Inferência a partir da melhor explicação

Às vezes chamada simplesmente de “a melhor explicação”, este é o tipo de justificativa usada por muita gente, de forma ingênua ou sábia, para suas conclusões. Aqui eu tentarei diferenciar o que é um bom uso da expressão e da técnica e comparar com um mau uso. Mesmo que eu tente comunicar todas as idéias em termos informais, a quem se interessar estou tratando de epistemologia e vale a pena dar uma conferida em lógica proposicional ou Popper.

De acordo com a Enciclopédia de Filosofia Routledge, inferência a partir da melhor explicação é definida como:

… o procedimento de escolher a hipótese ou teoria que melhor explica os dados disponíveis. Os fatores que tornam uma explicação melhor que outra podem incluir a profundidade, compreensibilidade, simplicidade e poder unificador.

Em outras palavras, embora “porque sim” seja a hipótese mais simples que se encaixa perfeitamente qualquer conjunto de dados, ela é superficial e sem poder unificador ou mesmo de explicação. É uma hipótese que não aumenta o nosso conhecimento sobre os mecanismos que atuam para conduzir aos fatos observados.

Um exemplo clássico disso é a descoberta do planeta Netuno. Depois da descoberta de Urano, a órbita observada do novo planeta (dado) não correspondia à órbita esperada pela mecânica clássica. Esta hipótese, portanto, tinha poder explicativo fraco. Foi proposta então outra hipótese: a gravidade de outro planeta ainda não observado estaria causando desvios na rota de Urano. Esta hipótese era compatível com os dados e acrescentava um novo ponto de verificação: a posição do novo planeta tornava-se previsível. Em 1846 apontaram telescópios para a posição esperada e lá estava Netuno. Se esta hipótese concorresse com outras e nenhuma adicionasse qualquer ponto de verificação, nunca poderíamos chegar a uma conclusão.

Comparemos com alguém tentando usar esta abordagem da forma errada:

Vamos aos dados apresentados:

  • O cromossomo humano é complexo

É isso. Todo o resto é informação falsa (e mesmo que fosse verdadeira, seria irrelevante). Por exemplo: uma alternância de 3 possibilidades não pode ser representada nativamente em sistema binário. É preciso conversão e compactação para dar a real dimensão em termos binários de um conjunto de dados (e dado não é informação) desse tipo. Falo como graduado em Ciência da Computação, pode conferir como seus arquivos de texto são compactados. E qual é a hipótese para tal complexidade? Deus fez o cromossomo. É uma hipótese que não tem qualquer poder explicativo: não dá um mecanismo pelo qual os dados se apresentam; também não introduz qualquer previsão, qualquer novo dado que possa ser observado se (e preferencialmente somente se) a hipótese for verdadeira; não tem simplicidade nem compreensibilidade (“estou longe demais de entender, mas creio em Deus”); e não é unificável ao resto do conhecimento acumulado. Ou seja, não é uma explicação e jamais poderia ser a melhor explicação.

Quando alguém lhe disser que algo é a melhor explicação para um fenômeno, pergunte-se o que deveria ser observado, além dos dados em mãos, caso a explicação simplesmente esteja correta. Pergunte-se as mesmas coisas deveriam ser observadas se outras hipóteses estiverem corretas. Por exemplo:

Homeopatia é diferente do solvente utilizado na sua criação

Se esta hipótese fosse a melhor explicação para as pessoas sentirem-se melhor após tomar um “remédio” homeopático, deveríamos observar algo novo, por exemplo: um homeopata ou manipulador (a pessoa que manipula o “remédio”) deve conseguir diferenciar dois vidros, um com e um sem o composto homeopático. Mas não é isso que acontece. Ou deveríamos observar resultados diferentes ao tratar as pessoas com placebo e homeopativa. Novamente, nada. Mas pelo menos no caso da homeopatia e algumas outras pseudociências podemos criar previsões. Se isto não for possível, descartar a hipótese até que seja melhorada é o único passo racional.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
Esse post foi publicado em Contra-apologética, Pseudociência, Religião. Bookmark o link permanente.

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