Re[3]: Ciência e fé cristã

fireworksEste é um momento histórico, que merece uma comemoração: um apologista cristão decidiu responder a crítica. Talvez isto pareça sarcasmo, mas realmente não é. Meu sentimento de gratidão é sincero, e os fogos simbolizam essa comemoração. Note-se que a comemoração não tem relação direta com o conteúdo do diálogo, mas simplesmente porque o fato de ele ser evitado a todo custo por crentes é algo de que sempre reclamo.

Vamos tentar não nos perder aqui. Djesniel Krause escreveu sobre a não existência de um alegado conflito entre ciência e fé cristã, eu respondi tentando esclarecer onde o conflito está e ele respondeu de volta dizendo que eu não entendi a proposta inicial. Afinal, quem não está entendendo quem? Esse é um problema recorrente em conversas sobre qualquer assunto. Então ao invés de responder diretamente à questão principal, do conflito entre ciência e fé, quero dedicar a maior parte deste post a esclarecer o que entendo do Djesniel e o que quero dizer quando me refiro a termos como ciêncianaturalismocosmovisão, e cristianismo.

Meu problema inicial com o texto do NAPEC foi a criação de um espantalho que impediu de abordar as questões que alguém como eu teria dentro da proposta do texto. Recapitulando:

Em primeiro lugar, quando vejo um título desse, algumas expectativas surgem. Ao ler o artigo, espero encontrar uma desambiguação de “ciência” e “fé cristã”. O primeiro diz respeito ao conhecimento obtido através do método científico, ou ao método em si? Semelhantemente, o último é sinônimo de “crença” ou de “confiança” em uma?

A tréplica do Djesniel continua deixando quase todos esses pontos não respondidos. História da ciência e argumentos apologéticos, mesmo que eu discorde de todos, são irrelevantes. Nem entrarei nessas distrações.

Cosmovisão

A primeira coisa a se notar é que o Djesniel fez questão de corrigir-me no que diz respeito ao escopo do conflito:

Trata-se, portanto, de uma guerra de cosmovisões, com pessoas como Sagan ou Dawkins advogando uma visão de mundo naturalista, que elimina qualquer possibilidade de intervenção divina a priore, e uma visão de mundo teísta, que está aberta a possibilidade da crença na intervenção de Deus na ordem criada.

Existem duas coisas das quais eu discordo, e em virtude do tempo não apontarei todas as fontes para minha opinião. Djesniel diz que:

  1. O Naturalismo eliminia qualquer possibilidade de intervenção divina a priori.
  2. O teísmo dá a possiblidade da crença na intervenção de Deus na ordem criada.

E devo corrigir isto para:

  1. O Naturalismo não presume a possibilidade de intervenção divina, ficando limitado à investigação do mundo natural até que seja demonstrada a existência do que hoje se chama sobrenatural. Quando isto acontecer, ele será incluído no natural.
  2. O teísmo (e aqui falo especificamente do cristianismo) presume, a priori, que a intervenção divina é constante, da criação aos tempos atuais e não permite a dispensa de tal suposição.

Mas afinal, o que são Naturalismo e Cristianismo? A minha definição de cosmovisão preferida é quase a mesma que, coincidentemente, está na Wikipédia; uma cosmovisão é qualquer sistema filosófico que trata das seguintes áreas, ou responde às perguntas principais de cada uma:

  • Epistemologia: o que é conhecimento e como pode ser obtido?
  • Física: quais são os fatos que podem ser conhecidos?
  • Metafísica: o que vai além dos fatos conhecidos? (linguagem, por exemplo)
  • Ética: quais comportamentos sociais são desejáveis?
  • Estética: o que é beleza e onde ela pode ser encontrada?
  • Política: como a sociedade deve ser organizada?

Eu e Djesniel concordamos, aparentemente, que ciência diz respeito a Epistemologia e Física. Isto é exatamente o que quis dizer quando disse informalmente que alguém pode chamar de ciência tanto o método de aquisição de conhecimento (epistemologia) quanto o conhecimento adquirido ao aplicá-lo ao mundo real (física). Acho que também concordamos com a importância dessas duas áreas para as outras dentro de uma cosmovisão: não se pode construir um sistema ético sem saber qualquer coisa sobre os fatos do mundo real, por exemplo.

Naturalismo

Em primeiro lugar, devo desfazer a confusão comum entre Naturalismo Metafísico e Naturalismo Metodológico. Este diz respeito à epistemologia da ciência, e aquele é a cosmovisão que a usa como única abordagem. Isto quer dizer que um naturalista rejeita a noção de algo sobrenatural não como um pressuposto, mas como uma limitação. Se o sobrenatural está fora do alcance da epistemologia, ele não deve ser considerado ao se responder às outras questões na cosmovisão. É esta a abordagem de Richard Carrier ao dar uma visão completa do Naturalismo Metafísico em Sense and Goodness without God (sem versão em português). Eu, como cético, adoto as linhas gerais do Naturalismo até que se dê um meio válido para se investigar o sobrenatural. Essa abertura ao diálogo é essencial também dentro da minha cosmovisão particular. Então note como o Naturalismo é secular por inevitabilidade, não por qualquer pressuposto.

Reitero a principal característica do Naturalismo para esta conversa: a única abordagem para a epistemologia é o método científico, pois nenhuma outra se mostrou válida — e podemos nos aprofundar no porquê se este se tornar um ponto de discordância.

Ressalto, contudo, que não precisamos e nem devemos falar sobre Naturalismo Metafísico. Se a ciência está restrita à Física, isto é, a investigar os fatos a respeito do mundo natural, e se cristãos não adotam o Naturalismo Metafísico, qualquer conflito entre este e o Cristianismo é irrelevante. O que devemos averiguar é se existe conflito entre a ciência (Naturalismo Metodológico) e Cristianismo. Somente devemos usar o Naturalismo Metafísico se desejarmos investigar qual a melhor aplicação do método científico.

Cristianismo

O cristianismo também pode ser entendido como uma cosmovisão, e é assim que Djesniel parece usá-lo. Supondo, novamente, que esta conversa diz respeito somente a duas áreas da filosofia, Epistemologia e Física, que modelos o cristianismo usa? Ao alegar que não há conflito entre ciência e fé cristã, sou obrigado a concluir que o método científico está no conjunto de abordagens epistêmicas. Se for o único não há diferença entre o Naturalismo, então tem que haver mais alguma coisa. O meu argumento é que esta outra coisa é a abordagem chamada .

Oh, não! Eu usei a palavra proibida! Pois é, eu prefiro que meu interlocutor defina o que é ou usar um sinônimo adequado à situação. Infelizmente, Djesniel não o fez e eu cheguei à única situação em que sou obrigado a usar o termo. Ao fazê-lo, tento ser fiel à sua construção usando a mesma fonte que ele usaria: a Bíblia.

Hebreus 11 descreve extensivamente o que é  e como ela é usada para construir crenças, e podemos remeter às estórias referidas ali para avaliar melhor a aplicação do método. No que se pode construir um padrão, o método parece ser de crença a partir da revelação divina individual, ou seja, uma pessoa recebe uma revelação direta, que deve ser tomada como fato sem evidências. Devo acrescentar uma suposição: a de que o Djesniel é evangélico reformado. A partir disso, concluo que a revelação divina seria através da Bíblia (Sola Scriptura).

Então o cristianismo abordaria, segundo Djesniel, Epistemologia e Física através de uma combinação de ciência e fé. E como estou somente tentando esclarecer os termos, fica a definição aberta a esclarecimentos, especialmente porque eu usei mais suposições do que gostaria — a saber, que fé é vista como método de epistemologia, definida biblicamente e entendida à luz do cristianismo reformado.

Conflitos? Lacunas?

Recapitulando o que procurei demonstrar até aqui:

  • Naturalismo é a cosmovisão em que o sobrenatural é considerado irrelevante por não interagir com o natural de forma perceptível, tornando-se indistinguível do inexistente. O método científico é sua única abordagem para a Epistemologia e o conhecimento por ele produzido, toda a sua Física.
  • Cristianismo é a cosmovisão que combina o método científico e fé como Epistemologia, e sua Física é a combinação das conclusões obtidas através do exame das escrituras (Bíblia) e da natureza através da ciência.

Se eu retormar o questionamento inicial, posso jogar toda a bagagem sobre Naturalismo Metafísico fora. Afinal, se estamos avaliando os possíveis conflitos entre ciência e fé cristã dentro da cosmovisão do cristianismo, não há necessidade de olhar para o Naturalismo Metafísico.

Voltemo-nos, portanto, para o Cristianismo. Esta cosmovisão adota pelo menos dois métodos de epistemologia, como já disse, o que pode causar conflitos. Na ciência, acredita-se quando a evidência não deixa margem razoável para dúvida. E aquilo que não é aceito permanece no conjunto de coisas desconhecidas. Ou seja, a ciência divide a realidade em três conjuntos: o que sabe-se ser verdadeiro, o que sabe-se ser falso, e o que não se sabe. Já que a fé não tem as mesmas restrições da ciência, ela pode pegar coisas do último conjunto e colocar em um dos outros. Isto é, literalmente, preencher lacunas do conhecimento. E como Deus não é alcançável pela ciência, ele necessariamente é, na cosmovisão cristã, o “deus das lacunas”. Mas isso somente se a ciência for superior à fé.

Se a fé for superior à ciência, então acontece o contrário: a análise da realidade através das escrituras (assumindo meus pressupostos) determina os três conjuntos e a ciência serve para preencher as lacunas — aquilo que não é abordado pela Bíblia de acordo com interpretação pessoal, de saneamento básico à exploração espacial, da medicina à criminalística. Mas se a fé é usada para olhar para o mundo natural, então fé e ciência podem, por princípio, entrar em conflito. Elas jamais entrarão em conflito no que diz respeito ao sobrenatural, então para saber se de fato existe algum, temos que olhar para os relatos históricos e princípios que tratam da natureza. Ao fazermos isso, se encontrarmos conflitos sobram algumas alternativas ao cristão:

  1. Ignorar a ciência e não usá-la para investigar aquilo que em que se crê por fé
  2. Alterar a ciência para se conformar à crença adotada por fé
  3. Escolher e fabricar evidências para tornar as conclusões compatíveis
  4. Adaptar a crença para ser compatível com o conhecimento científico

Eu poderia citar muitos conflitos que advêm de olhar para os mesmos fatos através da fé e da ciência dentro da mesma cosmovisão. Também poderia demonstrar porque ninguém deve incluir fé no seu cinto de ferramentas epistêmicas (dissonância cognitiva). Mas antes eu gostaria de saber do Djesniel se eu reproduzi com fidelidade aquilo que ele entende por cosmovisão e fé, e se minhas suposições a respeito de como ele a define estão corretas.

Atualização em 28/11/2017 (3 meses depois): Djesniel não mais respondeu. Uma pena.
Atualização em 19/12/2017: Fui bloqueado de publicar comentários na página do facebook do NAPEC e no site, e o administrador com quem eu conversei no princípio por e-mail não responde mais. Parece até que tentar conversar racionalmente é inaceitável.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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3 respostas para Re[3]: Ciência e fé cristã

  1. Adam Figueiredo disse:

    Muito bom. As conclusões dos conflitos foram bastante acertivas.

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