Cristianismo como seita (10)

Continuo avaliando se o critianismo pode ser considerado uma seita com a oitava característica nesta série. Se você caiu de pára-quedas, vá para a introdução: Cristianismo e seitas

10. Conheça sua nova família

Subserviência ao líder ou grupo exige que membros cortem laços com família e amigos, e alterem radicalmente os objetivos pessoais e atividades que tinham antes de juntarem-se ao grupo

Muitas vezes aspectos negativos de uma seita ganham uma roupa nova para se travestirem de positivos. Este é um dos mais fortes. O novo membro, recém-convertido, é recebido como se estivesse ganhando uma família. Numa das igrejas em que eu fiz parte, este é um aspecto importante do evento da conversão: faixas são erguidas com mensagens de acolhimento, membros próximos aos que professam a crença os abraçam e uma música com a mesma mensagem é cantada. A realidade é um pouco diferente.

O novo convertido não percebe, mas ao fazer sua profissão pública de fé está assinando um contrato feito quase todo de letras pequenas. Não é só que ele passou a acreditar no dogma principal, o de que Jesus morreu pelos seus pecados e ressuscitou; existe uma gama de dogmas necessários para que ele seja um crente de verdade:

  • há um código de vestimenta explícito ou implícito
  • suas preferências pessoais, como passatempos ou músicas, devem seguir convenções do grupo
  • suas amizades serão policiadas pelos membros
  • você deve realizar atividades dentro da igreja para ter reconhecimento

A pessoa que meramente retém a crença e frequenta os cultos aos domingos é chamada de morna (uma ‘ofensa bíblica’ grave), descomprometida, e tida como “não tendo passado por uma experiência de conversão verdadeira”. Os membros mais admirados são os que dedicam grande quantidade de tempo em atividades eclesiásticas. Vejam, por exemplo, quanto tempo eu cheguei a passar em atividades do grupo por semana:

  • quinta-feira (ou sábado): 2,5 horas em ensaio de coral
  • sábado: 2 a 4 horas de cursos; 2-3 horas em ensaio de grupo de louvor
  • domingo: 4 horas de culto (manhã e noite); 1,5 hora em estudo bíblico

E ainda havia reuniões de grupos específicos e outros cultos durante a semana: homens, mulheres, solteiros, casados, reunião de oração, culto de cura (que nunca acontecia) e libertação (de que, ninguém sabe). Eu passava até 13 horas por semana na igreja, mas isso poderia chegar a quase 20! Sem contar as horas em atividades pessoais, como estudo e oração. Um adulto raramente passa mais que 4 horas por semana em cursos de especialização, e isso é o mínimo que o grupo exige do mais descomprometido dos membros.

As atividades eclesiásticas têm como meta guiar a vida toda da pessoa, e concentrar os objetivos. Um curso de finanças não é mais sobre como garantir um futuro confortável, e sim sobre os benefícios de dar o dízimo regularmente. Como agradar a Deus no seu namoro. Como trabalhar de forma que honre a Deus e propague o evangelho. Tudo isso apoiado na Bíblia:

“Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus. E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis.” Colossenses 3:22-24 (grifo meu)

Paulo era bem claro com relação a prioridades.

O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor; mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher. Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido.” 1 Coríntios 7:32-34

Este último trecho é seguido pela recomendação de Paulo para que todos permanecessem solteiros (7:26). E a Bíblia é recheada de instruções como estas, em que se louva aquele que considera Deus acima de tudo, como instrui o primeiro dos “dez mandamentos”.

Mas há também instruções ou elogios específicos, como de Jesus:

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” Lucas 14:26

E num episódio semelhante…

“E outro de seus discípulos lhe disse: Senhor, permite-me que primeiramente vá sepultar meu pai. Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos.” Mateus 8:21,22

Em posts anteriores também mencionei como pastores e pregadores contemporâneos usam essas instruções para controlar com quem os membros do grupo se relacionam, e isto sempre tem a intenção de limitar os contatos dentro do grupo ou com grupos de posição semelhante.  É possível resumir a doutrina paulina em uma comparação com o nacionalismo: quando alguém torna-se membro de uma igreja, esta pessoa troca de cidadania; e ela não deve relacionar-se com estrangeiros:

“Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.” Filipenses 3:20

Considerando o que apresentei resumidamente, posso concluir que os novos membros do grupo têm que mudar radicalmente seus objetivos e práticas para que se conformem aos do grupo. Mais um sinal de que o cristianismo (evangélico) pode ser uma seita: 8/10.

Anúncios

Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
Esse post foi publicado em Religião, Seita cristã. Bookmark o link permanente.

Quer dizer algo sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s