Querido calvinista

Vamos conversar sobre algo que talvez eu entenda errado ou de forma incompleta, e muito controverso. Então quero primeiro expor o que eu entendo a respeito de calvinismo, para então tentar conversar sobre ele.

Calvinismo, livre-arbítrio e destino

Com o objetivo de ser o mais suscinto possível, tentarei restringir minha exposição à visão calvinista de livre-arbítrio e como isso afeta a história da humanidade e de indivíduos específicos, reais ou hipotéticos.

“Livre-arbítrio” geral diz respeito à habilidade de decidir entre possíveis ações. Existem diversas hipóteses a respeito da natureza do livre-arbítrio, mas a posição calvinista é de que ele não existe em qualquer esfera.

Esta idéia da soberania de Deus era a doutrina mais central de Calvino. Ela significa que nada é deixado à sorte ou livre-arbítrio humano. Foi isto que o levou a colocar tamanha ênfase na doutrina da predestinação — a idéia de que Deus, não nós, decide se seremos salvos.

O plano divino é, portanto, universal: ele envolve todos os aspectos da vida humana e todos os indivíduos que já existiram ou estão por existir — não há um fio de cabelo que caia da sua cabeça sem que Deus saiba ou planeje. É como se nossas vidas fossem filmes que Deus já assistiu trezentas vezes e continua curtindo ver.

Que tipo de deus é esse?

Eu entendo, porém, que o calvinista não responsabilize Deus por tudo que acontece — só pelas coisas boas, uma vez que as coisas ruins acontecem por causa do pecado. Mas quero que meu amigo entenda que não-calvinistas vêm da seguinte forma: se algo ruim acontece e Deus é calvinista, ele sabe o que vai acontecer sem sua intervenção e incluiu este fato em seu plano antes que ele ocorra. Então ele planejou ou permitiu todas as mazelas da humanidade, passadas, presentes e futuras.

A soberania de Deus, dentro do Calvinismo, significa que não há forma de escapar ao chamado “problema do mal” postulado por Epicuro:

  • Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.
  • Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.
  • Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

A única forma de escapar do paradoxo é acreditar que Deus não se importa com assuntos humanos. E esta é, meu caro calvinista, a causa de existirem não-calvinistas: há quem ache esse deus sem coração. Sua lógica, como a da inteligência artificial V.I.K.Y. de Eu, Robô, é inegável, porém sem empatia.

Veja o caso real de uma pessoa que conheço — e aposto que há dezenas de casos semelhantes. Ela nasceu surda por conta de uma complicação na gravidez; algo totalmente acidental, do ponto de vista humano. Não acompanhei pessoalmente sua infância e adolescência, mas nos dez anos que passei na mesma igreja que ela vi milagreiros e missionários orarem e suplicarem com ela por cura para sua surdez, espero que com sinceridade e fé de que Deus queria dar essa alegria a ela. E, uma vez que Jesus prometeu que aquilo que fosse pedido em seu nome seria feito, um pedido tão nobre só poderia ser atendido. Mas não foi. Para o calvinista, parece-me lógico que Deus simplesmente queria que ela continuasse surda, que isto era o melhor para ela. Mas recentemente, ela fez implante coclear que lhe permitiu ouvir. Algo que, para ela e todos que a amam, foi maravilhoso. Mas, uma vez que Deus queria que continuasse surda, parece-me que teria sido, para o Deus calvinista, um ato de rebeldia.

Claro, o calvinista pode dizer que esta surda não agiu livremente ao conseguir o implante coclear. Mas esta parece-me uma versão estranha dos fatos: quando ela queria e pediu para ouvir, embora Deus pudesse atender ele resolveu não fazê-lo; então ele resolveu fazê-la pensar que decidiu resolver o problema sem ele? Eu entendo a sua lógica, mas que tipo de plano é esse?

Ou então considere o câncer infantil: segundo o INCA, o câncer (em suas diversas formas) afeta mais de dez mil crianças por ano só no Brasil, e pelo menos 20% delas não podem ser curadas, resultando na morte de mais de duas mil delas. E isso porque Deus tem um plano. Eu entendo sua lógica. Talvez haja um bem maior que advenha disso — talvez, muito remotamente. Mas que tipo de plano inclui matar duas mil crianças em meio a tremendo sofrimento?

 

Espero, amigo calvinista, que você entenda que não é por discordar da sua interpretação da Bíblia que outros cristãos discordam de você. Espero que entenda que o seu deus é, para outros cristãos e para humanistas, a personificação da falta de interesse pelo ser humano. Esse deus não é melhor que V.I.K.Y., e com certeza moralmente inferior a qualquer pessoa de bem. Como ele poderia ser o autor da moral? Deixando de lado a falta de senso em tal ato por um instante, como poderia, sendo em tal dimensão desconectado do sofrimento humano, oferecer um sacrifício pela humanidade? Sinto muito, caro calvinista. Eu sei, como estudioso pouco erudito da religião cristã, que seu deus não existe. Mas se eu não soubesse, esperaria que ele não existisse. Não entendo como você consegue viver como se ele fosse seu soberano.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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