É preciso ter muita fé para ser ateu

Foi-me mostrado este vídeo, que alega que ateus têm fé. Mas o que é fé? Fé é uma coisa boa? Se é, então qual é o problema em “ter muita fé para ser ateu”? Se não é, então seria ruim ter fé em deuses? Abaixo, o vídeo e a minha crítica:

“A lógica pode mostrar que há um deus”

Uma falácia lógica é uma forma incorreta de demonstrar algo. Existem falácias muito conhecidas, entre elas o “espantalho”, quando alguém combate uma forma incorreta da proposição original; o “apelo à ignorância”, quando algo é proposto porque não se conhece o domínio em questão; a “circularidade”, quando algo é verdade porque sim; a “falsa dicotomia”, quando a probabilidade inicial de algo ser verdadeiro (taxa básica) é 50% quando na verdade existem muitas outras possibilidades.

Existe lógica boa e lógica ruim. Qual delas será que “pode mostrar que há um deus”? Se eu encontrar enganos e falácias lógicas, será a lógica ruim — logo, a posição racional seria rejeitar a crença em deuses. Mas se eu encontrar demonstrações positivas sem enganos ou falácias, eu não terei qualquer problema em considerar a crença no sobrenatural.

“A crença em Deus é mais racional do que o ateísmo.”

Ainda assim, nenhum argumento de apologética cristã é válido. A saber: o cosmológico (Kalam) é mero apelo à ignorância; o teleológico (Design Inteligente) é circular; o moral (C.S. Lewis) é baseado em mentiras e mostra que o deus cristão não pode existir; e a “Aposta de Pascal” é matematicamente incorreta.

Primeira falácia lógica: falsa dicotomia. O correto seria: “a crença em algum deus é mais racional que o ateísmo, mas a crença em um deus específico é no máximo tão racional quanto o ateísmo”. Também ignora a “conclusão nula”: na falta de evidências, qual é a proposição mais plausível? Se eu não posso escolher qualquer deus, a proposição mais plausível é rejeitar a crença em qualquer deus específico sem rejeitar a possibilidade de que qualquer deles exista (ateísmo agnóstico). Ou seja, a primeira frase é mentira um engano.

“Impressões digitais de Deus”

Design Inteligente, já conhecido por ser circular e mentiroso. A idéia de utilidade é confundida com propósito. Segundo a “teoria do DI”, se eu usar uma pedra para matar alguém, esta pedra foi feita por Deus (ou por um projetista inteligente) para este fim.

“Tomás de Aquino e o argumento do Causador Sem Causa” (Argumento Cosmológico Kalam)

Eu mesmo traduzi um vídeo em que a filosofia do argumento cosmológico é destruída, e como seu principal proponente contemporâneo (William Lane Craig) mente e se contradiz:


(ative legendas se não aparecerem de cara).

William Lane Craig também é pego com a boca na botija na segunda proposição do Argumento Cosmológico. Ele vive citando um teorema de Alexander Vilenkin, e Sean Carroll (cosmólogo) gravou o co-autor do teorema desmentindo a citação de Craig ao vivo em debate.


(sem legendas, sinto muito)

Então a primeira E a segunda premissa do Argumento Cosmológico são mentiras. Nada sobra para a conclusão “lógica”.

“Sem causa primeira não há causa segunda”

Regressão causal pode ser filosoficamente infinita se o tempo em si for finito. É uma questão de mecânica quântica, não filosófica.

“Matéria não pode mover a si mesma”

GRAVIDADE. Disponha. Ou, para citar Stephen Hawking, “Porque existe uma lei como a gravidade, o universo pode e irá se criar do nada” (The Grand Design). Note-se que esta frase está num contexto especulativo, mas o princípio da “matéria movendo a si mesma” é parte da lei física.

“Sabemos agora que toda a matéria, ou seja, todo o universo, passou a existir cerca de 13,7 bilhões de anos atrás”

MENTIRA. O correto é: “sabemos que toda a matéria que compõe o universo observável se expandiu a partir de um ponto infinitesimal há cerca de 13,7 bilhões de anos”. Não se sabe em que estado a matéria se encontrava “antes” desse ponto. “Antes” entre aspas porque, segundo a tese mais aceita, o próprio tempo passou a existir na expansão universal, e não há como representar linguisticamente algo “antes do Big Bang”.

“Nenhum cientista duvida disso”

Então temos um cristão dizendo que os “cientistas” cristãos que dizem que a evolução é uma teoria furada não são cientistas de verdade. Obrigado! Ken Ham discorda, e diria que esta é uma afirmação de um ateu.

** Eu sou um profeta! Em uma frase eu previ que ele usaria o Kalam.

“A conclusão de que Deus existe não requer fé”

Não, requer ignorância. Já que eu não sei o que fez com que o universo começasse a existir, eu digo que foi Deus. Não um deus qualquer, Brama, Alá, Quetzacoatl, Chronos, … não, foi o deus em quem eu já acreditava — Jeová, Jesus, ou simplesmente deus com D maiúsculo. A crença nesse deus é a definição do “apelo à ignorância”. [Update] Aliás, de acordo com Romanos 14:23b, crer em Deus sem fé é pecado — um apologista cristão deveria saber isso. Logo, um Cristão Verdadeiro® deveria rejeitar o Argumento Cosmológico para não pecar — não é o que eu digo, é o que a Bíblia diz. Mas eu divago.

“É preciso fé para acreditar que tudo veio do nada”

Certo, mas não é nisso que ateus crêem (olha a falácia do espantalho). Na verdade, “ateísmo” não implica crença: implica não-crença. Ateus não têm razão para acreditar que tudo veio desse algo específico, ou qualquer outra razão para crer em qualquer deus — daí a proposição nula do ateísmo. Este ateu aqui não tem fé. Claro que “fé” aqui não foi definida. Porque se fé for uma coisa boa, então o ateísmo é melhor que o teísmo. Se for ruim, então o teísmo é ruim, o ateísmo só é pior e precisamos de algo a mais. Este ateu tem uma definição negativa de fé:

Demonstre que eu creio em algo por fé e eu abandono a crença em favor da proposição nula.

“É preciso apenas a razão para acreditar que tudo vem de Deus”

Claro, por isso que no culto de domingo nós vemos uma apresentação do Argumento Cosmológico antes do apelo… só que não. Porque para acreditar que tudo vem de Deus é preciso apresentar falácias lógicas: apelo à ignorância (para onde você vai depois que morrer?), apelo emocional (Jesus morreu por você! Jesus te ama!), falsa dicotomia (este Deus ou nenhum), … e só depois mostrar, novamente enganando, como a crença que você já tem é racional.

Fica óbvio que o vídeo só serviu para confirmar como os apologistas cristãos são totalmente desonestos ou simplesmente ignorantes — intencionalmente.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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