Por que perguntar se você pode afirmar?

Uma característica comum em minhas interações, especialmente depois de começar a estudar filosofia apropriadamente é começar com perguntas. Por que você pensa isto? Como você chegou a esta conclusão? Então você pensa que X? Este pode ser um processo enervante para muitas pessoas. Eu deveria simplesmente expor minha concordância ou discordância da idéia apresentada e tocar a conversa a partir daí. É assim que as pessoas normais conversam, e se eu quiser manter interações com as pessoas é assim que eu devo me conduzir.

Eu entendo a proposta e a irritação, mas isso não muda minha postura. Por que não, Henrique? Bem, esta é a pergunta que eu gostaria de ouvir. E já que ninguém a faz, eu respondo aqui.

Expectativa intuitiva e resultados sociais

Estamos na era da informação, e esta década está marcada pelas interações escritas em mídias sociais. Ou em português mais claros, todo mundo usa o Facebook para conversar. E o Facebook (ou YouTube, Twitter, etc.) não é um canal que estimula o diálogo. Estas são ferramentas para viciar as pessoas em likesshares, qualquer forma de reforço positivo. As pessoas publicam fatos que as revoltam e opiniões com que concordam. São raras as ocasiões em que alguém compartilha um fato ou opinião e busca respostas sobre aquilo ser verdadeiro e confiável — eu não consigo lembrar de uma única ocasião em que testemunhei isso.

Talvez o que mais demonstre isso é o último período eleitoral e fatos que se seguiram: a polarização de opiniões e falta do diálogo levou muitas pessoas a excluírem, bloquearem ou cortarem amizades com quem não compartilhava de sua visão política. Claramente nem todo mundo pode estar correto (embora todos possam estar incorretos), mas o fato é que para quase todo mundo a verdade não importa. E em se tratando de mídia social, a única coisa que importa é quantas pessoas gostam de você. Quem não concorda, não gosta e deve ser excluído do círculo social — formado por semelhanças sociais e ideológicas.

As próprias ferramentas que usamos ajudam a criar essa câmara de eco: o Facebook sugere publicações semelhantes às que você acessou e curtiu no passado; o Google classifica a relevância de resultados de busca de acordo com suas buscas e acessos passados, de forma que um petista que busca por notícias terá a Carta Capital apresentada com mais relevância nos resultados, um criacionista pesquisando fósseis verá um site que apóia o design inteligente com mais relevância do que um acadêmico, e por aí vai.

Tal expectativa é natural e amplificada pelas ferramentas que usamos no dia-a-dia. O valor das interações sociais é o prazer que elas dão.

Meu filho, você não é todo mundo

Minha mãe já dizia aos três filhos que teve: você não é todo mundo. Claro que para nós isso só valia quando queríamos algo imerecido ou inviável, como ganhar um brinquedo que todo mundo tinha, ou fazer algo que todos estavam fazendo. Mas hoje vale para tudo: eu não sou todo mundo. Eu não me importo com os likes, não estou interessado em ter um grande círculo  social. Para mim, o maior valor é a verdade. Não que outras coisas sejam irrelevantes: sim, eu quero pessoas ao meu redor, quero ser útil e ter amizades, mas tudo seria vazio se não fosse com base em coisas verdadeiras. Eu posso ter amigos comunistas, religiosos, veganos, o que for; mas no momento em que a conversa for sobre idéias, eu jamais esconderei o que eu penso em nome da amizade.

Mas por que você pergunta? Não basta concordar ou discordar? Bem, bastaria se eu fosse onisciente. Eu tenho minhas crenças e dúvidas, mas eu posso estar errado. Isso inclui não entender o que a pessoa pensa apesar ou em função das palavras que ela usa, e vai até simplesmente não ter fatos disponíveis até o momento da conversa. A primeira coisa que eu devo fazer quando uma idéia é apresentada é ter certeza de que eu a entendi. E isso é verdade mesmo que eu concorde: alguém pode dizer que é a favor do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, e eu ainda perguntarei o porquê. O que uma pessoa pensa não está disponível senão pelas suas palavras (principalmente quando nos comunicamos através de texto, como no Facebook). Não tem como discernir o que alguém pensa sem perguntar.

Depois de entender o que meu interlocutor realmente quis dizer, ou qual é sua conclusão, eu preciso entender como ele chegou a tal conclusão. Mesmo que eu discorde ou concorde dele, o que diz que uma conclusão está correta ou não o conjunto de fatos que a suportam (evidências) e a forma em que eles são apresentados (argumento). E só tem um jeito de extrair isso: perguntando.

E como ao invés de apoio ou oposição (serotonina e dopamina ou noradrenalina) eu faço o interlocutor pensar (tédio), se um dos valores do meu interlocutor não é descobrir verdades e avaliar suas crenças, ele interromperá a interação. E por mim tudo bem, uma interação sobre idéias cujo objetivo não é conhecimento também não me interessa.

 Sem textão

— Vivemos numa sociedade machista!
— Você determinou isto de forma objetiva ou subjetiva?
— Não quero discutir.
— Ok, até breve.

Uma conversa breve em que pudemos determinar que qualquer diálogo com o objetivo de se analisar argumentos e evidências seria infrutífero. Pronto. Mas se eu fosse afirmar a minha posição sobre a idéia de machismo no Brasil, eu teria que considerar as diferentes interpretações do que a pessoa quis dizer, supor justificativas e potencialmente construir um espantalho (Wikipédia e Book of Bad Arguments) que faria eu e meu interlocutor perdermos tempo com infindáveis alegações irrelevantes ao assunto.

Para concluir, eu pergunto por que:

  1. Eu quero entender direito. Quero ouvir antes de ser ouvido.
  2. Eu quero chegar à verdade e não limitar minhas interações a massagens de ego.
  3. Não quero perder tempo ou desperdiçar esforço com coisas irrelevantes ou infrutíferas.

Como sempre, estou pronto para rever minhas atitudes caso alguém entenda que elas vão contra os meus próprios valores e objetivos ou são incompatíveis com a realidade. Em outra oportunidade explico os passos para isso.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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