uma banalidade? Sem dúvida. Pode chamá-la de Deus? Posso. O Daniel [Sottomaior] não chamaria. Portanto a lógica em si é a lógica da pessoa.

Então Cortella acredita que há algo anterior e superior a nós, que alguém com conhecimento sobre religiões como o Daniel Sottomaior (e como ele mesmo) não chamaria Deus, mas que ele não vai negar ser o Deus cristão se alguém assim o interpretar — embora esta não seja a posição dele mesmo, Cortella. Esse algo anterior e superior é, por definição, o desconhecido, a ignorância. Talvez Cortella seja ateu — e eu não posso ler a sua mente — mas ele se apresenta como deísta e permite que as pessoas interpretem seu deísmo como a própria religião. É uma estratégia extremamente desonesta, mas que abre portas.

Em todos os momentos, Cortella faz questão de enrolar. Eu não sei se isso é intencional, algo feito no intuito de anuviar um assunto. Por exemplo, na questão do efeito da religião na saúde, ele enrola imensamente para dizer que a prática da religião não implica na veracidade do objeto da crença. Uma frase, mas uma que ele não pode dizer.

Enfim, não espere que Cortella responda a qualquer pergunta sobre religião honestamente: ele tem muito em jogo para fazer isso.

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Cultura do estupro: fato ou ficção?

Feministas adoram falar em cultura de estupro. O termo anda por aí desde os anos 70 e ainda não se parou de falar sobre isso. Ao iniciar esta publicação, a impressão que tenho é que esta idéia de que vivemos em uma sociedade, em termos gerais a ocidental, que normaliza a exploração sexual não consensual de mulheres é uma grande besteira. Mas o mundo não gira em torno de impressões e instintos, não o mundo em que eu quero viver.

Assim, convido o leitor a juntar-se a mim nesta exploração do que dizem as mentes alegadamente pensantes sobre isso e ver se a impressão corresponde ou não à realidade. Como sempre, fontes estão no decorrer do texto, onde forem relevantes, e toda crítica é bem-vinda desde que seja sobre o conteúdo.

O que é?

Como sempre, definições dadas pelos proponentes. E como sempre, é difícil encontrar algo claro. O primeiro artigo que encontrei não define. Diz que cultura é, de acordo com Marilena Chauí, “o campo material e simbólico das atividades humanas”. Assim, se temos uma cultura de estupro, também temos uma cultura de assassinato, roubo, drogas e tudo mais. Se aceitarmos este tipo de definição, temos que ver o mundo como uma distopia, uma constante guerra — o que não parece ser o caso.

Segundo Marilise Matos, professora de Sociologia na PUC-MG:

A expressão “cultura do estupro” informa sobre a banalização
social do fenômeno da violência contra as mulheres, especificamente a violência sexual

É importante notar que banalizar significa tornar comum. Uma ação ou opinião banal é aquela tomada como trivial, não importante, aceitável ou correta diante de um grupo. Neste sentido, é impossível que haja na cultura ocidental, em qualquer lugar em que o estupro seja considerado crime hediondo, uma cultura de estupro. Por outro lado, existem lugares em que o estupro é banalizado. Na Arábia Saudita, por exemplo, não só o estupro não é crime várias situações como a vítima é considerada culpada pelo sistema legal e penal. E essa banalização da violação, não só da mulher, ocorre em grande parte do mundo árabe, África e sul asiático. Como faria sentido concluir que o mesmo se aplica ao ocidente?

Mas voltemos a Marilise Matos. Ela segue delineando o que é a tal cultura do estupro e no que resulta:

A sociedade estabeleceu padrões de interação de gênero em que o corpo da mulher é permanentemente objetificado e posto a serviço do desejo do homem. E essa objetificação é banalizada. Cabe destacar que, ao se transformar a mulher em objeto, retira-se dela, num primeiro momento, a capacidade de agência sobre o processo de violência, a capacidade de mudar essa situação. Outro fator, aliado a essa naturalização da violência, é a ideia de que as vítimas são sempre culpadas. É muito comum responsabilizarem a vítima pelo estupro com perguntas como: “Onde você estava?”, “Em qual horário você estava andando?”, “Que roupa usava?”. Todas essas justificativas são descabidas. O exercício da dominação só tem justificativa na sanha do dominador. O responsável pela violência é quem perpetra a violência.

Como diria Jack, o Estripador, vamos por partes:

Padrões de interação de gênero e objetificação

Dizer que há padrões de interação só significa afirmar que existem limites e impulsos que influenciam ou determinam as interações. Por exemplo, homens são, em média, mais altos e fortes (musculosos) que mulheres; isto significa que dificilmente uma mulher conseguiria dominar fisicamente um homem, enquanto um homem provavelmente conseguiria subjugar uma mulher. Da mesma forma, os hormônios conferem, em média, um apetite sexual maior aos homens do que às mulheres; não só isso como a gravidez é atribuição da mulher, enquanto o homem pode fugir dela. O erro fundamental é atribuir esses padrões de interação à sociedade, já que são estabelecidos pela biologia. Este simples fato os torna banais. É claro que algumas pessoas vão buscar formas irresponsáveis e até criminosas de satisfazerem seus prazeres pessoais. Só que os homens, em média, têm maior capacidade para tal, em especial quando a outra parte é uma mulher e a natureza do ato é física.

Culpa e responsabilidade

Estes padrões biológicos implicam em interesses diferentes, ou condições distintas, para a satisfação dos prazeres carnais: a mulher procura se proteger, buscando primeiro estabelecer que o possível parceiro não vai fugir da responsabilidade de formar uma família, enquanto o homem busca a mulher que mais lhe dê prazer. Não estou dizendo que isto é o que deve acontecer, só o que os impulsos naturais induzem: é a mulher que deve lidar com as conseqüências do ato, mesmo que ambos obtenham prazer dele. É o mesmo que ter um comércio: você tem um estoque e há pessoas que desejam obter o que você vende. É do interesse do proprietário permitir o acesso ao estoque somente a quem vai pagar e protegê-lo contra quem não vai (ladrões). Se o dono de um comércio deixa as portas abertas sem ninguém protegendo e alguém rouba o estoque, é correto responsabilizar o dono pelo roubo? Claro que não! Mesmo assim, a crítica óbvia é: você sabia que criminosos tiram proveito da vulnerabilidade, portanto era sua obrigação proteger-se.

A crítica à mulher que se coloca em uma posição vulnerável desnecessariamente é idêntica. É prudente andar sozinha à noite com roupas reveladoras num lugar de alto índice de criminalidade? Claro que não! Isto significa que um estuprador será visto como justificado numa situação dessa? Absolutamente não! A pena por estupro é a mesma se uma mulher estiver de biquini à noite numa favela ou de calças em casa. O crime é o mesmo.

Criminosos sempre vão existir. Isto significa que sempre teremos que tomar medidas preventivas contra eles, em maior ou menor grau dependendo das circunstâncias. Confundir a crítica à falta de prevenção com apoio ao ato cometido beira a insanidade.

Cultura de assassinato

Mencionei brevemente no início que todos os fatos que se usa para estabelecer que existe uma cultura do estupro no ocidente podem também ser usados para estabelecer que existem outras culturas negativas. Como exemplo, vamos ver se existe uma cultura do assassinato. Uso o primeiro artigo que mencionei, de uma estudante (?) da PUC-RS, como referência de linguagem e troco as referências a estupro pelos equivalentes:

Considerar o comportamento predatório do agressor vai muito além de classificá-lo através do crime previsto no código penal ou como o portador de qualquer doença, transtorno ou anomalia prevista na medicina psiquiátrica vigente. Isso porque os [assassinos] encontram-se em todos os lugares e classes da sociedade. Eles reproduzem, por meio de atos, a submissão da vítima à sua vontade, transgredindo os direitos humanos mais básicos de integridade física e psicológica dos outros. Os assassinos agem assim apoiados em discursos [violentos] que são transmitidos até eles, e por eles, das mais variadas formas. O conteúdo desse discurso tem como foco a idéia de que o poder está na [superioridade física], e que o [mais forte] tem o direito de realizar este poder sobre [a vítima] como quiser e sempre que julgar necessário. Tais valores são repassados para toda a sociedade, que revitimiza [os mais fracos] principalmente por, segundo a concepção geral, colocarem-se nas chamadas ‘situações de risco’, nas quais os mesmos são culpados por não seguir as chamadas regras de conduta. Regras de conduta que, por sua vez, são inseridas na socialização [dos fracos] desde o momento do nascimento, ensinando-os que tipo e tamanho de roupas vestir, como se comportar na rua, quando e como [falar], quais os horários pode sair de casa e assim sucessivamente, depositando [na potencial vítima] a responsabilidade sobre os atos dos terceiros contra sua integridade [física]. Essa mesma cultura do [assassinato] ensina que os [fortes] devem aproveitar toda e qualquer oportunidade de [agredir os fracos] e que, muitas vezes, [as vítimas] que dizem não apenas o dizem porque [não são capazes do mesmo], e que cabe a eles ‘transformar’ aquele não em um sim.

“Eu mato aquele imbecil”, “que vontade de matar um”, “estou morto de fome”, … o assassinato e a morte se tornaram triviais até no vocabulário, comuns em ameaças até a parentes. Tais ameaças são usadas para exercer domínio sobre alguém que se percebe como mais fraco, comportamento normalizado na sociedade. Vivemos, de fato, numa cultura do assassinato.

Eu poderia fazer o mesmo com drogas, bebidas, religião, jogos de videogame e uma série de outras coisas conquanto haja freqüência suficiente. Faça você esse exercício.

Vítima antes do crime

E se vivemos em todas essas culturas, porque só uma ganha os holofotes? Agora vem algo que é minha opinião e não necessariamente fato empírico. O estupro é um dos únicos crimes aparentemente praticado majoritariamente por homens contra mulheres. Por um erro de lógica, alguém pode concluir que porque todos os estupradores são homens todos os homens são estupradores e porque todas as vítimas de estupro são mulheres todas as mulheres são vítimas de estupro, logo é preciso agir em defesa das mulheres para corrigir o dano que ainda não foi feito. Em outras palavras, a cultura do estupro dá poder ilimitado às mulheres que convencem a sociedade que isso existe, da mesma forma que o sistema judiciário atua em favor da vítima (e corretamente) contra o criminoso. Só que não é preciso que aconteça um crime.

Não que eu ache que todas as feministas são desonestas e têm sede de poder, mentindo para conseguir domínio social. Mas acho, sim, que a cultura do estupro é tão conveniente para elas quanto cotas raciais são para quem não quer estudar.

 

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Superstição no trabalho

Esta é a primeira vez que publico algo de fundo profissional. Isto porque esta… coisa… surgiu como um ponto de reflexão sobre a vida e seus aspectos mais importantes, e trabalho é só trabalho. Mas logo e descobri que o trabalho não é separado da vida, e um bom profissional também precisa ser um bom filósofo (referência a Is Philosophy Stupid?). Então, ao olhar para o meu próprio trabalho, eu encontro resquícios de práticas ruins ou que não levam necessariamente a bons resultados ou aos objetivos estabelecidos. Aqui apresento uma delas e tento conectá-la ao tema geral desde singelo trabalho de exploração.

Embora isto seja sobre meu trabalho na área de TI, espero que a leitura possa ser apreciada por qualquer pessoa pois não tratarei de senso comum e não sobre qualquer coisa que se aprenda na faculdade. Espero apresentar qualquer conceito alheio ao leigo em TI, e se eu não o fizer fiquem à vontade para avisar-me. Sem mais delongas…

Scrum e retrospectiva de Sprint: porque a superstição só atrapalha

Scrum é um processo ágil para projetos de diversas áreas que tem por objetivos capilarizar o conhecimento e entregar valor lidando com mudanças e níveis consideráveis de incerteza. Um projeto Scrum é dividido em sprints, que são períodos curtos que começam com a definição do que será entregue e terminam com a entrega de fato do que foi possível concluir. Ao fim de cada sprint ocorre a chamada retrospectiva, uma reunião cansativa cujo propósito é identificar boas práticas a serem perpetuadas e más práticas a abandonar.

Nas palavras do Guia do Scrum:

O propósito da Retrospectiva da Sprint é:

  • Inspecionar como a última Sprint foi em relação às pessoas, aos relacionamentos, aos processos e às ferramentas;
  • Identificar e ordenar os principais itens que foram bem e as potenciais melhorias; e,
  • Criar um plano para implementar melhorias no modo que o Time Scrum faz seu trabalho;

O Scrum Master encoraja o Time Scrum a melhorar, dentro do processo do framework do Scrum, seu processo de desenvolvimento e suas práticas para torná-lo mais efetivo e agradável para a próxima Sprint. Durante cada Retrospectiva da Sprint, o Time Scrum planeja formas de aumentar a qualidade do produto melhorando o processo de trabalho ou adaptando a definição de “Pronto”, se apropriado e sem entrar em conflito com os padrões do produto ou organização.

Ao final da Retrospectiva da Sprint, o Time Scrum deverá ter identificado melhorias que serão implementadas na próxima Sprint.

Como tudo na vida, um projeto se dá em iterações em que as práticas se repetem mesmo que os objetivos mudem. Portanto pensar no que deu certo ou errado e como ser um time melhor é a mesma coisa que pensar em como um relacionamento ou diálogo com uma pessoa deu certo ou errado e como ser uma pessoa melhor para a próxima vez.

Como uma retrospectiva acontece?

Os recursos indicam praticamente os mesmos passos para conduzir uma retrospectiva: cada membro da equipe elenca um número de ações que deram bons resultados e, semelhantemente, ações que deram resultados indesejáveis. Em seguida a equipe vota naquilo que é mais importante e práticas são adotadas ou abandonadas para otimizar o desempenho na próxima iteração.

Um exemplo hipotético de proposta numa retrospectiva: parte do time almoçou com o cliente três vezes por semana, e nenhuma das estórias entregues por estes membros do time precisa de mudanças. A prática sugerida, portanto, é o time almoçar com o cliente mais vezes. Normalmente as idéias são mais relevantes, mas o princípio é sempre o mesmo: X aconteceu e Y deu certo ou errado.

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Superstição não é um termo religioso

Muitos associam superstição a práticas religiosas ou místicas. Mas a superstição é qualquer prática que surge da associação incorreta entre correlação e causalidade. Quando o agricultor primitivo fazia a dança da chuva até que chovesse, o fato de que uma hora chovia reforçava a sua confiança na dança.

A prática comum da retrospectiva, conforme proposta por todas as fontes que encontrei, é simplesmente uma fábrica de superstições. Pede-se que cada membro da equipe selecione, sem exigir qualquer demonstração, uma prática que parece ter levado a um resultado e que deve ser mantida ou eliminada. Nada na prática serve como controle de erros, e a minha experiência em projetos que adotaram a retrospectiva é que eles tendem a ficar inchados com práticas supersticiosas, que não garantem resultados positivos. E exatamente por isso muitos projetos simplesmente abandonam a retrospectiva ou só fingem que ela existe para não serem punidos por não conformidade.

A retrospectiva tem conserto

Reparar uma possível superstição é fácil, basta aplicar ceticismo. Se há aparente correlação, basta criar uma hipótese de causalidade e realizar testes para verificar se é factual. No exemplo bobo do almoço com o cliente, pode-se hipotetizar que a maior interação com o cliente permite que ele tenha mais oportunidades para expressar detalhes sobre as estórias e ter uma prévia da próxima entrega; então deriva-se que convém fazer uma pré-demo ao completar 30% do sprint e o resultado esperado, como menos defeitos cuja causa raiz é detalhamento de estórias; a nova prática é introduzida por um sprint e na próxima retrospectiva verifica-se os resultados.

Ou seja, a retrospectiva tem que ser dividida, cronologicamente, em duas fases: levantamento de hipóteses e os critérios de aceitação, e a verificação dos resultados (começando com isto a partir da segunda retrospectiva). Desta forma, qualquer hipótese incorreta é corrigida e o projeto não fica inchado com práticas ineficazes.

O mesmo vale para a vida: se adotarmos costumes porque “funcionaram” uma vez, ficaremos sobrecarregados com hábitos inúteis ou até prejudiciais.

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Você pode provar? (3/3)

Esta é a terceira e última parte da da explicação não só da minha rejeição da crença em deuses como a crença ativa de que nenhum deles existe. As partes 1 e 2 são leitura obrigatória por esclarecerem o método e as evidências, e minha intenção ao escrever estas publicações é que sejam também produzidas em vídeo.

Recapitulando

Na parte 1 eu estabeleci a afirmação que me proponho a demonstrar: certos deuses não podem existir. Porém não esclareci quais são esses deuses, ou quais características entregam um deus que não existe. Por conta disso, o raciocínio elaborado na parte 2 não serve claramente como evidência para a alegação. Esta publicação dá forma a estas idéias na conclusão de que deuses não existem.

Finalmente!

Este é o par de alegações que faço e desejo demonstrar:

Todo deus que promete ou depende da continuidade da existência após a morte física não é real ou não expressa a verdade; qualquer deus que pode expressar falsidades e não é detectável é indistinguível de um deus que não é real.

A segunda parte é simples de se entender: se o seu deus pode mentir, como dizer se ele existe? É como ter um amigo imaginário: se só eu vejo meu amigo e ele não sabe coisa alguma a mais que eu, não é possível diferenciar ele ser produto da minha imaginação ou parte da realidade. Não dedicarei tempo a conceito tão básico.

Agora partamos para o principal: a promessa de imortalidade. Os deuses cristão, muçulmano, espírita, hindu, e provavelmente outras religiões modernas prometem um ou outro tipo de extensão da vida na forma de reencarnação, céu ou inferno.

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Com poucas exceções dentro da doutrina (como algumas versões do arrebatamento cristão), o prolongamento da vida se dá após a morte física e num corpo diferente do original. Mas se consideramos as idéias de identidade apresentadas na parte 2, podemos concluir com grande certeza que isto não pode acontecer.

Reencarnação

Nas religiões que prometem reencarnação, alguma coisa que carrega a motivação para ações morais é transferida para um novo corpo. Esta coisa não pode existir, em primeiro lugar. Mas mesmo que existisse, ela não seria suficiente para conter a identidade de uma pessoa. Seja lá o que for, a coisa reencarnada não é você. Seria como receber um transplante de braço e dizer que agora eu sou a pessoa de quem o braço saiu. Não existe deus verdadeiro que faça com que uma pessoa reencarne.

Julgamento eterno

Semelhantemente, se uma religião promete o céu para os aderentes e inferno para dissidentes, ou qualquer variação disso, ela faz uma promessa vazia e seu deus não existe. Quando eu morrer, nada que possa ser chamado Henrique pode ir para céu ou inferno. Mesmo que meu corpo e memórias sejam reconstruídos, a coisa resultante não será eu. Mesmo que céu e inferno existissem e estivessem lotados, não seria com qualquer pessoa que viveu.

Incrivelmente, nem todas as religiões Abraâmicas estão abordadas aqui. Pelo menos numa forma de Judaísmo a divindade não promete julgamento eterno. Mas eu não conheço judeu algum para poder investigar o deus deles.

E daí?

Mas você não pode provar que meu deus não é o criador do universo

Volte e leia a parte 1 de novo. Se o seu deus promete uma pós-vida, ele não existe. Ponto. Não importa que outros atos eu não possa provar não serem de sua autoria. Se você disser que tem um dragão azul e eu provar que dragões não existem, não adianta mostrar-me um lagarto azul! Se você acha que adianta, então vamos conversar no contexto daquela publicação.

Mas como explicar os milagres que meu deus faz?

Irrelevante. Quando um ilusionista faz um truque, o que é necessário para lhe fazer acreditar que é mágica de verdade e não só a aparência de mágica? Se um ilusionista mostra que um de seus números é uma ilusão e não mágica de verdade, você continua acreditando que todos os outros números são mágica? A questão não é o que eu posso explicar, e sim o quão ingênuo você é — ver publicações sobre fé (como esta ou esta).

É isso

Aqui eu finalizo minha demonstração. Tentei fazer três coisas, como disse no início:

  1. Estabelecer a pergunta à qual respondi
  2. Delinear o método para abordar a resposta
  3. Dar a base de conhecimento necessária para chegar à conclusão menos controversa

E só posso concluir que nenhum deus que me foi apresentado pode existir. Espero ter sido claro, e todo comentário é bem vindo. Vida longa e próspera!

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Você pode provar? (parte 2/3)

Esta é a segunda de três partes que delineiam não só a minha rejeição da crença em deuses como a crença ativa de que nenhum deles existe. A parte 1 é leitura obrigatória, e minha intenção ao escrever estas publicações é que sejam também produzidas em vídeo, de acordo com minha improvável disponibilidade.

O que você é?

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Há crenças populares de que você é algo que habita em um corpo, isto é, você é sua mente e seu corpo é só uma casca que permite que você se locomova. A minha proposta é de que esta idéia é completamente e demonstravelmente falsa.

Muitas das idéias aqui são exploradas no episódio 18 da série Crash Course: Philosophy, que pode ser visto com legendas em português. Se você se interessa pelo assunto mas não tem tempo de ler extensas fontes e referência, é por aqui que deve começar. A série toda tem 46 episódios de no máximo 10 minutos cada e garanto que são 8 horas de inestimável valor.

Você é o seu corpo todo, e mais

Considere comida: do que você gosta? Pizza, salada, frutas, sorvete? Quem gosta dessas coisas é você ou seu corpo? Quem decide do que você gosta? Se você acha que é sua mente, está errado. O “seu” gosto está intimamente ligado à sua flora intestinal. Suas preferências gastronômicas não são determinadas só pela mente, mas principalmente pelo seu intestino e por organismos que nem ao menos compartilham do seu código genético.

Mesmo quando é você, ou seu cérebro, que toma as decisões, elas ainda podem ser afetadas por fatores internos ou externos, através de hormônios. Uma decisão que você entende como sua pode ser influenciada, ao ponto de podermos dizer determinada, pelo abraço que recebeu segundos antes. Ou ainda por uma borrifada de Ocitocina no nariz.

A conclusão disso tudo é: se eu remover ou substituir o seu corpo, você deixa de ser você. Grande parte da sua essência (ou ela toda) é substituída, portanto o resultado não é você.

O Barco de Teseu, revisitado

Ao invés de lidar com o barco apresentado no vídeo que mencionei no início, vamos falar de teletransporte. Digamos que eu tenha uma máquina capaz de lhe transportar para outro lugar; ela destrói todas as suas moléculas e as recria no destino. A pessoa que “aparece” ainda é você? Suponhamos que o indivíduo na localização de destino, uma vez que possui todas as suas características e memórias, sente que ainda é. Mas já que eu consigo recriar uma vez, por que não duas? Se você for teletransportado para dois lugares, qual das suas cópias é você? As duas? Nenhuma?

Depois de um tempo, eu melhoro a máquina. Agora ela não precisa mais destruir suas moléculas. Eu consigo copiar você para qualquer lugar, uma ou mais vezes. E agora, quem é você? Sua cópia teletransportada deixa de ser você só porque sua versão original continua existindo?

Crescer é trocar de identidade?

Aos 20 anos eu era completamente diferente. Meu corpo era diferente — mais baixo, mais magro e usava óculos, para dizer o mínimo. Eu tinha crenças diferentes e bem menos conhecimento do que hoje. Posso afirmar com segurança que eu não sou o Henrique de 17 anos atrás. Mas eu fui. E eu sei que fui porque há uma continuidade na substituição das partes que resultaram na transformação do Henrique aos 20 anos no Henrique aos 37. Como o barco de Teseu, fui eu que fiz a jornada, mesmo sendo diferente agora do que era no início.

Mas se houver uma descontinuidade tanto no tempo quanto na essência, o resultado não será mais eu. Se eu sofrer um acidente e perder minhas memórias e ficar desfigurado, mas ainda vivo, eu sou eu. Se alguém criar uma cópia idêntica a como eu era antes, com todas as minhas memórias e aparência anteriores, essa cópia não será mais eu do que eu — mesmo que ela pense ser. Se meu cérebro for transplantado para outro corpo, ou mesmo o conteúdo da minha mente, seja lá no que isto implique, o resultado não será eu.

E daí?

Bem, isto é o suficiente para a parte 2. Na parte 3 eu usarei estes conceitos para demonstrar que tipo de deuses não existem. Se você puder mostar que o conceito de identidade não está ligado à continuidade temporal da existência, estou aberto a ouvir e conversar. Até a próxima!

(Continua na parte 3)

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Você pode provar? (1/3)

A minha vontade é produzir isto em vídeo, se eu conseguir os recursos para tanto. Aqui estão todas as referências e citações com os devidos links. Ter a forma escrita facilita encontrar coisas que eu disse e citá-las adequadamente, mas nem todo mundo tem disposição para ler longas dissertações. Sem mais delongas…

Prólogo: o que é isto?

Nem sempre acontece, mas muitas pessoas desafiam a descrença em deuses dizendo, mas você pode provar que Deus não existe?. Esta é uma questão cheia de problemas, tantos que impedem uma resposta adequada. O fato, contudo, é que sim, eu posso. Mas para isso é preciso primeiro formular a pergunta corretamente, esclarecer os termos usados nela e então apresentar a prova.

Zelotes

Aqui o leitor encontrará alegações que vão contra aquilo que acredita, especialmente se for religioso. Mas devo lembrá-lo que o fato de alguém acreditar profundamente em alguma coisa não torna a pessoa correta; certo aluno pode fazer um teste e ter total confiança de que acertou todas as questões, e ainda assim não tirar nota máxima. O mesmo vale para mim, estou ciente disso. Portanto peço humildemente que qualquer crítica venha depois de verificar as referências. Apresento o resultado de anos de estudo e dias de revisão de material para dar o resumo mais completo possível para chegar a uma conclusão correta. Não é reafirmando o que alguém acredita que eu serei persuadido — ninguém deveria o ser pela sentimento de confiança que alguém possui. Espero que o mesmo nível de cuidado seja mostrado ao discordar de mim. E garanto que um bom argumento pode fazer com que eu mude de posição.

Parte 1: certos deuses não existem

Certos deuses não existem

Esta não é uma afirmação controversa. Duvido que alguém discorde que Zeus não existe, e nunca existiu. O mesmo vale para Quetzacoatl, Ra e qualquer deus da antiguidade cujos adeptos já não existem. Só que não é isso que as pessoas pensam quando dizem prove que Deus não existe. Hoje eu gostaria só de examinar a diferença entre os dois conceitos. São só cinco palavras, mas há muito que dizer sobre elas antes de abordar a resposta.

Prove

Eu tenho um superesportivo vermelho, ganho de você em uma corrida quando quiser.

Uma afirmação um tanto mundana, não? E fácil de se verificar. Basta que você vá à minha garagem hipotética e olhe para o carro que lá está. Ao olhar, você vê um velho Fusca vermelho. Pronto, está provado que eu não tenho um superesportivo vermelho. Mas para mim, o Fusca é um superesportivo. Ou ainda: você só provou que meu carro não é um superesportivo para os seus padrões. Você pode até não achar carro algum, mas não pode provar que eu não tenho um carro. Eu posso dizer que está no mecânico, ou emprestei para um amigo. Aí você olha a minha conta bancária, e vê que eu nunca tive dinheiro para comprar um superesportivo. Mas estava em promoção, ou eu ganhei. Então você me desafia para uma corrida, e eu aceito; mas toda vez eu não apareço: não estava afim. Ou perco: eu disse que ganho quando quiser, não toda vez. Eu poderia inventar mil desculpas e você jamais poderia provar que a minha afirmação inicial é incorreta. Mas o fato de ser um Fusca é prova suficiente de que o meu superesportivo vermelho não existe. O fato de eu não conseguir ganhar uma vez é prova de que não ganho quando quiser. Um detalhe invalida o todo, e o todo nunca é comprovado por um detalhe. É assim que funciona na ciência e na lei, e é assim que deveria funcionar na hora de acreditar em qualquer coisa. Se os critérios para verificar uma alegação mudam o tempo todo, a alegação é inútil ou falsa. E eu posso mostrar que a alegação de que certos deuses existem não só não pode ser mostrada como sendo verdadeira como é falsa.

 

O que quero dizer com isso é que a prova, no sentido coloquial (e também legal e científico) da palavra se dá em dois passos: estabelecer a relação lógica entre fatos (o que chamo de critérios) e a existência dos fatos, ou evidências. É neste sentido que eu posso provar que certos deuses não existem.

Deus

Quando eu digo certos deuses, refiro-me a um conjunto de deuses com determinadas características — uma taxonomia divina. Mas quando alguém fala de Deus, normalmente se refere à sua espécie favorita, o deus de sua religião pessoal. Já o apologista nunca usa uma só definição: na igreja se fala em milagres e revelação, num deus pesssoal que se importa e interfere em assuntos mundanos no presente; fora dela, defende o deus de Spinoza, uma força que atua na manutenção da ordem natural, na criação do universo, em qualquer coisa não alcançada pelo conhecimento humano.

Não é minha intenção contrariar o apologista. Porque além de hipócrita, nenhuma religião se baseia nesse tipo de deus que nada faz. Para falarmos em categorias de deuses, é preciso estabelecer quais são as características compartilhadas entre estes deuses e como eles poderiam interagir com a realidade, por mais abstratas que sejam tais interações. Na parte 3 apresento em maiores detalhes o tipo de deus que posso provar não existir — e já adianto que inclui o deus cristão.

Existir

Finalmente, o que significa existir? De forma muito rápida e ligando ao ponto anterior, há quem diga que seu deus particular é a própria existência, ou que é o autor da existência. São definições, por acaso, em que não vejo sentido. São conceitos não antes apresentados, e não explicados posteriormente. Na minha exposição trato existir como sendo fazer parte da realidade; isto significa ser capaz de interagir, de forma regular ou não, com outras coisas na realidade, de forma que em algum momento o efeito pode ser detectado.

Devo ressaltar que na minha demonstração da não existência de certos deuses não definirei o que os deuses em particular são. Material ou não, temporal ou não, basta que as características relevantes sejam satisfeitas. No final das contas, a pergunta é: qual a diferença entre existir e não existir? Se eu não existir, não poderei continuar escrevendo este texto. E a diferença tem que ser sobre fatos no presente e futuro. Isso porque não há diferença entre X não existeX deixou de existir. Então sempre que eu falo sobre certos deuses existirem eu tenho que falar sobre previsões passadas sobre o presente e previsões presentes sobre o futuro. Ou seja: se Deus não existisse ninguém existiria é uma afirmação idiota a que não faço questão de responder.

Mas é uma pergunta tão simples

Pois não é. Eu espero com esta primeira parte ter mostrado que a pergunta na forma como normalmente é feita não pode ser respondida, e que a minha proposta é responder a uma que pode: que tipo de deus não pode existir? Na parte 2 eu explicarei os fatos que baseiam a minha tentativa de demonstrar a resposta. É aí que concentrarei a maior parte das minhas referências e estudos. Aqui eu quis só estabelecer como a proposta em si é complicada, e existem livros inteiros a esse respeito (recomendo Karl Popper), separando a conversa sobre a pergunta da discussão sobre a resposta.

(Continua na parte 2 em 31/05/2018)

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Re: Há relação entre ateísmo e pensamento de esquerda?

De tempos em tempos, e cada vez menos freqüentemente, dou uma olhada nos principais meios de comunicação (de cada nicho) para saber se alguém está sendo difamado. A intenção é, como sempre, tentar furar a bolha. Não sei quão recentemente (porque não há data, mas há comentários desde 20/04/2018), o Gospel Prime publicou um artigo de opinião entitulado Há relação entre o ateísmo e pensamento de esquerda?, que logicamente chamou-me a atenção.

A expectativa inicial, claro, era de encontrar uma resposta positiva, restando poder ser surpreendido por uma boa argumentação justificando esta resposta, que deveria conter:

  1. Fontes: um bom autor aponta suas fontes com referências precisas.
  2. Citações: principalmente quando se fala de alguém que não compartilha da opinião do autor, convém retratar a posição nas palavras de quem a defende.
  3. Ausência de falhas lógicas: principalmente em se tratando de um artigo relacionando duas posições das quais o autor presumidamente discorda, é comum usar ataques pessoais, envenenar o poço e apelo à consequência.

Mas eu espero ser surpreendido. Uma vez que este assunto é velho e muito discutido, sempre há esperança de que alguém bem informado faça uma boa exposição. Olhemos mais de perto…

O subtítulo do artigo começa dando sinais de que eu não serei surpreendido:

O próprio Karl Marx, em sua arrogância, rotulava a religião como o “ópio do povo”.

O autor abre com um ataque pessoal. O fato de Karl Marx ser arrogante torna sua afirmação incorreta? Claro que não. Ela pode ser incorreta por diversos motivos, mas sua arrogância, quer exista ou não, não é um deles.

Esquerda e direita

Definir rótulos num espectro político é tarefa difícil. Pessoalmente, o que tenho visto com mais freqüência é a divisão em dois eixos: esquerda/direita, e autoritarismo/libertarismo. Já fiz meia dúzia de testes (sem links porque não confio no método de qualquer deles) e, embora todos me classifiquem como liberal, alguns me colocam na direita e outros na esquerda, variando muito na intensidade. Isso porque todos eles classificam alguém de acordo com suas conclusões, não motivações. E é exatamente isso que Leandro dispensa em dois momentos:

Por exemplo, na cabeça desta pessoa, ser de “esquerda” é ser solidário com os mais necessitados, estar atento aos anseios das minorias, mas, é óbvio que para alguém ser solidário e preocupado com tais questões, ela não necessariamente deve comungar de um pensamento político X ou Y. Penso que isso tem muito mais a ver com o caráter individual que cada um leva dentro de si.

(…) Se formos analisar a literatura de pensadores de esquerda, veremos que eles buscam reduzir a compreensão da realidade humana ao longo dos séculos como uma luta de classes.

Ora, não importa se alguém compreende a realidade humana como luta de classes ou formula seu sistema político através da maximização de direitos individuais; independentemente de justificativas, se a pessoa é a favor de regular o mercado, é colocada à esquerda e se é a favor de regular a moral é classificada no espectro autoritário. É isso que torna o marxismo tanto de esquerda como autoritário (ou totalitário), e não a luta de classes como base filosófica.

Ademais, para o pensamento de esquerda, as instituições em geral (família tradicional, igreja, exército, polícia, etc.) são vistas como instrumentos dos opressores

E fecho esta seção apontando que o autor mistura equívoco de termos com o apelo à conseqüência: ver as instituições como instrumentos de opressão é característica do marxismo, não do pensamento de esquerda. E o autor continua alegando que porque a esquerda (marxismo) tem este resultado, ela é incorreta ou maligna. Em nenhum momento ele apresenta ou avalia as justificativas de qualquer pessoa para estas posições.

Substituição

Ao caminhar para suas conclusões finais, Leonardo revela que ele não está respondendo à questão que se propõe:

Assim, alguém que comunga deste pensamento e é de uma igreja, passa muitas vezes a ser extremamente crítico a tudo da igreja, muitas vezes caindo em um cinismo que não se dá conta, pois ao mesmo tempo que critica tudo e todos na igreja, mesmo assim continua ali. (…)

Com efeito, a tendência desta pessoa é ir se afastando mais e mais da igreja e com isso a fé ir se enfraquecendo, quando não sumindo.

A pergunta que foi abordada no texto é “o pensamento de esquerda (marxista) é compatível com o cristianismo?”, e não a que consta no título. Isto é conhecido como heurística de substituição. Que tal então reformular a pergunta? Sabendo o que ele respondeu, podemos ver se o mesmo raciocínio (com as devidas correções) se aplica a sistemas antagônicos ao marxismo.

Há relação entre ateísmo e liberalismo clássico?

Não confie em mim quando falo da natureza do liberalismo clássico, e sim em um dos seus grandes defensores, Murray N. Rothbard:

A declaração de que existe uma ordem de lei natural, resumidamente, deixa em aberto a questão de se foi ou não Deus quem criou tal ordem; e a afirmação de que a razão humana tem capacidade para descobrir a ordem natural deixa em aberto a questão de esta razão ter ou não sido dada ao homem por Deus. A afirmação de uma ordem de leis naturais passível de descoberta pela razão não é, por si só, nem pró e nem antirreligiosa. — A Ética da Liberdade, pág. 58 (grifo meu)
Rothbard fundamenta todo um sistema ético e político em torno da propriedade de si:

O homem, através da introspecção de sua própria consciência, também descobre o fato natural primordial que é sua sua liberdade: sua liberdade de escolher, sua liberdade de usar ou de não usar sua razão em qualquer assunto existente. Em resumo, a ocorrência natural de seu “livre arbítrio”. Ele também verifica o fato natural do comando de sua mente sobre seu corpo e suas ações: ou seja, de sua propriedade natural sobre si mesmo. — pág. 88

Claramente, o liberalismo clássico é derivado da razão, independentemente de qualquer religião ser verdadeira ou de qualquer deus existir. É um sistema político totalmente secular, e segundo a maioria das definições, ateu. Seria então compatível com o cristianismo? Eu proponho que seja possível argumentar que não. Pois um dos fundamentos do cristianismo é que o homem não pertence a si mesmo, mas a Deus (Lv 17, 1 Sm 2). Tenho para mim que isto é tão óbvio para o crente que não preciso justificar.

O liberalismo, portanto, é baseado em algo contrário à doutrina cristã. Mesmo Rothbard dizendo que não, em pelo menos um conjunto de dogmas o liberalismo é anti-cristão (ele mesmo reconhece que os adeptos de Aquino adotam essa visão, pág. 57).

É difícil pensar em algo mais alinhado à direita liberal do que Rothbard. Se tanto esquerda autoritária quanto direita liberal são opostos a doutrinas cristãs, que sistema político não o é? É esta reflexão que gostaria de ver sendo feita por um crente.

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O elo mais fraco

chainDizem que uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco. O mesmo princípio se aplica quando alguém quer lhe convencer. Preste atenção em qualquer conversa em que estão lhe vendendo uma idéia. Seja religião, ideologia política ou conspiração, o seu interlocutor irá, talvez até de forma automática, testar cada elo da sua corrente até encontrar um que seja fraco o suficiente. Permita-me usar o exemplo mais comum, na apologética cristã, e depois um mais moderno, não religioso, para propor que é um fenômeno universal.

Mas e o…?

Toda conversa séria com um apologista passa por uma série de testes. Ele fará uma afirmação (a conclusão preferida) e questionará se você pode determinar que este não é o caso. Algo como se Deus não existe, como o Universo foi criado?. Se você puder indicar que consegue explorar o assunto satisfatoriamente, ele não insistirá ou admitirá que sua afirmação está incorreta. Ao invés disso, trocará o assunto para outro, do surgimento da vida à confiabilidade das escrituras, profecias… cada assunto é o apologista verificando qual é o elo mais fraco, isto é, em que tópico seu interlocutor não tem conhecimento suficiente, para que ele possa apresentar um argumento cuja validade não possa ser avaliada e tenha maior probabilidade de ser aceito.

Da mesma forma, uma feminista vai apresentar cada um dos argumentos em favor do feminismo de forma sequencial e sem explorar se são válidos ou não, esperando que algum cole: as mulheres ganham menos, têm menos direitos, são discriminadas, cultura do estupro… e quando algum não for rejeitado, é esse que vale.

50 perguntas para [preencha inimigo]

Esta forma de testar qual é o elo mais fraco da corrente é popularmente expressado em receitas do tipo perguntas para…, muito comuns no YouTube. Perguntas para esquerdistas, ateus, coxinhas, cristãos, desarmamentistas, e qualquer opinião que pensar. E o bombardeio de perguntas tem o mesmo formato: quem responde escolherá as mais fáceis, e quem pergunta ressaltará o fato de que nem todas foram respondidas, ou atacará somente as respostas mais “fracas”.

Corrente não, cerco sim

Em estratégia militar, a forma mais prática de dominar um território bem defendido é fazer um cerco: restringir o acesso a recursos externos para fazer com que o oponente saia à batalha. Eu não acho que um diálogo seja uma batalha, mas vale a mesma idéia: restrinja as rotas de fuga e trate do assunto mais importante.

Entendo que todos estes assuntos sejam relevantes, mas nossa conversa será muito confusa se tratarmos de todos. Que tal tratarmos somente de X? Se for real, ele basta; caso contrário, podemos averiguar se é falso ou se não podemos chegar a conclusão alguma a partir da rejeição de X.

É importante, a meu ver, tornar as pessoas conscientes de que estão fugindo de pensar a respeito do porquê chegaram a suas conclusões. Por que alguém trocaria de justificativa ao ter a atual confrontada? O que aconteceria num julgamento se algo semelhante acontecesse?

A apologética é uma perversão da ciência

Novamente, quando falo de apologética refiro-me à defesa de uma conclusão à revelia dos fatos ou da razão.

Alguém lendo esta publicação pode propor a seguinte objeção: invalidar um único aspecto de uma tese é exatamente o que cientistas fazem para avançar o conhecimento. Ou, como melhor escrito na Wikipédia:

Há um único conjunto de fatos naturais, sobre o qual as mais variadas teorias científicas válidas se assentam. Apesar de um subconjunto de fatos em particulares ser destacado para integrar determinada teoria, nenhum paradigma válido – nenhuma teoria em vigor – pode conter ideias que contrastem com qualquer dos demais fatos científicos conhecidos, independente da área científica da qual este seja proveniente ou da área na qual este seja (mais) relevante. Se isto ocorrer, a teoria DEVE ser reformulada; esta encontra-se impelida a evoluir

A apologética perverte este princípio válido através de dois truques, chamados de inversão do ônus da prova (advogados trabalhistas deveriam conhecer bem este termo e quando usar o recurso apropriadamente) e apelo à ignorância (Um Livro Ilustrado de Maus Argumentos, pág. 26). Em suma, o que o apologista faz é a seguinte transformação:

Meu conjunto de hipóteses é válido, portanto todas as previsões dele derivadas são verdadeiras.

… vira…

Enquanto eu mostrar uma previsão que você não saiba ser falsa, meu conjunto de hipóteses deve ser considerado válido.

A prática leva à perfeição

Há uns dez dias tive uma conversa em que essa tática de distração foi usada. A parte positiva é que eu estudei tanto o assunto e já ouvi tantas vezes as mesmas afirmações que posso responder e dar fontes a todos os argumentos apresentados. Mas eu ainda caio na tática. É preciso calma e ponderar a situação, praticar sozinho e até em comentários de redes sociais. Estamos tratando do mesmo assunto em que começamos? Por que o argumento mudou? Temos que nos fazer estas perguntas o tempo todo, pois é um desvio que parece até instintivo. Creio que se fizermos esse pequeno ajuste, tornaremos o mundo um tanto melhor.

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Adeus, Brasil

Há alguns meses, eu deixei meu país natal, o Brasil. O meu destino não é importante agora. O que eu quero mesmo explicar — mesmo que ninguém tenha perguntado — é porque tomei essa decisão e porque os brasileiros devem se preocupar.

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Pessoal e intransferível

Eu sou um pai de família. É estranho falar isso numa época em que o feminismo exige o fim das responsabilidades baseadas em gênero, mas a realidade pura e simples é que eu tenho de zelar pelo bem-estar da minha família. Esta responsabilidade não pode ser transferida “para a sociedade”, na forma de auxílio social por exemplo, porque eu sou parte da sociedade; como uma sociedade em que indivíduos não são responsáveis por si pode ser responsável pelos seus membros?

O melhor do Brasil é o brasileiro… pobre

Sendo minha responsabilidade zelar pelo bem-estar de esposa e filhos, eu fazia o que estava ao meu alcance. Segundo a ABEP, estávamos na classe B1 no Critério Brasil. Ou seja, segundo as medidas oficiais nós tínhamos uma vida confortável. E o que uma pessoa assim merece? Segundo o Brasil, ter o que conquista tomado de si e redistribuído a quem não conquistou coisa alguma. Ou seja, se você ganha mais do que o resto, independentemente de como usa o que ganha, tem que dar o que tem ao governo para que sustente o pobre através de impostos altíssimos.

No Brasil, tudo tem que ser feito duas vezes para se conseguir algum resultado. O governo cobra impostos para sustentar o sistema  de ensino, que é precário; para dar a mínima formação aos nossos filhos, temos que pô-los em escola particular. Só com o único filho em idade escolar, gastávamos mais de 20 mil Reais por ano. Os impostos também deveriam servir para a segurança pública, mas para ter o mínimo de segurança tínhamos que viver em um condomínio fechado com segurança 24 horas, a custo anual de outros 4 mil Reais. E isso é só para garantir que ninguém entrasse na nossa casa. Também entende-se que os impostos pagos vão para transporte público, e nunca vi uma cidade de um milhão de habitantes, rica como Campinas, não ter metrô. Ou seja, para trabalhar eu tinha que ter um carro (e outro para minha esposa também trabalhar). Contando isso e muito mais, para minha família ter as mínimas condições de vida precisávamos de dois empregos e não sobrava um tostão para aproveitar a vida.

Eu poderia continuar por horas, mencionando os aumentos muito acima da inflação sobre serviços básicos, impostos sobre consumo e falta de atualização do imposto de renda. Mas vou resumir tudo isto numa só idéia: no Brasil, não ser pobre é crime. Segundo pesquisa do IBOPE/CNI (p.13-14), os brasileiros rejeitam um candidato a cargo eletivo que seja rico, preferindo o pobre. Segundo a pesquisa, ser rico é um defeito tão grande quanto ser ateu, e ser pobre é uma virtude tão grande quanto “acreditar em Deus”, e os únicos candidatos que têm chance de ganhar são os piores — populistas econômicos e religiosos ignorantes. A pesquisa citada se junta a outras para demonstrar que, em todos os aspectos, o Brasile me odeia.

Motim ou bote salva-vidas?

É dito que o Brasil é um país em desenvolvimento. Há 40 anos, países em desenvolvimento na Ásia foram chamados de Tigres Asiáticos. Coréia do Sul e Brasil eram considerados no mesmo patamar. Hoje aquele é um país desenvolvido, e o Brasil continua em desenvolvimento. Discordo. O país está afundando. Governantes incompetentes e corruptos estão saqueando o povo, semeando o ódio à riqueza e o desprezo à inteligência. Numa situação desta, só há duas opções: revolução ou retirada.

Eu adoraria poder lutar pelo meu país, mesmo que ele me odeie. Mas isso custaria um preço muito caro para a minha família. Por isso resolvi pular do barco. E não sou o único. Quem tem condições e percebe que não é mais bem-vindo está fugindo do país. Na empresa em que trabalhava até o ano passado pelo menos 5% dos funcionários saíram para trabalhar no exterior em um único ano. Isso não é coincidência.

Vai ficar?

Exatamente porque o Brasil só gosta de pobre, os que não querem ser estão fugindo. E de quem o governo cobrará impostos? A renda de quem será redistribuída? Pois é, um país que odeia ricos está fadado à pobreza — sim, este é um argumento puramente pragmático. E quem fica, até que a revolução aconteça, tem seu destino traçado. Há um fio de esperança em 2018. Não será surpresa essa esperança ser frustrada, já que historicamente o fator que determina o resultado das eleições é o tempo de horário eleitoral gratuito e a esperança está exatamente no menor dos partidos, o Novo.

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Eu saí porque não aguentava mais ser odiado e assaltado por tentar alcançar alguma coisa. Você que ainda fica tem poucas opções: recomeçar onde seja aceito, empobrecer para o ser, ou arriscar a vida e o sustento em favor dos seus compatriotas, se tornando ativo na política e sociedade — e não estou falando de compartilhar coisas no Facebook e Instagram. Nenhuma dessas opções é confortável, eu sei, mas quem não tomar uma decisão terá uma tomada por si.

Bem, esse é o resumo do porquê eu não pretendo mais pôr os pés no meu país natal. Num outro dia eu conto para onde fui, o que eu vi até agora e como é viver em outro país. Até a próxima!

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A relação intrínseca entre feminismo e Islã

Dos fatos

Há décadas existem, no Reino Unido, grupos organizados atuando na exploração sexual de meninas. Elas são aliciadas, estupradas, raptadas e oferecidas como prostitutas contra sua vontade. Estas gangues fizeram milhares de vítimas, tendo os casos recentemente revelados acontecido nas cidades de Telford e Rotherham. Abaixo seguem algumas das notícias em inglês e algumas partes traduzidas para ajudar o leitor que não domina a língua.

Uma investigação do Sunday Mirror alega que centenas de meninas foram abusadas em Telford, Shropshire, desde os anos 80. — BBC
A representante da cidade no congresso, Lucy Allan, disse que levaria o assunto ao Parlamento e solicita uma investigação independente.
A Polícia de West Mercia disse que levou todas as alegações “de forma extremamente séria” mas as últimas informações “não eram novas”.

Como assim, as últimas informações “não eram novas”? Como a polícia fica sabendo de casos de abuso sexual de meninas e não age? A matéria da BBC deixa mais perguntas do que respostas no ar, então vamos olhar a investigação do Mirror, sua fonte:

Mil crianças podem ter sofrido sem misericórdia nas mãos de pervertidos e torturadores em Telford desde os anos 80.
Meninas de até 11 anos foram aliciadas de suas famílias para serem drogadas, agredidas e estupradas numa endemia que, segundo as vítimas, continua a ocorrer.
TRÊS pessoas foram assassinadas e outras duas morreram em tragédias ligadas ao escândalo.
A investigação de 18 meses do Mirror revela abusos em níveis sem precedentes. Descobrimos que:

  • Assistentes sociais sabiam do abuso nos anos 90 mas a polícia levou uma década para iniciar investigação
  • Conselheiros viam crianças abusadas e traficadas como “prostitutas” ao invés de vítimas, de acordo com arquivos não consultados anteriormente
  • Autoridades não guardaram detalhes dos abusadores de comunidades asiáticas por medo de “racismo”
  • A polícia não investigou um caso recente cinco vezes até a intervenção de um representante no congresso
  • Uma vítima disse que policiais tentaram impedi-la de descobrir o porquê de seus abusadores não terem sido indiciados porque temiam que ela falasse conosco

Teme-se que a escala dos abusos descobertos em Telford — cidade de 170.000 habitantes — seja a mais brutal e duradoura de todas.

Então a polícia identificou os abusadores como sendo “asiáticos” mas não usou isto como perfil em investigação por medo de acusações de “racismo”. Mas a Ásia é enorme e diversa, de que tipo de “asiáticos” eles estão falando: japoneses, chineses, tibetanos, vietnamitas, mongóis, russos, indianos, árabes? Todos ou um subconjunto? Continuemos na mesma reportagem…

Nossa investigação — baseada em documentos obtidos sob a Lei de Acesso à Informação — descobriu que dois predadores pedófilos começaram a focar em meninas de um lar para crianças em 1981.

Um dos abusadores ganhava milhares [de Libras] por noite traficando meninas pelo país por sexo com centenas de homens, de acordo com uma vítima.

Em outro caso, uma garota de 14 anos foi aliciada por um asiático de 18 em 1985. Depois de ter um bebê, ele a passou para seus amigos para terem relações sexuais e eles alegadamente a estupraram.

Novamente, “asiático”. Algum nome ou foto? Seria muito fácil identificar a origem étnica ou cultural dos criminosos. Um nome composto por monossílabos seria chinês, alternando fonemas de vogais e consoantes de forma equilibrada seria japonês, comprido e cheio de consoantes, indiano, com derivados de “Mohammed” e “Allah” seria muçulmano (desde o Oriente Médio até a Indonésia) e por aí vai. Porque embora a etnia de uma pessoa nada informe sobre seu comportamento, suas crenças sim, quer religiosas ou culturais. E creio ser autoevidente que devemos evitar ou combater sistemas de crenças, religiosas ou culturais, que levem ao abuso de meninas. Mas ao mesmo tempo a matéria informa que a polícia escondeu as características dos criminosos por temor de racismo, ela também dá informações totalmente irrelevantes e incompletas. Mas espere! Apesar de a matéria citar “asiáticos” 5 vezes, existe uma menção por nome:

Lucy Lowe, 16 anos, foi morta em 2000 com sua mãe e irmã após seu abusador de 26 anos Azhar Ali Mehmood atear fogo à sua casa. Cabbie Mehmood aliciou Lucy em 1997 e ela tinha só 14 anos quando deu à luz sua filha.

Hmm… então pelo menos um dos “asiáticos” na verdade parece ser um muçulmano asiático. Será coincidência? Temos que procurar respostas em outras matérias. No próprio Sunday Mirror, ao entrar na meta-matéria “tudo sobre abuso sexual”, vemos imagens de vários “asiáticos” relacionados a estes escândalos recentes. Olhe as imagens por si mesmo, caro leitor. Não querendo ser presunçoso, mas tendo trabalhado em T.I. por vários anos, o que me levou a conhecer gente de várias culturas, não me parece que sejam japoneses ou russos; parece claro que são pessoas do sul da Ásia, desde a India até a Arábia. Mas essa região contém todo tipo de tradição: hindus, muçulmanos, sikhs, budistas, cristãos, e todos variando desde o muito tradicional ao bem secular.

Certamente as vítimas podem informar que tipo de discurso seus abusadores usavam, que costumes praticavam, como justificavam os abusos. Talvez os próprios abusadores, uma vez finalmente indiciados, tentem justificar seus atos. Tanto a Polícia quanto as matérias iniciais parecem intencionalmente omitir estas informações. Veja por exemplo esta manchete do Mirror: Ligações de gangue a outros grupos asiáticos de exploração sexual “expostos” e informante se esconde após ameaças de morte”; na matéria são citados 17 homens e 1 mulher, e somente o nome desta é informado. As fotos de 8 destes homens são mostradas, e o padrão visto até aqui se repete. Mas sempre tem alguém que viu os dados originais e está disposto a os expor.

Os dissidentes

Embora polícia e jornais ocultem a motivação dos crimes — ou a sua racionalização –, algumas pessoas se manifestam, quer por serem afetadas pela forma como os fatos são comunicados, quer por repúdio à manipulação da mídia. Embora ainda estejam restritos aos meios de comunicação minoritários ou redes sociais, às vezes alguma matéria chega aos grandes jornais. Veja estas duas manchetes, por exemplo:

Em contraste, o tipo de análise que se faz da situação é: Pesquisadores britânico-paquistaneses dizem que 84% dos membros de gangues de estupradores são asiáticos (grifo meu).

E o que isso tem a ver com feminismo?

Não só com feminismo, mas com justiça social em geral. Note o leitor que o padrão de desonestidade da polícia, políticos e mídia “liberais” é descaracterizar a hipótese de causalidade dos fatos em questão, usando uma característica irrelevante e tão abrangente quanto possível para descrever os causadores. Agora pergunto, quando os problemas abordados pelo feminismo (contemporâneo ou da terceira onda) são expostos, que discurso é usado? Quem promove a “cultura do estupro”? Homens! De quem é a culpa pela “diferença salarial”? Dos homens! Quem comete atentados em massa com armas? Homens brancos!

Nada a respeito de homens leva a qualquer dos problemas que feministas alegam existir. Da mesma forma que nada a respeito de ser asiático leva a gangues de estupradores e aliciadores. Harvey Weinstein ter cometido estupros não implica qualquer outro homem só porque Weinstein é homem. Mas se feministas e “liberais” conseguem vender a idéia para uma massa de analfabetos funcionais, eles acumulam poder e ganham massa de manobra, abusando da democracia para seu benefício próprio.

É hora de identificar a ignorância, desonestidade e manipulação pelo que são. Ou permitiremos que um bando de covardes entreguem a civilização ocidental e a república (todas elas) para um bando de bárbaros com sede de sangue e poder.

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