Cristianismo como seita (7)

Depois de um hiato de mais de um mês — alguém tem que trabalhar –, volto com a sétima característica nesta série. Se você caiu de pára-quedas, vá para a introdução: Cristianismo e seitas

7. O líder não presta contas a qualquer autoridade

O líder não presta contas a qualquer autoridade (diferentemente, por exemplo, de professores, comandantes ou ministros, reverendos, monges e rabinos das denominações religiosas mais populares).

Esta é uma situação difícil de tratar e que varia bastante. Há igrejas que fazem parte de alguma convenção, como a Convenção Batista Brasileira ou a Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil; outras são simplesmente grandes denominações com muitas igrejas, como a Igreja do Nazareno; e há as totalmente independentes. A forma de se tomar decisões nas igrejas e organizações também varia, havendo igrejas episcopais (em que há um grupo de líderes), assembleianas (em que a decisão cabe à maioria dos membros), mistas ou até autoritaristas. Em geral, igrejas locais tomam quase todas as decisões que afetam a congregação, enquanto organizações de nível mais alto mantêm a ordem doutrinária e destinam grande parte do dinheiro arrecadado.

A figura do líder e a prestação de contas que ele deve varia de acordo com o tipo de igreja, o tipo de governança da igreja e a teologia que ela adota.

Alguns exemplos hipotéticos podem ilustrar melhor o que pode acontecer numa situação real: se um pastor tem uma conduta questionável, quer moral, legal ou doutrinária, o que acontece com ele depende da estrutura da igreja.

Megadenominação

Numa Igreja do Nazareno uma reclamação poderia ser feita à autoridade eclesiástica regional, e poderia chegar ao ponto em que o reclamado poderia ser expulso ou demitido do cargo. Ou ele poderia sair por sua própria vontade e fundar sua própria igreja independente, levando consigo uma parte dos membros — dependendo do motivo da saída. Foi assim que se formou a Família da Fé: a partir de rixas eclesiásticas.

Convenção

Nas convenções que conheço, nada prático poderia ser feito contra o líder. O máximo seria expulsar a igreja ou denominação da convenção e atividades a ela relacionadas. Mas tal coisa nada tem a ver com a autoridade dele. Então líderes não prestam contas de forma relevante às convenções. Só para ilustrar, várias denominações e convenções consideram a Igreja Universal um seita, heresia. Isso em nada afeta a Universal.

Assembléia/conselho/diretoria local

Em igrejas baseadas em assembléia, a comunidade tem o poder de destituir ou punir líderes locais. A única ressalva é que o pastor muitas vezes tem influência sobre o conselho/diretoria. Mas neste modelo há, sim, prestação de contas a uma estrutura mais ou menos democrática.

Feitas as considerações a particularidades de cada tipo de organização, o que isso tem a ver com a religião em si? Talvez não muito. No primeiro século havia discordância sobre hierarquia, se Paulo era ou não sujeito aos outros apósotolos (Atos 15 contra Gálatas 1 e 2), se há um “herdeiro” da autoridade do cristo e quem seria (primeiro cisma e reforma protestante). Mas há, sim, concordância no sentido de que o pastor é a autoridade máxima local:

Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.” – Hebreus 13:17 (grifo meu)

 

Este tipo de pensamento, aliado à mentalidade do “nós contra o mundo” leva os membros a acreditarem que qualquer ataque aos líderes é injusta. Isto aconteceu no caso dos bispos Hernandes, que mesmo presos em flagrante eram defendidos pelos fiéis sob o pretexto de “perseguição”. Esse tipo de mentalidade, que coloca o líder num pedestal, faz com que ele esteja imune a prestação de contas dentro da comunidade.

A questão da prestação de contas varia muito, mas parece-me que a maioria esmagadora dos evangélicos é membro de uma megadenominação. Assim sendo, tenho que dar um ponto (com ressalvas) para ser seita: 6/15.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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8 respostas para Cristianismo como seita (7)

  1. Carlos disse:

    Oq vale mais?
    Hebreus 13:17 ou 13:09?

    • Henrique disse:

      Por que um valeria mais que o outro? Por que qualquer um valeria algo? O que isso tem a ver com o assunto?

      [edit]
      Desculpe, o modo cético entrou em ação antes que eu pudesse refletir direito. Permita-me reestruturar sua questão: que efeitos diferentes interpretações de Hb 13:9 podem ter sobre a autoridade e prestação de contas de um pastor ou líder? Esta seria uma interpretação correta da dúvida?

      Vejamos… no cenário utópico, o pastor tem revelação especial de Deus para interpretar a Bíblia, isso se a igreja não adotar o acordo de Chicago. Neste caso, o pastor nunca conduzirá o rebanho em “doutrinas estranhas” e não tem que prestar contas do que diz.

      Caso a igreja adote inerrância e infalibilidade bíblicas integralmente de acordo com o ICBI, a teologia proposta de púlpito estará sob escrutínio e quebras como mencionei antes podem ser mais frequentes. Como cada indivíduo tem sua teologia e Deus concorda com ela, é inevitável que desavenças teológicas aconteçam. E quando acontecem, há duas opções:

      1. O indivíduo insurgente se submete à autoridade do líder ou muda para uma igreja que concorde com ele naquele ponto (e em algum momento o ciclo se repete).
      2. O insurgente é um líder concorrente e leva uma parte do grupo para fundar sua própria seita igreja.

      Parece familiar?

      • Carlos disse:

        Hebreus 13:17 só vale se antes 13:09 for verificado.
        Não há que se submeter a líderes não submissos.
        Isso fica absolutamente claro e límpido no relato de Mateus 23 em que Jesus chega a dizer:
        “E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo.”

        Mestre = Guia = Pastor ?

      • Henrique disse:

        Então a quem o pastor presta contas e por quê?

        Ou talvez eu tenha me precipitado… o pastor é uma autoridade eclesiástica local, segundo essa interpretação?

  2. Carlos disse:

    No que se refere ao cristianismo como religião, depende de cada denominação. Tem-se desde pastores tipos papa e representantes oficiais de deus e outros que trabalham sob estruturas bem rígidas e controladas como presbiterianos e congregacionais, que tem salário fixo e precisam prestar contas de quaisquer eventuais “desvios” doutrinários ao sínodo ou presbitério regional.

    Agora, no que se refere ao Evangelho, precisamos colocar necessariamente de lado a eclesiologia. As igrejas e suas estruturas são 100% humanas e nada têm haver com o que Jesus chamou de Reino de Deus. De acordo com o ensino do Cristo não existe hierarquia, ou melhor, só existe um nível hierárquico: O pastor (ele mesmo) e as ovelhas (todos nós), e que cada um sirva ao outro com o que tem de melhor (dom). Ponto final.

    Acontece que em estruturas humanas, a hierarquia é a arma que exerce controle, porque sem controle não há crescimento e nem dízimos generosos. É necessário manter o membro da comunidade religiosa sob constante ameaça divina, para que pela culpa ou ambição, ele se sujeite a alimentar todo o esquema. A partir disso, é fato que a igreja que se chama evangélica em geral é uma seita! E na real, não faz a menor diferença pra quem o líder local presta contas ou não.

    • Henrique disse:

      Realmente, eu cobri o caso de diferenças entre tipos de estruturas e como quebras podem afetar um grupo. Acho que também reconheci que há casos em que esta característica sectária não é satisfeita. Legal, estamos 90% de acordo e convergindo para algo…

      Só achei uma coisa estranha: “As igrejas e suas estruturas são 100% humanas”. Os evangelhos não alegam que Jesus estabeleceu a igreja e ordenou a Pedro que apascentasse suas ovelhas? O fato de os líderes serem procurados no que diz respeito à circuncisão (Atos 15 e Gálatas 1-2) não confirma que há autoridades no que diz respeito tanto à interpretação e revelação das escrituras quanto à sua aplicação na vida cotidiana?

      • Carlos disse:

        Oi, Feliz novo ano :-), só consegui um tempinho pra respoder agora.
        Vamos lá:
        1 – O fato de haver estruturas eclesiásticas na bíblia não significa que não sejam humanas, sempre foram, são e serão. Pra que um grupo, seja ele qual for, seja minimamente organizado é preciso alguma estrutura e portanto algum nível de liderança. Mas veja que Jesus não colocou foco nisso em nenhum momento, ao contrário, quando indagado a respeito de quem seria seu “1º ministro” qdo o reino chegasse ele responde dizendo que: “o maior entre vcs seja o que mais serve”.

        2 – Não. O fato dos líderes serem procurados no que diz respeito ao temas citados por vc não indiga nenhuma revelação especial. Essa idéia de revelação especial é católica e virou evangélica recentemente. De acordo com Cristo, Ele é a única revelação de Deus possível. Os apóstolos são todos irmãos mais velhos e mais sábios. Só!

        3 – O cristianismo vira seita na medida em que não sabe quem vem primeiro, a bíblia ou Jesus? Quem fala de quem? Eu creio em Jesus pq tá na bíblia ou creio na bíblia pq fala de Jesus? Em suma, é por causa do complexo do ovo e da galinha.
        O cristianismo virou a religião do livro, e força pra que tudo ali se encaixe como um livro de receitas sendo assim idólatra do livro.
        Agora pense comigo: Que livro tinha em mãos Paulo?
        Por causa do surto da conversão na estrada de damasco Paulo intuiu quase todo NT e ainda trouxe ao VT, que ele tinha em mãos, sentido a partir da cruz.
        Veja como isso é insano e não poderia ter saído a partir de uma mente criativa.
        O fato é que havia um poder sobrenatural que decorreu a partir da experiência de sua conversão, esse poder de acordo com o relato era Cristo a quem ele perseguia. Logo, todas as escrituras foram re-interpretadas para Paulo a partir de Cristo. Então, a resposta é simples, a bíblia toda só pode fazer sentido a partir de Jesus.
        Ora, se eu me converto de fato a Jesus (esquece o cristianismo), o poder que habita em mim também habitou em paulo, nos fazendo portanto irmãos. Se pra Paulo Jesus era a pedra de esquina, quanto mais pra mim.
        Quer saber como interpretar o Salmo 1? Basta identificar quem eram os escarnecedores que Jesus não se assentava ao redor. Em palavras mais cultas, Jesus é a chave hermenêutica da bíblia. Acho que isso tbm responde seu outro tópico sobre a infalibilidade.

      • Henrique disse:

        Entendi o ponto de vista. Em nenhum momento eu pensei nos comumente chamados “desigrejados”, provavelmente a categoria em que você se encaixa — se o termo correto for outro, por favor corrija-me. Como nessa categoria realmente não existe líder — alguns diriam que o Caio Fábio é um líder, mas ignorarei essa opinião por enquanto –, não dá para dizer nada a respeito da prestação de contas. Na questão do seu cristianismo específico ser uma seita, muito bem!

        Feliz ou infelizmente, a sua interpretação não é a majoritária. Quanto à infalibilidade, infelizmente não responde, mas provavelmente é melhor abordar isso lá do que aqui. Obrigado pela colaboração! Devo atualizar com essas considerações em breve.

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