Mais um caso de NDE

Cientistas afirmam que a alma pode abandonar o corpo e observá-lo

Vem pelo History Channel, aquele do Alienígenas do Passado, então temos que começar a leitura com certa desconfiança. O bom jornalista sempre dá suas fontes, e no final da matéria pode-se conferir a fonte: um outro jornal em espanhol, que por sua vez copiou do Epoch Times (nunca ouvi falar antes). A fonte do Epoch Times é um livro em holandês, portanto estamos no lugar certo. Saber inglês ajuda.

O Epoch conta a mesma estória do History, mas com vários detalhes que foram deixados pelo caminho para aumentar a credibilidade. Este é um aspecto muito interessante, pois lembra muito outros casos de tradições escritas passadas adiante por cópia. Ademais, saber que a fonte é um livro já elimina um aspecto da manchete: “cientistas”. Os autores do livro são médicos, e não publicaram suas “descobertas” em um artigo revisado em publicação reconhecida. Não foi aplicado o método científico, como discuto adiante, logo não podemos chamar de um trabalho científico. Não encontrei referências de associação dos médicos com algum credo que lhes descredenciasse, o que é bom.

Todas as matérias apresentam a estória de forma não-linear, então vou resumir cronologicamente: em certo dia de Natal (ano não informado) o dr. Rudy fez cirurgia cardíaca num paciente, que mesmo depois de muita insistência, perdeu os sinais vitais. Depois de estimados 20 a 25 minutos, ele voltou à vida. Os médicos não registraram isso como um fato que merecesse grande atenção, de forma que não anotaram sequer o nome do paciente para revisar o caso. O paciente levou mais uns dois dias para recobrar a consciência, e depois disso relatou sua experiência de quase morte — luz branca no fim do túnel e acontecimentos em volta de seu corpo –, mas não é mencionado a quem ele a relatou. Mesmo assim, ninguém quis anotar o nome dele para revisão do caso, agora mais fantástico. Muito tempo depois, os médicos resolvem relatar o caso em um livro.

Dá para perceber de cara que há vários problemas com esse relato. O primeiro é que vem de memória. Digamos que os autores sejam honestos. Eles ainda estão suscetíveis a problemas de memória, como é cientificamente documentado (uma matéria bem escrita sobre isso pode ser vista na CNN, com fontes fidedignas). O relato pode ter falhado em quanto tempo o paciente passou sem sinais vitais, o que ele contou sobre sua experiência, a quem ele contou e quando o fez. O próprio paciente só relata sua experiência pelo menos dois dias depois, o que significa que ele pode ter relatado experiências que teve após o evento na sala cirúrgica ou ter sido influenciado na forma como contou o que supostamente viu e ouviu.

O segundo problema tem a ver com a relevância do caso. É difícil acreditar que um médico, ao ver alguém voltar ao reino dos vivos depois de 20 minutos não ache isso importante o suficiente para pelo menos anotar o nome dele em algum lugar. E isso era totalmente viável: o paciente estava com ele (portanto havia um prontuário na sala), e ele tinha tempo livre suficiente para ficar conversando com seu assistente após a cirurgia. Também é difícil acreditar que ninguém registraria o nome do paciente e as circunstâncias quando ele deu detalhes precisos do que acontecia enquanto ele estava “morto”.

O terceiro problema é a falta de dados a respeito do caso: não há data em que ocorreu (foi num Natal, mas de que ano?), hospital, nome do paciente, ou qualquer outro registro. Tudo é baseado no relato de duas pessoas associadas, isto é, uma só fonte. Nenhum cientista ou historiador tira conclusões baseado em somente uma fonte.

O quarto e último problema é que este não seria o único caso em qualquer dos aspectos. Há casos melhor documentados de pessoas que passaram mais de alguns minutos sem sinais vitais e não morreram, assim como estudos de pessoas que relataram fatos acontecidos durante sua experiência de quase-morte; nenhum deles (considerando os que se baseiam em fatos mensuráveis e não anedotas) dá qualquer evidência de que tais relatos correspondem à realidade, e sim de que são fabricações da mente.

Conclusão: dois médicos escreveram um livro com o intuito de vendê-lo aos montes para quem já acredita em algo relacionado com experiências de quase-morte.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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