(Anti-)Pressuposicionalismo

Pressuposicionalismo é uma abordagem apologética que parte da crença como componente essencial do universo ou parte dele. Alguns partem do princípio que o seu deus particular é necessário para a lógica, outros que ele é necessário para qualquer tipo de existência, mas sempre a crença é necessária e portanto não necessita ser justificada — um pressuposto. A Bíblia cristã também dá apoio a esta abordagem, por exemplo, em Romanos 2:15. Uma das consequências do pressuposicionalismo é que ele permite que seus defensores aleguem que todo mundo sabe que seu deus existe, e quem rejeita tal alegação está fingindo, cegando-se ou sendo iludido a rejeitar tal conhecimento.

Já há algum tempo vi a inversão desse argumento apologético, mas somente nas palavras de Brian, o Apóstata, nunca tendo visto uma exposição semelhante em português. E é isso que gostaria de fazer. Acho que é um contra-argumento sólido e com evidências, ao contrário do original, e que deveria ter mais exposição. Bem, sem delongas…

Crentes não existem

Pode parecer loucura, mas tudo indica que ninguém acredita em Deus de verdade. Escrevi com letra maiúscula de propósito: estou falando do deus cristão, Jeová (bem, isto provavelmente se aplica a outros deuses, mas a avaliação fica a critério do leitor). A hipótese é a seguinte: crentes dizem que acreditam em Deus por uma norma social. Eles não acreditam que ele realmente exista ou faça qualquer coisa, ou sabem que no mínimo ele não se importa com qualquer coisa que acontece em suas vidas. Eis os fatos que permeiam essa hipótese:

Crentes não oram por milagres

Sempre que você ouvir uma oração, preste atenção: Deus sempre ganha um escape, algum detalhe que permita que o resultado de ele não existir seja uma resposta da oração. “Deus, cure Fulano deste câncer, mas se for da sua vontade que ele não seja curado, dê paz à família“, ou “dê sabedoria e habilidade ao médico para fazer a cirurgia”. Nunca se vê um “cristão” recomendando ao doente ficar em casa e esperar o presbítero para receber a cura ao invés de ir ao hospital, como a Bíblia diz claramente em Tiago 5:14-15 (ver também Mateus 21:21-22. E só é passível de oração e súplica aquilo que pode ser alcançado sem Deus. Não se vê alguém orando para que Deus restaure o membro de um amputado, porque todo mundo sabe que Deus não existe para fazer isso.

A Bíblia só ensina o que já sabemos

É muito bonito dizer que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, que não devemos julgar ou qualquer outra coisa que tenha sido copiada de tradições mais antigas (sim, isso não vem da Bíblia). Tudo é claro quando coincide com o que sabemos ou achamos hoje que é certo. Mas na hora de ler o que sabemos que é errado, ou a pessoa não sabe que está na Bíblia e é atribuído a Deus, ou diz que não se aplica aos dias de hoje. Como a escravidão, em Êxodo 21, Levítico 24, Efésios 6, 1 Pedro 2, e tantas outras passagens que regulamentam ou toleram a prática da escravidão. Ou talvez a inferioridade da mulher: a Bíblia ensina que a mulher é inferior, embora tenha progredido com o tempo. Ela passou de propriedade do pai, que deve ser vendida enquanto é virgem e serve como pena a quem estupra (se não houver alguém para ouvi-la pedir socorro) a adorno do lar, que deve servir em silêncio.

Mas ninguém (ou quase ninguém, pelo menos) advoga que essas coisas sejam aplicáveis hoje. Ninguém acredita que a Bíblia diz algo que contradiz o que sabemos. Deus nunca ensina, ele sempre aprende. Aprende que a terra é esférica, que escravidão é ruim, que mulheres não são objetos, que doenças são causadas por germes, que o fim dos tempos ainda não chegou, que a terra tem milhões de anos, e tudo mais que aprendemos nos últimos séculos.

Não só os que se declaram cristãos não acreditam que Deus é a autoridade sobre certo e errado, eles não acreditam que ele está presente para ver o que fazem de errado. Eles dizem que Deus está com eles sempre, mas não agem assim quando estão para fazer algo que seria reprovável a seus olhos, desde assistir pornografia até trapacear num teste ou fazer corpo mole no trabalho. Se uma pessoa real estivesse a seu lado numa hora dessa, eles não teriam a mesma atitude. Mas como sabem que Deus não está lá, fazem e depois sentem remorso —  quando muito.

A “Palavra de Deus” é um troféu

Se o criador do universo tivesse escrito um livro, eu faria questão de lê-lo sempre. Mas isso não é verdade para mais da metade dos ditos cristãos. Uma pesquisa do Barna constatou que quase dois terços dos americanos reconhece que não lê a Bíblia o suficiente. Outra, do LifeWay Research, indica que um terço dos cristãos americanos raramente ou nunca lê a Bíblia! Acho que podemos extrapolar as estatísticas para o Brasil, cujos hábitos de leitura são inferiores aos do nosso colega de continente.

Ou seja, cristãos não acreditam que sua vida eterna ou terrena depende do quão bem entendem Deus e o que ele diz. A Palavra de Deus é só um troféu que fica na prateleira, seu diploma de bom cidadão.

Não olhe atrás da cortina!

O Deus da Bíblia é retratado como alguém presente. Uma voz audível como com Paulo, manifestações sobrenaturais como a abertura do Mar Vermelho, a transformação de água em vinho e outros incontáveis milagres de Jesus, alguém que dizem ter ressuscitado depois de levar oito tiros… mas quando se trata de aqui e agora, Deus nunca está afim de aparecer. Deus não atende pedidos, não é tentado; você não tem fé; bem-aventurados os que não viram e creram!

Quando você quer pegar um charlatão, você faz ele improvisar. Uri Geller, o entortador de talheres, foi pego assim: ao ir num programa de TV, o apresentador foi instruído a dar talheres novos para ele entortar, sem que pudessem ser manipulados antes por Geller. De repente, havia algo que impedia seus poderes de funcionarem. Uma energia negativa. A mesma coisa é com cristãos. Deus se manifesta! Mas hoje não está afim, e tudo que puder ser feito para esconder Deus em outra dimensão é feito.

Um crente de verdade apostaria sua vida

Eu apostaria minha vida, terrena ou eterna, na existência da gravidade. Se alguém disser: “que tal você soltar esta pedra? Se ela não cair, você morre”. Eu aceito a aposta, mesmo que não tenha lucro se ganhar. Com Deus também era assim. Elias, em 1 Reis 19, aposta sua vida contra as dos profetas de Baal que Jeová é Deus. E ele ainda zomba de seus oponentes antes de matá-los. Eu participaria de um debate como esse hoje. Levaria uma picanha, e se Deus fizesse um churrasco eu entraria para o cardápio. Mas e o cristão?

Pois é, o cristão “normal” não acredita em Deus. Quer saber se ele realmente acredita? Veja se ele compartilha suas posses e vive como as aves do céu, sem acumular posses, ou se preocupa-se com sua aposentadoria como se Jesus nunca fosse voltar. Veja se ele acredita que “a oração do justo muito pode em seus efeitos”. Veja se ele mostra Deus ou o esconde. Porque se existir um crente verdadeiro, eu quero conhecê-lo e ver se o deus dele existe ou não.

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Aborto

Acabo de perceber que nunca abri o diáologo sobre aborto aqui. Bem, vou resumir neste post e criar uma entrada principal em política mais tarde.

Em primeiro lugar, o método: existem vários valores a se considerar antes de determinar os fatos em torno do ato. Toda política visa um objetivo, e o meu objetivo é criar uma sociedade na qual valha a pena viver. Uma sociedade em que os direitos e liberdades individuais são superiores aos grupais. Se este tipo de sociedade não for a que traz maiores benefícios a todos, então eu tenho que rever todas as minhas posições políticas, inclusive no caso do aborto.

O que é o aborto?

Abortar significa expulsar, de forma natural ou através de intervenção, um feto do útero, da qual decorre a falência dele. A expulsão sem morte é chamada de parto, mesmo que prematuro. Existem algumas considerações a serem feitas também a respeito do feto.

O que é vida, e quando ela começa?

Algo pode ser considerado vivo quando possui certas características; é considerado vivo o organismo composto por células que mantém homeostase, cresce, se adapta ao ambiente, responde a estímulos e se reproduz. Seres humanos são vivos porque a espécie como um todo possui todas estas características. Olhando para um único indivíduo, podemos estimar quando a vida começa. Um indivíduo só se torna uma vida quando possui todas essas características (exceto a capacidade de reprodução, que na prática só é desenvolvida na puberdade).

Um feto é composto por células, cresce, e responde a estímulos razoavelmente cedo (porém não a partir da concepção), mas há uma característica que demora (em termos) a ter: homeostase, a capacidade de manter seu funcionamento independente. Então, tecnicamente, um feto só tem vida como é definida pela biologia a partir do momento em que ele pode sobreviver fora do útero.

Como o aborto implica na morte do feto, um parto prematuro não é um aborto, mesmo que aconteça naturalmente. O mesmo processo, de expulsão do conteúdo do útero, recebe rótulos diferentes de acordo com o estado do que sai: se é um bebê vivo, é parto prematuro; se feto sem vida, é aborto; se óvulo não fecundado, menstruação.

Quem tem direitos?

Nem tudo que tem vida tem direitos: frutos do mar, pragas, e todo tipo de inseto não os têm. Existem os chamados direitos dos animais, mas só vale para animais dotados de sensibilidade, segundo a terminologia da constituição (art. 225, §1). Ou seja, animais têm direitos conforme se assemelham a pessoas. Semelhantemente, seres humanos adquirem direitos conforme se assemelham a adultos funcionais: habilitação para dirigir, porte de arma, voto, emancipação, etc.. Fetos e bebês, mesmo que possuam vida, devem possuir direitos à medida que se assemelham a pessoas funcionais. Então quem tem mais direitos: um feto ou um adulto? Estando ambos em risco, ou tendo os dois interesses conflitantes, qual deve ser priorizado. De acordo com a visão supra citada, é sempre o ser humano completamente formado.

Que direito estamos considerando?

Em A Ética da Liberdade, Murray N. Rothbard cria todo um sistema ético/político a partir de somente um direito: o da propriedade. Este direito é derivado de fatos e não de consenso, e é um dos alicerces da democracia moderna. O direito à vida e à liberdade são derivados do direito à propriedade, nesta visão. Portanto quando se limita o direito à propriedade de si, consequentemente limita-se também o direito à vida. Não é uma questão de ser “pró-vida” como se quem não o é se tornasse “anti-vida”, e sim de considerar a legalidade de ações potencialmente ou praticamente imorais.

Existem muitas atitudes que são imorais porém perfeitamente dentro dos direitos de uma pessoa. Alguém pode mentir em diversas situações, ou cometer adultério, sem que cometa qualquer ilegalidade. É importante, neste sentido, traçar o limite entre o imoral e o ilegal.

O que é o direito ao aborto?

Com base em tudo que disse, o direito ao aborto não é uma questão moral. O fato de o aborto ser ou não moral, significar ou não a morte de um indivíduo, é irrelevante à questão. A questão é se ele fere o direito de um indivíduo, e se a sua proibição o faz também.

Claramente o aborto é prejudicial a uma vida em formação — ainda que não seja uma vida completamente formada. Mas esta formação da vida acontece às custas de outro indivíduo, completamente formado: a mãe em potencial, a mulher grávida. É dela que são tirados nutrientes, que tem sua saúde posta em risco, que tem que lidar com as dificuldades físicas e mentais que uma gravidez causa. E a mulher, no gozo dos seu direito sobre si, deveria poder escolher não oferecer o seu corpo à vida que se forma nela.

Considere a seguinte analogia: eu dirijo irresponsavelmente e causo um acidente automobilístico, no qual meu filho perde ambos os rins. Sendo a única pessoa compatível para uma doação e tendo sido a causa de ele estar naquele estado, eu sou obrigado a doar um dos meus rins saudáveis a ele? Com certeza seria a atitude mais nobre a se tomar, e pode-se alegar que abster-se da doação seria imoral, mas de forma nenhuma a obrigatoriedade seria legal. Ninguém pode forçar-me a doar um rim a meu filho, mesmo que ele morra caso eu não o faça. Mesmo que a doação não traga qualquer malefício a mim. O rim é meu e eu não posso ser obrigado a dá-lo. Bem, o útero da mulher é dela, e mesmo que o feto seja um ser humano, até um cidadão, ela não pode ser obrigada a continuamente oferecê-lo ao feto que hospeda. Mesmo que ele lá esteja por irresponsabilidade ou vontade da mulher. É a mesma coisa.

Como convencer alguém do contrário?

Bem, existem alguns caminhos para convencer-me de que o aborto deve continuar sendo criminalizado:

  1. Demonstre que o feto é completamente formado: que tem consciência de si e do seu ambiente, e que pode ser sustentado fora do útero.
  2. Demonstre que o direito à propriedade de si é independente e/ou inferior ao direito à vida.

O que é irrelevante ao assunto:

  1. O que a Bíblia ou qualquer outro texto tido como sagrado por uma comunidade diz, pelo menos enquanto o Estado ainda for laico.
  2. O direito à vida, enquanto dependente do direito à propriedade.
  3. Todo e qualquer apelo emocional: imagens de aspiração de fetos, curetagem, estatísticas que indiquem riscos para as mulhes proveninetes do aborto.

Todo comentário é, como sempre, bem vindo.

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O Abortoduto de Nando Moura

Estou cansado dos apelos emocionais a favor da criminalização do aborto. Foi-me recomendado ver um vídeo do Nando Moura (pessoa pela qual já não tenho respeito intelectual) sobre o assunto. E já que estou farto da falta de conteúdo racional desses argumentos já batidos, farei o seguinte: usarei todos os argumentos apresentados para defender a criminalização do adultério. Se os argumentos forem válidos para um caso, eles têm que ser para o outro. E se este for o caso, qualquer pessoa que defenda a criminalização do aborto deve também defender a do adultério.

Como sempre, antes de mais nada, a fonte:

O adultério é uma maldade

O adultério é uma maldade. Aquele que defende o adultério é, de verdade, ou muito ignorante, ou simplesmente extremamente maligno. Eles pretendem fazer esse adulterioduto através da Lei nº 11.106, de 28 de março de 2005.

Isto se chama “envenenar o poço”. Nando começa o vídeo dizendo que quem defende o aborto é maligno. Em primeiro lugar, a luta política é pelo direito ao aborto, e não pelo aborto em si. Assim como o adultério é maldade (imoral), quase ninguém advoga que o aborto é imoral para que figure como crime.

A lei tem como intenção algo além do que diz

A descriminalização do adultério não tem como intenção a mera restrição da correção do erro à esfera familiar. A intenção dela é acabar com a família brasileira, tornando corriqueiro um ato maligno que é feito sob risco de prisão.

O apelo de Nando é infundado. Se o executor da lei fizer aquilo para o que ela não é destinada, ele incorre em crime de desvio de finalidade.

Eu quero, eu faço

Funcionará assim: chega o carnaval e a mulher (casada) quer dar para todo mundo. Com a lei 11.106/2005, bastará ela chegar no juiz e dizer: “quero me divorciar” e está tudo certo. Ela poderá dar para quem quiser, livre das amarras do casamento, às custas do judiciário — do dinheiro público.

Existem duas formas de aborto: químico e clínico. O aborto químico pode ser feito em casa, à base de medicamentos que forçam a expulsão do conteúdo uterino (feto e adjacências). A regulamentação de uma prática de saúde pública é praxe. O problema não é a regulamentação em si, e sim o ato. Todo o papo a respeito de como o aborto é regulamentado no Uruguai é enrolação.

Dispensa-se evidências

A mulher (ou homem) que quiser praticar o adultério e por causa disso dissolver o casamento pode simplesmente dizer que o fim do casamento é por causa de adultério. Nenhuma prova é necessária. Afinal, não há pena para o adultério, então por que alguém até mesmo acusaria o outro? Basta dizer que há “diferenças irreconciliáveis” para abandonar o sagrado matrimônio e ficar livre para a libertinagem.

Nando cita regulamentação do Ministério da Saúde sobre a mulher não precisar apresentar evidência de abuso sexual para ser tratada como vítima do tal. Ora, o papel do atendimento médico é tratar da saúde, e não dar juízo de mérito às alegações da suposta vítima. Esse é papel do judiciário, onde evidências são essenciais.

Mentiroso Moura também não provê a fonte da alegação sobre o Ministério da Saúde, então vejamos os fatos: a portaria 485 de 2014 prevê que casos atendidos como de violência sexual devem ser informados às autoridades, portanto uma pessoa atendida como vítima de violência sexual sob falsa alegação incorre em crime. A unidade de atendimento é obrigada a coletar toda e qualquer evidência necessária à comprovação da alegada violência sexual, apoiando assim o trabalho do judiciário.

Hitler apoiava a prática do adultério

Hitler tinha uma amante, Hilda, portanto qualquer pessoa que defende o adultério é um Hitler.

Claro que a associação indevida tem que ser usada. Abortistas são comunistas. As pessoas que apóiam o aborto são as mesmas que criaram o Estado Islâmico. Nando Moura sendo irrelevante.

Possibilitar o adultério aumenta o número de adultérios

Defender que alguém ensine que as pessoas são livres para escolherem seus relacionamentos é um incentivo para o adultério.

Pôxa, Nando Moura não sabe sequer organizar seus fatos: educação sexual leva a menor número de casos de gravidez na adolescência. Também há vasta evidência de que a legalização do aborto não aumenta sua ocorrência. Nem consigo criar o argumento anti-adultério com essas mentiras.

Saco cheio desse Nando Moura, não consigo assistir a mais do que 10 minutos dessa balela. Talvez depois eu termine. O cara não entende ou nem conhece os argumentos a favor do aborto, e vem querer defender um boicote a uma lei que não tem a ver com isso. Quando alguém quiser conversar sobre o assunto e não só gritar suas idéias, estarei aqui.

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Por que não se deve levar um cético à igreja

Esta é a análise de uma pregação de igreja. Espero dar a você, leitor, alguma noção do qu passa-se na cabeça de um cético, este que lhe escreve, quando é levado a uma igreja. Claro, a fonte:

E sem mais delongas, a reação à pregação…

Os filisteus saqueiam cidade israelita e levam as mulheres (na verdade levaram todo mundo, mas a estória deixa claro que o mais importante são as mulheres, e em especial as de Davi). Comparemos o modus operandi com o do deus dos israelistas: Saul foi desobediente ao não matar todo mundo; a Davi era ordenado matar os homens e ficar com as mulheres. E certamente era uma tática mais eficaz: se os filisteus tivessem matado todo mundo, não haveria clamor para trazê-los de volta. Até o dilema proposto por Davi se torna evidência de sua falência moral: esforçar-se para trazer de volta os cidadãos raptados ou não? Mesmo contra terrível perspectiva, qualquer pessoa com sua bússola moral no lugar não pensaria duas vezes; mas Davi tem que perguntar ao deus de Israel.

Agora, pense no tipo de deus com que estamos lidando aqui: uma das mulheres levadas era uma das mulheres de Davi (sim, o figurão era polígamo), Abigail. A estória de Abigail é, resumidamente: seu marido, Nabal, homem muito rico, foi morto por Jeová por não compartilhar de seu banquete com Davi e seus homens, após Davi ser impedido pela então esposa de Nabal de matá-lo. Ora, se Jeová mata um homem por não oferecer comida a Davi e seus homens, o que poderia-se esperar dele quando a mesma mulher e muitas outras são levadas por saqueadores? Uma empalação coletiva, ou talvez combustão espontânea, não seriam opções fora do normal. Talvez dar a força de Sansão às mulheres, para que os destrocem — isso seria uma história bem mais interessante. Ao invés disso, ele manda Davi resgatá-las, como se o próprio mandante nem existisse.

O pregador faz um paralelo alegando que a distância que Davi manteve do seu povo é equivalente à alienação das pessoas às suas famílias, dando chance a Satanás para destruí-las, que é o que tem acontecido. Bem, em nenhum momento ele mencionou o que é essa “destruição”, ou como medi-la. Também não apresentou razões para acreditar que essa suposta destruição seja de autoria diabólica, ao invés de algum efeito cultural. Ou seja, tanto os fatos quanto suas causas são presumidos a partir de uma alegoria. E a partir desse modelo de causa infundada e consequência desconhecida, ele traça atitudes para previnir a destruição da família por Satanás:

  1. Envolver-se com uma causa errada. Ele deixa implícito o papel do pai, da esposa e dos filhos, como se toda família tivesse que funcionar exatamente do mesmo jeito. Até entendo que ele ache isso por ter na mão um manual de instrução que trata os seres humanos como se fossem todos iguais em seus anseios e necessidades, mas esta é uma noção errada. E se você não segue esse manual, Satanás tem liberdade para estragar sua família. Novamente, não sei de onde ele tira essa idéia. Se for da Bíblia, se foda a Bíblia; eu quero saber que modelo, que teoria ele usa para determinar que Satanás existe e faz alguma coisa através de algum mecanismo, ou não tenho como dar crédito. Como verifico se essa idéia está correta? E se estiver incorreta, como eu poderia descobrir? É como imaginar uma doença e curá-la com placebo: pode funcionar, mas é irrelevante.
    O pastor comenta como vê muitos filhos de pastores pulando carnaval. E daí? Por que pular carnaval é errado? Eu não gosto, mas não participar é decisão particular minha. Novamente, ele espera que todos pensem do mesmo jeito, com o mesmo código moral, presumido e concluído autoritariamente.
    Ele parte de uma premissa infundada — Satanás destrói famílias cujos membros não cumprem seus papéis — para uma conclusão óbvia: dê atenção para sua família se você quer que ela prospere. Eu já tenho um modelo baseado na realidade para chegar a essa conclusão. Sua religião nada tem a oferecer até aqui.
    E finalmente, a parte do spam: ponha sua família na igreja. Novamente, sem qualquer fundamento. Alguém pode ser obrigado a fazer algo? Eu fui envolvido nas coisas da igreja. E foi no momento em que eu mais estava envolvido que eu descobri que era tudo falso. Talvez por isso os filhos de pastores estejam pulando carnaval.
  2. Inversão de papéis (1:21:00). Novamente, uma conclusão óbia a partir de premissa infundada. Sócrates (na voz de Platão) chega à mesma conclusão em A República, mas não precisa contar com fantasias satânicas. Por que, então, eu deveria preferir a aparente fantasia a olhar para a realidade?
    “Eu nunca vi tanto pastor divorciado”. Que tal fazer uma marcha pela criminalização do divórcio? Ok, já estou perdendo a seriedade. Mas dá para manter com esse nível de exposição?
  3. Opor-se aos inimigos errados. Como eu devo escolher os inimigos? A primeira resposta é: identidade. Junte-se à sua tribo, independentemente de seus valores. Lute contra pessoas e não idéias. Não lute com sua família, nem contra quaisquer de suas idéias. A exposição simplista do pastor é colocar todo mundo de lados opostos de uma cerca: deste lado, sua família. Você tem que ficar do lado de sua família, sempre, de acordo com os papéis: todos obedecem o pai, pai busca o melhor para a família. E se o pai tomar uma decisão demonstravelmente incorreta? Sherekamadaias! Ah, dane-se a argumentação! Aqui é política de identidade! Confrontar uma idéia é inverter papéis, e já sabemos que isso não pode porque a Bíblia diz que isso só pode acontecer sob influência de Satanás. Então ao invés de argumentar, você deve orar para que Deus mude a cabeça do seu interlocutor. Mais um modelo falido.
  4. Pedir direção a Deus. Porque como com Davi, Deus não fará coisa alguma. Você terá que fazer algo, mesmo que Deus possa (como pôde matar Nabal, mas não os amalequitas). Você vai ter que imaginar o que Deus quer, porque não dá para confirmar o que Deus revela. Peça um éfode, um dado, uma moeda, dê um conjunto de opções e jogue a sorte. O que sair ou você sentir é o que Deus está falando. Dane-se o que é melhor ou mais lógico. O importante é Deus ser o centro.

Depois de tudo isso, como cético, concluo: você não tem coisa alguma a me oferecer nesta pregação. Nada real, nada moral, nada útil, nada confiável. Quando quiser ter uma conversa racional, estarei aqui. Até então, meus olhos estarão na realidade, buscando causas e consequências em um modelo refutável porém confirmado por evidências e não andando na confiança infundada em falsas autoridades, que dizem representar algo que não podem apresentar.

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William Lane Craig: um charlatão

William Lane Craig é um apologista cristão, acadêmico de Teologia e Filosofia, que roda o mundo pregando e debatendo a existência do deus cristão com filósofos e muitos cientistas. Depois de assistir a mais debates do que eu deveria, posso chegar à firme conclusão de que o homem é um charlatão; ele vende algo que sabe não funcionar, com o objetivo de obter lucro. Eu demonstrarei tal charlatanismo em três vertentes, com as evidências mais relevantes e tentando ser o mais suscinto possível.

1. Borde-Guth-Vilenkin

Craig usa o teorema Borde-Guth-Vilenkin constantemente como demonstração da premissa dos argumentos cosmológico e contingente de que o universo teve um início. Para resumir, eu não colocarei referências de quando Craig faz esta referência antes de seu debate com Sean Carrol, mas eis os fatos: em 2014, Sean Carrol mostra um dos autores do teorema, desmentindo Craig; ele diz claramente que não se pode concluir a partir do teorema que o universo definitivamente teve um início no tempo.

Até esse momento, Craig simplesmente estava errado. Ele poderia estar sendo sincero, porém incorreto. A partir do momento em que lhe foi mostrado sem dúvida, por um expert na área de atuação (Física/Cosmologia) e pelo autor do teorema, que ele estava errado, continuar apresentando o teorema Borde-Guth-Vilenkin como prova de que o universo é contingente seria pura desonestidade. Mas é exatamente o que Craig continua fazendo mais de dois anos depois, repetidamente, como se vê neste debate de 2016:

William Lane Craig mente conscientemente, contando com a ingenuidade da audiência, por não terem acesso a esta informação.

2. Por que William Lane Craig é cristão?

Num debate com qualquer credibilidade, alguém apresenta as razões pelas quais alguém deve acreditar na proposição positiva apresentada, ou rebater tais razões. Craig usa argumentos “racionais”, mas ele admite que a razão para crer não é racional, e sim a experiência pessoal do testemunho interior do Espírito Santo. Ou, em suas próprias palavras:

… sabemos que o cristianismo é verdadeiro pelo testemunho auto-verificado do Espírito Santo de Deus. O que quero dizer com isto? Quero dizer que a experiência do Espírito Santo é… inconfundível… para aquele que a possui; … que argumentos e evidências incompatíveis com esta verdade são sobrepujados pela experiência do Espírito Santo… (1)

… é o testemunho auto-verificado do Espírito Santo que nos dá o conhecimento fundamental da verdade do cristianismo. Portanto, o único papel que resta a argumentos e evidências é coadjuvante… O uso docente da razão ocorre quando a razão se sobrepõe ao evangelho… e o julga com base em argumentos e evidências. O uso ministerial da razão ocorre quando a razão se submete e serve o evangelho. à luz do testemunho do Espírito, somente o uso ministerial da razão é legítimo. A Filosofia é obrigatoriamente serva da teologia. A razão é uma ferramenta para nos ajudar a entender e defender melhor nossa fé… (2)

  1. Traduzido de Reasonable Faith, 3a edição, página 43.
  2. Ibid, páginas 47-48.

Para Craig, o raciocínio é escravo da fé. Se a razão não é compatível com a crença, ela deve ser torcida até que o seja. Esta é a segunda forma de charlatanismo que Craig aplica: se ele está incorreto de acordo com a lógica e as evidências, ele intencionalmente as adultera para obter o resultado aparente que deseja.

3. Hipocrisia

Craig só debate com oponentes que sejam especialistas acadêmicos na área em que desejam debater. Mas Craig não tem qualquer qualificação para falar sobre as ciências naturais — Física, Biologia, Estatística, etc.. Pela sua própria lógica, ele não deveria estar à altura para debater com Lawrence Kraus ou Sean Carrol. Não poderia usar teoremas da Física ou da Matemática para formular seus argumentos.

Craig reconhece que alguém deve ser reconhecido como uma autoridade em um assunto específico para ser digno de crédito, mas espera que se lhe dêem crédito sobre todos os assuntos mesmo não tendo qualquer formação neles.

Craig é um hipócrita, um mentiroso, enfim: um charlatão.

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Profissão de fé X pesquisa

Eu sempre digo que a busca pela verdade é mais importante do que a defesa de crenças preferidas — o emprego da apologética. Para tanto, é importante entender quem compartilha tais valores, isto é, quem tem um compromisso ideológico e quem não tem. O risco em vista é que alguém que tem um compromisso ideológico se dispõe a defender suas crenças mesmo que as razões para tanto sejam insuficientes ou até se suas crenças forem contrárias à razão.

Eu gostaria de dar alguns exemplos de pessoas e instituições dos dois lados da moeda, através de suas declarações públicas de missão. Se os executores, aqueles a cargo da pesquisa e pulicação, forem honestos, então temos um vislumbre do nível de confiança que devemos dar ao que dizem. Em todas as citações, o destaque é dado por mim.

Comecemos por um dos mais respeitados, o MIT (Massachussets Institute of Technology):

A missão do MIT é promover o conhecimento e educar os estudantes na ciência, tecnologia e outras áreas acadêmicas que melhor servirão a nação e o mundo no século XXI.

O instituto tem o compromisso de gerar, disseminar e preservar conhecimento, e trabalhar com outros para aplicar este conhecimento aos grandes desafios do mundo. O MIT se dedica a dar a seus estudantes uma educação que combina estudo acadêmico rigoroso e a alegria da descoberta com o apoio e estímulo intelectuais de uma comunidade diversificada no campus. Buscamos desenvolver em cada membro da comunidade do MIT a habilidade e paixão para trabalhar com sabedoria, criatividade e eficiência para o progresso da humanidade.

Nota-se claramente o foco no conhecimento. Não poderia deixar de lado a Organização Européia para Pesquisa Nuclear, mais conhecida como CERN e pelo seu grande acelerador de partículas:

Estabelecida por uma convenção em 1954, a missão do CERN tem quatro vertentes:

Pesquisa
Buscar e encontrar respostas para questões sobre o universo

Tecnologia
Avançar as fronteiras da tecnologia

Colaboração
Unir as nações através da ciência

Educação
Treinar os cientistas de amanhã

Podemos olhar também para um instituto conduzido por um governo confessional, o britânico. Busquei a missão e valores da FERA, a Agência de Pesquisa Alimentícia e Ambiental da Inglaterra. Também vemos algo que não sai deste padrão:

Nossa visão é ser um provedor líder de soluções, evidência e conselhos científicos através de toda cadeia de provisão agro-alimentícia.

Nosso papel é focado em entender problemas e permitir soluções sustentáveis através de pensamento inovador e coleta e análise de evidência científica robusta. Isto nos dá a plataforma correta para podermos apoiar nossos clientes tanto nas decisões estratégicas quanto cotidianas que encaram.

Podemos passar por diversas declarações de missão e valores de institutos de pesquisa do Brasil e do mundo, e raramente encontraremos algo como uma profissão de fé: uma crença adotada e defendida. Ao invés disso, vemos compromissos com o conhecimento e com métodos que se mostraram eficazes em obtê-lo. E como o conhecimento é sempre definido como aquilo que é compatível com a verdade, todos estes compromissos são, direta ou indiretamente, compromissos com a verdade.

Agora olhemos do outro lado do muro, para vermos se encontramos organizações que têm compromissos com ideologias políticas e/ou religiosas. Comecemos com o mais óbvio, o Discovery Institute:

Missão:

A missão do Discovery Institute é promover uma cultura de propósito, criatividade e inovação.

Filosofia: 

Mente, e não matéria, é a fonte e coroa da criação, a fonte dos feitos humanos. Concebida pelos hebreus, gregos e cristãos antigos, e elaborada na fundação da América, a cultura ocidental encorajou criatividade, permitiu descobertas e apoiou a singularidade e dignidade dos seres humanos.

Ligando liberdades religiosa, política e econômica, a cultura judaico-cristã estabeleceu o Estado de Direito, codificou o respeito pelos direitos humanos e concebeu a democracia constitucional. Ela engendrou o desenvolvimento da ciência e tecnologia, assim como a criatividade econômica e inovação.

Em contraste, a cosmovisão materialista contemporânea nega a dignidade e liberdade humanas instrínsecas e reduz a criatividade científica e inovação tecnológica. Sua visão de um círculo fechado de possibilidades humanas num planeta de horizontes limitados, contudo, produz as derradeiras ideologias da escassez, conflito, suspeita mútua e desespero.

Este é um ótimo exemplo de como o trabalho de uma organização pode ser desacreditado somente pela missão desta. Não há qualquer compromisso com o conhecimento ou a verdade. Ao invés disso, há uma profissão de fé que depende de criacionismo (“a mente é a fonte da criação”) e da religião cristã, que é promovida como o alicerce de qualquer esforço humano. Se este é o compromisso da organização, qualquer fato que o contrarie deve ser ignorado, e qualquer mentira que o promova deve ser divulgada. E qualquer conteúdo exposto por uma organização desta deve ser visto com muita suspeita.

No conteúdo promovido por uma organização confessional como o Discovery Institute, assim como seus membros e afiliados, toda alegação deve ser conferida em todos os seus aspectos com total desconfiança, do raciocínio que leva à hipótese, à honestidade na apresentação das evidências, à investigação de evidências ignoradas ou ativamente omitidas, à conclusão a que se chega a partir das evidências. Se tudo tem que ser feito de forma independente, a pesquisa original é irrelevante. É como se alguém me dissesse que aconteceu algo sério, e a sua fonte fosse o Sensacionalista (site de notícias satíricas).

E quando isto acontece em uma instituição de ensino? Compare a missão do MIT acima com a do Sistema Mackenzie de Ensino:

Visão e Missão

O Sistema Mackenzie de Ensino (SME) foi criado com o propósito de elaborar materiais didáticos de excelência que auxiliem os educadores comprometidos com os princípios e valores cristãos no cumprimento de suas tarefas. A Visão e a Missão do Sistema Mackenzie de Ensino são as mesmas de sua entidade mantenedora, o Instituto Presbiteriano Mackenzie.

O Sistema Mackenzie, como outros similares, é uma troca: você paga pela educação até o ponto em que ela não conflita com os dogmas sob o qual sua entidade mantenedora opera, e em troca ele lhe doutrina a seguir os mesmo dogmas. Não há compromisso com o conhecimento, somente com a religião.

Se você conhece alguma dessas organizações ou deseja conferir os valores de alguma outra organização, deixe seu comentário. Ou se tiver evidência de que eu estou incorreto, como sempre.

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Cortella: “Religião é coisa de gente”

Mário Sérgio Cortella é teólogo e educador, muito respeitado por sua eloquência entre religiosos e filósofos, prolífico nas áreas de educação e ética. Em geral o respeito, mas também critico e posso até ridicularizar algumas de suas posições e alegações (como faço aqui). Faço o mesmo com outros, e até mais duramente; Pondé, por exemplo, é alguém que em geral não tem meu respeito como pensador, embora concorde com algumas de suas afirmações na política.

Enfim, uma não muito recente entrevista no Roda Viva gerou um meme no trecho em que Cortella responde à afirmação de que “religião é coisa de gente tonta”, levantada por ele mesmo. No contexto mais amplo, ele responde ao aparente aumento expressivo no número de ateus no Brasil nas últimas décadas. Eu prefiro que meus leitores tenham total acesso à informação, para que eu seja corrigido caso faça mau uso dela. O programa completo, no canal do Roda Viva do YouTube, está aqui, e o trecho sobre o qual comento está entre 1:09:20 e 1:15:00 (já posicionado abaixo).

Cortella começa afirmando falsamente que o número de ateus no Brasil (ou pessoas sem religião) não aumentou, e sim que agora os ateus têm mais liberdade para se assumirem como tal. Tangencialmente, é importante notar que ele reconhece pelo menos historicamente a intolerância direcionada a ateus. De qualquer forma, a alegação principal é falsa, ou no mínimo ingênua, porque ele não pode demonstrar que este é o caso, isto é, que o número de ateus permanece mais ou menos o mesmo nas últimas décadas. Afirmo ser falsa porque eu mesmo deixei a minha religião há alguns anos, aumentando o número real de ateus no Brasil. Segundo o IBGE, o número de pessoas que se declaram sem religião subiu significantemente entre os censos de 2002 e 2010:

ibge_semreligiao

O censo de 2010 detalhou melhor os dados, ainda de forma precária a meu ver (prefiro não discorrer), mas nota-se que o número de pessoas sem religião aumentou significativamente, de 12 para 15 milhões (23%, enquanto a população cresceu 12% no mesmo período). E este número não saiu dos “sem declaração”, embora este também tenha diminuído, conforme Cortella espera. Acho que os dados do IBGE são suficientes para demonstrar que o número de ateus realmente cresceu, e muito. Mas permanece a questão: por quê? Não se pode atribuir esse aumento à urbanização, como ele tenta fazer, porque este não parece ser um fenômeno expressivo nos últimos 10 anos.

Como Cortella não admite o cresimento, ele não precisa de uma explicação. Mas ele precisa explicar o barulho que os ateus de hoje fazem. A versão dele: é moda (sim, Cortella realmente parece aderir ao argumento de que  só existe “ateu modinha”). Então ele usa uma frase alegadamente dita pelo ateu barulhento: “Religião é coisa de gente tonta”. Note-se que não foi algo que o entrevistador ou algum ateu específico trouxe à tona, e sim Cortella. A sua resposta, numa mistura de ironia e subterfúgio linguístico, falha em qualquer sentido que eu possa dar a ela: “Religião é coisa de gente”.

A primeira coisa que ele faz é introduzir o conceito de que religiosidade e religião são coisas distintas: que eu posso ter religiosidade sem ter religião. Vamos trocar os termos: a pessoa pode ser metódica sem ter religião. Isto é óbvio, chega a ser burro. Mas Cortella precisa dessa confusão de termos para passar a idéia de que todo mundo tem religião (Ed René Kivitz faz isso há décadas). Acho que esta farsa periférica já está desfeita, então vamos à principal alegação.

“Religião é coisa de gente” pode dizer muitas coisas:

  1. Religião é algo exclusivo ao ser humano
  2. Religião é algo que emerge entre pessoas onde quer que estejam
  3. Religião é independente do intelecto

Todas as três interpretações não são condizentes com a realidade, e é o que pretendo demonstrar nos próximos parágrafos, antes de tratar do resto das asneiras que ele fala nesses meros cinco minutos.

Religião é algo exclusivo ao ser humano

Esta é fácil de se tirar do caminho: evidência recente de que chimpanzés têm superstições e constróem algo como altares mostram que religião pode ser algo inerente também a estes outros primatas. Acho que seria pouco produtivo dizer que religião é algo inerente a primatas, visto que tiraria a noção de que gente é algo especial, único.

Desde a primeira metade do século passado, já havia gente explorando essa idéia de que a superstição (forma mais primitiva de religião) não seria algo particular à espécie humana, ou que precisasse de um cérebro altamente capaz. Skinner chegou a produzir pombos supersticiosos. Se macacos e pombos podem ter conceitos religiosos, a religião não pode ser considerada nobre por ser exclusiva ao ser humano.

Religião emerge entre pessoas

Existe pelo menos um caso de uma aglomeração de pessoas que não deu origem a religião: a tribo Pirarrã (ou Pirahã). Esta é uma tribo em que só se acredita no que se vê — um proto-ceticismo. Não só eles não têm religião como sua forma de pensar fez com que um missionário, Daniel Everett, apostatasse.

Religião independe do intelecto

Para que esta alegação seja correta, precisamos de dados. E a conclusão deve ser feita a partir da média e não de exemplos específicos. Já que não sabemos o que faz uma pessoa adotar uma religião, devemos destacar correlações entre religião e intelecto, através dos vários aspectos deste: QI, formação, etc. Há quem diga que religião é um fenômeno social, mas como é um fenômeno mutante podemos determinar em que condições as mutações acontecem.

Primeiro vamos olhar para a população em geral: se pegarmos os números do Censo 2010, vemos que os sem religião não se destacam pela formação acadêmica geral, ficando na mesma média da população em geral: ~50% até fundamental incompleto, ~15% até médio incompleto, ~25% até superior incompleto, e ~10% com superior completo. Entre a população geral destaca-se o espiritismo, com 35% dos adeptos tendo superior completo. Mas devemos ser cautelosos ao usar formação acadêmica como referência de intelecto, uma vez que metade dos universitários pode ser  de analfabetos funcionais.

Se nos voltarmos para o panorama mais geral, olhando para o mundo todo, vemos que há correlação bem mais forte entre QI (Quociente de Inteligência) e religiosidade (a intensidade com que a religião permeia a vida do indivíduo), e consistentemente se verifica que quanto maior o QI, menor a religiosidade.

Já entre a elite acadêmica, vê-se ainda maior tendência: 41% dos membros da Associação Americana para o Avanço da Ciência são ateus, segundo o PewResearchCenter, em contraste com 83% do público em geral acreditando em alguma divindade.

Diante de tudo isso, fica claro que há, sim, uma correlação inversa entre religião e intelecto. Eu chego a argumentar, na minha série não terminada, que o cristianismo em versões bem difundidas é uma forma de seita, isto é, uma ideologia que depende do isolamento intelectual, além do social e cultural. Não estou dizendo que a religião faz com que alguém fique tonto, ou necessita de gente tonta para existir. Mas a presença da religião é mais confortável em populações menos espertas.

Conclusão

“Religião é coisa de gente tonta” é uma péssima forma de começar uma conversa. Mas a idéia que a frase expressa, de que a religiosidade é inversamente correlata à capacidade intelectual, é cada vez mais demonstrada como factual — novamente, correlação não é causalidade. Mário Sérgio Cortella simplesmente demonstra ignorância com relação aos fatos puros e simples da realidade. Ele fala outras asneiras nos minutos em que referencio, mas prefiro tratar delas em outro momento.

Não podemos afirmar que religião é coisa de gente tonta. Mas certamente nenhuma até agora se mostrou verdadeira.

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A evolução de uma lenda gospel

Esta é uma expansão de outros posts em que comento sobre o desinteresse por fatos em favor de maquiagens convenientes. Ele começou com uma matéria no Gospel Prime: Prestes a ser queimado vivo, pastor começa a louvar e o milagre acontece. Ele trata do causo do pastor que teria sido espancado e quase queimado vivo, mas que foi salvo da morte por louvar Jesus e/ou deus. Seria verdade?

Para investigar melhor, temos que conferir a fonte; e desta vez o autor deu a fonte: uma matéria em inglês do Morning Star (link no artigo supra citado), um site semelhante ao Gospel Prime: jornalismo voltado a uma ideologia. Limitar a informação a isto seria o mesmo que ler política na Carta Capital, porque o Morning Star não cita sua fonte, alegando obter as informações do correspondente na Índia, cuja fonte é o líder religioso Baban Kamble. Uma rápida busca revela outras possíveis fontes, diretas ou indiretas: Pentecostal pastor and his wife beaten by Hindu extremists in Maharashtra, e CONVERSION CRAMPS!

Vamos então montar uma linha do tempo, com os fatos relatados e suas alegadas fontes:

  • 16/09/2016 – O incidente acontece, segundo todos os relatos.
  • 19/09/2016 – O espancamento é relatado pelo Afternoon DC:
    • Prashant Bhatnagar, enquanto na companhia de um amigo, esposa e filho, é abordado por um estranho, que toma os panfletos dele.
    • Em seguida eles são abordados por um grupo, e um dos seus membros Gurunath Mumbaikar, se identifica como presidente da Shri Ram Pratishthan
    • As agressões ocorrem em dois momentos: na primeira abordagem, por ‘Gurunath’, e horas depois, quando a moto (scooter) do pastor quebra no caminho de volta. Desta vez, um grupo bem maior (30 pessoas) os aborda.
    • Na segunda onda de agressões Prashant é levado por 4 membros do grupo agressor em um carro, no qual uma arma é apontada para ele . Ele é espancado e abandonado perto da sua vila, onde um estranho o encontra e contacta seu amigo (o mesmo que já estava com sua esposa e filho), que o leva ao hospital.
  • 21/09/2016 – O espancamento é relatado pelo AsiaNews.it, e os fatos são:
    • Prashant Bhatnagar e sua esposa são espancados por homens do instituto Hindu educacional Shri Ram Pratishthan, abordados enquanto entregavam folhetos evangelísticos.
    • Os agressores os levaram para perto da prisão local, o espancaram e ameaçaram-no de morte com uma arma de fogo.
    • O reverendo foi agredido a ponto de ficar inconsciente no chão, e a esposa também foi agredida e xingada.
    • Uma fonte citada é Sajan K. George, presidente do Conselho Global de Indianos Cristãos.
  • 28/10/2016 – O espancamento é relatado pelo Morning Star, que modifica a narrativa:
    • O espancamento é feito por seis agressores liderados pelo presidente da Shri Ram Pratishthan, Gurunath Mumbaikar.
    • Não há menção à esposa do reverendo, também agredida
    • O pastor é ligado à igreja House of God (Casa de Deus).
    • A abordagem é feita enquanto o pastor e quatro fiéis oravam por um doente e distribuíam folhetos evangelísticos. Os quatro fiéis foram liberados após uma bronca.
    • Prashant foi mantido por duas horas num salão público, até que mais 30 extremistas chegaram.
    • O espancamento foi feito numa área isolada
    • Jogaram combustível sobre o agredido
    • Após o espancamento, o agredido foi levado inconsciente e deixado por algum tempo numa terceira localização remota, e depois levado de volta para perto de sua vila
    • O líder do espancamento, Gurunath Mumbaikar, foi indiciado no dia 16/10 segundo líderes da igreja.
    • A fonte é um correspondente na Índia e Baban Kamble, líder religioso.
    • Baban Kamble teria levado Prashant ao hospital, e não o amigo Sachin como relatado pelo Afternoon DC.
    • Prashant teria sido levado para o hospital de Khargar e não Nimalay, novamente contrariando o Afternoon DC.
    • Prashant louva Jesus/deus enquanto é espancado
  • 05/11/2016 – Gospel Mais traduz o relato do Morning Star, errando em alguns detalhes:
    • Prashant Bhatnagar é associado à Assembléia de Deus, que não é ligada à House of God.

Ok, vou parar por aqui. São muitos detalhes, e mais podem ser citados. Mas vamos aos que interessam. Note que, de acordo com a natureza do noticiário, detalhes são adicionados ou omitidos de acordo com a narrativa que cada um quer oferecer.

O Afternoon DC oferece os relatos, e opinião de um indivíduo atribuindo a ele esta opinião. O AsiaNews, italiano, resume a estória por ser menos relevante para o seu público. Já o Morning Star adiciona vários detalhes totalmente novos e alguns inconsistentes com o relato dado somente 3 dias depois do incidente pela fonte local. A narrativa tira a esposa, filho e amigo de Prashant para que o pastor seja o único protagonista. Alguns dos detalhes se tornam internamente inconsistentes. E finalmente, o Gospel Mais comete mais erros de tradução que mudam a filiação religiosa do agredido para algo que brasileiros conhecem. Mais ainda, a narrativa final torna a estória de Prashant muito parecida com Estêvão, o primeiro mártir, que via o céu se abrindo enquanto era apedrejado.

É importante destacar que há certos detalhes que devemos considerar suspeitos. Por exemplo, o de que o agredido teria sido deixado por alguns minutos numa localização remota antes de ser ‘desovado’ perto da sua vila. Sendo o único a prestar depoimento, como ele poderia saber deste fato se estava inconsciente? É o tipo de detalhe adicionado a partir de um relato onisciente em terceira pessoa — uma fábula ou lenda.

Mais do que o relato de intolerância que coloca o Hinduísmo (religião majoritária da Índia) no centro da estória, é conveniente contar uma estória de milagre motivado pelo louvor a deus/Jesus (como se alguém ser espancado fosse um milagre). É preciso que a narrativa seja de perseguição (pois os seguidores de Jesus serão perseguidos e isso valida a religião) e ao mesmo tempo de vitória, e não de sofrimento injusto. Até uma auto-elação é inserida, quando Baban Kamble diz que levou o ferido ao hospital e não o amigo da vítima.

E assim nasce mais uma lenda Gospel. Uma história real (provavelmente), de pessoas que sofreram por causa da intolerância e irracionalidade de um grupo, distorcida a cada retransmissão para atender aos interesses de cada pessoa que a conta. E a última pessoa que a recebe vê com bons olhos, a ponto de não questionar o que é ou não verdade. Afinal, a verdade é o menos relevante dos detalhes.

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O problema de não ensinar Filosofia na escola

Hoje eu paro um pouco para expor minha preocupação com relação à reforma do Ensino Médio no Brasil (MP 746/2016) e a pequena repercussão sobre um dos itens, que propunha retirar da grade pedagógica o ensino de Filosofia e Sociologia.

O que, afinal, é Filosofia?

Bem, depende de para quem você pergunta. A Wikipédia traz a definição de que ela “é o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores moraise estéticos, à mente e à linguagem”; outros, menos letrados, podem dizer que ela trata de “problemas que só podem ser resolvidos por meio da investigação racional, pois não podem ser constatados por meio de uma experimentação”. Enquanto uns dizem que Filosofia é tudo, outros dizem que é nada. E no último grupo está o proeminente físico teórico Stephen Hawking.

Como exemplo de que a Filosofia é o tudo e não nada, o título mais alto de qualquer área do conhecimento é PhD (Philosophy Doctor), ou Doutor em Filosofia. Significa que o detentor do título é capaz de avaliar a validade de afirmações da área, e os aspectos que vão além do mero conhecimento, da ética à política.

Filosofia na escola

Sabendo o que é Filosofia, é fácil ver como não dá para simplesmente não ensiná-la na escola. É preciso primeiro entender o que é conhecimento, de alguma forma, para depois transmiti-lo. A forma mais primitiva de se conceitualizar o conhecimento é informação autoritária: aquilo que a autoridade diz é fato inquestionável, que deve ser retido e retransmitido. E quando não se ensina Filosofia (mais especificamente, Epistemologia), é assim que a transmissão do conhecimento acontece.

Não ensinar Filosofia, ou melhor, ensinar essa Filosofia de autoridade, é conveniente para manter o status quo; sem questionamentos, sem mudanças, sem melhorias. E é exatamente isso que vemos hoje no Brasil: uma ditadura da maioria, em que qualquer ação é tomada a partir de apoio suficiente na esfera de poder adequada, sem se considerar consequências ou justificativas. Nas escolas, ensina-se o que quer, e o aluno sem preparo aceita porque o professor é legal, ou simplesmente porque é o professor quem disse e está escrito no livro didático.

Parar de ensinar Filosofia?

Vemos que só há um jeito de não ensinar Filosofia na escola: fechar suas portas. Claramente não é essa a intenção do proponente da MP. Então o que pode significar? Bem, se a intenção não é deixar de ensinar as ciências naturais e línguas (grande parte do que é Metafísica) sobram as outras 4 áreas da Filosofia (conforme a classificação mais usada): Epistemologia, Ética, Estética, e Política. Quando eu era criança, havia uma matéria no ensino fundamental chamada Educação Moral e Cívica. Era, de forma suscinta, o básico de Ética e Política para formar um cidadão minimanente decente. Parece-me que isto foi abolido. Estética é marginalmente abordado nas aulas de artes, e sobra Epistemologia, que é a base de todo o resto.

Para quem não sabe, Epistemologia é a área que estuda o que é e como se adquire conhecimento. Quem não tem uma boa base epistêmica está fadado a cair em todo tipo de golpe: medicina alternativa (homeopatia, acupuntura, reiki, fosfoetanolamina, etc.), loteria, e por aí vai; também não consegue fazer boas escolhas para cargos eletivos (como mencionei, é mais fácil manter o status quo), e não é capaz de melhorar seu desempenho profissional consistentemente. Todas estas coisas beneficiam quem quer trabalhar para o ganho próprio em detrimento de outros.

Enfim, a MP 746/2016

Por tudo que eu já mostrei até aqui (e o leitor sirva-se de pesquisar e demonstrar que eu não estou correto em qualquer colocação), a mera proposta de se deixar de ensinar Filosofia como parte do currículo escolar demonstra que a boa Filosofia já não é ensinada — e não será. Então fica a questão: permitimos que ensine-se algo ruim ou nada? Atendemos aos interesses dos que desejam que o povo continue sendo massa de manipulação de um grupo ou de outro? Se a resposta pode ser somente sim ou não, a minha é: ferrou. O mínimo necessário para a educação pública seria ensinar Epistemologia (pensamento crítico), Ética e Política básicas (educação moral e cívica). Ao invés disso, situação e oposição ficam brigando se o aluno deve ser doutrinado no marxismo ou não.

Como sempre, fica para o indivíduo a carga de suprir a necessidade de aprender habilidades essenciais para o desenvolvimento profissional e social, além de pagar para que o Estado providencie o mesmo ensino.

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Casos contra Jeová: assassinato

Cristãos têm seu deus em grande estima, chegando ao ponto de dizer que ele é perfeito, bondoso, misericordioso, etc. Eu sei que esse deus não existe, mas posso entreter a idéia de que ele exista para verificar se ele poderia ter essas características a ele atribuídas.

Supondo que Jeová, o deus da Bíblia cristã, exista, eu formularei uma série de casos contra ele. O primeiro é uma das mais graves acusações, na qual ele é réu confesso. Se Jeová for de fato um assassino, então ele não pode ser perfeito como se alega. Se, contudo, o apologeta defende sua perfeição mesmo diante de um veredito de culpa, ele (o apologeta) é culpado de relativismo moral. Portanto primeiro eu devo afastar esta possibilidade de defesa.

Se o que é certo o é independentemente de cultura (certo e errado são valores universais), então não se pode defender um crime dizendo que só é crime no nosso tempo e região. Mesmo que o estupro fosse comum na antiguidade, ele já era errado; mesmo que ninguém da época ou da região reconhecesse isto, nada muda o fato de que estupro é, e sempre foi, um crime — ou moralmente reprovável, no sentido mais geral. Uma pessoa perfeita, assim como um deus perfeito, deve ser moralmente irreprovável durante toda a sua existência.

Também devo caracterizar o crime de assassinato (homicídio): a morte de uma pessoa por outra, excluídos os atenuantes (legítima defesa, acidentes, etc.). De forma específica, o homicídio é punível quando praticado de forma intencional e injustificada, podendo ser agravado quando a vítima é desprovida de possibilidade de proteger-se. Alguém pode dizer que Jeová, sendo deus, não pode ser acusado de crime algum porque crimes só podem ser cometidos por pessoas. Se é assim, então alienígenas também não poderiam ser acusados de crime se invadissem a Terra e exterminassem todo mundo. Deuses também podem ser julgados por crimes, sim, se forem seres com agência moral — capazes de escolher entre certo e errado.

Dos fatos

Se a Bíblia for historicamente verdadeira e literal (pelo menos no que concerne a este caso), devemos tomar o seu relato e fazer um julgamento de valor independente. Se for possível dar mais de uma interpretação a fatos descritos de forma direta, literal, então o relato não tem valor. Se a Bíblia pode ser distorcida para dizer o que o leitor quer, ela é inútil para determinar os fatos. Mas vamos a eles:

A quem o castigo se aplica

Embora pareça trivial ressaltar isto, é importante dizer que a justiça, tanto humana quanto divina, estabelece que a pena deve ser dada ao criminoso.Se José comete um crime, é José quem deve cumprir a pena e ser corrigido. Punir alguém próximo, um amigo ou familiar, pelo crime de José, é um ato em si de injustiça e terrorista. Isto é senso comum inclusive na exegese bíblica.

O crime

Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. E disse Natã a Davi: Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás.
Todavia, porquanto com este feito deste lugar sobremaneira a que os inimigos do Senhor blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá.
Então Natã foi para sua casa; e o Senhor feriu a criança que a mulher de Urias dera a Davi, e adoeceu gravemente.
2 Samuel 12:13-15 (grifo meu)

Vemos aqui que Davi, então rei de Israel, reconhece que cometeu um crime e é perdoado por Jeová. Os inimigos de Jeová também teriam cometido o crime de blasfêmia, o qual não teria sido perdoado. Porém, a punição cai sobre o bebê, filho de Davi. Qualquer que tenha sido o crime, não foi praticado pelo bebê. Aqui vemos que Jeová, pelos seus próprios padrões — atemporais — é confessadamente injusto.

E sucedeu que ao sétimo dia morreu a criança; e temiam os servos de Davi dizer-lhe que a criança estava morta, porque diziam: Eis que, sendo a criança ainda viva, lhe falávamos, porém não dava ouvidos à nossa voz; como, pois, lhe diremos que a criança está morta? Porque mais lhe afligiria.
2 Samuel 12:18 (grifo meu)

Enfim, o bebê morre em decorrência da doença infligida por Jeová. Vemos que Jeová mata um bebê de forma intencional, premeditada, injusta, cruel (fazendo-o sofrer por uma semana), e sem possibilidade de defesa. Por qualquer padrão, um homicídio triplamente qualificado confesso.

Todos os fatos estão descritos claramente. Se a Bíblia foi escrita por inspiração divina, Jeová torna-se réu confesso.

Conclusão

Se fosse um indivíduo real, Jeová seria punido e encarcerado por este crime além dos tantos outros. A defesa de tal ato, dada sua natureza e clareza, constitui-se apologia ao crime.

Fica claro que Jeová, mesmo que exista, não pode ser perfeito, bom, ou justo. Dou o caso (este, pelo menos) como encerrado.

Alegações da defesa

A morte foi a menor das penas para a criança

Um advogado de defesa alegou que a morte do bebê foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. O menino seria a vergonha do pai, excluído pela sociedade, e por aí vai.

Digamos que isto seja fato, por mais absurdo que pareça. O bem do indivíduo (ou a prevenção do dolo a ele) não é a intenção do réu expressa nos autos: “porquanto com este feito deste lugar sobremaneira a que os inimigos do Senhor blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá” (v.14).

Mas mesmo que o filho de Davi estivesse fadado a viver como um pária, quem estaria errado seria o povo por jogar sobre o filho o pecado do pai (ver 2Sm 12 acima). E também não há qualquer indicação de que este seria o caso. Todos sabiam que o relacionamento com Bate-Seba era fruto de um homicídio, e mesmo assim o sucessor de Davi foi o próximo filho dele com Bate-Seba.

Esta tese da defesa, por qualquer ângulo, não se sustenta diante da acusação e dos fatos.

Algo precisava ser feito para demonstrar que a lição foi dada

Um segundo advogado de defesa apresentou uma ilustração para justificar a ação divina na acusação:

Você tem um filho, e ele bate nos amigos da escola. Você faz ele entender que fez algo errado, e o perdoa. Mas os amigos dele precisam saber que ele foi corrigido. Algo tem que ser feito.

A ilustração está incompleta. A acusação se baseia no fato de que um mal foi infligido cruelmente a um terceiro. Eu poderia completar a ilustração dada pelo advogado:

Então você, para mostrar quão vil foi o ato do filho, bate na mãe dele. Isso deve mostrar aos amiguinhos que agora ele não fará aquilo de novo.

Agora sim, a comparação está adequada. Eu até consigo entender melhor por que Jeová faria algo assim. Garanto que, se eu fosse Davi, jamais mataria alguém novamente. Afinal, outro assassino estaria pronto para dar a devida retribuição. Não só esta defesa é incompleta, como ela reforça a tese da acusação: a de que Jeová, se existir (ou se existisse), é tão imperfeito e cruel quanto um ser humano — pelo menos um capaz de homicídio triplamente qualificado.

Mas novamente, a alegação da defesa não é compatível com os fatos apresentados. A morte do filho seria uma punição para Davi, enquanto Jeová já teria o perdoado (v.13).

A testemunha não quer dizer o que diz

Um terceiro advogado, testemunha de Jeová, alegou inocência dizendo que a doença do bebê não pode ser atribuída a uma ação direta de Deus. Devemos, portanto, interpretar o v15 como tendo o sentido contrário ao literal: quando ele diz que o Senhor feriu a criança, devemos entender que Jeová nada teve a ver com a doença da criança.

A alegação é de que a testemunha é falsa. De fato é a única que pode inocentar o réu, mas fere o primeiro princípio (dos fatos acima), de que a Bíblia é verdadeira e literal para o caso em questão. E manifesta um princípio de interpretação bíblica que já mencionei neste singelo blog: que hermenêutica é a prática de afirmar que um texto não quer dizer aquilo que ele diz.

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