Prefiro ter paz a razão (sério?)

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Que coisa linda! É tão bom poder viver sem discussões, sem desavenças, sem discordâncias. Ninguém tem que se meter no que eu sigo, questionar minhas crenças ou escolhas. Eu sou um ser empoderado e independente… e possivelmente idiota.

Espero ter sua atenção agora. O que significa “ter razão”? A interpretação mais bondosa que posso dar a isso é “estar certo”. Então o pensamento é: “eu prefiro não ter um baita trabalho para mostrar que ele está errado à toa e, ao invés disso, escutar e ignorar”. O que esta posição ignora é: você pode estar errado; eu posso estar errado. E sabe o que é a coisa mais mágica que acontece quando você descobre que está errado? Você deixa de estar errado.

Quando alguém debate, discute, explora, questiona um assunto, o objetivo não deve ser a proteção de uma crença possuída, e sim a busca pela crença compatível com a realidade. Quando alguém não busca tais crenças, existe um potencial em tomar decisões incompatíveis com relações de causa e efeito que levariam a um resultado desejado, ou seja: você pode se ferrar. Se você acredita que alimentos transgênicos são perigosos e prefere não discutir isso, mas ter paz consumindo orgânicos, você pode estar desde gastando dinheiro à toa até consumindo um alimento menos saudável do que o transgênico (tem a ver com a necessidade de agrotóxicos, posso explicar sob demanda).

O valor, portanto, de estar certo ao invés de buscar a paz (interior) é exatamente o de não correr o risco de tornar-se voluntariamente ignorante, suscetível à influência de quem oferece paz em troca de proveito próprio, como políticos e charlatães. Do contrário você prefere a paz a perceber que está errado.

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O mito da meritocracia (resenha)

Meio que viralizou e é mais uma besteira de cunho ideológico. Vamos direto ao ponto, começando com a fonte:

A idéia é refletir no jogo os efeitos da vida real. Mas não é bem assim… os efeitos na vida real são consequências de atos individuais. E esse nem é meu maior problema com esse vídeo idiota. Ele simplesmente diz que existe um problema, sem propor explicitamente uma solução. Mas vamos à solução: todos jogam com a mesma regra, e recebem a mesma quantidade de recursos no início do jogo. Igualdade de oportunidade. Certo? Errado.

Permita-me, caro leitor, consertar o banco imobiliário da vida real: os jogadores começam o jogo com as mesmas regras e com a mesma quantidade de dinheiro; só que a cada duas horas de jogo, os jogadores dão lugar a seus respectivos sucessores, que continuam o jogo com os recursos que seus predecessores conseguiram. O jogo será justo para as gerações após a primeira?

Se sua resposta for não, você é um estatista. A solução que você sugere, implícita ou explícita é que o Estado cuide da vida de todos, garantindo que todos recebam a mesma educação e nenhuma herança.

Se sua resposta for sim, você entende que a vida não é justa, e que o Estado não deve limitar os recursos e bens que você destina para a formação dos seus filhos.

Igualdade de oportunidade significa que o Estado não impõe limitações artificiais sobre o que os cidadãos podem fazer, em especial sobre sua ascensão social. O Estado reconhece que algumas pessoas nascerão na pobreza e outras na riqueza, porém não limita o acesso aos recursos pelo rico, nem a ascensão social ao pobre. No exemplo que construí, o jogador que herdar mais recursos dificilmente terminará sua rodada em último lugar, assim como o que herdar menos recursos dificilmente terminará sua rodada em primeiro lugar. Mas os esforços deste podem levá-lo a uma melhor posição no final da rodada, assim como a incompetência daquele pode permitir que outro lhe tome a liderança. Isto é igualdade de oportunidade, que alguns chamam de meritocracia. O contrário disso é a divisão de uma sociedade em castas ou totalitarismo.

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Números não existem

Quando se fala sobre coisas que existem ou não e o sobrenatural, é comum ouvir-se o argumento de que os números provam que há uma dimensão que vai além do material — dualismo e idealismo. E se números podem existir fora da dimensão material, então outras coisas também podem.

Esta idéia, não é de se surpreender, vem de Platão e outros filósofos antigos. Especificamente Platão descreve o mundo como algo que reflete um plano superior. Um artista tenta reproduzir e identificar coisas belas, mas o verdadeiro filósofo busca a essência da beleza, e não coisas que refletem esta forma. E todos os conceitos humanos, dos números à justiça, existem nesse que é chamado de plano ou dimensão das formas.

Nesse mesmo compasso, números são entidades não-físicas. O número 7 existe, podemos realizar operações matemáticas com ele, mas não podemos apontar para algo que seja o número 7. Da mesma forma a mente, por exemplo: podemos ver a mente operando, tomando decisões, mas não há algo para que possamos apontar e dizer esta é a mente. No máximo podemos apontar para o cérebro e dizer que a mente está ali. Mas o cérebro não é a mente, visto que um cérebro sozinho (sem vida) não produz qualquer efeito da mente (7 cachorros não são o número 7).

Mas se começarmos a expandir esse conceito, vemos que existem muitas outras coisas que existem nessa dimensão das formas: família, por exemplo. Você e seus parentes, quando considerados juntos, são chamados de família. Mas vocês não são família, e sim indivíduos. Nós conseguimos pensar na família de forma independente do indivíduo, considerar leis sobre a família. Podemos pensar em um exemplo após o outro de entidades imateriais, e a situação fica cada vez mais estranhas.

Que tal então inverter a forma de ver esses conceitos? Sempre que pensamos em algo material, ou em um conjunto de coisas materiais, surgem estas propriedades adicionais. Sempre que eu tenho indivíduos que dividem a mesma ancestralidade, surge a propriedade “família” neste conjunto. Sempre que eu tenho um conjunto de indivíduos, a quantidade deles surge como propriedade do conjunto. E quando o conjunto se desfaz, a propriedade desaparece. E eu consigo pensar na propriedade de forma abstrata, da mesma forma que eu consigo pensar no conjunto ou até mesmo nas propriedades inerentes ao conjunto (ancestralidade comum, repetição, etc.) para que essa propriedade transitória possa ser trabalhada conceitualmente.

Como essas propriedades surgem somente quando temos um conjunto de elementos ou de outras propriedades, elas são chamadas de propriedades emergentes. Números, família, a mente, e muito mais podem ser descritos como propriedades emergentes.

Voltando aos números, uma vez que são propriedades emergentes de conjuntos, sua “existência” pode ser demonstrada exatamente através da sua emergência em conjuntos. Deixe-me dar um exemplo mais claro: o número 7 existe? Sim, ele é uma propriedade emergente de conjuntos com essa quantidade de elementos. Por exemplo: [ 😂 😂 😂 😂 😂 😂 😂 ] é um conjunto de símbolos repetidos. A quantidade de vezes que esse símbolo aparece é 7. Esta quantidade, este número, pode aparecer em outros conjuntos e podemos conversar sobre o número 7 independentemente de qualquer conjunto, mas o número 7 somente existe de forma concreta quando temos um conjunto. Então o número 7 (e qualquer outro) pode ser demonstrado, criado, destruído e conceitualizado no plano material. Mas ele não pode ser demonstrado existir como uma forma platônica.

O número 7 não existe num plano superior, assim como todas as outras propriedades emergetes que conhecemos. Desta forma, a “existência” de números e propriedades emergentes indica que a única dimensão em que podemos interagir é a material.

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O Poder Corrompe(?)

Especialmente em tempos de Lava-Jato, esta é uma frase muito repetida. Mas ela pode estar errada. Afinal, de onde vem e para que serve o velho ditado, “o poder corrompe”? A quem beneficia ele ter crédito, independentemente da sua veracidade? Eu me proponho a avaliar estas questões, e espero que você, leitor, faça esta exploração comigo.

As diferentes visões sobre poder

spiderman

Herói ou futuro vilão?

Eu só comecei a ouvir que “o poder corrompe” no final da minha adolescência, até onde me lembro. Até então, poder era algo que deveria ser reservado aos virtuosos. Tio Ben, do Homem-Aranha, expressa bem essa idéia: “Com grande poder, vem grande responsabilidade”. Também nas histórias em quadrinhos, Superhomem recebe extraordinário poder e cresce como o mais nobre ser na Terra. Se voltarmos mais ainda, a estória de Robin Hood gira em torno da necessidade de destronar João, um déspota. Se imaginarmos esses personagens pensando que “o poder corrompe”, as estórias seriam bem diferentes: Tio Ben aconselharia Peter a não usar seus poderes; os Kent abandonariam Clark (Kalel) antes que se tornasse um vilão. Claramente eles não foram imaginados por alguém que considerava o poder uma força maligna. A existência do poder, em todas essas estórias, é inevitável; a importância é dada em fazer com que ele esteja nas mãos de quem se dispõe a praticar o bem.

Mesmo se considerarmos pensadores mais eruditos, Platão já propunha a mesma consideração em A República: a classe da qual sairiam os governantes deveria ser preparada e educada para ser a mais virtuosa dentre o povo. Ao mesmo tempo, ele parece namorar com o conceito de que o poder corrompe, propondo que esta classe não seja criada na riqueza (se alguém quiser colocar as citações, fique à vontade; eu não tenho uma boa ferramenta de busca para vasculhar essa imensa obra). Mas mesmo Platão restringe a idéia de corrupção associada ao poder às mentes em formação, reforçando o conceito de que o poder deve estar nas mãos dos sábios — “enquanto os filósofos não forem reis e reis, filósofos, o povo não terá paz”.

Surge um ditado

Um ditado não precisa ser verdadeiro para pegar. Basta que seja dito por alguém famoso. E quem tornou famoso o nosso ditado foi Lord Acton, político britânico do século XIX. Acton não foi o inventor do ditado, meramente ecoando uma idéia presente na política britânica desde pelo menos o século anterior a ele.

O fato de o ditado ter se popularizado na política talvez explique por que ele é usado principalmente ainda neste meio. E o fato de os corruptos serem mais visíveis exatamente onde eles têm mais poder ajuda a propagar a idéia. Em O Caminho da Servidão, Frank Hayek destaca que na política convém exatamente aos corruptos que esta idéia seja prevalente. Afinal, se o cidadão honrado evita chegar ao poder absoluto parra não se envolver com a corrupção, o espaço fica aberto para aquele que não vê problema nisso. E assim, ao ver cada vez mais corruptos no poder, o ditado ganha força proporcional.

Daqui em diante

Aqui começo um pouco de especulação, embora com muita base teórica. Acredito que a popularização da idéia de que o poder corrompe vem de um erro cognitivo, uma falácia lógica conhecida como post hoc, ergo propter hoc (depois disto, portanto por causa disto). Suponhamos que Fulano seja um cidadão comum; depois que Fulano torna-se prefeito, ele começa a desviar recursos da cidade; conclui-se que foi o cargo de prefeito que fez com que Fulano cometesse o crime, pois não o faria se não o fosse. Logo, o poder corrompeu Fulano.

Compare com o caso da dança da chuva: os índios de uma aldeia precisam que chova no início da primavera para plantar seus vegetais; quando não chove logo, eles começam a fazer a dança da chuva até que chova. Às vezes demora mais, às vezes menos, mas sempre que fazem a dança, chove. Podemos dizer que, porque choveu depois de dançarem, a dança causou a chuva? Espero que sua resposta também seja “não”.

Alguém pode argumentar que Fulano não seria capaz de fazer o que hipoteticamente fez sem o poder adquirido. Mas uma pessoa não seria capaz de pendurar um quadro sem um martelo; deveríamos dizer que martelos fazem com que pessoas coloquem pregos em paredes? Claro que não! Assim como um martelo não é um agente, algo com uma vontade ou capaz de impôr vontade a alguém, o poder (nas suas diversas formas) também não o é. O poder é uma ferramenta que obedece a vontade daquele que o maneja.

Agora quero que considere, em ordem inversa, o que acabo de expôr; “o poder corrompe”:

  1. é uma idéia errada
  2. beneficia a perpetuação da corrupção em posições de poder
  3. desencoraja sua busca por pessoas de bem
  4. deve estar nas mãos de pessoas com sua ética solidificada

Sugiro fortemente que você deixe de usar este ditado, e corrija quem quer que o diga. O poder é necessário para grandes feitos, e vem acompanhado de grande responsabilidade. Tio Ben 1 x 0 Lord Acton.

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Querido calvinista

Vamos conversar sobre algo que talvez eu entenda errado ou de forma incompleta, e muito controverso. Então quero primeiro expor o que eu entendo a respeito de calvinismo, para então tentar conversar sobre ele.

Calvinismo, livre-arbítrio e destino

Com o objetivo de ser o mais suscinto possível, tentarei restringir minha exposição à visão calvinista de livre-arbítrio e como isso afeta a história da humanidade e de indivíduos específicos, reais ou hipotéticos.

“Livre-arbítrio” geral diz respeito à habilidade de decidir entre possíveis ações. Existem diversas hipóteses a respeito da natureza do livre-arbítrio, mas a posição calvinista é de que ele não existe em qualquer esfera.

Esta idéia da soberania de Deus era a doutrina mais central de Calvino. Ela significa que nada é deixado à sorte ou livre-arbítrio humano. Foi isto que o levou a colocar tamanha ênfase na doutrina da predestinação — a idéia de que Deus, não nós, decide se seremos salvos.

O plano divino é, portanto, universal: ele envolve todos os aspectos da vida humana e todos os indivíduos que já existiram ou estão por existir — não há um fio de cabelo que caia da sua cabeça sem que Deus saiba ou planeje. É como se nossas vidas fossem filmes que Deus já assistiu trezentas vezes e continua curtindo ver.

Que tipo de deus é esse?

Eu entendo, porém, que o calvinista não responsabilize Deus por tudo que acontece — só pelas coisas boas, uma vez que as coisas ruins acontecem por causa do pecado. Mas quero que meu amigo entenda que não-calvinistas vêm da seguinte forma: se algo ruim acontece e Deus é calvinista, ele sabe o que vai acontecer sem sua intervenção e incluiu este fato em seu plano antes que ele ocorra. Então ele planejou ou permitiu todas as mazelas da humanidade, passadas, presentes e futuras.

A soberania de Deus, dentro do Calvinismo, significa que não há forma de escapar ao chamado “problema do mal” postulado por Epicuro:

  • Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.
  • Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.
  • Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

A única forma de escapar do paradoxo é acreditar que Deus não se importa com assuntos humanos. E esta é, meu caro calvinista, a causa de existirem não-calvinistas: há quem ache esse deus sem coração. Sua lógica, como a da inteligência artificial V.I.K.Y. de Eu, Robô, é inegável, porém sem empatia.

Veja o caso real de uma pessoa que conheço — e aposto que há dezenas de casos semelhantes. Ela nasceu surda por conta de uma complicação na gravidez; algo totalmente acidental, do ponto de vista humano. Não acompanhei pessoalmente sua infância e adolescência, mas nos dez anos que passei na mesma igreja que ela vi milagreiros e missionários orarem e suplicarem com ela por cura para sua surdez, espero que com sinceridade e fé de que Deus queria dar essa alegria a ela. E, uma vez que Jesus prometeu que aquilo que fosse pedido em seu nome seria feito, um pedido tão nobre só poderia ser atendido. Mas não foi. Para o calvinista, parece-me lógico que Deus simplesmente queria que ela continuasse surda, que isto era o melhor para ela. Mas recentemente, ela fez implante coclear que lhe permitiu ouvir. Algo que, para ela e todos que a amam, foi maravilhoso. Mas, uma vez que Deus queria que continuasse surda, parece-me que teria sido, para o Deus calvinista, um ato de rebeldia.

Claro, o calvinista pode dizer que esta surda não agiu livremente ao conseguir o implante coclear. Mas esta parece-me uma versão estranha dos fatos: quando ela queria e pediu para ouvir, embora Deus pudesse atender ele resolveu não fazê-lo; então ele resolveu fazê-la pensar que decidiu resolver o problema sem ele? Eu entendo a sua lógica, mas que tipo de plano é esse?

Ou então considere o câncer infantil: segundo o INCA, o câncer (em suas diversas formas) afeta mais de dez mil crianças por ano só no Brasil, e pelo menos 20% delas não podem ser curadas, resultando na morte de mais de duas mil delas. E isso porque Deus tem um plano. Eu entendo sua lógica. Talvez haja um bem maior que advenha disso — talvez, muito remotamente. Mas que tipo de plano inclui matar duas mil crianças em meio a tremendo sofrimento?

 

Espero, amigo calvinista, que você entenda que não é por discordar da sua interpretação da Bíblia que outros cristãos discordam de você. Espero que entenda que o seu deus é, para outros cristãos e para humanistas, a personificação da falta de interesse pelo ser humano. Esse deus não é melhor que V.I.K.Y., e com certeza moralmente inferior a qualquer pessoa de bem. Como ele poderia ser o autor da moral? Deixando de lado a falta de senso em tal ato por um instante, como poderia, sendo em tal dimensão desconectado do sofrimento humano, oferecer um sacrifício pela humanidade? Sinto muito, caro calvinista. Eu sei, como estudioso pouco erudito da religião cristã, que seu deus não existe. Mas se eu não soubesse, esperaria que ele não existisse. Não entendo como você consegue viver como se ele fosse seu soberano.

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“Por acaso” não é resposta

Quando alguém diz que rejeita uma explicação, em qualquer assunto, a primeira zombaria que escuta é achar que algum efeito acontece ou aconteceu “por acaso”:

— Então você acha que o universo surgiu por acaso?

— A vida então surgiu por acaso?

— A s pessoas vão começar a se comportar bem por acaso?

— E o dinheiro vai aparecer no seu bolso por acaso?

Estes são só alguns dos exemplos que estamos acostumados (em maior ou menor frequência) a ouvir. O pior é que algumas pessoas de fato defendem a posição zombada.

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“Aconteceu por acaso” não é resposta. A resposta correta é “eu não sei”. Talvez existam pessoas que acreditam que o acaso é uma força da natureza e que, se uma coisa for feita repetidamente infinitas vezes, o resultado pode ser diferente de vez em quando. Eu não falo por estas pessoas. A partir daqui, falo por mim e por quem mais concordar comigo.

Para ilustrar o que quero dizer, imagine-se jogando cara ou coroa. Às vezes sai cara, às vezes coroa, mas você dificilmente consegue acertar o resultado. E o que faz com que a moeda caia de um lado ou outro? A resposta mais simples é: o acaso; mas esta não é uma resposta satisfatória. Se considerarmos a Física clássica, podemos imaginar o que influencia no resultado de cada jogada: a força (linear e angular) com que a moeda é lançada, a altura à qual ela é capturada e a resistência do ar são alguns fatores a se considerar. Não temos como medir e calcular esses fatores quando a moeda é lançada para prever o resultado, nem controlar a força de lançamento ou a altura de captura para controlar o resultado. E não poder prever ou controlar o resultado de uma interação na realidade tem nome: ignorância. Portanto, dizer que o resultado do cara ou coroa é determinado ao acaso ou por sorte é um atalho para não alegar ignorância.

Admitir ignorância não é ruim. Não há problema em dizer “eu não sei”. É a porta de entrada para a resposta real. Nada acontece por acaso. Mas também nem tudo acontece com um propósito. Uma coisa que percebi algum tempo depois de descobrir que eu não sei muita coisa, e que dava apelidos para minha ignorância, foi que as outras pessoas fazem o mesmo. Para muitos, as coisas acontecem não só por acaso, mas também porque Deus quisdestinoa vida é assim… todos apelidos para a sua própria ignorância.

E neste momento em que você se descobre em um planeta coberto 70% por ignorância, uma questão se torna essencial: como eu sei que estou pisando em terra firme? Como saber que algo que você pensa saber não é só mais um apelido para mais ignorância? Como saber se o caminho que me é apontado leva a uma ilha ou outro mar? A resposta a esta questão muda tudo.

Então eu lhe pergunto: para quantas perguntas a sua resposta é uma desculpa para não admitir a própria ignorância?

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Mais meios para se comunicar

Este não é um blog muito visitado (ainda?), com uma média que não ultrapassa dez visitas diárias. Ainda assim, esta é uma tentativa de alcançar pessoas para conversas construtivas. Costuma-se ser mais aberto na internet, onde a distância física e o possível anonimato “blindam” o indivíduo. Contudo, os assuntos que costumo tratar são vistos como polêmicos, de política a religião, então parece-me que mesmo os poucos visitantes podem ter receio em compartilhar sua opinião em um meio público.

Para mitigar esse possível entrave, estou colocando também meu e-mail e página do Facebook disponíveis para contato caso os leitores não queiram expôr algo publicamente. Peço somente que qualquer comunicação sobre um assunto aqui do site seja acompanhado de um link para a página à qual você se refere.

Além de ficar na página “Sobre”, o meu e-mail é henrique-lf-sousa@gmail-com (troque todos os hífens por ponto, estou colocando assim por causa de spam), e estou no Facebook em https://www.facebook.com/hlfsousa. Mensagens mandadas sem adicionar-me não geram notificação, então se puder adicionar primeiro ou deixar comentário aqui, eu agradeço.

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(Anti-)Pressuposicionalismo

Pressuposicionalismo é uma abordagem apologética que parte da crença como componente essencial do universo ou parte dele. Alguns partem do princípio que o seu deus particular é necessário para a lógica, outros que ele é necessário para qualquer tipo de existência, mas sempre a crença é necessária e portanto não necessita ser justificada — um pressuposto. A Bíblia cristã também dá apoio a esta abordagem, por exemplo, em Romanos 2:15. Uma das consequências do pressuposicionalismo é que ele permite que seus defensores aleguem que todo mundo sabe que seu deus existe, e quem rejeita tal alegação está fingindo, cegando-se ou sendo iludido a rejeitar tal conhecimento.

Já há algum tempo vi a inversão desse argumento apologético, mas somente nas palavras de Brian, o Apóstata, nunca tendo visto uma exposição semelhante em português. E é isso que gostaria de fazer. Acho que é um contra-argumento sólido e com evidências, ao contrário do original, e que deveria ter mais exposição. Bem, sem delongas…

Crentes não existem

Pode parecer loucura, mas tudo indica que ninguém acredita em Deus de verdade. Escrevi com letra maiúscula de propósito: estou falando do deus cristão, Jeová (bem, isto provavelmente se aplica a outros deuses, mas a avaliação fica a critério do leitor). A hipótese é a seguinte: crentes dizem que acreditam em Deus por uma norma social. Eles não acreditam que ele realmente exista ou faça qualquer coisa, ou sabem que no mínimo ele não se importa com qualquer coisa que acontece em suas vidas. Eis os fatos que permeiam essa hipótese:

Crentes não oram por milagres

Sempre que você ouvir uma oração, preste atenção: Deus sempre ganha um escape, algum detalhe que permita que o resultado de ele não existir seja uma resposta da oração. “Deus, cure Fulano deste câncer, mas se for da sua vontade que ele não seja curado, dê paz à família“, ou “dê sabedoria e habilidade ao médico para fazer a cirurgia”. Nunca se vê um “cristão” recomendando ao doente ficar em casa e esperar o presbítero para receber a cura ao invés de ir ao hospital, como a Bíblia diz claramente em Tiago 5:14-15 (ver também Mateus 21:21-22. E só é passível de oração e súplica aquilo que pode ser alcançado sem Deus. Não se vê alguém orando para que Deus restaure o membro de um amputado, porque todo mundo sabe que Deus não existe para fazer isso.

A Bíblia só ensina o que já sabemos

É muito bonito dizer que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, que não devemos julgar ou qualquer outra coisa que tenha sido copiada de tradições mais antigas (sim, isso não vem da Bíblia). Tudo é claro quando coincide com o que sabemos ou achamos hoje que é certo. Mas na hora de ler o que sabemos que é errado, ou a pessoa não sabe que está na Bíblia e é atribuído a Deus, ou diz que não se aplica aos dias de hoje. Como a escravidão, em Êxodo 21, Levítico 24, Efésios 6, 1 Pedro 2, e tantas outras passagens que regulamentam ou toleram a prática da escravidão. Ou talvez a inferioridade da mulher: a Bíblia ensina que a mulher é inferior, embora tenha progredido com o tempo. Ela passou de propriedade do pai, que deve ser vendida enquanto é virgem e serve como pena a quem estupra (se não houver alguém para ouvi-la pedir socorro) a adorno do lar, que deve servir em silêncio.

Mas ninguém (ou quase ninguém, pelo menos) advoga que essas coisas sejam aplicáveis hoje. Ninguém acredita que a Bíblia diz algo que contradiz o que sabemos. Deus nunca ensina, ele sempre aprende. Aprende que a terra é esférica, que escravidão é ruim, que mulheres não são objetos, que doenças são causadas por germes, que o fim dos tempos ainda não chegou, que a terra tem milhões de anos, e tudo mais que aprendemos nos últimos séculos.

Não só os que se declaram cristãos não acreditam que Deus é a autoridade sobre certo e errado, eles não acreditam que ele está presente para ver o que fazem de errado. Eles dizem que Deus está com eles sempre, mas não agem assim quando estão para fazer algo que seria reprovável a seus olhos, desde assistir pornografia até trapacear num teste ou fazer corpo mole no trabalho. Se uma pessoa real estivesse a seu lado numa hora dessa, eles não teriam a mesma atitude. Mas como sabem que Deus não está lá, fazem e depois sentem remorso —  quando muito.

A “Palavra de Deus” é um troféu

Se o criador do universo tivesse escrito um livro, eu faria questão de lê-lo sempre. Mas isso não é verdade para mais da metade dos ditos cristãos. Uma pesquisa do Barna constatou que quase dois terços dos americanos reconhece que não lê a Bíblia o suficiente. Outra, do LifeWay Research, indica que um terço dos cristãos americanos raramente ou nunca lê a Bíblia! Acho que podemos extrapolar as estatísticas para o Brasil, cujos hábitos de leitura são inferiores aos do nosso colega de continente.

Ou seja, cristãos não acreditam que sua vida eterna ou terrena depende do quão bem entendem Deus e o que ele diz. A Palavra de Deus é só um troféu que fica na prateleira, seu diploma de bom cidadão.

Não olhe atrás da cortina!

O Deus da Bíblia é retratado como alguém presente. Uma voz audível como com Paulo, manifestações sobrenaturais como a abertura do Mar Vermelho, a transformação de água em vinho e outros incontáveis milagres de Jesus, alguém que dizem ter ressuscitado depois de levar oito tiros… mas quando se trata de aqui e agora, Deus nunca está afim de aparecer. Deus não atende pedidos, não é tentado; você não tem fé; bem-aventurados os que não viram e creram!

Quando você quer pegar um charlatão, você faz ele improvisar. Uri Geller, o entortador de talheres, foi pego assim: ao ir num programa de TV, o apresentador foi instruído a dar talheres novos para ele entortar, sem que pudessem ser manipulados antes por Geller. De repente, havia algo que impedia seus poderes de funcionarem. Uma energia negativa. A mesma coisa é com cristãos. Deus se manifesta! Mas hoje não está afim, e tudo que puder ser feito para esconder Deus em outra dimensão é feito.

Um crente de verdade apostaria sua vida

Eu apostaria minha vida, terrena ou eterna, na existência da gravidade. Se alguém disser: “que tal você soltar esta pedra? Se ela não cair, você morre”. Eu aceito a aposta, mesmo que não tenha lucro se ganhar. Com Deus também era assim. Elias, em 1 Reis 19, aposta sua vida contra as dos profetas de Baal que Jeová é Deus. E ele ainda zomba de seus oponentes antes de matá-los. Eu participaria de um debate como esse hoje. Levaria uma picanha, e se Deus fizesse um churrasco eu entraria para o cardápio. Mas e o cristão?

Pois é, o cristão “normal” não acredita em Deus. Quer saber se ele realmente acredita? Veja se ele compartilha suas posses e vive como as aves do céu, sem acumular posses, ou se preocupa-se com sua aposentadoria como se Jesus nunca fosse voltar. Veja se ele acredita que “a oração do justo muito pode em seus efeitos”. Veja se ele mostra Deus ou o esconde. Porque se existir um crente verdadeiro, eu quero conhecê-lo e ver se o deus dele existe ou não.

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Aborto

Acabo de perceber que nunca abri o diáologo sobre aborto aqui. Bem, vou resumir neste post e criar uma entrada principal em política mais tarde.

Em primeiro lugar, o método: existem vários valores a se considerar antes de determinar os fatos em torno do ato. Toda política visa um objetivo, e o meu objetivo é criar uma sociedade na qual valha a pena viver. Uma sociedade em que os direitos e liberdades individuais são superiores aos grupais. Se este tipo de sociedade não for a que traz maiores benefícios a todos, então eu tenho que rever todas as minhas posições políticas, inclusive no caso do aborto.

O que é o aborto?

Abortar significa expulsar, de forma natural ou através de intervenção, um feto do útero, da qual decorre a falência dele. A expulsão sem morte é chamada de parto, mesmo que prematuro. Existem algumas considerações a serem feitas também a respeito do feto.

O que é vida, e quando ela começa?

Algo pode ser considerado vivo quando possui certas características; é considerado vivo o organismo composto por células que mantém homeostase, cresce, se adapta ao ambiente, responde a estímulos e se reproduz. Seres humanos são vivos porque a espécie como um todo possui todas estas características. Olhando para um único indivíduo, podemos estimar quando a vida começa. Um indivíduo só se torna uma vida quando possui todas essas características (exceto a capacidade de reprodução, que na prática só é desenvolvida na puberdade).

Um feto é composto por células, cresce, e responde a estímulos razoavelmente cedo (porém não a partir da concepção), mas há uma característica que demora (em termos) a ter: homeostase, a capacidade de manter seu funcionamento independente. Então, tecnicamente, um feto só tem vida como é definida pela biologia a partir do momento em que ele pode sobreviver fora do útero.

Como o aborto implica na morte do feto, um parto prematuro não é um aborto, mesmo que aconteça naturalmente. O mesmo processo, de expulsão do conteúdo do útero, recebe rótulos diferentes de acordo com o estado do que sai: se é um bebê vivo, é parto prematuro; se feto sem vida, é aborto; se óvulo não fecundado, menstruação.

Quem tem direitos?

Nem tudo que tem vida tem direitos: frutos do mar, pragas, e todo tipo de inseto não os têm. Existem os chamados direitos dos animais, mas só vale para animais dotados de sensibilidade, segundo a terminologia da constituição (art. 225, §1). Ou seja, animais têm direitos conforme se assemelham a pessoas. Semelhantemente, seres humanos adquirem direitos conforme se assemelham a adultos funcionais: habilitação para dirigir, porte de arma, voto, emancipação, etc.. Fetos e bebês, mesmo que possuam vida, devem possuir direitos à medida que se assemelham a pessoas funcionais. Então quem tem mais direitos: um feto ou um adulto? Estando ambos em risco, ou tendo os dois interesses conflitantes, qual deve ser priorizado. De acordo com a visão supra citada, é sempre o ser humano completamente formado.

Que direito estamos considerando?

Em A Ética da Liberdade, Murray N. Rothbard cria todo um sistema ético/político a partir de somente um direito: o da propriedade. Este direito é derivado de fatos e não de consenso, e é um dos alicerces da democracia moderna. O direito à vida e à liberdade são derivados do direito à propriedade, nesta visão. Portanto quando se limita o direito à propriedade de si, consequentemente limita-se também o direito à vida. Não é uma questão de ser “pró-vida” como se quem não o é se tornasse “anti-vida”, e sim de considerar a legalidade de ações potencialmente ou praticamente imorais.

Existem muitas atitudes que são imorais porém perfeitamente dentro dos direitos de uma pessoa. Alguém pode mentir em diversas situações, ou cometer adultério, sem que cometa qualquer ilegalidade. É importante, neste sentido, traçar o limite entre o imoral e o ilegal.

O que é o direito ao aborto?

Com base em tudo que disse, o direito ao aborto não é uma questão moral. O fato de o aborto ser ou não moral, significar ou não a morte de um indivíduo, é irrelevante à questão. A questão é se ele fere o direito de um indivíduo, e se a sua proibição o faz também.

Claramente o aborto é prejudicial a uma vida em formação — ainda que não seja uma vida completamente formada. Mas esta formação da vida acontece às custas de outro indivíduo, completamente formado: a mãe em potencial, a mulher grávida. É dela que são tirados nutrientes, que tem sua saúde posta em risco, que tem que lidar com as dificuldades físicas e mentais que uma gravidez causa. E a mulher, no gozo dos seu direito sobre si, deveria poder escolher não oferecer o seu corpo à vida que se forma nela.

Considere a seguinte analogia: eu dirijo irresponsavelmente e causo um acidente automobilístico, no qual meu filho perde ambos os rins. Sendo a única pessoa compatível para uma doação e tendo sido a causa de ele estar naquele estado, eu sou obrigado a doar um dos meus rins saudáveis a ele? Com certeza seria a atitude mais nobre a se tomar, e pode-se alegar que abster-se da doação seria imoral, mas de forma nenhuma a obrigatoriedade seria legal. Ninguém pode forçar-me a doar um rim a meu filho, mesmo que ele morra caso eu não o faça. Mesmo que a doação não traga qualquer malefício a mim. O rim é meu e eu não posso ser obrigado a dá-lo. Bem, o útero da mulher é dela, e mesmo que o feto seja um ser humano, até um cidadão, ela não pode ser obrigada a continuamente oferecê-lo ao feto que hospeda. Mesmo que ele lá esteja por irresponsabilidade ou vontade da mulher. É a mesma coisa.

Como convencer alguém do contrário?

Bem, existem alguns caminhos para convencer-me de que o aborto deve continuar sendo criminalizado:

  1. Demonstre que o feto é completamente formado: que tem consciência de si e do seu ambiente, e que pode ser sustentado fora do útero.
  2. Demonstre que o direito à propriedade de si é independente e/ou inferior ao direito à vida.

O que é irrelevante ao assunto:

  1. O que a Bíblia ou qualquer outro texto tido como sagrado por uma comunidade diz, pelo menos enquanto o Estado ainda for laico.
  2. O direito à vida, enquanto dependente do direito à propriedade.
  3. Todo e qualquer apelo emocional: imagens de aspiração de fetos, curetagem, estatísticas que indiquem riscos para as mulhes proveninetes do aborto.

Todo comentário é, como sempre, bem vindo.

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O Abortoduto de Nando Moura

Estou cansado dos apelos emocionais a favor da criminalização do aborto. Foi-me recomendado ver um vídeo do Nando Moura (pessoa pela qual já não tenho respeito intelectual) sobre o assunto. E já que estou farto da falta de conteúdo racional desses argumentos já batidos, farei o seguinte: usarei todos os argumentos apresentados para defender a criminalização do adultério. Se os argumentos forem válidos para um caso, eles têm que ser para o outro. E se este for o caso, qualquer pessoa que defenda a criminalização do aborto deve também defender a do adultério.

Como sempre, antes de mais nada, a fonte:

O adultério é uma maldade

O adultério é uma maldade. Aquele que defende o adultério é, de verdade, ou muito ignorante, ou simplesmente extremamente maligno. Eles pretendem fazer esse adulterioduto através da Lei nº 11.106, de 28 de março de 2005.

Isto se chama “envenenar o poço”. Nando começa o vídeo dizendo que quem defende o aborto é maligno. Em primeiro lugar, a luta política é pelo direito ao aborto, e não pelo aborto em si. Assim como o adultério é maldade (imoral), quase ninguém advoga que o aborto é imoral para que figure como crime.

A lei tem como intenção algo além do que diz

A descriminalização do adultério não tem como intenção a mera restrição da correção do erro à esfera familiar. A intenção dela é acabar com a família brasileira, tornando corriqueiro um ato maligno que é feito sob risco de prisão.

O apelo de Nando é infundado. Se o executor da lei fizer aquilo para o que ela não é destinada, ele incorre em crime de desvio de finalidade.

Eu quero, eu faço

Funcionará assim: chega o carnaval e a mulher (casada) quer dar para todo mundo. Com a lei 11.106/2005, bastará ela chegar no juiz e dizer: “quero me divorciar” e está tudo certo. Ela poderá dar para quem quiser, livre das amarras do casamento, às custas do judiciário — do dinheiro público.

Existem duas formas de aborto: químico e clínico. O aborto químico pode ser feito em casa, à base de medicamentos que forçam a expulsão do conteúdo uterino (feto e adjacências). A regulamentação de uma prática de saúde pública é praxe. O problema não é a regulamentação em si, e sim o ato. Todo o papo a respeito de como o aborto é regulamentado no Uruguai é enrolação.

Dispensa-se evidências

A mulher (ou homem) que quiser praticar o adultério e por causa disso dissolver o casamento pode simplesmente dizer que o fim do casamento é por causa de adultério. Nenhuma prova é necessária. Afinal, não há pena para o adultério, então por que alguém até mesmo acusaria o outro? Basta dizer que há “diferenças irreconciliáveis” para abandonar o sagrado matrimônio e ficar livre para a libertinagem.

Nando cita regulamentação do Ministério da Saúde sobre a mulher não precisar apresentar evidência de abuso sexual para ser tratada como vítima do tal. Ora, o papel do atendimento médico é tratar da saúde, e não dar juízo de mérito às alegações da suposta vítima. Esse é papel do judiciário, onde evidências são essenciais.

Mentiroso Moura também não provê a fonte da alegação sobre o Ministério da Saúde, então vejamos os fatos: a portaria 485 de 2014 prevê que casos atendidos como de violência sexual devem ser informados às autoridades, portanto uma pessoa atendida como vítima de violência sexual sob falsa alegação incorre em crime. A unidade de atendimento é obrigada a coletar toda e qualquer evidência necessária à comprovação da alegada violência sexual, apoiando assim o trabalho do judiciário.

Hitler apoiava a prática do adultério

Hitler tinha uma amante, Hilda, portanto qualquer pessoa que defende o adultério é um Hitler.

Claro que a associação indevida tem que ser usada. Abortistas são comunistas. As pessoas que apóiam o aborto são as mesmas que criaram o Estado Islâmico. Nando Moura sendo irrelevante.

Possibilitar o adultério aumenta o número de adultérios

Defender que alguém ensine que as pessoas são livres para escolherem seus relacionamentos é um incentivo para o adultério.

Pôxa, Nando Moura não sabe sequer organizar seus fatos: educação sexual leva a menor número de casos de gravidez na adolescência. Também há vasta evidência de que a legalização do aborto não aumenta sua ocorrência. Nem consigo criar o argumento anti-adultério com essas mentiras.

Saco cheio desse Nando Moura, não consigo assistir a mais do que 10 minutos dessa balela. Talvez depois eu termine. O cara não entende ou nem conhece os argumentos a favor do aborto, e vem querer defender um boicote a uma lei que não tem a ver com isso. Quando alguém quiser conversar sobre o assunto e não só gritar suas idéias, estarei aqui.

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