A verdade não importa

Eu fui evangélico (batista) por pouco mais de dez anos. Por muitos deles participei de ministério de louvor, coral, cheguei até a reger um coral e dar aula em escola dominical. Podemos dizer que eu estava em posição de evidência dentro da igreja. O fato de muitas pessoas saberem quem eu era não significava que eu tinha amigos. Olhando em retrospectiva, eu não tinha. São dois fatos a se considerar na leitura.

Eu apostatei de fato praticamente um ano antes de manifestar minha apostasia. Para quem não sabe, apostatar significa abandonar a fé. Foi um processo de mais de um ano entre reconhecer que havia alternativas ao cristianismo e enxergar que este era falso; e mais quase um ano entre perceber e aceitar isso. Tudo regado por muito estudo. Eu estudei Filosofia, me aprofundando em Epistemologia, Ética e Política, vários tópicos em Biologia,  Neurologia, Física e História, e também muito da Bíblia, incluindo os dois cursos de Estudos Religiosos da universidade de Yale pelo Open Courses (RLST-152 e RLST-145). Livros cristãos e seculares, incluindo Tim Keller, Sam Harris e Richard Carrier. Debates, então, devo ter assistido e dissecado o equivalente em dias dos debates que ocorreram com muita frequência em torno da virada do milênio e pesquisava sobre cada afirmação ou argumento apresentado. Enfim, abandonar o cristianismo não foi uma reação emocional. Pelo contrário, eu não queria deixar de ser cristão. Eu tive que fazê-lo.

Tendo testemunhado uma década de brigas entre religiosos e não-religiosos, eu esperava que minha apostasia fosse cercada por dissenções. Essa havia sido a minha própria reação inicial — como alguém poderia não acreditar em Jesus?! Mas a realidade foi bem diferente. Por parte da liderança da igreja, a reação foi “abafa o caso”: não fale sobre isso, principalmente em público; saia ou fique em silêncio. Por parte dos que me conheciam, a reação foi distanciar-se: quase ninguém se propôs a discutir, questionar ou responder meus questionamentos. As poucas pessoas que vieram com agressões logo também se afastaram.

"As pessoas dizem frequentemente terem fome da verdade, mas raramente gostam do sabor quando ela lhes é servida" - Tyrion Lannister

Para mim, essa foi uma reação bizarra: se alguém dissesse que eu estou sendo enganado, principalmente naquilo que eu dizia ser a coisa mais importante da minha vida, eu iria atrás de saber se era verdade ou não. A pessoa poderia ser a mais desprezível do mundo, ou por mais que doesse, mas se tivesse como provar que eu estava enganado, eu iria querer saber. Mas não parece ser essa a reação das pessoas que me cercavam. Cristãos em geral alegam que o seu deus é a coisa mais importante de suas vidas, sendo o primeiro mandamento mosaico e um dos poucos mandamentos reforçados por Jesus nos evangelhos. Algo pouco menos importante, como a fidelidade de um cônjuge, seria alvo de obsessão; o cônjuge potencialmente traído fuçaria celular, redes sociais, cartão de crédito, poderia até contratar um detetive particular para confirmar ou desmentir as alegações sobre o cônjuge. Mas deus? Parece que é mais importante ter um cônjuge infiel em casa do que não se sentir amado(a) — mesmo que o amor não exista de verdade, e o melhor método para saber se está sendo traído(a) ou não é perguntar para o traidor em potencial — ou para o pastor.

No final, a impressão que eu tenho é que ninguém se importa com a verdade. Se uma crença faz com que alguém se sinta bem, ela será protegida a qualquer custo — até mesmo da honestidade intelectual. Eu já fui atrás de pastores e ovelhas, de forma agressiva e pacífica: nada muda a reação das pessoas. Será que é o Flúor na água? Conformismo? Tribalismo (pressão social)? O que quer que seja, vejo-me incapaz de compreender e muitas vezes até de aceitar.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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