Por que não se deve levar um cético à igreja

Esta é a análise de uma pregação de igreja. Espero dar a você, leitor, alguma noção do qu passa-se na cabeça de um cético, este que lhe escreve, quando é levado a uma igreja. Claro, a fonte:

E sem mais delongas, a reação à pregação…

Os filisteus saqueiam cidade israelita e levam as mulheres (na verdade levaram todo mundo, mas a estória deixa claro que o mais importante são as mulheres, e em especial as de Davi). Comparemos o modus operandi com o do deus dos israelistas: Saul foi desobediente ao não matar todo mundo; a Davi era ordenado matar os homens e ficar com as mulheres. E certamente era uma tática mais eficaz: se os filisteus tivessem matado todo mundo, não haveria clamor para trazê-los de volta. Até o dilema proposto por Davi se torna evidência de sua falência moral: esforçar-se para trazer de volta os cidadãos raptados ou não? Mesmo contra terrível perspectiva, qualquer pessoa com sua bússola moral no lugar não pensaria duas vezes; mas Davi tem que perguntar ao deus de Israel.

Agora, pense no tipo de deus com que estamos lidando aqui: uma das mulheres levadas era uma das mulheres de Davi (sim, o figurão era polígamo), Abigail. A estória de Abigail é, resumidamente: seu marido, Nabal, homem muito rico, foi morto por Jeová por não compartilhar de seu banquete com Davi e seus homens, após Davi ser impedido pela então esposa de Nabal de matá-lo. Ora, se Jeová mata um homem por não oferecer comida a Davi e seus homens, o que poderia-se esperar dele quando a mesma mulher e muitas outras são levadas por saqueadores? Uma empalação coletiva, ou talvez combustão espontânea, não seriam opções fora do normal. Talvez dar a força de Sansão às mulheres, para que os destrocem — isso seria uma história bem mais interessante. Ao invés disso, ele manda Davi resgatá-las, como se o próprio mandante nem existisse.

O pregador faz um paralelo alegando que a distância que Davi manteve do seu povo é equivalente à alienação das pessoas às suas famílias, dando chance a Satanás para destruí-las, que é o que tem acontecido. Bem, em nenhum momento ele mencionou o que é essa “destruição”, ou como medi-la. Também não apresentou razões para acreditar que essa suposta destruição seja de autoria diabólica, ao invés de algum efeito cultural. Ou seja, tanto os fatos quanto suas causas são presumidos a partir de uma alegoria. E a partir desse modelo de causa infundada e consequência desconhecida, ele traça atitudes para previnir a destruição da família por Satanás:

  1. Envolver-se com uma causa errada. Ele deixa implícito o papel do pai, da esposa e dos filhos, como se toda família tivesse que funcionar exatamente do mesmo jeito. Até entendo que ele ache isso por ter na mão um manual de instrução que trata os seres humanos como se fossem todos iguais em seus anseios e necessidades, mas esta é uma noção errada. E se você não segue esse manual, Satanás tem liberdade para estragar sua família. Novamente, não sei de onde ele tira essa idéia. Se for da Bíblia, se foda a Bíblia; eu quero saber que modelo, que teoria ele usa para determinar que Satanás existe e faz alguma coisa através de algum mecanismo, ou não tenho como dar crédito. Como verifico se essa idéia está correta? E se estiver incorreta, como eu poderia descobrir? É como imaginar uma doença e curá-la com placebo: pode funcionar, mas é irrelevante.
    O pastor comenta como vê muitos filhos de pastores pulando carnaval. E daí? Por que pular carnaval é errado? Eu não gosto, mas não participar é decisão particular minha. Novamente, ele espera que todos pensem do mesmo jeito, com o mesmo código moral, presumido e concluído autoritariamente.
    Ele parte de uma premissa infundada — Satanás destrói famílias cujos membros não cumprem seus papéis — para uma conclusão óbvia: dê atenção para sua família se você quer que ela prospere. Eu já tenho um modelo baseado na realidade para chegar a essa conclusão. Sua religião nada tem a oferecer até aqui.
    E finalmente, a parte do spam: ponha sua família na igreja. Novamente, sem qualquer fundamento. Alguém pode ser obrigado a fazer algo? Eu fui envolvido nas coisas da igreja. E foi no momento em que eu mais estava envolvido que eu descobri que era tudo falso. Talvez por isso os filhos de pastores estejam pulando carnaval.
  2. Inversão de papéis (1:21:00). Novamente, uma conclusão óbia a partir de premissa infundada. Sócrates (na voz de Platão) chega à mesma conclusão em A República, mas não precisa contar com fantasias satânicas. Por que, então, eu deveria preferir a aparente fantasia a olhar para a realidade?
    “Eu nunca vi tanto pastor divorciado”. Que tal fazer uma marcha pela criminalização do divórcio? Ok, já estou perdendo a seriedade. Mas dá para manter com esse nível de exposição?
  3. Opor-se aos inimigos errados. Como eu devo escolher os inimigos? A primeira resposta é: identidade. Junte-se à sua tribo, independentemente de seus valores. Lute contra pessoas e não idéias. Não lute com sua família, nem contra quaisquer de suas idéias. A exposição simplista do pastor é colocar todo mundo de lados opostos de uma cerca: deste lado, sua família. Você tem que ficar do lado de sua família, sempre, de acordo com os papéis: todos obedecem o pai, pai busca o melhor para a família. E se o pai tomar uma decisão demonstravelmente incorreta? Sherekamadaias! Ah, dane-se a argumentação! Aqui é política de identidade! Confrontar uma idéia é inverter papéis, e já sabemos que isso não pode porque a Bíblia diz que isso só pode acontecer sob influência de Satanás. Então ao invés de argumentar, você deve orar para que Deus mude a cabeça do seu interlocutor. Mais um modelo falido.
  4. Pedir direção a Deus. Porque como com Davi, Deus não fará coisa alguma. Você terá que fazer algo, mesmo que Deus possa (como pôde matar Nabal, mas não os amalequitas). Você vai ter que imaginar o que Deus quer, porque não dá para confirmar o que Deus revela. Peça um éfode, um dado, uma moeda, dê um conjunto de opções e jogue a sorte. O que sair ou você sentir é o que Deus está falando. Dane-se o que é melhor ou mais lógico. O importante é Deus ser o centro.

Depois de tudo isso, como cético, concluo: você não tem coisa alguma a me oferecer nesta pregação. Nada real, nada moral, nada útil, nada confiável. Quando quiser ter uma conversa racional, estarei aqui. Até então, meus olhos estarão na realidade, buscando causas e consequências em um modelo refutável porém confirmado por evidências e não andando na confiança infundada em falsas autoridades, que dizem representar algo que não podem apresentar.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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