Cristianismo como seita (3)

Continuo com a longa série em que avalio se ou como o cristianismo pode ser considerado uma seita. Se você caiu aqui de pára-quedas, recomendo começar do princípio. Sem mais delongas, prossigamos para a próxima característica de uma seita:

jesuscamp

3. Práticas de alteração da consciência

Práticas de alteração da consciência (como meditação, cânticos, falar em línguas, sessões de denúncia e rotinas de trabalho debilitante) são usadas excessivamente e servem para suprimir dúvidas sobre o grupo e seu(s) líder(es).

Este é um item em que fiquei um pouco em dúvida. Para ter certeza se ou como isto é feito, resolvi pegar todos os exemplos e quebrá-los individualmente para ver o que se aplica ao cristianismo.

Meditação

Meditar significa concentrar sua mente em algo, talvez em busca de respostas, ou de se isolar de influências externas para se dedicar inteiramente a uma atividade mental. Em todos os aspectos, a meditação parece equivalente à oração:

Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto – Mateus 6:6a

E com que frequência deve-se orar?

Orai sem cessar. – 1 Tessalonicenses 5:17

E já está próximo o fim de todas as coisas; portanto sede sóbrios e vigiai em oração. – 1 Pedro 4:7(grifo meu)

Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos – Efésios 6:18 (grifo meu)

Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. – Salmos 1:2 (grifo meu)

Cânticos

A música está presente na liturgia de todo culto cristão. Inclusive sempre há participação da congregação nos cânticos. É difícil obter referências formais ao objetivo da música no culto, embora já tenha ouvido várias mensagens sobre isso enquanto frequentava igreja. Este tipo de “não-explicação” aparece com frequência:

Adoração é se doar totalmente, em toda verdade e honestidade, envolvendo e refletindo o amor e a generosidade de Cristo – www.santovivo.net

Existem várias referências à música na Bíblia e fora dela, e para comprovar que cantar é uma preparação para ouvir a mensagem do líder e acreditar nela, basta ir a qualquer igreja de qualquer denominação. Eis um exemplo de observação:

O pastor comenta que o louvor prepara as pessoas para receberem a mensagem (…)
Após o momento de louvor, o pastor expõe a mensagem bíblica que dura em média 45 minutos; a seguir, os membros mais uma vez voltam a cantar vários tipos de música, nesse momento entra em cena o instante de receber as bênçãos e o poder do Espírito Santo. É um momento caracterizado por acentuada emoção expressa por choros, desmaios, muitas pessoas tremem, gritam, pulam, se contorcem e falam “línguas estranhas” (glossolalias). – Valdevino R. dos Santos, Tempos de exaltação: um estudo sobrea a música e a glossolalia na Igreja do Evangelho Quadrangular, p.28 (grifo meu)

Nota-se então que a música tem por objetivo tanto causar um estado mental alterado quanto melhorar a receptividade à mensagem. O período de louvor também pode ser bem maior do que o da mensagem.

Falar em línguas (glossolalia)

Como se vê na citação acima, falar em línguas é algo comum nas igrejas evangélicas, e uma marca das igrejas pentecostais, além de estar presente até em congregações católicas (Renovação Carismática). Devo destacar que esta não é uma característica de todas as igrejas evangélicas.

Sessões de denúncia

Algumas igrejas mais conservadoras possuem esse tipo de prática, que inclusive é motivo de piada. Hoje em dia isto é cada vez mais incomum. A prática mais associada a isso não é documentada, variando de fofoca a alguns tipos de afastamento que têm caráter público similar a uma sessão de denúncia:

O afastamento deve dar-se quando o crédito da religião, a honra de Cristo e o bem do faltoso o exigem, mesmo depois de ter dado satisfação ao tribunal. Aplica-se por tempo indeterminado, até o faltoso dar prova do seu arrependimento, ou até que a sua conduta mostre a necessidade de lhe ser imposta outra pena mais severa – Manual Presbiteriano, p.70

3. Pronunciamento público (v. 17)
Tal proceder nunca é violação de segredos, pois o ofensor deliberadamente recusou os caminhos prévios do arrependimento. Diante de tal pronunciamento cada membro do corpo de Cristo deve orar pelo pecador, evitar comentários desnecessários (2 Ts 3.14-15) e vigiar a si próprio (1 Co 10.12). Tal oficialização pública da disciplina traz implicações temporárias em relação aos sacramentos (1 Co 11.27). – revista Fides Reformata, 1998, p.4

O afastamento das funções ou outras formas públicas de disciplina é prática comum nas igrejas evangélicas, e quanto mais literalista, mais comum é a prática.

Rotinas de trabalho debilitante

Não vejo evidência desta forma de pressão em igrejas cristãs.

Conclusão

Algumas práticas de alteração da consciência são utilizadas em igrejas evangélicas, e toda igreja usa pelo menos uma delas de forma sistemática — normalmente mais. Na minha experiência pessoal, o estado mental induzido pela pressão social é um fator decisivo para o apoio ao grupo.

Contudo, devo ressaltar que nem todas as igrejas fazem a mesma coisa. Mesmo assim, de forma geral as práticas descritas são baseadas no texto sagrado, então podemos considerar que é algo inerente à religião cristã e removido somente através de muita exegese e hermenêutica (ginástica mental). Ponto para o cristianismo: 3/15.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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