Análise de um leigo

Por que eu deixei de ser ateu” tem sido um tanto compartilhado no Facebook por conhecidos cristãos, como se fosse uma vitória do cristianismo. Como ateu (cético, humanista, etc.) achei apropriado mostrar como um ateu — que não representa o ateísmo, já que este não tem representantes — pode enxergar tal relato.

O Bruno começa destacando (grifo dele) como ele não entendia a religião, e que ele passou a desprezar a religião por não a entender. A idéia de que ele não entendia e procurava sempre contrariar permeia o relato dele. Já de cara ele apresenta duas formas erradas de se pensar como cético (esqueça o ateísmo): apelo à ignorância — não entendo, logo concluo — e falsa dicotomia — X é falso, portanto só Y pode ser verdadeiro.

Em seguida ele dá a entender que todo ateu é relativista e anarquista. Eu, por exemplo, nem sei quem é Comte, o filósofo que Bruno admirava, e acho o relativismo moral inválido e extremamente perigoso. Também é comum a visão naturalista de que o ser humano é um ser social, portanto independência é um conceito coletivo (a raça humana é independente de seres sobrenaturais) enquanto a individualidade está ligada à dependência da natureza e das conexões sociais, como família, governo, sociedade.

Até o conceito de felicidade que ele apresenta é inferior ao socrático (harmonia entre vontade e razão), no qual se baseia muito da filosofia moderna na área.

Outra coisa que permeia o texto (agora com cara de apologético) é a idéia de cientificismo, isto é, que ciência é um conjunto de conclusões em que você tem que acreditar sem motivos suficientes, que mudam a todo instante — nada poderia estar mais errado, mas é necessário para a dicotomia que ele está tentando empurrar. Ele dispensa o método científico como epistemologia e começa a abraçar a fé — afinal, se é preciso fé para aceitar estudos científicos, qual o problema de usá-la para abraçar uma religião?

Em seguida o Bruno começa a apresentar uma linha apologética bem parecida com o “buraco do tamanho de Deus” de C. S. Lewis: ele tinha tudo que achava que precisava, mas “faltava alguma coisa”. Ele conclui que um deus tem que existir para preencher esse buraco, e que esse deus só pode ser aquele que satisfazia sua vó. Ora, por que não o deus que satisfaz os hindus, budistas ou muçulmanos? Agora a dicotomia que ele veio construindo faz sentido, de um ponto de vista apologético: se nenhum deus não é resposta, então só o deus cristão pode ser. Ele até começa com a proposta de avaliar “religiões” (no plural), mas acaba que em nenhum momento ele menciona outra que não o cristianismo.

Enfim, ele expõe a dicotomia imbecil de todo bom apologeta: niilismo ou cristianismo. Não só como ateu, mas como humanista e cético deu para ver que ele usou todos os meios possíveis de ser enganado, com apelo a emoções e ignorância, dicotomias falsas e mentiras para chegar a este ponto. Ele prefere ser feliz com uma mentira a procurar felicidade na realidade.

Espero que isto esclareça o porquê de eu, pessoalmente, não ser movido por um relato desse tipo sobre a conversão de um ateu. E sim, eu aceito que ele era um ateu verdadeiro (apesar de alguns cristãos não aceitarem que eu tenha sido um cristão verdadeiro); só lamento ele não ter sido cético ou racional, e ter sido doutrinado no marxismo como filosofia como se isso fosse ateísmo.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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