Re: Não tenho fé suficiente para ser ateu

Mais uma resposta a mais um artigo extremamente mal escrito, mas novamente que espelha muitas das opiniões de religiosos. O Núcleo Apologético de Pesquisas e Ensino Cristão (NAPEC), publicou alguns artigos sobre ateísmo, basicamente o mesmo de sempre: um religioso falando sobre algo que não entende. Como já disse antes, a minha recomendação é que você ouça sobre algo da fonte: se quer saber sobre religião, vá a uma igreja; para ciência, vá para a escola; e sobre ateísmo, converse com um ateu. E a sorte do NAPEC está boa hoje: eu sou ateu!

Este artigo em particular cito e você pode encontrar aqui.

O ateísmo é um movimento que tem crescido nas últimas décadas, segundo o IBGE (1). Tal movimento se divide em ateus práticos (não apresentam nenhum tipo de religiosidade), ateus teóricos (se preparam filosoficamente), e os ateus militantes (2) (propagam a “fé” ateia (3) ).

O autor não faz questão de citar as fontes (1), mas eu faço: o censo 2010 mostra um aumento pequeno no número de “sem religião”, que inclui mas não é formado só por ateus, de 7,4% para 8% entre 2000 e 2010. Contudo, pelo menos uma pesquisa mais recente indica um número bem maior entre jovens, chegando a 19%. Problemas metodológicos impedem a obtenção de um número mais preciso da representação de ateus na sociedade, mas a impressão que se tem de fato é de um crescimento grande nas últimas décadas.

A divisão entre diversos tipos de ateus (2) é irrelevante e incorreta, pois ateísmo é a rejeição de uma crença e não uma crença positiva. Se alguém não crê em divindades, esse indivíduo é ateu. Não importa se rejeita por ser comunista ou humanista, materialista ou revoltado, por ter estudado ou nunca ter ouvido falar em deuses (ver Pirarrãs). Pelo mesmo motivo, não existe “fé” (aqui usado como “crença”) atéia (3). Para mim, por exemplo, o ateísmo é resultado do meu ceticismo. Por isso que prefiro me denominar cético antes de ateu.

A afirmação de que não existem evidências científicas para se provar a existência de Deus, tem se tornado o argumento mais freqüente dos ateus (4), porém, esses deveriam saber que, semelhantemente, não existem provas científicas para a não existência de Deus (5). Todas as evidências científicas apontam para a existência de um Criador. Por isso, tantos cientistas na atualidade têm abandonado o ateísmo para se converterem a Cristo e adotarem o Criacionismo (6).

Até (4) o autor está falando sobre ceticismo, que resumidamente significa que alguém aceita algo como verdadeiro se e somente quando se pode demonstrar (provar). O que é algo perfeitamente razoável: se alguém quiser lhe vender um bilhete de loteria premiado, você deve pedir que a pessoa demonstre que o bilhete é premiado e o prêmio não foi sacado para não cair num golpe.

coin-jarEm seguida (5), o autor inverte a posição cética, como se alguém tivesse que provar que algo é falso para rejeitar a idéia de que é verdadeiro. Por exemplo, veja esta imagem de um pote cheio de moedas. Em verdade lhe digo, o número de moedas neste pote é ímpar. Espero que você não acredite em mim, uma vez que eu não consigo demonstrar que existe um número ímpar de moedas no pote. Mas você pode provar que o número de moedas é par? Ou, uma vez que você não acredita que o número é ímpar, você se vê obrigado a acreditar que o número é par? Pois rejeitar as duas afirmações até que alguma possa ser demonstrada é exatamente a posição do cético — algo que o autor não demonstra entender.

Finalmente, devo rejeitar a afirmação (6) de que cientistas abandonam o ateísmo porque o criacionismo foi provado cientificamente porque ambas as afirmações não foram demonstradas. Em primeiro lugar porque o primeiro indivíduo a dar uma única evidência científica em favor do criacionismo seria aclamado mundialmente e ganharia pelo menos um Prêmio Nobel (não Templeton) e isso ainda não aconteceu até onde eu me informei. Em segundo lugar porque o autor não deu qualquer estatística ou qualquer exemplo que indique conversões devido à validade científica do criacionismo. Em terceiro e último lugar, porque existem várias provas de que o criacionismo é irreal.

O ateísmo afirma que Deus não pode ser observado epistemologicamente  portanto não faz parte da ciência. Tal afirmação é falha, porque a Ciência nunca negou a existência de Deus. Na verdade, os cientistas decidiram deliberadamente nunca estudar a questão DEUS! Os cientistas simplesmente decidiram não tratar de tal assunto (7). Agora, decidir não estudar sobre uma pessoa é uma coisa, e afirmar que tal pessoa (que nunca foi estudada) não existe (8) é outra totalmente diferente.

Não é o ateísmo que exclui todos os deuses e o sobrenatural da ciência (7), e sim o naturalismo metodológico. Novamente, o ateísmo não é um conjunto de dogmas, nem o naturalismo metodológico impede alguém de ter religião e muito menos afirma que algo não existe por não ser estudado (8). De fato, muitos cientistas têm religião — mas nenhum deles chegou a ela através da ciência, uma vez que o método científico é separado do sobrenatural.

O ateísmo afirma que a religião é má e responsável pela morte de milhões de pessoas na história (9). Tal argumento pode, em parte, ser verdadeiro. Porém, se partirmos desse pressuposto, iremos observar que o ateísmo foi responsável por um número de mortes muito maior que a religião (10), a exemplo da China ateísta, ou da Coréia do Norte, ou da antiga URSS, ou ainda através de Lênin, Stalin etc., que foram responsáveis, juntos, pela morte de mais de 100.000.000 de pessoas no mundo, através da história.

Acho que não preciso mais ressaltar que “o ateísmo” não afirma coisa alguma, né? Pois também não afirma que a religião é má por ser responsável pela morte de milhões (9). Na verdade, se alguém afirma que Deus matou milhões é a Bíblia, do dilúvio a Ananias e Safira.

E como associar comunismo a ateísmo não pode faltar (10), eu já escrevi a respeito mas vou repetir. O comunismo não é uma consequência do ateísmo, e sim o contrário. E nem é uma consequência necessária. Podemos dizer que um muçulmano cometeu um atentado por causa da religião se e somente se a interpretação pessoal da religião pelo muçulmano encorajar o ato. Como o ateísmo não contém ensinamentos, nada pode ser atribuído ao ateísmo.

Então, onde está Deus? Diante de tal pressuposto os ateus ironizam acerca da existência de Deus (11), já que O mesmo não pode ser visto fisicamente.

Utilizando-nos da mesma falácia, podemos concluir que um ateu não raciocina, pois não podemos ver fisicamente o seu raciocínio. Um ateu não tem inteligência, pois não podemos ver fisicamente a sua inteligência. Um ateu não tem amor, pois não podemos ver fisicamente o seu amor. Um ateu não tem sentimentos, pois não podemos ver fisicamente os sentimentos. Na verdade, utilizando-nos da mesma falácia, podemos até dizer que um ateu nem tem cérebro, pois não podemos enxergar o seu cérebro, e muito menos a sua capacidade de pensar. Já que não podemos ver essas coisas fisicamente, poderíamos dizer que um ateu é simplesmente um corpo físico que anda vagando, sem cérebro, sem capacidade de pensar, sentir e amar, sem inteligência e sem raciocínio. Seguindo a mesma falácia, utilizada pelos ateus, podemos dizer que um ateu é simplesmente um corpo físico vazio, oco, sem nada por dentro. (12)

Se Deus e o sobrenatural não podem ser investigados pela ciência, então realmente: onde está Deus? Ninguém sabe (11). E se ninguém sabe, ele não é diferente de outras coisas que ninguém sabe mas acredita. Não sei se há ironia nisso. É a confusão do autor em relação ao ceticismo que desperta esse furor.

Agora, se não sabemos e não podemos investigar Deus, o que sabemos sobre outras coisas? Bem, sabemos tudo que podemos investigar (12). Sabemos que todos temos cérebros, independentemente de quão bem o usamos, porque todas as pessoas que morrem e passam por necrópsia têm cérebro (indução). E sabemos que é no cérebro que se processam os pensamentos e sentimentos porque um cérebro danificado acarreta em danos também ao processo de pensamento ou sensação (abdução). E podemos medir a inteligência lógica intuitiva através dos testes de QI, os sentimentos através de hormônios como a Ocitocina, enfim… sabemos tudo que é conhecido a respeito do homem e do resto da natureza através do método científico. E foi sempre o método científico que esclareceu idéias erradas a respeito do universo introduzidas pelas religiões, nunca o contrário. A visão não é o único sentido nem a única ferramenta disponível para avaliarmos e descobrirmos a realidade ao nosso redor, e isso em nada depende de acreditar em dimensões sobrenaturais.

Por fim, lembro-me de Nietzsche, que disse: “Se realmente existe um Deus vivo, sou o mais miserável dos homens”. E realmente o foi.

Não conheço a obra de Nietzsche, então não posso comentar sobre qualquer opinião a seu respeito.

PROFECIAS BÍBLICAS PRECISAS OU MERA COINCIDÊNCIA?

A Bíblia possui 985 profecias que alguns julgam se tratar de “coincidências”, das quais 573 estão no Antigo Testamento e 412 no Novo Testamento.

Dessas 985 “coincidências” mais de 500 já aconteceram, por “coincidência” exatamente como estavam escritas, “coincidentemente” cumprindo datas, locais, contextos e personagens. (13)

Quando Jesus Cristo estava pregado numa cruz por causa dos pecados da humanidade, 30 “coincidências” aconteceram num período de 6 horas – das 09:00h às 15:00h. (14)

Novamente, referências faltam (13). E o que é afirmado sem evidências pode ser igualmente rejeitado sem elas.

Já Jesus é um caso bem interessante (14). O personagem histórico quase certamente nem sequer existiu, e para avaliar melhor o assunto recomendo algumas obras: Quem Escreveu a Bíblia?, de Bart Ehrman; e dois tomos acadêmicos que passaram por grande escrutínio, Proving History e On the Historicity of Jesus, de Richard Carrier.

E finalmente, o único trecho cuja enrolação pularei:

Essas “coincidências” são mais semelhantes a “Cristocidências”. Por exemplo, o Livro de Daniel capítulo 9 e versículo 25 nos diz que desde que a ordem fosse dada para reedificar Jerusalém até que as obras estivessem prontas seriam decorridas 9 semanas. E desde que a cidade estivesse edificada até a chegada do Ungido (Messias = Cristo) seria decorridas 62 semanas.

(…)

Todavia, não acabou por aqui! O fato, isto é, a “coincidência” é que essa profecia foi feita no Livro de Daniel, que foi escrito em 537a.C. (15) (537 anos antes de Cristo nascer), iniciada no livro de Neemias, que foi escrito entre 445a.C. e 425a.C (~430 anos antes de Cristo nascer), detalhada no livro de Zacarias, que foi escrito entre 520a.C e 518a.C. (~520 anos antes de Cristo nascer), e cumprida no livro de Mateus, que foi escrito entre 60d.C. e 70d.C. Se cumpriu nos mínimos detalhes. Que “coincidência”! (16)

Toda essa estória de profecia seria muito bonita, se não fossem dois fatos: o livro de Daniel foi escrito em torno de 165AEC (Antes da Era Comum), e não em 537AEC (15). O consenso acadêmico é esse por vários motivos, um dos quais é que não há qualquer referência ao livro antes de 200AEC.  Ora, se o livro é escrito depois de todas as “profecias” que ele profere, elas não são profecias — mesmo que fossem precisas. E se um outro livro, também de ficção (e mesmo que não fosse) é escrito depois e com conhecimento da profecia, tendo seu cumprimento como objetivo, este é fabricado! Sinto muito, mas não há “coincidência” nem “profecia”. E se as outras centenas forem como estas, acho melhor o autor voltar para a prancheta.

Resumindo

Ao ler o título do artigo, eu esperava um texto que explorasse algumas coisas:

  1. O que é e porque ela seria algo bom para se usar no cristianismo e ruim no ateísmo ou na formação de qualquer outra opinião
  2. O que é ateísmo e porque seria preciso fé para o adotar

Ao invés disso, vi um desfile de enganos a respeito do que é ateísmo, ceticismo e ciência, e alegações vazias ou demonstravelmente falsas. Se você é cristão e espera ser respeitado intelectualmente, jamais faça isso.

Anúncios

Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Quer dizer algo sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s