Eu nunca acreditei de verdade, ou ainda acredito

Existem dois tipos de crentes que precisam conversar. Quando começo a justificar minha posição sobre divindades (atacar o teísmo), há duas reações bem embasadas no cristianismo que acabam a conversa. O problema é que são reações contraditórias e ambas partem do pressuposto que eu estou mentindo.

“Como todo mundo, você acredita em Deus”

Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiçaPorquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. – Romanos 1:18-21 (grifo meu)

Este tipo de crente acredita sinceramente que eu acredito no deus dele. Ao dizer que eu não acredito, eu estou mentindo ou no máximo suprimindo a crença que eu tenho. Este tipo de crente não pode ter uma conversa sã a respeito da sua divindade ou das suas crenças, pois começa concluindo que eu estou mentindo ou sendo enganado por mim mesmo ou pelo diabo — ui, que medo.

“Você nunca acreditou em Deus”

Há muito para citar aqui, e este artigo em inglês descreve muito bem este ponto de vista: http://www.gotquestions.org/apostasy-salvation.html. O ponto central pode ser resumido pela “parábola do semeador” (Mt 13:1-9) e pelos alertas contra “falsos cristãos” (Mt 7:21-23). Alguém então pode acreditar ser cristão, agir como cristão, falar como cristão, e mesmo assim não ser cristão. E como se descobre isso? Quando a pessoa deixa de parecer cristão ou de se assumir como tal. Essa pessoa nunca acreditou em Deus, nunca foi salva e nunca será. Ela está mentindo para si mesma, ou sendo enganada.

Já vemos que há uma clara contradição: ou eu nunca acreditei, ou eu continuo acreditando e só digo que não acredito.

Racionalização após os fatos

Prepare-se para expandir seu vocabulário. “Racionalização após os fatos” (post hoc) é uma forma incorreta de criar hipóteses a partir dos dados. Por exemplo:

— Homens não têm medo de baratas.
— Fulano é homem e tem medo de baratas.
— Então Fulano nunca foi homem.

Toda racionalização post hoc tem o mesmo problema: ela é incapaz de produzir hipótese verificável sobre o mecanismo que opera para que o efeito seja visto. Dizer que um apóstata nunca acreditou em Deus não produz um mecanismo que permita verificar se alguém que alega acreditar em Deus na verdade é um falso crente. Da mesma forma, afirmar que um auto-denominado ateu acredita em Deus não produz um mecanismo para verificar se alguém está mentindo sobre sua própria crença.

Tal tipo de racionalização post hoc é um erro por si só. E ele é usado para muito mais do que pensamos:

  • Resposta para orações (sim, não, espere)
  • Algo deu ou não deu certo (Deus quis assim)
  • Alguém morreu (Deus queria a pessoa junto a si) ou sofreu dano (precisa aprender uma lição importante)

Exceções

Se alguém diz não acreditar em deuses mas ora ou reza todas as manhãs, esta pessoa está mentindo ou enganada sobre o que acredita. Esta não é uma racionalização após os fatos. Estamos falando de um mecanismo que permite verificar a crença de alguém independentemente de suas alegações. Da mesma forma, se alguém diz que acredita na infalibilidade da Bíblia mas vai ao hospital quando está doente, eu duvido que conheça a Bíblia ou acredite nela.

Note que este tipo de mecanismo verifica a consistência da alegação (“eu acredito/naõ acredito em X”) antes dos fatos. Esta é a diferença entre aquilo que se pode saber ou não.

Brochante

Quem começa afirmando que a outra pessoa está mentindo sobre o que acredita ou acreditava é um péssimo jeito de começar uma conversa. Chega a ser desonesto mesmo que a pessoa acredite no que está afirmando sobre a outra, pois é algo que ela simplesmente não pode saber. Seria preciso ler mentes para isso. É exatamente o tipo de coisa que mata uma conversa.

Alegar saber melhor do que seu interlocutor o que ele acredita ou acreditava e que ele está mentindo é moral e formalmente incorreto, e acaba com o diálogo antes de ele começar. Jamais faça isso.