Cortella: “Religião é coisa de gente”

Mário Sérgio Cortella é teólogo e educador, muito respeitado por sua eloquência entre religiosos e filósofos, prolífico nas áreas de educação e ética. Em geral o respeito, mas também critico e posso até ridicularizar algumas de suas posições e alegações (como faço aqui). Faço o mesmo com outros, e até mais duramente; Pondé, por exemplo, é alguém que em geral não tem meu respeito como pensador, embora concorde com algumas de suas afirmações na política.

Enfim, uma não muito recente entrevista no Roda Viva gerou um meme no trecho em que Cortella responde à afirmação de que “religião é coisa de gente tonta”, levantada por ele mesmo. No contexto mais amplo, ele responde ao aparente aumento expressivo no número de ateus no Brasil nas últimas décadas. Eu prefiro que meus leitores tenham total acesso à informação, para que eu seja corrigido caso faça mau uso dela. O programa completo, no canal do Roda Viva do YouTube, está aqui, e o trecho sobre o qual comento está entre 1:09:20 e 1:15:00 (já posicionado abaixo).

Cortella começa afirmando falsamente que o número de ateus no Brasil (ou pessoas sem religião) não aumentou, e sim que agora os ateus têm mais liberdade para se assumirem como tal. Tangencialmente, é importante notar que ele reconhece pelo menos historicamente a intolerância direcionada a ateus. De qualquer forma, a alegação principal é falsa, ou no mínimo ingênua, porque ele não pode demonstrar que este é o caso, isto é, que o número de ateus permanece mais ou menos o mesmo nas últimas décadas. Afirmo ser falsa porque eu mesmo deixei a minha religião há alguns anos, aumentando o número real de ateus no Brasil. Segundo o IBGE, o número de pessoas que se declaram sem religião subiu significantemente entre os censos de 2002 e 2010:

ibge_semreligiao

O censo de 2010 detalhou melhor os dados, ainda de forma precária a meu ver (prefiro não discorrer), mas nota-se que o número de pessoas sem religião aumentou significativamente, de 12 para 15 milhões (23%, enquanto a população cresceu 12% no mesmo período). E este número não saiu dos “sem declaração”, embora este também tenha diminuído, conforme Cortella espera. Acho que os dados do IBGE são suficientes para demonstrar que o número de ateus realmente cresceu, e muito. Mas permanece a questão: por quê? Não se pode atribuir esse aumento à urbanização, como ele tenta fazer, porque este não parece ser um fenômeno expressivo nos últimos 10 anos.

Como Cortella não admite o cresimento, ele não precisa de uma explicação. Mas ele precisa explicar o barulho que os ateus de hoje fazem. A versão dele: é moda (sim, Cortella realmente parece aderir ao argumento de que  só existe “ateu modinha”). Então ele usa uma frase alegadamente dita pelo ateu barulhento: “Religião é coisa de gente tonta”. Note-se que não foi algo que o entrevistador ou algum ateu específico trouxe à tona, e sim Cortella. A sua resposta, numa mistura de ironia e subterfúgio linguístico, falha em qualquer sentido que eu possa dar a ela: “Religião é coisa de gente”.

A primeira coisa que ele faz é introduzir o conceito de que religiosidade e religião são coisas distintas: que eu posso ter religiosidade sem ter religião. Vamos trocar os termos: a pessoa pode ser metódica sem ter religião. Isto é óbvio, chega a ser burro. Mas Cortella precisa dessa confusão de termos para passar a idéia de que todo mundo tem religião (Ed René Kivitz faz isso há décadas). Acho que esta farsa periférica já está desfeita, então vamos à principal alegação.

“Religião é coisa de gente” pode dizer muitas coisas:

  1. Religião é algo exclusivo ao ser humano
  2. Religião é algo que emerge entre pessoas onde quer que estejam
  3. Religião é independente do intelecto

Todas as três interpretações não são condizentes com a realidade, e é o que pretendo demonstrar nos próximos parágrafos, antes de tratar do resto das asneiras que ele fala nesses meros cinco minutos.

Religião é algo exclusivo ao ser humano

Esta é fácil de se tirar do caminho: evidência recente de que chimpanzés têm superstições e constróem algo como altares mostram que religião pode ser algo inerente também a estes outros primatas. Acho que seria pouco produtivo dizer que religião é algo inerente a primatas, visto que tiraria a noção de que gente é algo especial, único.

Desde a primeira metade do século passado, já havia gente explorando essa idéia de que a superstição (forma mais primitiva de religião) não seria algo particular à espécie humana, ou que precisasse de um cérebro altamente capaz. Skinner chegou a produzir pombos supersticiosos. Se macacos e pombos podem ter conceitos religiosos, a religião não pode ser considerada nobre por ser exclusiva ao ser humano.

Religião emerge entre pessoas

Existe pelo menos um caso de uma aglomeração de pessoas que não deu origem a religião: a tribo Pirarrã (ou Pirahã). Esta é uma tribo em que só se acredita no que se vê — um proto-ceticismo. Não só eles não têm religião como sua forma de pensar fez com que um missionário, Daniel Everett, apostatasse.

Religião independe do intelecto

Para que esta alegação seja correta, precisamos de dados. E a conclusão deve ser feita a partir da média e não de exemplos específicos. Já que não sabemos o que faz uma pessoa adotar uma religião, devemos destacar correlações entre religião e intelecto, através dos vários aspectos deste: QI, formação, etc. Há quem diga que religião é um fenômeno social, mas como é um fenômeno mutante podemos determinar em que condições as mutações acontecem.

Primeiro vamos olhar para a população em geral: se pegarmos os números do Censo 2010, vemos que os sem religião não se destacam pela formação acadêmica geral, ficando na mesma média da população em geral: ~50% até fundamental incompleto, ~15% até médio incompleto, ~25% até superior incompleto, e ~10% com superior completo. Entre a população geral destaca-se o espiritismo, com 35% dos adeptos tendo superior completo. Mas devemos ser cautelosos ao usar formação acadêmica como referência de intelecto, uma vez que metade dos universitários pode ser  de analfabetos funcionais.

Se nos voltarmos para o panorama mais geral, olhando para o mundo todo, vemos que há correlação bem mais forte entre QI (Quociente de Inteligência) e religiosidade (a intensidade com que a religião permeia a vida do indivíduo), e consistentemente se verifica que quanto maior o QI, menor a religiosidade.

Já entre a elite acadêmica, vê-se ainda maior tendência: 41% dos membros da Associação Americana para o Avanço da Ciência são ateus, segundo o PewResearchCenter, em contraste com 83% do público em geral acreditando em alguma divindade.

Diante de tudo isso, fica claro que há, sim, uma correlação inversa entre religião e intelecto. Eu chego a argumentar, na minha série não terminada, que o cristianismo em versões bem difundidas é uma forma de seita, isto é, uma ideologia que depende do isolamento intelectual, além do social e cultural. Não estou dizendo que a religião faz com que alguém fique tonto, ou necessita de gente tonta para existir. Mas a presença da religião é mais confortável em populações menos espertas.

Conclusão

“Religião é coisa de gente tonta” é uma péssima forma de começar uma conversa. Mas a idéia que a frase expressa, de que a religiosidade é inversamente correlata à capacidade intelectual, é cada vez mais demonstrada como factual — novamente, correlação não é causalidade. Mário Sérgio Cortella simplesmente demonstra ignorância com relação aos fatos puros e simples da realidade. Ele fala outras asneiras nos minutos em que referencio, mas prefiro tratar delas em outro momento.

Não podemos afirmar que religião é coisa de gente tonta. Mas certamente nenhuma até agora se mostrou verdadeira.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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