A questão do gênero

Gênero é um daqueles assuntos que causa discórdia. Isso porque é uma questão religiosa para uns, ideológica para outros, e confusa para a maioria. Eu já tive opinião baseada em religião para isso, por falta de uma abordagem melhor, mas tendo abandonado a religião fui obrigado a revisitar a minha visão sobre o assunto.

A minha intenção aqui não é escrever um tratado. Não é um ponto final sobre o assunto, muito pelo contrário. A minha intenção é cobrir o abismo que separa as visões e opiniões divergentes, para que os que vêm depois de mim possam pensar sobre o assunto mais claramente, e talvez me elucidarem.

Para servir de intersecção para outros, eu acho preciso expôr o porquê de as pessoas de origens diferentes não conseguirem sequer começar a conversar sobre o assunto sem parecerem loucas uma para a outra.

Afinal, o que é gênero?

Este é o primeiro problema ao se conversar sobre gênero. Cada grupo de pessoas pensa em gênero como uma coisa. A seguir eu gostaria de resumir as diferentes idéias sobre o que o termo representa, e estas podem não ser todas elas.

Gênero como parte da identidade objetiva

Parece-me ser assim que os grupos mais conservadores (sem conotação negativa) vêem gênero. Você é homem se nasce homem (com genitália masculina), e continua sendo homem pelo resto da vida. Você é você, e você é homem. Se você deixar de ser homem, deixa de ser você. E você não pode deixar de ser você, então você não pode deixar de ser homem. Se não deu para entender, permita-me elaborar.

Nós conhecemos as pessoas como indivíduos. Para que eu seja um indivíduo, minhas características têm que ser reconhecíveis no decorrer do tempo. Eu sou Henrique desde que nasci. Não posso trocar de nome da noite pro dia, ou só porque quero. Da mesma forma, sou pardo, adulto, etc. Se alguém pode mudar de gênero de acordo com o que sente, o gênero não pode ser parte do que alguém é. Perguntar “Henrique é homem?” não faria sentido, e sim “Henrique está se sentindo homem?”. É absurdo.

Gênero como parte subjetiva da identidade

A frase mais comum para quem vê gênero como algo subjetivo é a caracterização do gênero de alguém ao nascer: fulano teve o gênero masculino atribuído a si ao nascer. Nesta idealização, gênero não é aquilo que a pessoa é, e sim algo que ela sente ser — como ela se identifica. Alguém pode “ser mulher em corpo de homem”, e vice-versa.

Existem justificativas para este tipo de conclusão, por mais maluca que pareça. Partes relevantes ao gênero do cérebro de pessoas ditas transexuais se assemelham mais ao cérebro médio do gênero fisiológico oposto do que ao do seu próprio. Mas a pessoa não descobre o que ela é até que a puberdade entre em ação. Então alguém pode “descobrir” que é homossexual, ou transexual.

Estas diferenças e descobertas fazem com que devamos separar a idéia de “gênero” em subcategorias não-binárias: sexo (aparência física), gênero (auto-percepção), orientação. “Macho” e “fêmea” passam a ser definições antiquadas. Henrique é um homem (sexo) cis (auto-percepção) heterossexual (orientação). Escolha sua identidade de gênero na lista abaixo:

  1. Sexo: homem, mulher, andrógeno
  2. Gênero (projetado): cis, trans
  3. Orientação: heterossexual, homossexual, bissexual, assexuado

Algum problema?

Claramente, ambas visões tratam de identidade, isto é, como as pessoas percebem a si e aos outros. Também tem a ver com a necessidade de a identidade ser algo contínuo no decorrer do tempo, ou seja, amanhã eu continuo sendo o Henrique. Se separarmos o que tradicionalmente chamamos de gênero pela tríade subjetiva (sexo, gênero e orientação), então não vejo como podemos dizer que ele é parte da identidade de uma pessoa. E não precisa ser. Eu posso ser Henrique, independentemente do gênero que expresso.

Mas na nossa sociedade o gênero precisa ser parte da identidade em muitas situações. Num casamento, por exemplo, as pessoas se casam de acordo com sua orientação. Eu não me casaria se soubesse que amanhã minha esposa poderia ser homem (trans). Ou mesmo em profissões em que o gênero tem influência, como moda ou esportes.

Há também a questão biológica. Alguém que deseja expressar o gênero feminino tendo nascido com genitália masculina (ou vice versa) jamais poderá ter um filho biológico natural. Esta é uma questão importante quando se fala de planejamento familiar e escolha de um parceiro.

Podemos encerrar o assunto?

Infelizmente, não. Eu ainda não sei como podemos concluir isto. Da mesma forma como o time preferido faz parte da identidade de alguns e não de outros, parece que o gênero também faz parte da identidade para a maioria e para outros é uma questão de preferência. Como lidar com isso legalmente? O sexo/gênero deve ser opcional em documentos? É falta de educação perguntar o sexo de alguém que parece expressar um gênero transexual? A partir de que idade estas questões devem ser discutidas? São muitas perguntas e ainda não sei responder a quase todas. Mas se pelo menos pudermos entender o que cada um está dizendo podemos tentar caminhar juntos para um bom conjunto de soluções.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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