Em defesa da infalibilidade

Resolvi ler mais um pouco tanto sobre religião, para ter um entendimento melhor ao escrever a série “Cristianismo como seita” e para reavaliar o que entendo do cristianismo — vai que estou errado.

CanITrustTheBibleO primeiro que resolvi ler foi “Can I Trust the Bible?” (Posso Confiar na Bíblia?), de Robert Charles Sproul, aparentemente um influente pastor e teólogo. O livro trata da inspiração divina, infalibilidade e inerrância da Bíblia com base no “Manifesto de Chicago”. Ele é um livro de apologética para cristãos, então não se pode esperar que apresente justificativas para suas alegações somente com base na ciência ou na filosofia, mas isso não me impede de averiguar o que o livro oferece de informações adicionais sobre essa vertente específica do cristianismo: protestantismo literalista.

Como o livro é em inglês, todos os trechos citados são tradução livre de minha autoria e podem não corresponder com exatidão às palavras intendidas pelo autor, por mais que eu esforce-me em fazê-lo.

Por que alguém escreve um livro desse?

Bem, esta é a primeira pergunta que eu tento responder quando leio um livro de apologética. Alguém pode escrever para compartilhar seus achados, propor uma forma de se fazer algo, ou buscar formas de se entender o mundo. Sproul escreve para dar respostas, e uma bem específica. Mas o interessante é como ele apresenta a motivação do livro:

Foi esse mesmo desejo de se levantar contra os questionamentos persistentes da integridade da Bíblia que juntou mais de 250 líderes evangélicos em Chicago, Illinois, em Outubro de 1978. (pos. 77)

Ok, então o livro será contra os questionamentos à confiabilidade da Bíblia. Mas qual o problema de se questionar isso?

É pelas Escrituras que a igreja historicamente entende assuntos de fé e vida, da criação por Deus de todas as coisas do nada ao significado da vida, morte, ressurreição e ascenção de Jesus Cristo à consumação final de todas as coisas para a qual a história se move. Se a Bíblia não é confiável no que ensina sobre essas coisas, a igreja pode só especular e nada tem de valor para falar ao mundo. (pos 82, grifo meu)

Agora imagine a seguinte cena: um vendedor de HerbaLife bate na sua porta e fala o seguinte, o que você faria?

É pela dieta com base em HerbaLife que temos tentado emagrecer. Se o HerbaLife não é confiável para emagrecer, eu só posso especular e nada tenho de valor para vender.

Eu fecharia a porta na cara dele. Não posso confiar em alguém que se propõe defender algo porque se tornará inútil se não convencer as pessoas de que está certo em algo muito improvável. A proposta do livro não é avaliar se algo é verdade ou não, e sim manter a influência.

Por  que isso é tão importante?

A princípio parece difícil entender por que alguém defenderia a infalibilidade de qualquer obra produzida através de homens. Mas a introdução do livro sinaliza um problema que é desenvolvido com mais detalhes no decorrer do livro, e nunca resolvido: a epistemologia falha dos defensores da inspiração divina.

Alega-se que houve inspiração divina para que as escrituras sagradas fossem escritas. Se a divindade é incapaz de falha, então toda escritura deve ser livre de falha. Mas como saber se a escritura é mesmo perfeita? Existem duas soluções: conhecer o método, o processo de inspiração em detalhes, ou verificar se todas as alegações da Bíblia são verdadeiras.

Sobre o método de inspiração, Sproul reconhece que é “um mistério”:

O modo de inspiração divina permanece grandemente um mistério para nós. (pos. 134)

Mas também não se pode verificar se todas as alegações da Bíblia são verdadeiras, porque muitas não são. Por exemplo, está escrito que Jesus disse que voltaria no primeiro século; que Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande, e também 10 anos depois, no censo de Quirino; que vender a filha como escrava sexual é (ou era) moralmente aceitável. Mesmo se tudo que se pudesse confirmar fosse compatível com a realidade, esta forma de se validar a Bíblia a tornaria irrelevante — se eu preciso descobrir X sozinho, por que devo usar a Bíblia ou qualquer outra coisa para descobrir X?

Só há uma solução para este dilema: apelo à autoridade. Dê um título a várias pessoas, coloque-as numa sala e saia com um acordo em que todos (ou quase todos) assinam um manifesto dizendo que “cristãos verdadeiros” devem aceitar a infalibilidade e inerrância da Bíblia.

Mas nenhum apologista pode dizer a verdade, e Sproul não é diferente. No decorrer do livro, ele mostra que munição é usada contra essa crença e a dispensa através de afirmações cujo objetivo é delinear quem está dentro do grupo dele e quem está fora. Nenhuma afirmação é justificada, a não ser pelo objetivo — defender a relevância da igreja –, e quando não há justificativa ele usa a velha desculpa: Deus age por caminhos misteriosos, mas temos que confiar. Não, obrigado.

Em outra ocasião talvez eu me aprofunde nos assuntos relevantes que Sproul apresenta.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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15 respostas para Em defesa da infalibilidade

  1. Carlos disse:

    Esse é um tema sem relevância, a não ser para cristãos religiosos.
    É obvio que como qualquer outra narrativa humana a bíblia contém falhar, mas e daí?
    A bíblia sem a Palavra inscrita no coração pelo processo contínuo de conversão é apenas papel e tinta.

    Este artigo abaixo exemplifica bem:

    Sempre que se obedece à Escritura por causa dela mesma, se está cedendo à tentação do Diabo!
    Não é de estranhar, portanto, que o pai da fé, Abraão, tenha vivido pela fé na Palavra antes de haver Escritura, mostrando-nos assim, que a Palavra precede a Escritura.
    A fé vem pelo ouvir-escutar-crer-render-se à Palavra.
    E a pregação só é Palavra se o Espírito estiver soprando. Do contrário, é só prega-ação!
    E a pregação que não é Palavra é apenas estudo bíblico, podendo gerar mais doença do que libertação.
    A grande tentação é fazer a Escritura se passar por Palavra. As Escrituras se iluminam como a Palavra somente quando aquele que a busca tem como motivação o encontro com a Palavra de Deus. Ou quando o Deus da Palavra fala antes ao coração!

    A Bíblia é o Livro.
    A Escritura é o Texto.
    A Palavra É!

    “Escritura” sem Deus é apenas um texto religioso aberto à toda sorte de manipulações!
    No genuíno encontro com Deus e com a Palavra, a Escritura vem depois.
    Sim! A Escritura vem bem depois!
    O processo começa com a testificação do Espírito — pelo testemunho da Palavra de que somos filhos de Deus (Atos 16:14; Romanos 8:14-17; 10:17).
    Depois, nos aproximamos da Escritura, pela Palavra. Então, salvos da “Escritura” pela Palavra, estudamo-la buscando não o seu poder ou o seu saber, mas a “revelação” imponderável acerca da natureza e da vontade de Deus, que daquele “encontro”—entre a Escritura, a Palavra e o Espírito — pode proceder.
    Para tanto, veja João 5:39-40, onde o exame das Escrituras só se atualiza como vida se acontecer em Cristo. Um exemplo do que digo é a tentação de pular do Pináculo do Templo. Tinha uma “base bíblica”— se levarmos em conta a Escritura como sendo a Palavra. Mas o que Jesus identificou ali foi a Escritura sem a Palavra. Um ser pré-disposto ao sucesso teria pulado do Pináculo em “obediência” à Escritura e à sua literalidade, violando, para sua própria morte, a Palavra.
    Sim! Estava escrito. Porém, não estava dito!

    Ora, é em cima do que está escrito mas não está dito, que não só cometemos “suicídios”, mas também “matamos” aqueles que se fazem “discípulos” de nossa arrogância, os quais, motivados pelas nossas falsas promessas, atiram-se do Pináculo do Templo abaixo.
    E é também por causa desse tipo de obediência à letra da Escritura que nós morremos.
    A letra mata!
    Olhamos em volta e vemos o Livro de Deus em todas as prate-Lei-ras. Vemos o povo carregando-o sob o braço e percebemos que eles são apenas “consumidores de Bíblias”.
    Vemos seus lideres e os percebemos, muitas vezes, apenas como “mercadejadores” de Bíblias e dos “esquemas” e “programas” que se derivam do marketing que oferece e vende sucesso em “pacotes em nome de Jesus”.
    Sim! E isso tudo não porque nos faltem Bíblias e muito menos acesso à Palavra.
    O que nos falta é buscar a Deus por Deus.
    O que nos falta é sermos filhos amados de Deus não porque isto nos dá status Moral sobre uma sociedade que não é mais perdida que a própria “igreja”, coletivamente falando, é claro!
    O que nos falta é a alegria da salvação, sendo essa alegria apenas fruto de gratidão.
    É somente na Graça que a leitura da Bíblia tem a Palavra para o coração humano. Sem a iluminação do Espírito a Bíblia é apenas o mais fascinantes de todos os best-sellers.

    • Henrique disse:

      Estou tentando resumir para entender, e corrija-me se eu estiver interpretando errado: você está dizendo que a Bíblia não é a revelação do deus cristão, que não é divinamente inspirada como o Sproul diz.

      Parece-me que você está dizendo que deus se revela individualmente e independentemente de escrituras — como a Paulo ou os patriarcas. É isso?

      • Carlos disse:

        Veja: Estou tentando dizer que a religião cristã se apropriou do fonema formado pelas letras j e s u s e diz ser jesus oq JESUS nunca foi e nem disse ser. Mais: A bíblia pode ser a revelação de quase qualquer deus que se queira.

        E sim. Deus se revela individualmente e independente de escrituras. Deus não se limita aos que sabem ler e nem começou a agir depois que Gutemberg inventou a prensa de livros.

        Mas não estou dizendo que:
        1 – A Bíblia é um livro qualquer sem utilidade, pelo contrário, os homens que a escreveram foram inspirados na medida em que o que escreveram passam pelo crivo da única chave hermenêutica possível: Cristo.

        2 – Quem quer que esteja em algum igreja cristã não conhece Jesus de verdade. Deus está acima das religiões sejam elas quais forem. Creio até que seja possível alguém conhecer JESUS sem saber que ele é chamado pelo fonema formado pelas letras j e s u s. Pesquise sobre o fator melquisedeque.

        • Henrique disse:

          Eu vou começar de trás para a frente. Melquisedeque é um cara descrito… na Bíblia, certo? Quando alguém lê a Bíblia e ela diz algo sobre Deus (ou Jesus, ou Melquisedeque), isso é em si uma revelação, é algo verdadeiro? Existe algo na Bíblia que não seja verdadeiro?

          Ora parece que você diz que a Bíblia é falha e escrita por homens, ora que ela é perfeita e inspirada por Deus, ora que nem um nem outro. É possível esclarecer?

  2. Pingback: Em defesa da infalibilidade (2) | Prazer, Henrique

  3. Carlos disse:

    Nem lá nem cá.

    1 – Antes de qualquer coisa, o texto da bíblia é um documento histórico! Então eu posso confiar no que está lá em termos gerais, obviamente que como todo documento histórico está sujeita a imprecisões de datas, citações e etc.

    2 – Pra quem possue “A Palavra” dentro de si, isto é, pra quem provou o absurdo de ser encontrado por Deus em alguma estrada por aí, encontra no texto a narrativa de irmãos que passaram pela mesma experiência e tudo que eles dizem testificam no coração de quem creu.

    3 – A Palavra está em mim assim como estava em Paulo ou Davi. A Palavra é o Evangelho vivo queimando o coração. A Palavra vem antes do livro e o livro só faz sentido porque antes teve Palavra. Sendo assim só se lê a partir da “pedra de esquina” que é Jesus como base fundamental de interpretação.

    4 – Essa é a grande diferença. Converter-se à religião do livro tentando fazer Jesus caber no livro é que ocorre geralmente.

    • Henrique disse:

      O Sproul faz um certo esclarecimento que talvez eu deva detalhar, porque não entendi bulhufas do que isso significa com relação à infalibilidade e inerrância bíblicas.

      * Inerrância: a ausência de erros, ou de instruções que conduzem ao erro.
      * Infalibilidade: a incapacidade de a inspiração divina conduzir ao erro.

      Então, para Sproul, a infalibilidade é o que garante a inerrância. Ele traz vários detalhes, como alegados erros na verdade serem observações verdadeiras, como a impressão de que o Sol gira ao redor da Terra. Mas eu divago.

      O fato é que se você considera a Bíblia um documento histórico de onde tira conhecimento sobre a existência de Jesus e sua identidade como Cristo, você tem duas alternativas:
      1. A Bíblia é inerrante, e você acredita em tudo que está escrito nela — quer com o auxílio ou através da Palavra.
      2. A Bíblia contém erros, mas você tem um método para determinar o que é verdadeiro e histórico (quer no aspecto moral, histórico ou científico), o que é metafórico e o que simplesmente é inventado ou falso.

      Se você acredita na inerrância, poderia ter simplesmente dito isso. Se não, apresente seu método para ganhar milhões de dólares. Ou apresente a sua alternativa de forma clara, porque ao mesmo tempo que você alega não ter revelação especial, você diz que “A Palavra” vem antes do livro e é maior que o livro.

      • Carlos disse:

        Cara, conforme eu li num outro post sobre a sua experiência como batista, vc nunca conheceu o Evangelho, só o cristianismo, daí essa sua crise com o livro “sagrado”.
        O problema todo é que vc viu um monte de gente argumentando que coisas podem ou não podem porque está ou não escrito na bíblia, vc aprendeu que a bíblia pros cristão é um manual de regras de como se viver para alcançar a boa vontade divina. Você nunca leu a bíblia por ela mesma despretenciosamente. Nunca foi possível pra vc ler alguma coisa de Paulo e pensar “Acho que eu faria diferente aqui” e permanecer em paz depois.
        Eu não tenho 2 alternativas. Não estou brincando de puzzle teológico atrás da formulação infalível e tanto faz o que Sproul pensa ou qualquer outro.
        A revelação de Deus não se limita aos 66 livros da bíblia, ela é contínua e atemporal, tudo que é lido/assistido/ouvido a partir e em conformidade com Jesus é “sagrado”, pode ser filme, revista, jornal, documentário e até a Bíblia. Essa é a minha “heresia”, e mais, nenhum desses meios precisam ter atestado de infalibilidade como vc propõe. Veja como é inútil essa discussão.
        Mas daí a sua mente cartesiana deve estar questionando se a conformidade seria com o Jesus descrito na bíblia. E eu respondo SIM. Os 4 evangelhos dizem tudo o que eu preciso saber sobre JESUS, mas só dizem pq coincidentemente eu encontrei concordância entre o JESUS que me encontrou com o JESUS descrito por Mateus, Marcos, Lucas e João.
        Digo tudo isso com todo respeito e reverência por você e pela história pela qual passou, que é bem similar a minha. O ateísmo pelo qual vc pende é tão bobo quanto a sua religiosidade da época batista, ambos têm a mesma “sabedoria do mundo” com construções lógicas que tentam afirmar o cristianismo de um lado e negar de outro.
        Mas Jesus mesmo, não está lá nem cá.
        Mas pra conhecer JESUS mesmo, vc já percorreu uma parte do caminho que foi abandonar o templo, falta ainda abandonar todo o resto.

        • Henrique disse:

          Eu não vou comentar sobre a minha experiência. Aqui eu estou tentando avaliar uma alegação muito simples: a Bíblia é inerrante? É simples, sim ou não.

          Parece que sua resposta é sim, e o motivo é que a Bíblia concorda com a sua revelação pessoal. OK, esse método é totalmente diferente do literalista.

          Existem pessoas que também alegam ter revelação pessoal e essa revelação é diferente da sua? Se sim, como verificar quem recebeu a revelação correta?

  4. Carlos disse:

    Simples. Tem que bater com Mateus, Marcos, Lucas e João na essência. E a essência é bem simples: Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo.

    Veja: https://vimeo.com/20640663

    • Carlos disse:

      Mas na prática, não tem como saber se a revelação de ninguém é correta. Talvez a sua própria, mas só por um instante, a revelação tem que ser contínua… Afinal de contas Ele passa a morar em mim.

    • Henrique disse:

      Então se algo não bate com isso, não é verdadeiro? Como o AT, por exemplo — genocídios, escravos, concubinas, abortos, apedrejamentos, …

      Isto quer dizer que nem tudo que é atribuído a Deus realmente veio de Deus. Como então saber se “amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo” veio de Deus?

      • Carlos disse:

        Pelo absurdo da fé sei que Jesus se revela em mim.

        • Henrique disse:

          Desculpe, achei que já havia respondido, mas aparentemente deu erro no programa ou no usuário.

          Enfim… existe alguma outra coisa que você sabe “pelo absurdo da fé”? Por exemplo: se uma pessoa dissesse que você pode atravessar a rua vendado “pelo absurdo da fé”, você teria a mesma certeza de atravessar sem risco que tem na revelação de Jesus?

          E relendo em retrospectiva, tem uma ambiguidade que não consigo resolver:
          “Pelo absurdo da fé sei que Jesus se revela em mim.”
          “Mas na prática, não tem como saber se a revelação de ninguém é correta.”

          Não consigo enxergar como alguém pode usar algo que não é confiável (revelação pessoal) associado a algo usado por todas as diferentes religiões (o absurdo da fé) e chegar a uma conclusão correta, ou no mínimo racional.

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