Em defesa da infalibilidade (2)

Há alguns dias eu escrevi sobre o livro de R. C. Sproul que estou lendo, o qual defende a infalibilidade bíblica. Mencionei que havia várias pontos de vista que eu mesmo não havia considerado, e a defesa destes deixa a desejar.  Tendo chegado quase ao fim do livro, eu desisti de apresentar essas falhas para apresentar somente a maior.

Confessionário: hermenêutica

Sobre o avanço da ciência e os problemas que isso traz ao cristianismo e principalmente à doutrina da infalibilidade, Sproul alega que não há qualquer conflito entre conhecimento científico e o conteúdo da Bíblia. Ele chega até a mencionar a richa da igreja católica com o heliocentrismo, embora omita o fato de tal richa ter começado com os líderes protestantes, e solta a seguinte pérola:

Aqui, o avanço da ciência ajudou a igreja a corrigir uma interpretação então incorreta da Escritura. (pág. 39)

E logo em seguida ele entrega como o truque funciona:

se a comunidade secular afirmar que a humanidade é resultado de um acidente cósmico ou o produto de forcas cegas e impessoais, tal visão não pode ser reconciliada com a afirmação bíblica da ação proposital da criação da humanidade por Deus sem violência radical à Bíblia em si.

Questões de interpretação bíblica que tocam no campo da hermenêutica permanecem abertas a investigação e discussão. Este artigo não diz o que as Escrituras de fato ensinam sobre a criação e o dilúvio, mas afirma que seja o que a Bíblia ensinar sobre criação e dilúvio não pode ser negada por teorias seculares. (pág. 40)

 

Vamos, em partes, passar pelos truques que o autor cria sem muito disfarce.

Sinônimos, mas nem tanto

Note como para uma teoria científica (e para quem não sabe, no linguajar científico “teoria científica” e “conhecimento” são a mesma coisa) aceita por ele, ele usa “ciência”, enquanto que para teorias que ele não aceita ele usa “comunidade secular” e “teoria” (querendo dizer “hipótese”). Ele omite o simples fato de que a evolução natural das espécies é tão bem estabelecida quanto o heliocentrismo. Ele também faz questão de mencionar a igreja católica, separando-a dos teólogos protestantes que iniciaram a oposição ao heliocentrismo e a mantiveram por muito tempo.

Ao fazer esse jogo de palavras, Sproul tenta fazer diferença entre a igreja católica do século XVI e a ortodoxia protestante, entre a ciência de então e a de agora.

Não olhe atrás da cortina

A igreja católica estava errada, não a Bíblia. Os teólogos estavam errados, não a Bíblia. Havia certeza de que a Bíblia dizia que a Terra é imóvel e tudo gira em torno dela, assim como há certeza da criação e do dilúvio. Quando o geocentrismo foi provado falso, não foi a Bíblia que provaram estar errada, e sim a interpretação que davam a ela.

Pegou?

A Bíblia nunca estará errada! A Bíblia não fala, e sim teólogos. Só o teólogo pode estar errado. E quando estiver errado, é preciso encontrar outro cuja interpretação combina com o conhecimento científico — a Bíblia não pode estar errada. Note que no último parágrafo ele já dá a dica de que a interpretação que era ortodoxa será descartada em breve. Tudo está aberto a interpretação, e a interpretação correta é aquela que não pode ser contrariada pelo conhecimento científico. Assim, tudo é verdadeiro mesmo se for falso:

Também negamos que inerrância é refutada por fenômenos bíblicos como uma falta de precisão técnica moderna, irregularidades de gramática ou ortografia, descrições da natureza baseadas em observação, o relato de falsidades, o uso de hipérbole e números arredondados, o arranjo de material por tópicos, variação na seleção de material em relatos paralelos, ou o uso de citações livres. (Artigo XIII, pág. 42, grifo meu)

Então  quando é dito que o Sol parou no céu, não é que o Sol parou no céu: o Sol pareceu ter parado no céu. Não é que as águas cobriram toda a terra: tudo que se podia ver do barco parecia estar coberto de água. Tudo é relativo ao observador. Tudo é aproximado. Tudo pode ser alusão. Tudo é irrelevante. Todo apologista é desonesto e/ou ignorante.

Hermenêutica: a prática de afirmar que um texto não quer dizer aquilo que ele diz.

Para ver o exemplo mais claro disto, veja Casos contra Jeová: assassinato.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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3 respostas para Em defesa da infalibilidade (2)

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