Casos contra Jeová: assassinato

Cristãos têm seu deus em grande estima, chegando ao ponto de dizer que ele é perfeito, bondoso, misericordioso, etc. Eu sei que esse deus não existe, mas posso entreter a idéia de que ele exista para verificar se ele poderia ter essas características a ele atribuídas.

Supondo que Jeová, o deus da Bíblia cristã, exista, eu formularei uma série de casos contra ele. O primeiro é uma das mais graves acusações, na qual ele é réu confesso. Se Jeová for de fato um assassino, então ele não pode ser perfeito como se alega. Se, contudo, o apologeta defende sua perfeição mesmo diante de um veredito de culpa, ele (o apologeta) é culpado de relativismo moral. Portanto primeiro eu devo afastar esta possibilidade de defesa.

Se o que é certo o é independentemente de cultura (certo e errado são valores universais), então não se pode defender um crime dizendo que só é crime no nosso tempo e região. Mesmo que o estupro fosse comum na antiguidade, ele já era errado; mesmo que ninguém da época ou da região reconhecesse isto, nada muda o fato de que estupro é, e sempre foi, um crime — ou moralmente reprovável, no sentido mais geral. Uma pessoa perfeita, assim como um deus perfeito, deve ser moralmente irreprovável durante toda a sua existência.

Também devo caracterizar o crime de assassinato (homicídio): a morte de uma pessoa por outra, excluídos os atenuantes (legítima defesa, acidentes, etc.). De forma específica, o homicídio é punível quando praticado de forma intencional e injustificada, podendo ser agravado quando a vítima é desprovida de possibilidade de proteger-se. Alguém pode dizer que Jeová, sendo deus, não pode ser acusado de crime algum porque crimes só podem ser cometidos por pessoas. Se é assim, então alienígenas também não poderiam ser acusados de crime se invadissem a Terra e exterminassem todo mundo. Deuses também podem ser julgados por crimes, sim, se forem seres com agência moral — capazes de escolher entre certo e errado.

Dos fatos

Se a Bíblia for historicamente verdadeira e literal (pelo menos no que concerne a este caso), devemos tomar o seu relato e fazer um julgamento de valor independente. Se for possível dar mais de uma interpretação a fatos descritos de forma direta, literal, então o relato não tem valor. Se a Bíblia pode ser distorcida para dizer o que o leitor quer, ela é inútil para determinar os fatos. Mas vamos a eles:

A quem o castigo se aplica

Embora pareça trivial ressaltar isto, é importante dizer que a justiça, tanto humana quanto divina, estabelece que a pena deve ser dada ao criminoso.Se José comete um crime, é José quem deve cumprir a pena e ser corrigido. Punir alguém próximo, um amigo ou familiar, pelo crime de José, é um ato em si de injustiça e terrorista. Isto é senso comum inclusive na exegese bíblica.

O crime

Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. E disse Natã a Davi: Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás.
Todavia, porquanto com este feito deste lugar sobremaneira a que os inimigos do Senhor blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá.
Então Natã foi para sua casa; e o Senhor feriu a criança que a mulher de Urias dera a Davi, e adoeceu gravemente.
2 Samuel 12:13-15 (grifo meu)

Vemos aqui que Davi, então rei de Israel, reconhece que cometeu um crime e é perdoado por Jeová. Os inimigos de Jeová também teriam cometido o crime de blasfêmia, o qual não teria sido perdoado. Porém, a punição cai sobre o bebê, filho de Davi. Qualquer que tenha sido o crime, não foi praticado pelo bebê. Aqui vemos que Jeová, pelos seus próprios padrões — atemporais — é confessadamente injusto.

E sucedeu que ao sétimo dia morreu a criança; e temiam os servos de Davi dizer-lhe que a criança estava morta, porque diziam: Eis que, sendo a criança ainda viva, lhe falávamos, porém não dava ouvidos à nossa voz; como, pois, lhe diremos que a criança está morta? Porque mais lhe afligiria.
2 Samuel 12:18 (grifo meu)

Enfim, o bebê morre em decorrência da doença infligida por Jeová. Vemos que Jeová mata um bebê de forma intencional, premeditada, injusta, cruel (fazendo-o sofrer por uma semana), e sem possibilidade de defesa. Por qualquer padrão, um homicídio triplamente qualificado confesso.

Todos os fatos estão descritos claramente. Se a Bíblia foi escrita por inspiração divina, Jeová torna-se réu confesso.

Conclusão

Se fosse um indivíduo real, Jeová seria punido e encarcerado por este crime além dos tantos outros. A defesa de tal ato, dada sua natureza e clareza, constitui-se apologia ao crime.

Fica claro que Jeová, mesmo que exista, não pode ser perfeito, bom, ou justo. Dou o caso (este, pelo menos) como encerrado.

Alegações da defesa

A morte foi a menor das penas para a criança

Um advogado de defesa alegou que a morte do bebê foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. O menino seria a vergonha do pai, excluído pela sociedade, e por aí vai.

Digamos que isto seja fato, por mais absurdo que pareça. O bem do indivíduo (ou a prevenção do dolo a ele) não é a intenção do réu expressa nos autos: “porquanto com este feito deste lugar sobremaneira a que os inimigos do Senhor blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá” (v.14).

Mas mesmo que o filho de Davi estivesse fadado a viver como um pária, quem estaria errado seria o povo por jogar sobre o filho o pecado do pai (ver 2Sm 12 acima). E também não há qualquer indicação de que este seria o caso. Todos sabiam que o relacionamento com Bate-Seba era fruto de um homicídio, e mesmo assim o sucessor de Davi foi o próximo filho dele com Bate-Seba.

Esta tese da defesa, por qualquer ângulo, não se sustenta diante da acusação e dos fatos.

Algo precisava ser feito para demonstrar que a lição foi dada

Um segundo advogado de defesa apresentou uma ilustração para justificar a ação divina na acusação:

Você tem um filho, e ele bate nos amigos da escola. Você faz ele entender que fez algo errado, e o perdoa. Mas os amigos dele precisam saber que ele foi corrigido. Algo tem que ser feito.

A ilustração está incompleta. A acusação se baseia no fato de que um mal foi infligido cruelmente a um terceiro. Eu poderia completar a ilustração dada pelo advogado:

Então você, para mostrar quão vil foi o ato do filho, bate na mãe dele. Isso deve mostrar aos amiguinhos que agora ele não fará aquilo de novo.

Agora sim, a comparação está adequada. Eu até consigo entender melhor por que Jeová faria algo assim. Garanto que, se eu fosse Davi, jamais mataria alguém novamente. Afinal, outro assassino estaria pronto para dar a devida retribuição. Não só esta defesa é incompleta, como ela reforça a tese da acusação: a de que Jeová, se existir (ou se existisse), é tão imperfeito e cruel quanto um ser humano — pelo menos um capaz de homicídio triplamente qualificado.

Mas novamente, a alegação da defesa não é compatível com os fatos apresentados. A morte do filho seria uma punição para Davi, enquanto Jeová já teria o perdoado (v.13).

A testemunha não quer dizer o que diz

Um terceiro advogado, testemunha de Jeová, alegou inocência dizendo que a doença do bebê não pode ser atribuída a uma ação direta de Deus. Devemos, portanto, interpretar o v15 como tendo o sentido contrário ao literal: quando ele diz que o Senhor feriu a criança, devemos entender que Jeová nada teve a ver com a doença da criança.

A alegação é de que a testemunha é falsa. De fato é a única que pode inocentar o réu, mas fere o primeiro princípio (dos fatos acima), de que a Bíblia é verdadeira e literal para o caso em questão. E manifesta um princípio de interpretação bíblica que já mencionei neste singelo blog: que hermenêutica é a prática de afirmar que um texto não quer dizer aquilo que ele diz.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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