Crer ou não Crer [5]: morte e considerações finais

Esta é a última postagem minha sobre o livro escrito por Leandro Karnal e Fábio de Melo. Se chegou direto aqui, comece pelo começo. Como mencionei na parte 4, estou poupando comentários sobre duas partes do livro: Parte 5: “se Deus não existe, tudo é permitido?” e Parte 6: “ter fé faz falta?”; elas são somente repetições de temas anteriores somente com uma roupagem não muito diferente e não lançam luz sobre cada tópico. A parte 7, sobre a qual trato aqui, é bem diferente.

Finalmente temos uma conversa interessante. Fábio de Melo não tem a mesma postura que o religioso, católico ou evangélico, tradicional, o que restringe um pouco qualquer crítica. Karnal, por outro lado, concede todos os pontos e não traz novidade. Mas é uma conversa que reconhece a condição humana e identifica muitas respostas erradas à morte.

Mas o crítico não sobrevive de falar bem e eu encontro algo que acho extremamente irritante na exposição de Karnal (ou vocês acharam que eu só criticaria o padre?). Quando tratam do papel a que devem se prestar as pessoas quando alguém morre, a conversa toma um rumo comum:

Leandro Karnal: (…) E aí vem de novo o meu louvor ao pensamento religioso. Nada nem ninguém pode oferecer consolo a não ser a religião. Você não pode chegar a um enterro e usar a ciência para consolar uma mãe. Eu não posso chegar para uma mãe que perdeu um filho e dizer que seu filho é feito de unidade de carbono, e que toda unidade de carbono tende a desaparecer.

Padre Fábio: Seria uma interferência infeliz. Ou então dizer o que costumeiramente escutamos: “Hoje foi ele, amanhã pode ser qualquer um de nós!”.

Karnal: Isso é ciência. Mas se eu disser que seu filho “virou” um anjo e prepara o caminho para nós…

Padre Fábio: Ele está lá em cima rezando por nós, e vamos nos reencontrar por toda a eternidade, sim, isso consola.

Karnal: A ciência não seca lágrima, a religião seca, ou pelo menos dá dimensão à dor. Há várias formas de luto. Os cristãos consolam o morto. Alguns religiosos hoje, como judeus e adventistas, não insistem na mudança do julgamento de Deus.

Tem tanta coisa errada aí que eu sei por onde começar.

Qual é o papel da ciência?

A ciência, ou o método científico, tem como objetivo avaliar hipóteses com o objetivo de adquirir conhecimento. Ninguém deveria ir a um velório com o objetivo de investigar a realidade. As pessoas vão a velórios principalmente para consolar os vivos. Talvez, no caso de católicos e mórmons, também para salvar a alma do morto, mas fiquemos no primeiro caso. Isto diz respeito a como se comportar em sociedade, isto é, Ética. Tentar usar ciência para consolar o parente de um morto seria como tentar destrancar uma porta usando uma colher.

Como um ateu pode consolar alguém de luto?

Não pode. Bem, não não um ateu. Porque o ateísmo não contém instruções, não é uma cosmovisão que inclui ética. Então cada indivíduo deve encontrar na sua cosmovisão, na sua filosofia, a melhor forma de trazer consolo a quem sofre. Eu sou cético e, embora não adote o rótulo de humanista, é aí que encontro formas de atingir aquele objetivo. Eu poderia usar, por exemplo, os seguintes fatos incontroversos para consolar alguém que perdeu um ente querido:

  • A memória e as experiências compartilhadas fazem parte do que somos, e enquanto elas estiverem conosco, uma parte do que o falecido foi também estará.
  • Os vivos continuam aqui para dar o apoio que o morto não pode mais, quer seja emocional ou material.
  • Para os que em vida sofriam, não há mais for

Estes e outros fatos podem ser combinados em uma conversa incontroversa com o objetivo de consolar. Isso definitivamente não é ciência, nem deveria ser. Leandro Karnal mostra que pode ser um filósofo bem incompetente às vezes, e Fábio de Melo prova não merecer seu diploma em Filosofia.

Considerações finais

Recapitulando o que eu esperava encontrar no livro:

  1. O ponto de vista contrário é bem representado? Só Karnal faz isso. E o faz quase sempre como felação teológica, não para contestar ou questionar.
  2. Quais são os argumentos apresentados? Nenhum estruturado, quase nenhum novo. No máximo dois argumentos soltos novos, sendo uma analogia com o socialismo e o reconhecimento da ausência através dos símbolos.
  3. Os autores buscam um caminho para convergirem em conclusões? Não. Eles se satisfazem em discordar sem explorar os motivos e suas validades. Fábio de Melo, como o risco que apresentei, nem ao menos mostra se importar com verdades, bastando que adotar a crença torne a pessoa melhor. E Karnal nunca discorda ou parece detectar tal falha.

Para a maioria das pessoas, não vale a pena adquirir uma cópia. O livro é repetitivo e não aborda questão mais importante: como podemos saber se a religião é verdade? É uma conversa amigável, dominada pelo Fábio de Melo. Das 153 páginas do livro, 50 são de longos monólogos escritos por ele, destacando-se do diálogo que quase não existe. Se você nunca conheceu um católico, leia. Se nunca conheceu um ateu leia outra coisa — Hitchens pode ajudar bem mais.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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2 respostas para Crer ou não Crer [5]: morte e considerações finais

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