A (sua) verdade não importa

Há alguns dias escrevi sobre a minha impressão de que as pessoas não se importam com a verdade quando há uma crença estabelecida. Pode ser uma crença religiosa, política, moral ou social. Bem, mesmo que a verdade não importe de verdade, é importante que o alvo da crença pareça verdadeiro — aparentemente, é difícil dizer que o mais importante é se sentir bem.

O resultado dessa necessidade de acreditar em coisas que não são necessariamente verdadeiras criam uma segunda categoria epistêmica: “é verdade para mim!”, ou “esta é a minha opinião e pronto!”. O que isso significaria? Aparentemente algo pode ser, ao mesmo tempo, verdadeiro e falso, existente e imaginário, factual ou conspiratório. Essa questão é seríssima. Opiniões informam ações, e opiniões irracionais informam ações potencialmente desastrosas.

Eu moro em Campinas, a 100km da cidade de São Paulo, região em que há um problema recente de abastecimento de água. Criemos uma situação hipotética: Fulano mora em Campinas, e acredita que não falta água na região. O racionamento é uma conspiração para subir os preços, como a Sanasa está tentando fazer por aqui. E não adianta tentar convencê-lo do contrário, pois “é verdade para ele”. Como não há falta de água, Fulano continua usando normalmente, sem economia. Se houverem muitos como Fulano, então o problema de abastecimento se agravará, levando a uma crise maior — mais racionamento, mais aumentos — e à confirmação de que há uma conspiração contra a população para Fulano e seus correligionários. A crença irracional de Fulano (ou sua “opinião”) informou suas ações, que prejudicaram as pessoas que compartilham da água que consomem.

é verdade ou mentira

Será que existem “muitas verdades”? Bem, essa é a idéia epistêmica do Jainismo, ou anekantavada. Quando olhamos para a religião, é interessante notar que o cristianismo (e todas as outras religiões ocidentais contemporâneas) nascem na teoria de formas de Platão. Então quando alguém diz “Deus é verdadeiro para mim”, ela parece invalidar a base racional do cristianismo. Afinal, existe uma verdade ou muitas verdades?

O caso clássico da anekantavada pode dar uma idéia de como a filosofia contemporânea vê o caso: os cegos e o elefante. Acho que todos conhecem, então vou direto ao ponto: cada cego tem uma experiência (tocar a tromba, patas, rabo, …). As experiências são verdadeiras e diferentes, mas o objeto (a verdade) é uma só: existe um elefante. Semelhantemente, quando um daltônico enxerga um objeto vermelho e um marrom como se tivessem a mesma cor, ele não estará certo ao dizer que ambos têm a mesma cor. Ele estará certo em dizer que a experiência é verdadeira, mas não que o fato é verdadeiro. Os objetos são de cores diferentes e é possível demonstrar isso sem que haja qualquer observador, ou mesmo se todos os observadores forem daltônicos. Cor é o nome que damos à luz em determinada frequência no especro visível. Podemos medir a luz refletida por um objeto e dizer qual é a sua “cor” (ou frequência) real, independentemente da cor percebida.

Quando alguém diz que certa conclusão natural ou metafísica “é a sua verdade”, vejo grande risco de ele ter orgulho da sua própria ignorância — um risco para si e para aqueles que o rodeiam.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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