O Poder Corrompe(?)

Especialmente em tempos de Lava-Jato, esta é uma frase muito repetida. Mas ela pode estar errada. Afinal, de onde vem e para que serve o velho ditado, “o poder corrompe”? A quem beneficia ele ter crédito, independentemente da sua veracidade? Eu me proponho a avaliar estas questões, e espero que você, leitor, faça esta exploração comigo.

As diferentes visões sobre poder

spiderman

Herói ou futuro vilão?

Eu só comecei a ouvir que “o poder corrompe” no final da minha adolescência, até onde me lembro. Até então, poder era algo que deveria ser reservado aos virtuosos. Tio Ben, do Homem-Aranha, expressa bem essa idéia: “Com grande poder, vem grande responsabilidade”. Também nas histórias em quadrinhos, Superhomem recebe extraordinário poder e cresce como o mais nobre ser na Terra. Se voltarmos mais ainda, a estória de Robin Hood gira em torno da necessidade de destronar João, um déspota. Se imaginarmos esses personagens pensando que “o poder corrompe”, as estórias seriam bem diferentes: Tio Ben aconselharia Peter a não usar seus poderes; os Kent abandonariam Clark (Kalel) antes que se tornasse um vilão. Claramente eles não foram imaginados por alguém que considerava o poder uma força maligna. A existência do poder, em todas essas estórias, é inevitável; a importância é dada em fazer com que ele esteja nas mãos de quem se dispõe a praticar o bem.

Mesmo se considerarmos pensadores mais eruditos, Platão já propunha a mesma consideração em A República: a classe da qual sairiam os governantes deveria ser preparada e educada para ser a mais virtuosa dentre o povo. Ao mesmo tempo, ele parece namorar com o conceito de que o poder corrompe, propondo que esta classe não seja criada na riqueza (se alguém quiser colocar as citações, fique à vontade; eu não tenho uma boa ferramenta de busca para vasculhar essa imensa obra). Mas mesmo Platão restringe a idéia de corrupção associada ao poder às mentes em formação, reforçando o conceito de que o poder deve estar nas mãos dos sábios — “enquanto os filósofos não forem reis e reis, filósofos, o povo não terá paz”.

Surge um ditado

Um ditado não precisa ser verdadeiro para pegar. Basta que seja dito por alguém famoso. E quem tornou famoso o nosso ditado foi Lord Acton, político britânico do século XIX. Acton não foi o inventor do ditado, meramente ecoando uma idéia presente na política britânica desde pelo menos o século anterior a ele.

O fato de o ditado ter se popularizado na política talvez explique por que ele é usado principalmente ainda neste meio. E o fato de os corruptos serem mais visíveis exatamente onde eles têm mais poder ajuda a propagar a idéia. Em O Caminho da Servidão, Frank Hayek destaca que na política convém exatamente aos corruptos que esta idéia seja prevalente. Afinal, se o cidadão honrado evita chegar ao poder absoluto parra não se envolver com a corrupção, o espaço fica aberto para aquele que não vê problema nisso. E assim, ao ver cada vez mais corruptos no poder, o ditado ganha força proporcional.

Daqui em diante

Aqui começo um pouco de especulação, embora com muita base teórica. Acredito que a popularização da idéia de que o poder corrompe vem de um erro cognitivo, uma falácia lógica conhecida como post hoc, ergo propter hoc (depois disto, portanto por causa disto). Suponhamos que Fulano seja um cidadão comum; depois que Fulano torna-se prefeito, ele começa a desviar recursos da cidade; conclui-se que foi o cargo de prefeito que fez com que Fulano cometesse o crime, pois não o faria se não o fosse. Logo, o poder corrompeu Fulano.

Compare com o caso da dança da chuva: os índios de uma aldeia precisam que chova no início da primavera para plantar seus vegetais; quando não chove logo, eles começam a fazer a dança da chuva até que chova. Às vezes demora mais, às vezes menos, mas sempre que fazem a dança, chove. Podemos dizer que, porque choveu depois de dançarem, a dança causou a chuva? Espero que sua resposta também seja “não”.

Alguém pode argumentar que Fulano não seria capaz de fazer o que hipoteticamente fez sem o poder adquirido. Mas uma pessoa não seria capaz de pendurar um quadro sem um martelo; deveríamos dizer que martelos fazem com que pessoas coloquem pregos em paredes? Claro que não! Assim como um martelo não é um agente, algo com uma vontade ou capaz de impôr vontade a alguém, o poder (nas suas diversas formas) também não o é. O poder é uma ferramenta que obedece a vontade daquele que o maneja.

Agora quero que considere, em ordem inversa, o que acabo de expôr; “o poder corrompe”:

  1. é uma idéia errada
  2. beneficia a perpetuação da corrupção em posições de poder
  3. desencoraja sua busca por pessoas de bem
  4. deve estar nas mãos de pessoas com sua ética solidificada

Sugiro fortemente que você deixe de usar este ditado, e corrija quem quer que o diga. O poder é necessário para grandes feitos, e vem acompanhado de grande responsabilidade. Tio Ben 1 x 0 Lord Acton.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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