A morte do cético

Um dos projetos pessoais que vejo necessários é escrever ou gravar o discurso do meu funeral. Se eu por acaso morrer repentinamente, não conheço alguém em quem confiaria para oferecer consolo à minha família através de uma ótica que compartilho; pelo contrário, só lhes seria oferecida mais dor e temor. Esta postagem não é uma tentativa de realizar este projeto, mas espero ser capaz de expôr como eu, pessoalmente, encaro minha eventual morte e como espero que as pessoas ao meu redor lidem com ela, assim como eu lido com a de alguém próximo que venha a falecer.

A morte é certa, e não há porque não falar sobre ela. Na verdade, creio que a vida é propriedade daquele que a vive e, portanto, alguém deveria poder escolher quando a encerrar. Claro que prefiro que isso fosse motivado pela perspectiva de ver uma vida plena que não pode ser mais desfrutada por si ou por outrem dada a avançada idade e consequente falta de capacidade física e/ou cognitiva, mas eu preferiria encerrar minha participação nos meus próprios termos. Não temo a morte em si; talvez a forma ou o tempo em que ela por acaso aconteça, mas a morte não é algo a se temer. E mesmo que eu sofra no processo de morrer, esse sofrimento passará e não haverá mais Henrique para sofrer.

A morte em si não é um momento. Morrer é um processo, porque o que eu sou não está só em mim. Eu sou meu corpo, mas também sou minhas memórias, meus valores, minhas experiências, meus impulsos. E mesmo que meu corpo e as memórias no meu cérebro deixem de existir, quase tudo que eu fiz não foi sozinho. Enquanto alguém que me ama lembrar-se de algo que fizemos juntos ao visitar um lugar ou repetir uma atividade, parte do que eu sou continua causando um efeito, espero que positivo. Toda vez que minha esposa ou parentes fizer uma piada tão ruim que tem graça, é algo meu que continua existindo. Um dia essas coisas também desaparecerão, cedo ou tarde. O que restar de mim será somente um conjunto de fotos empoeiradas, ou meu nome em um documento amarelado, e isso não é ruim. Mas até que chegue esse dia, nem tudo que eu sou terá deixado de existir ou afetar as pessoas que compartilharam momentos comigo.

Finalmente, o fato de a morte ser o fim da vida não tira o valor desta. O período em que estamos vivos é o único em que temos a oportunidade de ter alegrias, dividir experiências, amar e sofrer. O fato de esta oportunidade ter uma validade a torna mais, e não menos, valiosa. Saber que os efeitos das nossas ações em vida afetam aqueles com quem interagimos por anos ou até gerações após nossa morte amplifica ainda mais o valor da vida. Minha esperança é somente criar uma vida em cuja sombra alguém queira descansar ou se inspirar.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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