Superstição no trabalho

Esta é a primeira vez que publico algo de fundo profissional. Isto porque esta… coisa… surgiu como um ponto de reflexão sobre a vida e seus aspectos mais importantes, e trabalho é só trabalho. Mas logo e descobri que o trabalho não é separado da vida, e um bom profissional também precisa ser um bom filósofo (referência a Is Philosophy Stupid?). Então, ao olhar para o meu próprio trabalho, eu encontro resquícios de práticas ruins ou que não levam necessariamente a bons resultados ou aos objetivos estabelecidos. Aqui apresento uma delas e tento conectá-la ao tema geral desde singelo trabalho de exploração.

Embora isto seja sobre meu trabalho na área de TI, espero que a leitura possa ser apreciada por qualquer pessoa pois não tratarei de senso comum e não sobre qualquer coisa que se aprenda na faculdade. Espero apresentar qualquer conceito alheio ao leigo em TI, e se eu não o fizer fiquem à vontade para avisar-me. Sem mais delongas…

Scrum e retrospectiva de Sprint: porque a superstição só atrapalha

Scrum é um processo ágil para projetos de diversas áreas que tem por objetivos capilarizar o conhecimento e entregar valor lidando com mudanças e níveis consideráveis de incerteza. Um projeto Scrum é dividido em sprints, que são períodos curtos que começam com a definição do que será entregue e terminam com a entrega de fato do que foi possível concluir. Ao fim de cada sprint ocorre a chamada retrospectiva, uma reunião cansativa cujo propósito é identificar boas práticas a serem perpetuadas e más práticas a abandonar.

Nas palavras do Guia do Scrum:

O propósito da Retrospectiva da Sprint é:

  • Inspecionar como a última Sprint foi em relação às pessoas, aos relacionamentos, aos processos e às ferramentas;
  • Identificar e ordenar os principais itens que foram bem e as potenciais melhorias; e,
  • Criar um plano para implementar melhorias no modo que o Time Scrum faz seu trabalho;

O Scrum Master encoraja o Time Scrum a melhorar, dentro do processo do framework do Scrum, seu processo de desenvolvimento e suas práticas para torná-lo mais efetivo e agradável para a próxima Sprint. Durante cada Retrospectiva da Sprint, o Time Scrum planeja formas de aumentar a qualidade do produto melhorando o processo de trabalho ou adaptando a definição de “Pronto”, se apropriado e sem entrar em conflito com os padrões do produto ou organização.

Ao final da Retrospectiva da Sprint, o Time Scrum deverá ter identificado melhorias que serão implementadas na próxima Sprint.

Como tudo na vida, um projeto se dá em iterações em que as práticas se repetem mesmo que os objetivos mudem. Portanto pensar no que deu certo ou errado e como ser um time melhor é a mesma coisa que pensar em como um relacionamento ou diálogo com uma pessoa deu certo ou errado e como ser uma pessoa melhor para a próxima vez.

Como uma retrospectiva acontece?

Os recursos indicam praticamente os mesmos passos para conduzir uma retrospectiva: cada membro da equipe elenca um número de ações que deram bons resultados e, semelhantemente, ações que deram resultados indesejáveis. Em seguida a equipe vota naquilo que é mais importante e práticas são adotadas ou abandonadas para otimizar o desempenho na próxima iteração.

Um exemplo hipotético de proposta numa retrospectiva: parte do time almoçou com o cliente três vezes por semana, e nenhuma das estórias entregues por estes membros do time precisa de mudanças. A prática sugerida, portanto, é o time almoçar com o cliente mais vezes. Normalmente as idéias são mais relevantes, mas o princípio é sempre o mesmo: X aconteceu e Y deu certo ou errado.

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Superstição não é um termo religioso

Muitos associam superstição a práticas religiosas ou místicas. Mas a superstição é qualquer prática que surge da associação incorreta entre correlação e causalidade. Quando o agricultor primitivo fazia a dança da chuva até que chovesse, o fato de que uma hora chovia reforçava a sua confiança na dança.

A prática comum da retrospectiva, conforme proposta por todas as fontes que encontrei, é simplesmente uma fábrica de superstições. Pede-se que cada membro da equipe selecione, sem exigir qualquer demonstração, uma prática que parece ter levado a um resultado e que deve ser mantida ou eliminada. Nada na prática serve como controle de erros, e a minha experiência em projetos que adotaram a retrospectiva é que eles tendem a ficar inchados com práticas supersticiosas, que não garantem resultados positivos. E exatamente por isso muitos projetos simplesmente abandonam a retrospectiva ou só fingem que ela existe para não serem punidos por não conformidade.

A retrospectiva tem conserto

Reparar uma possível superstição é fácil, basta aplicar ceticismo. Se há aparente correlação, basta criar uma hipótese de causalidade e realizar testes para verificar se é factual. No exemplo bobo do almoço com o cliente, pode-se hipotetizar que a maior interação com o cliente permite que ele tenha mais oportunidades para expressar detalhes sobre as estórias e ter uma prévia da próxima entrega; então deriva-se que convém fazer uma pré-demo ao completar 30% do sprint e o resultado esperado, como menos defeitos cuja causa raiz é detalhamento de estórias; a nova prática é introduzida por um sprint e na próxima retrospectiva verifica-se os resultados.

Ou seja, a retrospectiva tem que ser dividida, cronologicamente, em duas fases: levantamento de hipóteses e os critérios de aceitação, e a verificação dos resultados (começando com isto a partir da segunda retrospectiva). Desta forma, qualquer hipótese incorreta é corrigida e o projeto não fica inchado com práticas ineficazes.

O mesmo vale para a vida: se adotarmos costumes porque “funcionaram” uma vez, ficaremos sobrecarregados com hábitos inúteis ou até prejudiciais.

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Você pode provar? (3/3)

Esta é a terceira e última parte da da explicação não só da minha rejeição da crença em deuses como a crença ativa de que nenhum deles existe. As partes 1 e 2 são leitura obrigatória por esclarecerem o método e as evidências, e minha intenção ao escrever estas publicações é que sejam também produzidas em vídeo.

Recapitulando

Na parte 1 eu estabeleci a afirmação que me proponho a demonstrar: certos deuses não podem existir. Porém não esclareci quais são esses deuses, ou quais características entregam um deus que não existe. Por conta disso, o raciocínio elaborado na parte 2 não serve claramente como evidência para a alegação. Esta publicação dá forma a estas idéias na conclusão de que deuses não existem.

Finalmente!

Este é o par de alegações que faço e desejo demonstrar:

Todo deus que promete ou depende da continuidade da existência após a morte física não é real ou não expressa a verdade; qualquer deus que pode expressar falsidades e não é detectável é indistinguível de um deus que não é real.

A segunda parte é simples de se entender: se o seu deus pode mentir, como dizer se ele existe? É como ter um amigo imaginário: se só eu vejo meu amigo e ele não sabe coisa alguma a mais que eu, não é possível diferenciar ele ser produto da minha imaginação ou parte da realidade. Não dedicarei tempo a conceito tão básico.

Agora partamos para o principal: a promessa de imortalidade. Os deuses cristão, muçulmano, espírita, hindu, e provavelmente outras religiões modernas prometem um ou outro tipo de extensão da vida na forma de reencarnação, céu ou inferno.

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Com poucas exceções dentro da doutrina (como algumas versões do arrebatamento cristão), o prolongamento da vida se dá após a morte física e num corpo diferente do original. Mas se consideramos as idéias de identidade apresentadas na parte 2, podemos concluir com grande certeza que isto não pode acontecer.

Reencarnação

Nas religiões que prometem reencarnação, alguma coisa que carrega a motivação para ações morais é transferida para um novo corpo. Esta coisa não pode existir, em primeiro lugar. Mas mesmo que existisse, ela não seria suficiente para conter a identidade de uma pessoa. Seja lá o que for, a coisa reencarnada não é você. Seria como receber um transplante de braço e dizer que agora eu sou a pessoa de quem o braço saiu. Não existe deus verdadeiro que faça com que uma pessoa reencarne.

Julgamento eterno

Semelhantemente, se uma religião promete o céu para os aderentes e inferno para dissidentes, ou qualquer variação disso, ela faz uma promessa vazia e seu deus não existe. Quando eu morrer, nada que possa ser chamado Henrique pode ir para céu ou inferno. Mesmo que meu corpo e memórias sejam reconstruídos, a coisa resultante não será eu. Mesmo que céu e inferno existissem e estivessem lotados, não seria com qualquer pessoa que viveu.

Incrivelmente, nem todas as religiões Abraâmicas estão abordadas aqui. Pelo menos numa forma de Judaísmo a divindade não promete julgamento eterno. Mas eu não conheço judeu algum para poder investigar o deus deles.

E daí?

Mas você não pode provar que meu deus não é o criador do universo

Volte e leia a parte 1 de novo. Se o seu deus promete uma pós-vida, ele não existe. Ponto. Não importa que outros atos eu não possa provar não serem de sua autoria. Se você disser que tem um dragão azul e eu provar que dragões não existem, não adianta mostrar-me um lagarto azul! Se você acha que adianta, então vamos conversar no contexto daquela publicação.

Mas como explicar os milagres que meu deus faz?

Irrelevante. Quando um ilusionista faz um truque, o que é necessário para lhe fazer acreditar que é mágica de verdade e não só a aparência de mágica? Se um ilusionista mostra que um de seus números é uma ilusão e não mágica de verdade, você continua acreditando que todos os outros números são mágica? A questão não é o que eu posso explicar, e sim o quão ingênuo você é — ver publicações sobre fé (como esta ou esta).

É isso

Aqui eu finalizo minha demonstração. Tentei fazer três coisas, como disse no início:

  1. Estabelecer a pergunta à qual respondi
  2. Delinear o método para abordar a resposta
  3. Dar a base de conhecimento necessária para chegar à conclusão menos controversa

E só posso concluir que nenhum deus que me foi apresentado pode existir. Espero ter sido claro, e todo comentário é bem vindo. Vida longa e próspera!

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Você pode provar? (parte 2/3)

Esta é a segunda de três partes que delineiam não só a minha rejeição da crença em deuses como a crença ativa de que nenhum deles existe. A parte 1 é leitura obrigatória, e minha intenção ao escrever estas publicações é que sejam também produzidas em vídeo, de acordo com minha improvável disponibilidade.

O que você é?

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Há crenças populares de que você é algo que habita em um corpo, isto é, você é sua mente e seu corpo é só uma casca que permite que você se locomova. A minha proposta é de que esta idéia é completamente e demonstravelmente falsa.

Muitas das idéias aqui são exploradas no episódio 18 da série Crash Course: Philosophy, que pode ser visto com legendas em português. Se você se interessa pelo assunto mas não tem tempo de ler extensas fontes e referência, é por aqui que deve começar. A série toda tem 46 episódios de no máximo 10 minutos cada e garanto que são 8 horas de inestimável valor.

Você é o seu corpo todo, e mais

Considere comida: do que você gosta? Pizza, salada, frutas, sorvete? Quem gosta dessas coisas é você ou seu corpo? Quem decide do que você gosta? Se você acha que é sua mente, está errado. O “seu” gosto está intimamente ligado à sua flora intestinal. Suas preferências gastronômicas não são determinadas só pela mente, mas principalmente pelo seu intestino e por organismos que nem ao menos compartilham do seu código genético.

Mesmo quando é você, ou seu cérebro, que toma as decisões, elas ainda podem ser afetadas por fatores internos ou externos, através de hormônios. Uma decisão que você entende como sua pode ser influenciada, ao ponto de podermos dizer determinada, pelo abraço que recebeu segundos antes. Ou ainda por uma borrifada de Ocitocina no nariz.

A conclusão disso tudo é: se eu remover ou substituir o seu corpo, você deixa de ser você. Grande parte da sua essência (ou ela toda) é substituída, portanto o resultado não é você.

O Barco de Teseu, revisitado

Ao invés de lidar com o barco apresentado no vídeo que mencionei no início, vamos falar de teletransporte. Digamos que eu tenha uma máquina capaz de lhe transportar para outro lugar; ela destrói todas as suas moléculas e as recria no destino. A pessoa que “aparece” ainda é você? Suponhamos que o indivíduo na localização de destino, uma vez que possui todas as suas características e memórias, sente que ainda é. Mas já que eu consigo recriar uma vez, por que não duas? Se você for teletransportado para dois lugares, qual das suas cópias é você? As duas? Nenhuma?

Depois de um tempo, eu melhoro a máquina. Agora ela não precisa mais destruir suas moléculas. Eu consigo copiar você para qualquer lugar, uma ou mais vezes. E agora, quem é você? Sua cópia teletransportada deixa de ser você só porque sua versão original continua existindo?

Crescer é trocar de identidade?

Aos 20 anos eu era completamente diferente. Meu corpo era diferente — mais baixo, mais magro e usava óculos, para dizer o mínimo. Eu tinha crenças diferentes e bem menos conhecimento do que hoje. Posso afirmar com segurança que eu não sou o Henrique de 17 anos atrás. Mas eu fui. E eu sei que fui porque há uma continuidade na substituição das partes que resultaram na transformação do Henrique aos 20 anos no Henrique aos 37. Como o barco de Teseu, fui eu que fiz a jornada, mesmo sendo diferente agora do que era no início.

Mas se houver uma descontinuidade tanto no tempo quanto na essência, o resultado não será mais eu. Se eu sofrer um acidente e perder minhas memórias e ficar desfigurado, mas ainda vivo, eu sou eu. Se alguém criar uma cópia idêntica a como eu era antes, com todas as minhas memórias e aparência anteriores, essa cópia não será mais eu do que eu — mesmo que ela pense ser. Se meu cérebro for transplantado para outro corpo, ou mesmo o conteúdo da minha mente, seja lá no que isto implique, o resultado não será eu.

E daí?

Bem, isto é o suficiente para a parte 2. Na parte 3 eu usarei estes conceitos para demonstrar que tipo de deuses não existem. Se você puder mostar que o conceito de identidade não está ligado à continuidade temporal da existência, estou aberto a ouvir e conversar. Até a próxima!

(Continua na parte 3)

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Você pode provar? (1/3)

A minha vontade é produzir isto em vídeo, se eu conseguir os recursos para tanto. Aqui estão todas as referências e citações com os devidos links. Ter a forma escrita facilita encontrar coisas que eu disse e citá-las adequadamente, mas nem todo mundo tem disposição para ler longas dissertações. Sem mais delongas…

Prólogo: o que é isto?

Nem sempre acontece, mas muitas pessoas desafiam a descrença em deuses dizendo, mas você pode provar que Deus não existe?. Esta é uma questão cheia de problemas, tantos que impedem uma resposta adequada. O fato, contudo, é que sim, eu posso. Mas para isso é preciso primeiro formular a pergunta corretamente, esclarecer os termos usados nela e então apresentar a prova.

Zelotes

Aqui o leitor encontrará alegações que vão contra aquilo que acredita, especialmente se for religioso. Mas devo lembrá-lo que o fato de alguém acreditar profundamente em alguma coisa não torna a pessoa correta; certo aluno pode fazer um teste e ter total confiança de que acertou todas as questões, e ainda assim não tirar nota máxima. O mesmo vale para mim, estou ciente disso. Portanto peço humildemente que qualquer crítica venha depois de verificar as referências. Apresento o resultado de anos de estudo e dias de revisão de material para dar o resumo mais completo possível para chegar a uma conclusão correta. Não é reafirmando o que alguém acredita que eu serei persuadido — ninguém deveria o ser pela sentimento de confiança que alguém possui. Espero que o mesmo nível de cuidado seja mostrado ao discordar de mim. E garanto que um bom argumento pode fazer com que eu mude de posição.

Parte 1: certos deuses não existem

Certos deuses não existem

Esta não é uma afirmação controversa. Duvido que alguém discorde que Zeus não existe, e nunca existiu. O mesmo vale para Quetzacoatl, Ra e qualquer deus da antiguidade cujos adeptos já não existem. Só que não é isso que as pessoas pensam quando dizem prove que Deus não existe. Hoje eu gostaria só de examinar a diferença entre os dois conceitos. São só cinco palavras, mas há muito que dizer sobre elas antes de abordar a resposta.

Prove

Eu tenho um superesportivo vermelho, ganho de você em uma corrida quando quiser.

Uma afirmação um tanto mundana, não? E fácil de se verificar. Basta que você vá à minha garagem hipotética e olhe para o carro que lá está. Ao olhar, você vê um velho Fusca vermelho. Pronto, está provado que eu não tenho um superesportivo vermelho. Mas para mim, o Fusca é um superesportivo. Ou ainda: você só provou que meu carro não é um superesportivo para os seus padrões. Você pode até não achar carro algum, mas não pode provar que eu não tenho um carro. Eu posso dizer que está no mecânico, ou emprestei para um amigo. Aí você olha a minha conta bancária, e vê que eu nunca tive dinheiro para comprar um superesportivo. Mas estava em promoção, ou eu ganhei. Então você me desafia para uma corrida, e eu aceito; mas toda vez eu não apareço: não estava afim. Ou perco: eu disse que ganho quando quiser, não toda vez. Eu poderia inventar mil desculpas e você jamais poderia provar que a minha afirmação inicial é incorreta. Mas o fato de ser um Fusca é prova suficiente de que o meu superesportivo vermelho não existe. O fato de eu não conseguir ganhar uma vez é prova de que não ganho quando quiser. Um detalhe invalida o todo, e o todo nunca é comprovado por um detalhe. É assim que funciona na ciência e na lei, e é assim que deveria funcionar na hora de acreditar em qualquer coisa. Se os critérios para verificar uma alegação mudam o tempo todo, a alegação é inútil ou falsa. E eu posso mostrar que a alegação de que certos deuses existem não só não pode ser mostrada como sendo verdadeira como é falsa.

 

O que quero dizer com isso é que a prova, no sentido coloquial (e também legal e científico) da palavra se dá em dois passos: estabelecer a relação lógica entre fatos (o que chamo de critérios) e a existência dos fatos, ou evidências. É neste sentido que eu posso provar que certos deuses não existem.

Deus

Quando eu digo certos deuses, refiro-me a um conjunto de deuses com determinadas características — uma taxonomia divina. Mas quando alguém fala de Deus, normalmente se refere à sua espécie favorita, o deus de sua religião pessoal. Já o apologista nunca usa uma só definição: na igreja se fala em milagres e revelação, num deus pesssoal que se importa e interfere em assuntos mundanos no presente; fora dela, defende o deus de Spinoza, uma força que atua na manutenção da ordem natural, na criação do universo, em qualquer coisa não alcançada pelo conhecimento humano.

Não é minha intenção contrariar o apologista. Porque além de hipócrita, nenhuma religião se baseia nesse tipo de deus que nada faz. Para falarmos em categorias de deuses, é preciso estabelecer quais são as características compartilhadas entre estes deuses e como eles poderiam interagir com a realidade, por mais abstratas que sejam tais interações. Na parte 3 apresento em maiores detalhes o tipo de deus que posso provar não existir — e já adianto que inclui o deus cristão.

Existir

Finalmente, o que significa existir? De forma muito rápida e ligando ao ponto anterior, há quem diga que seu deus particular é a própria existência, ou que é o autor da existência. São definições, por acaso, em que não vejo sentido. São conceitos não antes apresentados, e não explicados posteriormente. Na minha exposição trato existir como sendo fazer parte da realidade; isto significa ser capaz de interagir, de forma regular ou não, com outras coisas na realidade, de forma que em algum momento o efeito pode ser detectado.

Devo ressaltar que na minha demonstração da não existência de certos deuses não definirei o que os deuses em particular são. Material ou não, temporal ou não, basta que as características relevantes sejam satisfeitas. No final das contas, a pergunta é: qual a diferença entre existir e não existir? Se eu não existir, não poderei continuar escrevendo este texto. E a diferença tem que ser sobre fatos no presente e futuro. Isso porque não há diferença entre X não existeX deixou de existir. Então sempre que eu falo sobre certos deuses existirem eu tenho que falar sobre previsões passadas sobre o presente e previsões presentes sobre o futuro. Ou seja: se Deus não existisse ninguém existiria é uma afirmação idiota a que não faço questão de responder.

Mas é uma pergunta tão simples

Pois não é. Eu espero com esta primeira parte ter mostrado que a pergunta na forma como normalmente é feita não pode ser respondida, e que a minha proposta é responder a uma que pode: que tipo de deus não pode existir? Na parte 2 eu explicarei os fatos que baseiam a minha tentativa de demonstrar a resposta. É aí que concentrarei a maior parte das minhas referências e estudos. Aqui eu quis só estabelecer como a proposta em si é complicada, e existem livros inteiros a esse respeito (recomendo Karl Popper), separando a conversa sobre a pergunta da discussão sobre a resposta.

(Continua na parte 2 em 31/05/2018)

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Re: Há relação entre ateísmo e pensamento de esquerda?

De tempos em tempos, e cada vez menos freqüentemente, dou uma olhada nos principais meios de comunicação (de cada nicho) para saber se alguém está sendo difamado. A intenção é, como sempre, tentar furar a bolha. Não sei quão recentemente (porque não há data, mas há comentários desde 20/04/2018), o Gospel Prime publicou um artigo de opinião entitulado Há relação entre o ateísmo e pensamento de esquerda?, que logicamente chamou-me a atenção.

A expectativa inicial, claro, era de encontrar uma resposta positiva, restando poder ser surpreendido por uma boa argumentação justificando esta resposta, que deveria conter:

  1. Fontes: um bom autor aponta suas fontes com referências precisas.
  2. Citações: principalmente quando se fala de alguém que não compartilha da opinião do autor, convém retratar a posição nas palavras de quem a defende.
  3. Ausência de falhas lógicas: principalmente em se tratando de um artigo relacionando duas posições das quais o autor presumidamente discorda, é comum usar ataques pessoais, envenenar o poço e apelo à consequência.

Mas eu espero ser surpreendido. Uma vez que este assunto é velho e muito discutido, sempre há esperança de que alguém bem informado faça uma boa exposição. Olhemos mais de perto…

O subtítulo do artigo começa dando sinais de que eu não serei surpreendido:

O próprio Karl Marx, em sua arrogância, rotulava a religião como o “ópio do povo”.

O autor abre com um ataque pessoal. O fato de Karl Marx ser arrogante torna sua afirmação incorreta? Claro que não. Ela pode ser incorreta por diversos motivos, mas sua arrogância, quer exista ou não, não é um deles.

Esquerda e direita

Definir rótulos num espectro político é tarefa difícil. Pessoalmente, o que tenho visto com mais freqüência é a divisão em dois eixos: esquerda/direita, e autoritarismo/libertarismo. Já fiz meia dúzia de testes (sem links porque não confio no método de qualquer deles) e, embora todos me classifiquem como liberal, alguns me colocam na direita e outros na esquerda, variando muito na intensidade. Isso porque todos eles classificam alguém de acordo com suas conclusões, não motivações. E é exatamente isso que Leandro dispensa em dois momentos:

Por exemplo, na cabeça desta pessoa, ser de “esquerda” é ser solidário com os mais necessitados, estar atento aos anseios das minorias, mas, é óbvio que para alguém ser solidário e preocupado com tais questões, ela não necessariamente deve comungar de um pensamento político X ou Y. Penso que isso tem muito mais a ver com o caráter individual que cada um leva dentro de si.

(…) Se formos analisar a literatura de pensadores de esquerda, veremos que eles buscam reduzir a compreensão da realidade humana ao longo dos séculos como uma luta de classes.

Ora, não importa se alguém compreende a realidade humana como luta de classes ou formula seu sistema político através da maximização de direitos individuais; independentemente de justificativas, se a pessoa é a favor de regular o mercado, é colocada à esquerda e se é a favor de regular a moral é classificada no espectro autoritário. É isso que torna o marxismo tanto de esquerda como autoritário (ou totalitário), e não a luta de classes como base filosófica.

Ademais, para o pensamento de esquerda, as instituições em geral (família tradicional, igreja, exército, polícia, etc.) são vistas como instrumentos dos opressores

E fecho esta seção apontando que o autor mistura equívoco de termos com o apelo à conseqüência: ver as instituições como instrumentos de opressão é característica do marxismo, não do pensamento de esquerda. E o autor continua alegando que porque a esquerda (marxismo) tem este resultado, ela é incorreta ou maligna. Em nenhum momento ele apresenta ou avalia as justificativas de qualquer pessoa para estas posições.

Substituição

Ao caminhar para suas conclusões finais, Leonardo revela que ele não está respondendo à questão que se propõe:

Assim, alguém que comunga deste pensamento e é de uma igreja, passa muitas vezes a ser extremamente crítico a tudo da igreja, muitas vezes caindo em um cinismo que não se dá conta, pois ao mesmo tempo que critica tudo e todos na igreja, mesmo assim continua ali. (…)

Com efeito, a tendência desta pessoa é ir se afastando mais e mais da igreja e com isso a fé ir se enfraquecendo, quando não sumindo.

A pergunta que foi abordada no texto é “o pensamento de esquerda (marxista) é compatível com o cristianismo?”, e não a que consta no título. Isto é conhecido como heurística de substituição. Que tal então reformular a pergunta? Sabendo o que ele respondeu, podemos ver se o mesmo raciocínio (com as devidas correções) se aplica a sistemas antagônicos ao marxismo.

Há relação entre ateísmo e liberalismo clássico?

Não confie em mim quando falo da natureza do liberalismo clássico, e sim em um dos seus grandes defensores, Murray N. Rothbard:

A declaração de que existe uma ordem de lei natural, resumidamente, deixa em aberto a questão de se foi ou não Deus quem criou tal ordem; e a afirmação de que a razão humana tem capacidade para descobrir a ordem natural deixa em aberto a questão de esta razão ter ou não sido dada ao homem por Deus. A afirmação de uma ordem de leis naturais passível de descoberta pela razão não é, por si só, nem pró e nem antirreligiosa. — A Ética da Liberdade, pág. 58 (grifo meu)
Rothbard fundamenta todo um sistema ético e político em torno da propriedade de si:

O homem, através da introspecção de sua própria consciência, também descobre o fato natural primordial que é sua sua liberdade: sua liberdade de escolher, sua liberdade de usar ou de não usar sua razão em qualquer assunto existente. Em resumo, a ocorrência natural de seu “livre arbítrio”. Ele também verifica o fato natural do comando de sua mente sobre seu corpo e suas ações: ou seja, de sua propriedade natural sobre si mesmo. — pág. 88

Claramente, o liberalismo clássico é derivado da razão, independentemente de qualquer religião ser verdadeira ou de qualquer deus existir. É um sistema político totalmente secular, e segundo a maioria das definições, ateu. Seria então compatível com o cristianismo? Eu proponho que seja possível argumentar que não. Pois um dos fundamentos do cristianismo é que o homem não pertence a si mesmo, mas a Deus (Lv 17, 1 Sm 2). Tenho para mim que isto é tão óbvio para o crente que não preciso justificar.

O liberalismo, portanto, é baseado em algo contrário à doutrina cristã. Mesmo Rothbard dizendo que não, em pelo menos um conjunto de dogmas o liberalismo é anti-cristão (ele mesmo reconhece que os adeptos de Aquino adotam essa visão, pág. 57).

É difícil pensar em algo mais alinhado à direita liberal do que Rothbard. Se tanto esquerda autoritária quanto direita liberal são opostos a doutrinas cristãs, que sistema político não o é? É esta reflexão que gostaria de ver sendo feita por um crente.

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O elo mais fraco

chainDizem que uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco. O mesmo princípio se aplica quando alguém quer lhe convencer. Preste atenção em qualquer conversa em que estão lhe vendendo uma idéia. Seja religião, ideologia política ou conspiração, o seu interlocutor irá, talvez até de forma automática, testar cada elo da sua corrente até encontrar um que seja fraco o suficiente. Permita-me usar o exemplo mais comum, na apologética cristã, e depois um mais moderno, não religioso, para propor que é um fenômeno universal.

Mas e o…?

Toda conversa séria com um apologista passa por uma série de testes. Ele fará uma afirmação (a conclusão preferida) e questionará se você pode determinar que este não é o caso. Algo como se Deus não existe, como o Universo foi criado?. Se você puder indicar que consegue explorar o assunto satisfatoriamente, ele não insistirá ou admitirá que sua afirmação está incorreta. Ao invés disso, trocará o assunto para outro, do surgimento da vida à confiabilidade das escrituras, profecias… cada assunto é o apologista verificando qual é o elo mais fraco, isto é, em que tópico seu interlocutor não tem conhecimento suficiente, para que ele possa apresentar um argumento cuja validade não possa ser avaliada e tenha maior probabilidade de ser aceito.

Da mesma forma, uma feminista vai apresentar cada um dos argumentos em favor do feminismo de forma sequencial e sem explorar se são válidos ou não, esperando que algum cole: as mulheres ganham menos, têm menos direitos, são discriminadas, cultura do estupro… e quando algum não for rejeitado, é esse que vale.

50 perguntas para [preencha inimigo]

Esta forma de testar qual é o elo mais fraco da corrente é popularmente expressado em receitas do tipo perguntas para…, muito comuns no YouTube. Perguntas para esquerdistas, ateus, coxinhas, cristãos, desarmamentistas, e qualquer opinião que pensar. E o bombardeio de perguntas tem o mesmo formato: quem responde escolherá as mais fáceis, e quem pergunta ressaltará o fato de que nem todas foram respondidas, ou atacará somente as respostas mais “fracas”.

Corrente não, cerco sim

Em estratégia militar, a forma mais prática de dominar um território bem defendido é fazer um cerco: restringir o acesso a recursos externos para fazer com que o oponente saia à batalha. Eu não acho que um diálogo seja uma batalha, mas vale a mesma idéia: restrinja as rotas de fuga e trate do assunto mais importante.

Entendo que todos estes assuntos sejam relevantes, mas nossa conversa será muito confusa se tratarmos de todos. Que tal tratarmos somente de X? Se for real, ele basta; caso contrário, podemos averiguar se é falso ou se não podemos chegar a conclusão alguma a partir da rejeição de X.

É importante, a meu ver, tornar as pessoas conscientes de que estão fugindo de pensar a respeito do porquê chegaram a suas conclusões. Por que alguém trocaria de justificativa ao ter a atual confrontada? O que aconteceria num julgamento se algo semelhante acontecesse?

A apologética é uma perversão da ciência

Novamente, quando falo de apologética refiro-me à defesa de uma conclusão à revelia dos fatos ou da razão.

Alguém lendo esta publicação pode propor a seguinte objeção: invalidar um único aspecto de uma tese é exatamente o que cientistas fazem para avançar o conhecimento. Ou, como melhor escrito na Wikipédia:

Há um único conjunto de fatos naturais, sobre o qual as mais variadas teorias científicas válidas se assentam. Apesar de um subconjunto de fatos em particulares ser destacado para integrar determinada teoria, nenhum paradigma válido – nenhuma teoria em vigor – pode conter ideias que contrastem com qualquer dos demais fatos científicos conhecidos, independente da área científica da qual este seja proveniente ou da área na qual este seja (mais) relevante. Se isto ocorrer, a teoria DEVE ser reformulada; esta encontra-se impelida a evoluir

A apologética perverte este princípio válido através de dois truques, chamados de inversão do ônus da prova (advogados trabalhistas deveriam conhecer bem este termo e quando usar o recurso apropriadamente) e apelo à ignorância (Um Livro Ilustrado de Maus Argumentos, pág. 26). Em suma, o que o apologista faz é a seguinte transformação:

Meu conjunto de hipóteses é válido, portanto todas as previsões dele derivadas são verdadeiras.

… vira…

Enquanto eu mostrar uma previsão que você não saiba ser falsa, meu conjunto de hipóteses deve ser considerado válido.

A prática leva à perfeição

Há uns dez dias tive uma conversa em que essa tática de distração foi usada. A parte positiva é que eu estudei tanto o assunto e já ouvi tantas vezes as mesmas afirmações que posso responder e dar fontes a todos os argumentos apresentados. Mas eu ainda caio na tática. É preciso calma e ponderar a situação, praticar sozinho e até em comentários de redes sociais. Estamos tratando do mesmo assunto em que começamos? Por que o argumento mudou? Temos que nos fazer estas perguntas o tempo todo, pois é um desvio que parece até instintivo. Creio que se fizermos esse pequeno ajuste, tornaremos o mundo um tanto melhor.

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Adeus, Brasil

Há alguns meses, eu deixei meu país natal, o Brasil. O meu destino não é importante agora. O que eu quero mesmo explicar — mesmo que ninguém tenha perguntado — é porque tomei essa decisão e porque os brasileiros devem se preocupar.

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Pessoal e intransferível

Eu sou um pai de família. É estranho falar isso numa época em que o feminismo exige o fim das responsabilidades baseadas em gênero, mas a realidade pura e simples é que eu tenho de zelar pelo bem-estar da minha família. Esta responsabilidade não pode ser transferida “para a sociedade”, na forma de auxílio social por exemplo, porque eu sou parte da sociedade; como uma sociedade em que indivíduos não são responsáveis por si pode ser responsável pelos seus membros?

O melhor do Brasil é o brasileiro… pobre

Sendo minha responsabilidade zelar pelo bem-estar de esposa e filhos, eu fazia o que estava ao meu alcance. Segundo a ABEP, estávamos na classe B1 no Critério Brasil. Ou seja, segundo as medidas oficiais nós tínhamos uma vida confortável. E o que uma pessoa assim merece? Segundo o Brasil, ter o que conquista tomado de si e redistribuído a quem não conquistou coisa alguma. Ou seja, se você ganha mais do que o resto, independentemente de como usa o que ganha, tem que dar o que tem ao governo para que sustente o pobre através de impostos altíssimos.

No Brasil, tudo tem que ser feito duas vezes para se conseguir algum resultado. O governo cobra impostos para sustentar o sistema  de ensino, que é precário; para dar a mínima formação aos nossos filhos, temos que pô-los em escola particular. Só com o único filho em idade escolar, gastávamos mais de 20 mil Reais por ano. Os impostos também deveriam servir para a segurança pública, mas para ter o mínimo de segurança tínhamos que viver em um condomínio fechado com segurança 24 horas, a custo anual de outros 4 mil Reais. E isso é só para garantir que ninguém entrasse na nossa casa. Também entende-se que os impostos pagos vão para transporte público, e nunca vi uma cidade de um milhão de habitantes, rica como Campinas, não ter metrô. Ou seja, para trabalhar eu tinha que ter um carro (e outro para minha esposa também trabalhar). Contando isso e muito mais, para minha família ter as mínimas condições de vida precisávamos de dois empregos e não sobrava um tostão para aproveitar a vida.

Eu poderia continuar por horas, mencionando os aumentos muito acima da inflação sobre serviços básicos, impostos sobre consumo e falta de atualização do imposto de renda. Mas vou resumir tudo isto numa só idéia: no Brasil, não ser pobre é crime. Segundo pesquisa do IBOPE/CNI (p.13-14), os brasileiros rejeitam um candidato a cargo eletivo que seja rico, preferindo o pobre. Segundo a pesquisa, ser rico é um defeito tão grande quanto ser ateu, e ser pobre é uma virtude tão grande quanto “acreditar em Deus”, e os únicos candidatos que têm chance de ganhar são os piores — populistas econômicos e religiosos ignorantes. A pesquisa citada se junta a outras para demonstrar que, em todos os aspectos, o Brasile me odeia.

Motim ou bote salva-vidas?

É dito que o Brasil é um país em desenvolvimento. Há 40 anos, países em desenvolvimento na Ásia foram chamados de Tigres Asiáticos. Coréia do Sul e Brasil eram considerados no mesmo patamar. Hoje aquele é um país desenvolvido, e o Brasil continua em desenvolvimento. Discordo. O país está afundando. Governantes incompetentes e corruptos estão saqueando o povo, semeando o ódio à riqueza e o desprezo à inteligência. Numa situação desta, só há duas opções: revolução ou retirada.

Eu adoraria poder lutar pelo meu país, mesmo que ele me odeie. Mas isso custaria um preço muito caro para a minha família. Por isso resolvi pular do barco. E não sou o único. Quem tem condições e percebe que não é mais bem-vindo está fugindo do país. Na empresa em que trabalhava até o ano passado pelo menos 5% dos funcionários saíram para trabalhar no exterior em um único ano. Isso não é coincidência.

Vai ficar?

Exatamente porque o Brasil só gosta de pobre, os que não querem ser estão fugindo. E de quem o governo cobrará impostos? A renda de quem será redistribuída? Pois é, um país que odeia ricos está fadado à pobreza — sim, este é um argumento puramente pragmático. E quem fica, até que a revolução aconteça, tem seu destino traçado. Há um fio de esperança em 2018. Não será surpresa essa esperança ser frustrada, já que historicamente o fator que determina o resultado das eleições é o tempo de horário eleitoral gratuito e a esperança está exatamente no menor dos partidos, o Novo.

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Eu saí porque não aguentava mais ser odiado e assaltado por tentar alcançar alguma coisa. Você que ainda fica tem poucas opções: recomeçar onde seja aceito, empobrecer para o ser, ou arriscar a vida e o sustento em favor dos seus compatriotas, se tornando ativo na política e sociedade — e não estou falando de compartilhar coisas no Facebook e Instagram. Nenhuma dessas opções é confortável, eu sei, mas quem não tomar uma decisão terá uma tomada por si.

Bem, esse é o resumo do porquê eu não pretendo mais pôr os pés no meu país natal. Num outro dia eu conto para onde fui, o que eu vi até agora e como é viver em outro país. Até a próxima!

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A relação intrínseca entre feminismo e Islã

Dos fatos

Há décadas existem, no Reino Unido, grupos organizados atuando na exploração sexual de meninas. Elas são aliciadas, estupradas, raptadas e oferecidas como prostitutas contra sua vontade. Estas gangues fizeram milhares de vítimas, tendo os casos recentemente revelados acontecido nas cidades de Telford e Rotherham. Abaixo seguem algumas das notícias em inglês e algumas partes traduzidas para ajudar o leitor que não domina a língua.

Uma investigação do Sunday Mirror alega que centenas de meninas foram abusadas em Telford, Shropshire, desde os anos 80. — BBC
A representante da cidade no congresso, Lucy Allan, disse que levaria o assunto ao Parlamento e solicita uma investigação independente.
A Polícia de West Mercia disse que levou todas as alegações “de forma extremamente séria” mas as últimas informações “não eram novas”.

Como assim, as últimas informações “não eram novas”? Como a polícia fica sabendo de casos de abuso sexual de meninas e não age? A matéria da BBC deixa mais perguntas do que respostas no ar, então vamos olhar a investigação do Mirror, sua fonte:

Mil crianças podem ter sofrido sem misericórdia nas mãos de pervertidos e torturadores em Telford desde os anos 80.
Meninas de até 11 anos foram aliciadas de suas famílias para serem drogadas, agredidas e estupradas numa endemia que, segundo as vítimas, continua a ocorrer.
TRÊS pessoas foram assassinadas e outras duas morreram em tragédias ligadas ao escândalo.
A investigação de 18 meses do Mirror revela abusos em níveis sem precedentes. Descobrimos que:

  • Assistentes sociais sabiam do abuso nos anos 90 mas a polícia levou uma década para iniciar investigação
  • Conselheiros viam crianças abusadas e traficadas como “prostitutas” ao invés de vítimas, de acordo com arquivos não consultados anteriormente
  • Autoridades não guardaram detalhes dos abusadores de comunidades asiáticas por medo de “racismo”
  • A polícia não investigou um caso recente cinco vezes até a intervenção de um representante no congresso
  • Uma vítima disse que policiais tentaram impedi-la de descobrir o porquê de seus abusadores não terem sido indiciados porque temiam que ela falasse conosco

Teme-se que a escala dos abusos descobertos em Telford — cidade de 170.000 habitantes — seja a mais brutal e duradoura de todas.

Então a polícia identificou os abusadores como sendo “asiáticos” mas não usou isto como perfil em investigação por medo de acusações de “racismo”. Mas a Ásia é enorme e diversa, de que tipo de “asiáticos” eles estão falando: japoneses, chineses, tibetanos, vietnamitas, mongóis, russos, indianos, árabes? Todos ou um subconjunto? Continuemos na mesma reportagem…

Nossa investigação — baseada em documentos obtidos sob a Lei de Acesso à Informação — descobriu que dois predadores pedófilos começaram a focar em meninas de um lar para crianças em 1981.

Um dos abusadores ganhava milhares [de Libras] por noite traficando meninas pelo país por sexo com centenas de homens, de acordo com uma vítima.

Em outro caso, uma garota de 14 anos foi aliciada por um asiático de 18 em 1985. Depois de ter um bebê, ele a passou para seus amigos para terem relações sexuais e eles alegadamente a estupraram.

Novamente, “asiático”. Algum nome ou foto? Seria muito fácil identificar a origem étnica ou cultural dos criminosos. Um nome composto por monossílabos seria chinês, alternando fonemas de vogais e consoantes de forma equilibrada seria japonês, comprido e cheio de consoantes, indiano, com derivados de “Mohammed” e “Allah” seria muçulmano (desde o Oriente Médio até a Indonésia) e por aí vai. Porque embora a etnia de uma pessoa nada informe sobre seu comportamento, suas crenças sim, quer religiosas ou culturais. E creio ser autoevidente que devemos evitar ou combater sistemas de crenças, religiosas ou culturais, que levem ao abuso de meninas. Mas ao mesmo tempo a matéria informa que a polícia escondeu as características dos criminosos por temor de racismo, ela também dá informações totalmente irrelevantes e incompletas. Mas espere! Apesar de a matéria citar “asiáticos” 5 vezes, existe uma menção por nome:

Lucy Lowe, 16 anos, foi morta em 2000 com sua mãe e irmã após seu abusador de 26 anos Azhar Ali Mehmood atear fogo à sua casa. Cabbie Mehmood aliciou Lucy em 1997 e ela tinha só 14 anos quando deu à luz sua filha.

Hmm… então pelo menos um dos “asiáticos” na verdade parece ser um muçulmano asiático. Será coincidência? Temos que procurar respostas em outras matérias. No próprio Sunday Mirror, ao entrar na meta-matéria “tudo sobre abuso sexual”, vemos imagens de vários “asiáticos” relacionados a estes escândalos recentes. Olhe as imagens por si mesmo, caro leitor. Não querendo ser presunçoso, mas tendo trabalhado em T.I. por vários anos, o que me levou a conhecer gente de várias culturas, não me parece que sejam japoneses ou russos; parece claro que são pessoas do sul da Ásia, desde a India até a Arábia. Mas essa região contém todo tipo de tradição: hindus, muçulmanos, sikhs, budistas, cristãos, e todos variando desde o muito tradicional ao bem secular.

Certamente as vítimas podem informar que tipo de discurso seus abusadores usavam, que costumes praticavam, como justificavam os abusos. Talvez os próprios abusadores, uma vez finalmente indiciados, tentem justificar seus atos. Tanto a Polícia quanto as matérias iniciais parecem intencionalmente omitir estas informações. Veja por exemplo esta manchete do Mirror: Ligações de gangue a outros grupos asiáticos de exploração sexual “expostos” e informante se esconde após ameaças de morte”; na matéria são citados 17 homens e 1 mulher, e somente o nome desta é informado. As fotos de 8 destes homens são mostradas, e o padrão visto até aqui se repete. Mas sempre tem alguém que viu os dados originais e está disposto a os expor.

Os dissidentes

Embora polícia e jornais ocultem a motivação dos crimes — ou a sua racionalização –, algumas pessoas se manifestam, quer por serem afetadas pela forma como os fatos são comunicados, quer por repúdio à manipulação da mídia. Embora ainda estejam restritos aos meios de comunicação minoritários ou redes sociais, às vezes alguma matéria chega aos grandes jornais. Veja estas duas manchetes, por exemplo:

Em contraste, o tipo de análise que se faz da situação é: Pesquisadores britânico-paquistaneses dizem que 84% dos membros de gangues de estupradores são asiáticos (grifo meu).

E o que isso tem a ver com feminismo?

Não só com feminismo, mas com justiça social em geral. Note o leitor que o padrão de desonestidade da polícia, políticos e mídia “liberais” é descaracterizar a hipótese de causalidade dos fatos em questão, usando uma característica irrelevante e tão abrangente quanto possível para descrever os causadores. Agora pergunto, quando os problemas abordados pelo feminismo (contemporâneo ou da terceira onda) são expostos, que discurso é usado? Quem promove a “cultura do estupro”? Homens! De quem é a culpa pela “diferença salarial”? Dos homens! Quem comete atentados em massa com armas? Homens brancos!

Nada a respeito de homens leva a qualquer dos problemas que feministas alegam existir. Da mesma forma que nada a respeito de ser asiático leva a gangues de estupradores e aliciadores. Harvey Weinstein ter cometido estupros não implica qualquer outro homem só porque Weinstein é homem. Mas se feministas e “liberais” conseguem vender a idéia para uma massa de analfabetos funcionais, eles acumulam poder e ganham massa de manobra, abusando da democracia para seu benefício próprio.

É hora de identificar a ignorância, desonestidade e manipulação pelo que são. Ou permitiremos que um bando de covardes entreguem a civilização ocidental e a república (todas elas) para um bando de bárbaros com sede de sangue e poder.

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Nem todo dinheiro é igual

Na publicação anterior propus uma conversa sobre geração de riqueza e como acontece numa economia — livre ou não, e hoje quero apresentar um contraponto: a destruição de riqueza. O conceito em si é bem óbvio, pois se houvesse somente geração de riqueza teríamos riqueza infinita e não é isso que vemos. No decorrer desta publicação usarei um conceito tradicional mas que talvez alguns não conheçam, o utilitarismo. Seu uso será restrito à economia, então peço que o leitor evite comentar sobre o uso deste sistema em ética.

Nos parágrafos a seguir descrevo o que acredito ser um gradiente de destruição de riqueza e termino colocando problemas normalmente nem sequer discutidos que emergem dessas diferenças na destruição de riqueza. Devo também adiantar que não acredito que toda destruição de riqueza é ruim, o que ficará claro na apresentação em si.

Consumo e deterioração

Bens de consumo são, por natureza, temporários. Alimentos são consumidos, de forma que num momento inicial um indivíduo não tem prato de comida, então ele usa certo dinheiro (a riqueza que ele mesmo gerou) para adquirir alimento, que é consumido imediatamente. No final, o indivíduo se encontra novamente sem o prato de comida e sem o dinheiro que usou para comprá-lo. Obviamente sua riqueza foi, mesmo que parcialmente e por necessidade, subtraída. Algo semelhante acontece com bens mais duráveis: carros quebram e precisam de manutenção, eletrodoméstigos estragam, copos se quebram… quase tudo tem um prazo de validade. E toda vez que algo precisa ser reparado ou substituído, a riqueza gasta para adquirir o bem agora indesejado foi consumida. É claro que o valor do bem foi transformado em utilidade ao usufruir do bem e portanto o valor foi transferido do bem para o indivíduo, mas a riqueza em si é externa ao indivíduo e portanto é, invariavelmente, eliminada ou no mínimo reduzida.

Também é comum o bem em si ser danificado ou perdido antes que se lhe dê uma utilidade — um acidente no transporte, por exemplo. Neste caso a riqueza teve o seu valor utilitário anulado acidentalmente, embora ela tivesse valor utilitário inicial. É a esta redução do valor de um bem sem a sua utilização que chamo de destruição de riqueza. Em física, seria o equivalente a reduzir a energia potencial de um corpo sem transformá-la em energia cinética.

Futilidades

Nem tudo tem o mesmo valor utilitário. Pode-se argumentar que um prato de comida o mesmo valor utilitário que outro, mas o valor econômico dos dois pode ser diferente. Assim como algo que não tem qualquer valor utilitário pode ter um grande valor econômico, como uma camisa de time de futebol. Não digo que certas coisas não têm valor. Somente que a natureza do valor atribuído cada coisa é diferente. Comida não é o mesmo que torcida de futebol, um carro não é o mesmo que um concerto musical de qualquer gênero, de forma que o valor de algo não essencial é diretamente proporcional à abundância de produtos essenciais.

Na prática, creio que a afirmação possa ser resumida, consoante à publicação anterior, que certas coisas que têm valor econômico não geram riqueza.

Charlatanismo e corrupção

Se nem tudo que tem valor econômico gera riqueza, com certeza também há casos em que produtos ou atividades não têm valor econômico e mesmo assim consomem recursos. Charlatanismo é o caso mais óbvio: alguém vende um produto ou serviço que sabe não funcionar para o propósito anunciado, contando com a ignorância ou desespero da outra parte. Em termos mais práticos, algo sem utilidade é vendido. Exemplos tradicionais incluem loteria, medicina alternativa (Reiki e Homeopatia, entre outros), para se ter uma idéia. De outro lado da destruição de riqueza está a corrupção, o desvio de recursos de um propósito para benefício próprio tem praticamente o mesmo resultado: a riqueza gerada pelo indivíduo não é transformada em utilidade para si.

Todo dinheiro é igual?

Agora, compare duas comunidades: uma que produz alimentos, e outra que se sustenta do turismo. Faz sentido que as pessoas da primeira gastem seu dinheiro na última; mas e o contrário? Se a produção de alimentos aumentasse e o turismo diminuísse, todos continuariam tendo a possibilidade de vida confortável. Mas se a disponibilidade de turismo aumentasse e a produção de alimentos diminuísse, todos teriam dificuldades. Então parece-me que não faz sentido classificar toda riqueza como igual, sob o risco de criar uma sociedade cuja “geração de riqueza” se baseie em futilidades ou charlatanismo, resultando na ilusão de crescimento econômico mas realmente só criando dificuldades — dívida.

Recentemente surgiram rumores de uma guerra econômica por parte dos EUA através da taxação de produtos importados ou exportados — não sei dos detalhes. Mas uma coisa é evidente: se os Estados Unidos são independentes com relação aos bens essenciais e energia enquanto a União Européia depende da importação de produtos, fica claro quem gera riqueza com maior utilidade e quem é dispensável.

À luz destas considerações, deveria haver uma diferença entre o dinheiro ganho com a a produção de bens de consumo e entretenimento, por exemplo? Os milhões que um jogador de futebol ganha (totalmente sem justificativa, a meu ver) deveriam valer mais que os milhares que um agricultor ganha produzindo algo de valor real? Que sistema esse tipo de mudança produziria?

 

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Introdução à economia para eleitores

Há muita propaganda por aí sobre política e suas inclinações, do populismo ao individualismo, do assistencialismo ao liberalismo, mas pouco se fala sobre a economia em si, sobre princípios e consequências. Quando o eleitor não está ciente de princípios elementares de governança, pode votar em um candidato que promete aquilo que não pode cumprir mesmo que se alinhe aos seus próprios valores.

Meu propósito aqui é, portanto, lembrar meus compatriotas desses princípios, desses fatos praticamente auto-evidentes para que saibam identificar que candidatos são obviamente incompetentes. Claro que alguém pode enganar o radar, mas o populista que não liga para o bom funcionamento do país ou o incompetente que não conhece o mínimo para fazer um bom trabalho no comando de uma comunidade serão expostos.

A origem do dinheiro

Primeiro vamos olhar para o que move sociedades: dinheiro. A economia está no centro da operação de qualquer sociedade. É com ele que se faz tudo, de escolas a assistência social. Então é preciso entender de onde vem o dinheiro para fazer tudo isso.

Em primeiro lugar, é preciso entender que riqueza não é um jogo de soma zero. Embora dinheiro seja a grosso modo uma commodity, riqueza não é. É possível gerar riqueza “do nada”. Por exemplo: digamos que José tenha um quintal, um pedaço de terra que ele não usa para qualquer coisa. José compra um quilo de sementes de tomate por certo valor A, usa água e fertilizantes de valor B e seu trabalho para produzir tomates que vende por valor final C. Se C for maior que a soma de A e B, José efetivamente produziu riqueza. É possível fazer a mesma análise para o mercado de serviços, mas basta ver que não é necessário haver transferência de riqueza para que haja enriquecimento. Pode ser que tal transferência seja conveniente, mas ela não é obrigatoriamente necessária. E para tudo que segue neste assunto, eis a definição geral de geração de riqueza que usarei:

A transformação, através do trabalho individual ou colectivo, dos atributos de um objeto para um estado em que tem valor maior do que o original para o indivíduo ou grupo que o adquire

Quem pode gerar riqueza?

Se a geração de riqueza depende do trabalho, o corolário óbvio é que somente pessoas podem gerar riqueza. Isso pelo menos até que tenhamos robôs independentes. Empresas podem gerar riqueza por serem formadas por pessoas. Governos não podem gerar riqueza. Portanto, tudo que um governo faz é consumo — através da riqueza gerada pelo povo que ele representa. É possível fazer uma mescla através de empresas estatais: se uma estatal dá lucro, pode-se dizer que o governo gera parte da riqueza que usa. Em outro momento trato de estatais em si, mas pensemos em estatais como órgãos separados da governança. De qualquer forma, o governo não tem dinheiro ou riqueza. Daí o famoso discurso de Margaret Thatcher:

O estado não tem dinheiro a não ser aquele que o povo ganha. Se o Estado quiser gastar mais, ele só pode fazê-lo pegando as tuas economias emprestadas, ou cobrando-te mais impostos. E não faz bem pensar que alguém irá pagar, pois tu és esse alguém. Não existe dinheiro público, somente dinheiro do cidadão pagador de impostos.

Isto significa que quando o governo português paga 831 milhões de Euros ao FMI ou o governo brasileiro paga 491 milhões de reais em dívidas do Rio de Janeiro, a realidade é que o cidadão está pagando por uma dívida assumida em seu nome pelo governo. Não há problema em tratar do orçamento do Estado como sendo algo de responsabilidade do governo (é para isso que os elegemos), mas é responsabilidade do cidadão escolher governantes competentes.

Mas como essa responsabilidade do produtor de riqueza é cumprida? No Brasil, por exemplo, um governante não pode ser removido por incompetência. Dilma Roussef foi um desastre como presidente, mas somente um crime de responsabilidade pôde trazer fim prematuro ao seu mandato. E ao mesmo tempo em que o eleitor não tem capacidade para votar, uma vez que menos da metade dos brasileiros (31%) tem alfabetização funcional intermediária ou melhor, não há limites mínimos que eliminem candidatos obviamente incapazes do processo eleitoral (talvez o caro leitor tenha ouvido falar de Tiririca e Lula). Ainda não encontrei números sobre Portugal, mas algumas análises qualitativas não são animadoras. Só há voto responsável se o eleitor for capaz de determinar qual candidato é objetivamente os melhor para conduzir os asuntos de sua alçada, mas a maioria dos eleitores não parece ser.

Muito há ainda a tratar dentro deste assunto: a validade do processo democrático atual, a mitigação da pobreza e seus efeitos, as consequências de cada abordagem. Mas por enquanto fica a lição para quem gera riqueza: trata teu dinheiro como tal mesmo quando a responsabilidade pela sua gestão está nas mãos de outrem.

 

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