Identidade e suas associações indevidas

O que você é? A resposta e esta pergunta é o que chamamos identidade. A identidade é, normalmente, o que um indivíduo interpreta como sendo o que lhe forma. Tudo que faz parte da identidade de alguém é visto como imutável, do mesmo jeito que seu CPF não muda. Mudanças na identidade de alguém são mal vistas: alguém que vê o time do coração como parte da identidade critica quem passa a torcer para outro time, mesmo que seja o seu: vira-casaca é o mais amigável dos rótulos dados. Para quem relaciona o time à identidade, alguém que troca de time não é tão íntegro quanto alguém que torce para o mesmo time a vida toda (mesmo que seja o time adversário). Provavelmente por isso que os times que não ganham muito continuam tendo torcedores — a fidelidade ao time é uma virtude, a marca de um torcedor íntegro.

A mesma associação normalmente acontece com diversas outras características que a pessoa atribui a si: classe social, religião, estado civil, e por aí vai. E associar-se a algo para criar uma identidade, embora não seja algo intrinsicamente errado, deve ser feito com cautela. Mesmo que você não esteja disposto, sua identidade muda o tempo todo.

Há muitos anos eu era um adolescente. Minha identidade naquela época era totalmente diferente, física e mentalmente, de forma que não podemos afirmar que eu sou aquela pessoa. Nosso conhecimento, compleição física e convicções mudam, e com isso nossa identidade. Mudança de identidade é natural, e de fato essencial para o amadurecimento em todas as fases da vida.

Diga-me com quem andas

Eu classifico as partes da identidade de alguém como associações internas e externas. As associações internas são aquelas que partem do indivíduo: seus valores, habilidades e traços físicos. E as externas são aquelas supridas por terceiros: religião, time de futebol, empregador, nacionalidade. É difícil expressar associações internas, mas é muito comum existirem grupos formados a partir delas, principalmente grupos de interesse, como esportes, jogos de tabuleiro, geeks e grupos de apoio. E assim uma associação interna se disfarça de externa: alguém é membro do partido X ao invés de portador dos valores que percebe no partido X ou projeta sobre ele.

Existe um risco em associações externas: você pode não conhecer completamente aquilo a que está associando sua identidade. Alguém pode, por exemplo, se identificar como partidário do partido X. Note que estou tratando de alguém que não só é filiado ao partido X, mas que torna isso parte do que ele é. E digamos que algo acontece no partido X que é contrário à visão que esse alguém tem dele. Não seria surpresa se a pessoa partisse em defesa do partido independentemente dos fatos, ou até distorcendo os fatos.

Ao mesmo tempo, imagine que há outra pessoa que toma o mesmo aspecto, ser partidário, como parte da identidade e projeta isso sobre o indivíduo anterior. Quando os podres do partido X são revelados, a mesma podridão é projetada sobre a identidade do partidário. A partir desse momento, cessa-se toda esperança de diálogo racional entre os indivíduos; qualquer forma de crítica é vista como ofensa, qualquer fato contraditório é negado, e toda mudança de opinião é vista como traição.

Mesmo que eu esteja usando exemplos vagos, você com certeza consegue identificar pessoas próximas a si que tornam essas associações externas parte da sua identidade, do time de futebol, à religião, à afiliação política. Mas há esperança…

O caminho da suspensão temporária

De forma transitiva ou intrínseca, é inevitável criar sua identidade através de associações externas. Alguns ou muitos de nossos valores são inspirados por grupos dos quais fazemos parte, de religião a agremiação política ou ideológica. Mas devemos estar prontos e nos acostumarmos à pratica de temporariamente dissociarmo-nos destes elementos externos para os examinar de forma criteriosa.

Se você é religioso, não significa deixar de acreditar na religião para avaliá-la. Significa encarar positivamente qualquer que seja o resultado de sua análise criteriosa: se ela se sustentar, sua confiança se solidifica mais; se não, você deixa uma crença inválida para trás. O que frequentemente acontece é o medo de deixar algo que é visto como parte de si, quer por seu valor intrínseco quanto pelas consequências previstas: ser visto como inimigo, ou imoral, racista, etc.. A meu ver, somente quando alguém está disposto a suspender temporariamente uma associação externa de identidade (ou quando essa associação não existe) pode haver um diálogo racional a respeito daquilo. E só através do diálogo racional (mesmo que interno) pode haver progresso real.

Saiba mais aqui:

Entendendo o conceito de identidade: https://en.wikipedia.org/wiki/Self-concept se souber inglês, ou https://pt.wikipedia.org/wiki/Identidade

Julia Galef sobre disposição mental (legendas em português): https://www.ted.com/talks/julia_galef_why_you_think_you_re_right_even_if_you_re_wrong?language=pt-br

Projeção, a forma como percebemos a nossa identidade no outro: https://pt.wikipedia.org/wiki/Proje%C3%A7%C3%A3o_(psicologia) (nota: não concordo com o mecanismo freudiano, mas reconheço o fato como mecanismo de formação de opiniões)

 

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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