Mídia racista, manipulação de massas e sinalização de virtude

Apareceu na minha timeline no Facebook algumas vezes, então ao invés de repetir a mesma coisa várias vezes, escreverei só uma vez.

Já são quase 300 mortos em ataque terrorista na Somália.

Sem pele branca, sem olhos claros, sem comoção na mídia.

Copie e cole no seu perfil. Vamos subir a hashtag #PrayingForSomalia

Qual a crítica contida nesta pequena manifestação? Uma leitura ingênua pode levar a concluir que é contra o ataque terrorista na Somália. Mas note que a revolta não é pelo fato do ataque terrorista ter sido perpetrado, e sim por ele não estar sendo noticiado o suficiente, não causar “comoção na mídia”. E qual seria o motivo dessa comoção não acontecer? Racismo, claro!

O nível de ignorância em tal revolta é tão grande que tenho que começar do básico. Estou escrevendo rapidamente e a partir do mais simples senso comum, então pouparei fontes.

Mídia e seus veículos

A função da mídia é informar o indivíduo, mantê-lo a par dos fatos a ele relevantes. Veículos de mídia (jornais, canais de TV, websites) têm o propósito de obter lucro através do serviço de informar o indivíduo a respeito dos fatos a ele relevantes. O lucro depende e é restrito à atenção da audiência, portanto as notícias têm que ser priorizadas de acordo com a relevância e abrangência do veículo, e restritas pela disponibilidade de recursos — repórteres, colunistas, editores, fotógrafos, analistas, espaço no papel, etc..

A abrangência diz respeito ao público alvo do veículo de mídia. Um noticiário local trará notícias que afetam direta ou indiretamente a população da região. Não há, a princípio, motivo para uma lei municipal de Manaus virar notícia em Curitiba. E a relevância de um fato pode ser geográfica, política, econômica e/ou social.

Como a morte de 300 pessoas pode ser irrelevante?!

Em primeiro lugar, não é. O atentado terrorista na Somália foi notícia no Jornal Nacional da Globo, e continua presente em diversos veículos de notícia (R7 e Jovem Pan, por exemplo). A presença do fato na mídia é incontestável. Não é papel da mídia criar comoção, então talvez a reclamação seja quanto à falta de relevância dada ao fato. Acreditando que tal relevância não foi dada (do que desconfio), ela deveria?

O atentado aconteceu fora do continente americano. O Brasil não tem forte relação geográfica, política, econômica ou diplomática com a Somália, e não há confirmação de qualquer brasileiro entre as vítimas. Não existem comunidades brasileiras no país, assim como não há migração relevante para cá, e o turismo é igualmente escasso. A população é esmagadoramente muçulmana, sendo o Islã a religião oficial do país, e o ataque teve cunho político — foi feito por um grupo tentando tomar o poder. Então não há ligação geográfica, política, diplomática, econômica, cultural ou social direta entre o público alvo dos veículos de mídia e a Somália. É por este mesmo motivo que não se vê qualquer notícia sobre mutilação genital na África, muito menos clamor popular, mesmo que atinja praticamente metade das mulheres na Somália. E note que nada disso envolve a cor da pele dos somalis.

Para comparação, vejamos os casos de terrorismo em Paris: a cidade é destino turístico de muitos brasileiros; há um número relevante de migrantes nas duas direções, e no atentado houve brasileiros atingidos; o ataque foi direcionado à cultura ocidental — individualismo e liberalismo, da qual compartilhamos. Ou seja, mesmo havendo distância geográfica, há proximidade política, cultural e social, inclusive podendo afetar famílias dentro do públic o alvo. E nada disso envolve a cor de pele de franceses ou brasileiros.

Mídia racista!

Como disse, o protesto é contra o racismo na mídia. Afinal, se há comoção quando é com brancos europeus e não há quando é com negros africanos, só pode ser racismo. Embora já tenha explicado que este não é o caso, vale a pena olhar melhor para o que esta acusação significa. Quando alguém reclama que os veículos de mídia não apresentam aquilo que se deseja, confunde-se quem é o dono do veículo. Quem decide o que deve ser apresentado ou não é o editor, não o leitor. Cabe ao leitor não comprar o jornal, não assistir o canal e não acessar o site se a notícia não interessa. Isto faz com que a circulação diminua e o patrocinador não queira anunciar, conquanto um número suficiente leitores abandone o jornal. Ou seja, boicote.

Mas o boicote não é a estratégia utilizada para gerar mudança. Ao invés disso, usa-se a culpa: se você não é racista, compartilhe. A isso costuma-se chamar sinalização de virtude (explicação 1, explicação 2), a atitude de mostrar-se moralmente superior sem fazer coisa alguma. Pois é exatamente o que o texto original propõe: mostre sua indignação, e depois não faça coisa alguma. Não envie alimentos, não faça doações, não voluntarie seu trabalho, não adote um refugiado. Mas seja superior à mídia racista, faça parte da equipe de super-heróis da moral e dos bons costumes. Esta atitude costuma ser associada ao marxismo cultural, idéia de que a sociedade deve ser separada de acordo com classes (econômicas, raciais, sexuais, etc.) que lutam entre si, também conhecida como opressão sistêmica. Sim, por ironia do destino temos cristãos agindo como marxistas.

Eu nada tenho a ver com o ataque terrorista na Somália. E não sou hipócrita para ficar colocando hashtag em rede social sem ajudar uma pessoa sequer. São somalis brigando por um poder vazio, que se entendam.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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