Crer ou não Crer [4]: igreja é benéfica?

O tema principal desta parte do livro é a utilidade não mais da crença em si e sim da instituição que se forma ao seu redor. O diálogo é entre um ateu e um padre, então só podemos falar de ateísmo e catolicismo; não há e nem pode haver uma instituição que se forme sobre o ateísmo (um pouco sobre isso aqui), então tudo gira em torno da Igreja Católica Apostólica Romana, ou ICAR para os íntimos.

Eu encontro um argumento muito curto, mas totalmente novo para mim, na fala de Karnal: o socialismo é uma idéia jamais alcançada; Cuba, União Soviética e, mais recentemente, Venezuela são distorções do que o socialismo deveria ser. Da mesma forma, a ICAR seria uma distorção do que o cristianismo deveria ser. Agora partindo para a minha expansão do argumento, as duas distorções acontecem pelo mesmo motivo: são a consequência necessária dos meios pelos quais se vislumbra a idéia original. Aparentemente Fábio não entende o argumento, pois continua separando a igreja utópica intendida pelos fundadores da religião da religião criada pela tradição humana sem abordar o argumento em si. Pois ele confirma a extensão do argumento sem ver a relação positiva entre o que diz e o que o contradiz:

Esse é o meu empenho diário. Resgatar essa raiz, voltar às intenções de Jesus, ao desejo que Ele tinha de que Seus discípulos fossem promotores de uma nova sociedade. Que eles fossem promotores de uma nova forma de viver a relação om Deus. Que eles fossem deserdados de toda e qualquer cultura religiosa que os autorizasse a oprimir em nome da fé.

Pois é exatamente a promoção de uma nova sociedade que conduz, de uma forma ou outra, a impôr à sociedade contemporânea os valores extraídos, ou interpretados, do texto sagrado. E isso sempre deu e sempre vai dar errado.

Tangenciando o assunto principal, ainda busco as formas pelas quais as afirmações são justificadas. Nessa busca, algumas inconsistências ainda se destacam. Por exemplo:

A minha fé não afronta a minha racionalidade. Eu não preciso abrir mão da minha inteligência para crer como creio. E, quando eu me deparo com algum aspecto que considero nebuloso, eu opto por contemplar, em vez de responder. (pág. 81, grifo meu)

Note como o padre Fábio não consegue ver como fala duas coisas completamente contrárias em sequência: ele acha que acreditar em algo nebuloso de forma contemplativa em vez de responder é racional. Não! Racional seria rejeitar algo até que deixe de ser nebuloso!

Mas nem tudo está perdido. Durante todo o capítulo essas duas idéias, a de que a ICAR é uma falha de implementação, e de que o mistério faz parte da crença católica, se combinam na idéia de símbolos como mistério sagrado. Para o leitor ter uma idéia do que estou falando:

Particularmente também acho que a explicação do simbólico fragiliza sua força. Acho interessante quando a religião consegue incutir na pessoa a sensibilidade ao símbolo. Assim, ele não carece ser explicado e a gente se desprende um pouco dessa racionalização que fazemos de tudo, porque, sendo ocidentais, nós lamentavelmente temos a necessidade de racionalizar o tempo todo. Como padre enfrento esse problema diariamente. De vez em quando alguém me pergunta: “Como é o céu, padre?”. Honestamente ue respondo: “Não sei, querido, porque eu ainda não morri. Estou na mesma situação que você, sem saber como é”.

Novamente o assunto provê um novo ponto sobre o qual eu não havia pensado. Essa questão toda de simbologia é evitada na igreja evangélica, que é minha experiência religiosa majoritária. Os símbolos existem e são cada vez mais fortes, mas não se comparam à sua importância no catolicismo. Só que o símbolo é a representação daquilo que não está lá. As lápides e monumentos a pessoas existem porque a pessoa morreu, não está mais entre nós. As medalhas existem para lembrarmo-nos de algo que ficou no passado e não pode mais ser experimentado. Até os prêmios da academia de cinema para “realização de vida” (lifetime achievement award) dado a alguém em vida são frequentemente recebidos sob protesto de “eu não morri”, porque são símbolo de uma vida passada de brilhante atuação.

Sob essa ótica, o simbolismo católico pode ser visto como um reconhecimento de que as coisas a que os símbolos pretendem aproximar o religioso, “incutir na pessoa a sensibilidade ao símbolo”, na verdade não existem. Nenhum símbolo, como os evangélicos insistem, pode interagir com o crente, e Fábio reconhece isso, mas a alternativa — o símbolo serve para despertar algo dentro do crente — é a confissão de que não há nada externo ao crente, não há realidade tangível por trás do símbolo.

Eu só acho triste a perspectiva de que uma pessoa instruída não só não vê que o simbolismo católico torna evidente tanto a falência da ICAR quanto a irracionalidade da crença. Claro que tudo isso fica envolto no tema do livro, que é o propósito da religião ser tornar o indivíduo melhor, e isso obscurece a discussão a respeito do título do livro. Uma pena, de verdade.

Termina na Parte 5

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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2 respostas para Crer ou não Crer [4]: igreja é benéfica?

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