(Anti-)Pressuposicionalismo

Pressuposicionalismo é uma abordagem apologética que parte da crença como componente essencial do universo ou parte dele. Alguns partem do princípio que o seu deus particular é necessário para a lógica, outros que ele é necessário para qualquer tipo de existência, mas sempre a crença é necessária e portanto não necessita ser justificada — um pressuposto. A Bíblia cristã também dá apoio a esta abordagem, por exemplo, em Romanos 2:15. Uma das consequências do pressuposicionalismo é que ele permite que seus defensores aleguem que todo mundo sabe que seu deus existe, e quem rejeita tal alegação está fingindo, cegando-se ou sendo iludido a rejeitar tal conhecimento.

Já há algum tempo vi a inversão desse argumento apologético, mas somente nas palavras de Brian, o Apóstata, nunca tendo visto uma exposição semelhante em português. E é isso que gostaria de fazer. Acho que é um contra-argumento sólido e com evidências, ao contrário do original, e que deveria ter mais exposição. Bem, sem delongas…

Crentes não existem

Pode parecer loucura, mas tudo indica que ninguém acredita em Deus de verdade. Escrevi com letra maiúscula de propósito: estou falando do deus cristão, Jeová (bem, isto provavelmente se aplica a outros deuses, mas a avaliação fica a critério do leitor). A hipótese é a seguinte: crentes dizem que acreditam em Deus por uma norma social. Eles não acreditam que ele realmente exista ou faça qualquer coisa, ou sabem que no mínimo ele não se importa com qualquer coisa que acontece em suas vidas. Eis os fatos que permeiam essa hipótese:

Crentes não oram por milagres

Sempre que você ouvir uma oração, preste atenção: Deus sempre ganha um escape, algum detalhe que permita que o resultado de ele não existir seja uma resposta da oração. “Deus, cure Fulano deste câncer, mas se for da sua vontade que ele não seja curado, dê paz à família“, ou “dê sabedoria e habilidade ao médico para fazer a cirurgia”. Nunca se vê um “cristão” recomendando ao doente ficar em casa e esperar o presbítero para receber a cura ao invés de ir ao hospital, como a Bíblia diz claramente em Tiago 5:14-15 (ver também Mateus 21:21-22. E só é passível de oração e súplica aquilo que pode ser alcançado sem Deus. Não se vê alguém orando para que Deus restaure o membro de um amputado, porque todo mundo sabe que Deus não existe para fazer isso.

A Bíblia só ensina o que já sabemos

É muito bonito dizer que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, que não devemos julgar ou qualquer outra coisa que tenha sido copiada de tradições mais antigas (sim, isso não vem da Bíblia). Tudo é claro quando coincide com o que sabemos ou achamos hoje que é certo. Mas na hora de ler o que sabemos que é errado, ou a pessoa não sabe que está na Bíblia e é atribuído a Deus, ou diz que não se aplica aos dias de hoje. Como a escravidão, em Êxodo 21, Levítico 24, Efésios 6, 1 Pedro 2, e tantas outras passagens que regulamentam ou toleram a prática da escravidão. Ou talvez a inferioridade da mulher: a Bíblia ensina que a mulher é inferior, embora tenha progredido com o tempo. Ela passou de propriedade do pai, que deve ser vendida enquanto é virgem e serve como pena a quem estupra (se não houver alguém para ouvi-la pedir socorro) a adorno do lar, que deve servir em silêncio.

Mas ninguém (ou quase ninguém, pelo menos) advoga que essas coisas sejam aplicáveis hoje. Ninguém acredita que a Bíblia diz algo que contradiz o que sabemos. Deus nunca ensina, ele sempre aprende. Aprende que a terra é esférica, que escravidão é ruim, que mulheres não são objetos, que doenças são causadas por germes, que o fim dos tempos ainda não chegou, que a terra tem milhões de anos, e tudo mais que aprendemos nos últimos séculos.

Não só os que se declaram cristãos não acreditam que Deus é a autoridade sobre certo e errado, eles não acreditam que ele está presente para ver o que fazem de errado. Eles dizem que Deus está com eles sempre, mas não agem assim quando estão para fazer algo que seria reprovável a seus olhos, desde assistir pornografia até trapacear num teste ou fazer corpo mole no trabalho. Se uma pessoa real estivesse a seu lado numa hora dessa, eles não teriam a mesma atitude. Mas como sabem que Deus não está lá, fazem e depois sentem remorso —  quando muito.

A “Palavra de Deus” é um troféu

Se o criador do universo tivesse escrito um livro, eu faria questão de lê-lo sempre. Mas isso não é verdade para mais da metade dos ditos cristãos. Uma pesquisa do Barna constatou que quase dois terços dos americanos reconhece que não lê a Bíblia o suficiente. Outra, do LifeWay Research, indica que um terço dos cristãos americanos raramente ou nunca lê a Bíblia! Acho que podemos extrapolar as estatísticas para o Brasil, cujos hábitos de leitura são inferiores aos do nosso colega de continente.

Ou seja, cristãos não acreditam que sua vida eterna ou terrena depende do quão bem entendem Deus e o que ele diz. A Palavra de Deus é só um troféu que fica na prateleira, seu diploma de bom cidadão.

Não olhe atrás da cortina!

O Deus da Bíblia é retratado como alguém presente. Uma voz audível como com Paulo, manifestações sobrenaturais como a abertura do Mar Vermelho, a transformação de água em vinho e outros incontáveis milagres de Jesus, alguém que dizem ter ressuscitado depois de levar oito tiros… mas quando se trata de aqui e agora, Deus nunca está afim de aparecer. Deus não atende pedidos, não é tentado; você não tem fé; bem-aventurados os que não viram e creram!

Quando você quer pegar um charlatão, você faz ele improvisar. Uri Geller, o entortador de talheres, foi pego assim: ao ir num programa de TV, o apresentador foi instruído a dar talheres novos para ele entortar, sem que pudessem ser manipulados antes por Geller. De repente, havia algo que impedia seus poderes de funcionarem. Uma energia negativa. A mesma coisa é com cristãos. Deus se manifesta! Mas hoje não está afim, e tudo que puder ser feito para esconder Deus em outra dimensão é feito.

Um crente de verdade apostaria sua vida

Eu apostaria minha vida, terrena ou eterna, na existência da gravidade. Se alguém disser: “que tal você soltar esta pedra? Se ela não cair, você morre”. Eu aceito a aposta, mesmo que não tenha lucro se ganhar. Com Deus também era assim. Elias, em 1 Reis 19, aposta sua vida contra as dos profetas de Baal que Jeová é Deus. E ele ainda zomba de seus oponentes antes de matá-los. Eu participaria de um debate como esse hoje. Levaria uma picanha, e se Deus fizesse um churrasco eu entraria para o cardápio. Mas e o cristão?

Pois é, o cristão “normal” não acredita em Deus. Quer saber se ele realmente acredita? Veja se ele compartilha suas posses e vive como as aves do céu, sem acumular posses, ou se preocupa-se com sua aposentadoria como se Jesus nunca fosse voltar. Veja se ele acredita que “a oração do justo muito pode em seus efeitos”. Veja se ele mostra Deus ou o esconde. Porque se existir um crente verdadeiro, eu quero conhecê-lo e ver se o deus dele existe ou não.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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