Cada um tem sua crença

Na série Ditados Populares contemporâneos, chegou a hora de outro campeão:

Cada um tem sua crença (ou opinião)

A idéia do ditado é que a sua crença é tão válida quanto a minha, portanto não adianta discordarmos porque só levará a desavenças. Devemos expressar nossas opiniões, ouvir a do outro com respeito e não caçoar ou sequer dizer que está errada. Pois as pessoas não mudam de opinião por conta do que ouvem.

Acho que já dá para entender porque eu acho que é mais um ditado cujo resultado é a propagação da ignorância e o sepultamento do diálogo.

Toda opinião é válida?

Uma versão de justificativa é dizer que toda opinião é válida. Embora eu não discorde, esta é uma instância de equívoco (Um Livro Ilustrado de Maus Argumentos, página 16): válida significa que tem valor, que serve para alguma coisa, não que é verdadeira — e portanto indiscutível. Normalmente, quando alguém diz que “toda opinião é válida”, a denota que “cada um tem sua verdade”, isto é, que todas as opiniões têm o mesmo valor. Quando eu uso essa expressão, indico que todos têm o direito — ou até o dever — de expressar suas opiniões, certas ou erradas.

Afinal, quantas verdades existem?

A validade de uma opinião também não significa que existem duas ou mais verdades. Se eu e meu interlocutor discordamos sobre um assunto de tal forma que nossas opiniões ou crenças são mutuamente exclusivas, há no mínimo um fato: pelo menos uma opinião está errada. Se eu acredito que há um número ímpar de moedas na minha carteira e você acredita que esse número é par, não podemos simplesmente “concordar em discordar” e ir para casa. Temos que investigar os fatos; eu devo abrir a carteira, contamos as moedas juntos. Da próxima vez em que nos encontrarmos, por mais que eu não goste de ter um número par de moedas, se você estiver certo eu tenho que dizer que o número é par (caso não tenha mudado, claro).

Mas Henrique, não dá para investigar tudo em que eu acredito!

Um autor disse sabiamente que toda crença é como um aluguel: você deve acreditar em algo enquanto isso lhe paga em previsões que se concretizam. Eu acredito que exercícios regulares conduzem a saúde e disposição física enquanto fazer exercícios regulares conduzir a saúde e disposição física, e parar de fazer exercícios regulares tiver o efeito contrário ou nenhum. E se uma crença não produz resultados tangíveis, ou se a crença não tem diferença da descrença, eu a descarto. Uma crença que não paga seu aluguel é despejada. Assim a casa fica arrumada para receber crenças melhores.

Talvez saber se há um número par ou ímpar de moedas na minha carteira seja irrelevante. Neste caso, eu não preciso ter uma opinião a respeito  e responder simplesmente “não sei, e não me importo”. Mas este raramente é o caso de quem diz acreditar em coisas porque é sua opinião. Isso costuma estar no âmbito de assuntos relevantes para quem crê mas não consegue justificar.

Acreditar em meio à ignorância

Digamos que eu quero — ou tenho que — atravessar uma rua, mas não tenho visibilidade suficiente para determinar que posso atravessar em segurança. Não posso simplesmente não atravessar (não decidir quando atravessar). Mas não estou em completa ignorância. Eu posso estimar quão rápido os carros chegam a partir de onde consigo enxergar e correr de acordo com esse tempo. Ou posso tentar voltar para trás se surgir perigo.

O exemplo acima, se comparado com opiniões em assuntos cheios de incógnitas, seria como tirar a rua. Que utilidade poderia haver em decidir quando atravessar uma rua que pode não estar à sua frente? Nas questões do pós-morte, divindades e outras idéias religiosas, não há qualquer conhecimento periférico — nenhum demonstrado, no mínimo. Então você é levado a crer que tem uma decisão a fazer (você tem que atravessar a rua), mas ninguém demonstrou que a decisão é possível (ninguém sabe se a rua existe).

Disfarce

É comum a impressão de que o ditado serve como cortina de fumaça. É um sinal de que, se a curiosidade passar desse ponto, descobre-se que não há fundamento para a opinião. Logo, a difícil decisão de abandonar uma crença infundada é posta diante de si. Eu vejo “cada um tem sua crença” como um encerramento potencialmente positivo para uma conversa. Significa que o limite do que a pessoa acha que sabe foi alcançado e ela não está pronta para crescer um pouco mais. E se você já disse isso, considere o porquê.

Estou errado? Você usa isso para algo além de não ter que apresentar os fundamentos da opinião que expressou? O meu fundamento é só o pequeno conjunto de conversas que tive e ouvi, portanto seria fantástico testar minhas hipóteses e descobrir-me certo ou errado.

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Sobre Henrique

Casado e com dois filhos lindos como os pais. Meio doido, mas legal.
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