Re: Ciência e fé cristã

Mais uma da NAPEC. O assunto é um dos meus favoritos, desde que era evangélico. Infelizmente apaguei o que havia escrito sobre o tópico (a mesma vergonha pós-desconversão que faz um novo convertido jogar fora seus álbuns do Ozzy Osbourne), mas a NAPEC fez o favor de publicar algo sobre o mesmo assunto e, até onde pude ler, com o mesmo conteúdo. Acho que é uma ótima oportunidade de responder à altura.

Em primeiro lugar, quando vejo um título desse, algumas expectativas surgem. Ao ler o artigo, espero encontrar uma desambiguação de “ciência” e “fé cristã”. O primeiro diz respeito ao conhecimento obtido através do método científico, ou ao método em si? Semelhantemente, o último é sinônimo de “crença” ou de “confiança” em uma? E se mudássemos o título para “Ciência e fé terraplanista”, o conteúdo também se aplicaria? No decorrer do texto também procuro avaliar se a oposição à qual o autor responde é bem representada, isto é, se ele não distorce a visão do oponente para torná-la vulnerável ou até tola (o que os debatedores chatos chamam de “espantalho”), e se suas respostas estão à altura do desafio. Quem sabe até eu posso mudar de opinião? E será que o mesmo pode ser esperado do autor ao se deparar com suas expectativas atendidas?

Antes de qualquer outra coisa, como sempre, a fonte. Mesmo que eu discorde de um ponto de vista, eu sempre procuro informar aos meus leitores de onde tiro a informação. Eu posso ter entendido mal, ou tirado do contexto; mas qualquer que seja o caso, quero que tenham acesso total à informação para tirarem suas próprias conclusões.

Infelizmente, os 7 primeiros parágrafos são o contrário do que eu inicialmente esperava. O autor apresenta “ciência” como sendo um conjunto de conclusões derivado diretamente de “pressupostos naturalistas”. Nada poderia ser tão longe da realidade. A ciência, e mais especificamente as ciências naturais (geologia, biologia, física, química e suas  subdivisões), usa o método científico para criar modelos que representem da forma mais precisa possível a realidade. É neste sentido que existe uma diferença entre “ciência” e “conheciemento científico”: o primeiro termo diz respeito ao método e o segundo, às conclusões (conhecimento). E quando se trata do método científico, o naturalismo (metodológico) é uma fatalidade e não um pressuposto. O sobrenatural não pode ser considerado na ciência porque ninguém proveu uma forma verificável de acessar o sobrenaural; se isto um dia for feito, a pessoa que der este meio cerá celebrada no meio acadêmico, e é neste sentido que se diz que ela ganharia vários prêmios Nobel. Dawkins, Sagan e Tyson são apresentados como autoridades, enquanto que a abordagem cética (e científica) é avaliar alegações e não seus autores.

Esta má representação do método científico e do naturalismo metodológico é importante porque é exatamente onde começa a diferença entre crença religiosa e conhecimento científico. A crença religiosa, e mais especificamente a cristã (note como substituí “fé” para representar melhor a idéia a transmitir) é adotada mesmo na falta de evidências, ou as substituindo por confiança no texto sagrado ou revelação pessoal, como é afirmado na Bíblia cristã em Hebreus 11. Esta forma de se adotar crenças é contrária ao método científico, pelo qual se obtém conhecimento somente através de hipóteses apoiadas por evidências, capazes explicar fenômenos, prever sua ocorrência e até permitir que sejam controlados. Fé e ciência são duas formas opostas de chegar a conclusões sobre a realidade, e o autor do NAPEC ignorou completamente este ponto de vista — supondo que ele não o fez intencionalmente. Mas esse é só o primeiro conflito.

Nos parágrafos 8 a 12, o autor apresenta o segundo conflito entre ciência e religião de forma velada, que é derivado do que apresentei resumidamente acima. Como são formas diferentes de chegar a conclusões, ciência e religiões chegam a conclusões diferentes sobre os mesmos assuntos. Faço questão de colocar no plural para que o nobre leitor também considere outras religiões e sua validade ao considerar conclusões conflitantes. Por exemplo, as civilizações antigas do oriente médio acreditavam que a Terra era plana, coberta por uma abóboda Sol e Lua a orbitavam (ou assim se aprende no ensino médio e pode-se conferir na Bíblia); quando se pôde verificar que este não era o caso, e devo argumentar que isto foi feito através do método científico, as religiões tiveram que se adaptar ao conhecimento ou se isolar. Verificamos que a religião precisa residir no desconhecido, ou alegar ter conhecimento em áreas ainda não descobertas através do conhecimento científico ou não contrariadas por este. É neste sentido que as citações no trecho que critico são plenamente válidas: Sagan fala em como as religiões exploram a cura pela fé somente enquanto a medicina não avançou o suficiente e Pinker menciona como a crença em uma interpretação literal da Bíblia quanto à criação do universo e da vida não é compatível com o conhecimento científico.

E por falar em conhecimento científico, há algo que eu devo ressaltar quanto ao autor, não para difamá-lo, mas para ilustrar como o ceticismo é importante e deve ser aplicado sempre. Ele menciona Ravi Zacharias falando sobre uma fonte que diz ter lido um artigo em que Richard Dawkins diz algo. Independentemente de concordar ou não com a opinião atribuída a Dawkins, o autor apresenta como fato um boato de fonte anônima relatado por um mentiroso. Eis mais um exemplo de alguém adotando uma crença por ser conveniente, e não demonstrável (o método religioso).

A partir daí, o artigo do NAPEC apresenta os mesmos argumentos de sempre, na voz autoritária de outros apologistas: o pressuposicionalismo e os argumentos cosmológico, ontológico, teleológico e por aí vai. Todos eles já respondidos exaustivamente, especialmente através das ciências naturais, da comprovada inexistência do que dizem ser a alma ou espírito, às origens dos mitos presentes nas escrituras tidas como sagradas.

Mas voltando às minhas expectativas originais, nenhuma foi atendida. Em nenhum momento foi esclarecido o que é “fé”; pelo contrário, o termo foi usado de formas diferentes ao longo do texto. E os conflitos com a ciência foram obscurecidos com o aparente intuito de apresentar novamente os mesmos argumentos apologéticos decrépitos.

Edição: Djesniel Krause responde em http://www.napec.org/apologetica/ciencia-e-fe-crista-uma-resposta/ e eu tentei continuar a conversa, mas não passamos sequer dos esclarecimentos.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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4 respostas para Re: Ciência e fé cristã

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