O problema de não ensinar Filosofia na escola

Hoje eu paro um pouco para expor minha preocupação com relação à reforma do Ensino Médio no Brasil (MP 746/2016) e a pequena repercussão sobre um dos itens, que propunha retirar da grade pedagógica o ensino de Filosofia e Sociologia.

O que, afinal, é Filosofia?

Bem, depende de para quem você pergunta. A Wikipédia traz a definição de que ela “é o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores moraise estéticos, à mente e à linguagem”; outros, menos letrados, podem dizer que ela trata de “problemas que só podem ser resolvidos por meio da investigação racional, pois não podem ser constatados por meio de uma experimentação”. Enquanto uns dizem que Filosofia é tudo, outros dizem que é nada. E no último grupo está o proeminente físico teórico Stephen Hawking.

Como exemplo de que a Filosofia é o tudo e não nada, o título mais alto de qualquer área do conhecimento é PhD (Philosophy Doctor), ou Doutor em Filosofia. Significa que o detentor do título é capaz de avaliar a validade de afirmações da área, e os aspectos que vão além do mero conhecimento, da ética à política.

Filosofia na escola

Sabendo o que é Filosofia, é fácil ver como não dá para simplesmente não ensiná-la na escola. É preciso primeiro entender o que é conhecimento, de alguma forma, para depois transmiti-lo. A forma mais primitiva de se conceitualizar o conhecimento é informação autoritária: aquilo que a autoridade diz é fato inquestionável, que deve ser retido e retransmitido. E quando não se ensina Filosofia (mais especificamente, Epistemologia), é assim que a transmissão do conhecimento acontece.

Não ensinar Filosofia, ou melhor, ensinar essa Filosofia de autoridade, é conveniente para manter o status quo; sem questionamentos, sem mudanças, sem melhorias. E é exatamente isso que vemos hoje no Brasil: uma ditadura da maioria, em que qualquer ação é tomada a partir de apoio suficiente na esfera de poder adequada, sem se considerar consequências ou justificativas. Nas escolas, ensina-se o que quer, e o aluno sem preparo aceita porque o professor é legal, ou simplesmente porque é o professor quem disse e está escrito no livro didático.

Parar de ensinar Filosofia?

Vemos que só há um jeito de não ensinar Filosofia na escola: fechar suas portas. Claramente não é essa a intenção do proponente da MP. Então o que pode significar? Bem, se a intenção não é deixar de ensinar as ciências naturais e línguas (grande parte do que é Metafísica) sobram as outras 4 áreas da Filosofia (conforme a classificação mais usada): Epistemologia, Ética, Estética, e Política. Quando eu era criança, havia uma matéria no ensino fundamental chamada Educação Moral e Cívica. Era, de forma suscinta, o básico de Ética e Política para formar um cidadão minimanente decente. Parece-me que isto foi abolido. Estética é marginalmente abordado nas aulas de artes, e sobra Epistemologia, que é a base de todo o resto.

Para quem não sabe, Epistemologia é a área que estuda o que é e como se adquire conhecimento. Quem não tem uma boa base epistêmica está fadado a cair em todo tipo de golpe: medicina alternativa (homeopatia, acupuntura, reiki, fosfoetanolamina, etc.), loteria, e por aí vai; também não consegue fazer boas escolhas para cargos eletivos (como mencionei, é mais fácil manter o status quo), e não é capaz de melhorar seu desempenho profissional consistentemente. Todas estas coisas beneficiam quem quer trabalhar para o ganho próprio em detrimento de outros.

Enfim, a MP 746/2016

Por tudo que eu já mostrei até aqui (e o leitor sirva-se de pesquisar e demonstrar que eu não estou correto em qualquer colocação), a mera proposta de se deixar de ensinar Filosofia como parte do currículo escolar demonstra que a boa Filosofia já não é ensinada — e não será. Então fica a questão: permitimos que ensine-se algo ruim ou nada? Atendemos aos interesses dos que desejam que o povo continue sendo massa de manipulação de um grupo ou de outro? Se a resposta pode ser somente sim ou não, a minha é: ferrou. O mínimo necessário para a educação pública seria ensinar Epistemologia (pensamento crítico), Ética e Política básicas (educação moral e cívica). Ao invés disso, situação e oposição ficam brigando se o aluno deve ser doutrinado no marxismo ou não.

Como sempre, fica para o indivíduo a carga de suprir a necessidade de aprender habilidades essenciais para o desenvolvimento profissional e social, além de pagar para que o Estado providencie o mesmo ensino.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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