Todo mundo gosta de mensagem subliminar

Na virada do milênio, se minha memória não falha, falar das mensagens subliminares nos desenhos da Walt Disney estava na moda. Claro que o fato de essas mensagens, quer sejam intencionais ou acidentais, serem de tom sexual em desenhos para crianças é o principal motivo de revolta, mas outras formas de influenciar o comportamento mais ou menos conhecidas — e com eficácia discutível — também são percebidas como desonestas, como a escolha de cores para logomarcas. Tanto as mensagens escondidas quanto as influências perceptivas parecem ter o intuito de criar o que se chama em psicologia de priming ou pré-ativação.

Mas por que não gostamos de mensagens subliminares e outras formas de influência escondidas? Parece que gostamos de dar uma justificativa bonita, mesmo que falsa. A minha sugestão é que não gostamos que nos convençam de algo, ou nos façam agir de certa forma, sem que tenhamos a chance de pensar a respeito e decidir por nós mesmos. O filme A Origem, embora não seja famoso por isso, discute exatamente esse tema: implantar uma idéia forçosamente é errado? O filme tratar os protagonistas como criminosos certamente deixa a impressão de que o consenso questionado é que sim, isso seria uma violação contra a liberdade individual de pensamento.

Por outro lado, A Origem também expõe o fato de que não fazemos as coisas porque são o correto, e sim porque nos interessam egocentricamente. Em nenhum momento os interesses de Robert Fischer são considerados — a não ser na forma através da qual a idéia será implantada. Da mesma forma, os interesses e o bem-estar de quem recebe a mensagem subliminar são considerados. E como normalmente estamos do lado receptor, portanto achamos que qualquer influência em que não se dá a oportunidade de pensar e decidir é ruim. Mas nem sempre é o caso.

Recentemente também foi aprovado no Brasil o ensino religioso confessional facultativo nas escolas públicas, para crianças de 9 a 14 anos. Já destaquei antes que o analfabetismo funcional atinge talvez a maioria da população (proporções dependem da definição usada), o que significa que crianças não têm a capacidade cognitiva para discernirem o que é verdadeiro do que é falso, coisa que as escolas também não ensinam. Ou seja, qualquer coisa que não integre o rol do conhecimento acadêmico e seja ensinado como verdadeiro para crianças tem o mesmo efeito de uma mensagem subliminar ou priming.

Estou dizendo que ensinar religião a crianças é um abuso? Sim! Não só porque é matéria de crença pessoal e não conhecimento, mas também porque à religião interessa privar o indivíduo das ferramentas cognitivas para discernir verdades de falsidades. O apologista Tim Keller deixa isto muito claro em uma mesa redonda recente. Falando a respeito de como a Teoria da Evolução acaba com o cristianismo, Keller diz com naturalidade:

Eu tenho que permitir que minha leitura do texto corrija meu entendimento do que as ciências dizem

(também disponível com legendas no Facebook)

Keller admite que o método científico é uma forma de conhecer a natureza (o mundo real), e que ele entra em conflito com o método religioso. O método científico, isto é, o naturalismo metodológico, é a única forma de adquirir conhecimento que consistentemente produz resultados corretos, mas a sua lavagem cerebral faz com que ele rejeite este método em favor de aceitar algo que está escrito na Bíblia, um dos métodos mais falhos de adquirir conhecimento. É uma vítima de mensagens subliminares propagando-as. Ele aprova a mensagem subliminar porque concorda com seu conteúdo.

E quando você envia seu filho para a escola e permite que ele frequente as aulas de religião, agora autorizadas também a serem confessionais, ou quando o leva para a igreja, ou quando lê os relatos do seu livro sagrado como se fossem verdadeiros faz com ele o mesmo: o priva das ferramentas que lhe permitirão adquirir conhecimento e diferenciar verdade de falsidade. O projeto Escola Sem Partido, que eu apóio somente com restrição ao item 5, propõe exatamente isso.

Agora, por que é assegurado aos pais o direito sobre a consciência moral dos filhos? Isso valeria para um psicopata? Como assegurar que a responsabilidade moral de educar para o conhecimento não infrinja o direito à livre expressão dos pais? Esse, meus amigos, é tópico para outra reflexão.

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Porque o Argumento Ontológico não merece sair da mesa das crianças

Prólogo

Sim, esta é mais uma resposta a um artigo do NAPEC. Mas antes de qualquer coisa, devo fazer uma observação. Grupos de apologética não são voltados para os incrédulos e frequentemente escrevem somente para os crentes, numa linguagem que só eles entendem ou sobre assuntos que só interessa a eles. A não ser que seja convidado, jamais comentarei sobre algo que diga respeito a doutrinas periféricas à apologética em si. Mas aqui estou novamente comentando, ou rebatendo, um artigo de autoria do Djesniel Krause no site do NAPEC.

O que poderia ser visto como perseguição espero que seja visto como elogio. O fato de eu poder contra-argumentar significa que se trata de algo que no mínimo é inteligível, que traz informações razoavelmente claras e mostra alguma disposição em analisar alegações. O artigo do Djesniel consegue apresentar o Argumento Ontológico de uma forma muito clara, quer isso seja uma vantagem ou não, e é essa clareza na exposição que permite pelo menos tentar um diálogo. E eu ainda não abordei esse argumento aqui, então tenho mais um motivo para responder.

Sinto um cheiro estranho, mas será?

O Djesniel apresenta o argumento primeiro na forma original, de Anselmo, que realmente é bastante confusa mesmo para um iniciado em Filosofia como eu. E apresenta algumas reações:

Até mesmo o biólogo Richard Dawkins, citando Bertrand Russel confessa que “é mais fácil sentir a convicção de que [o argumento ontológico] deve ser falacioso que localizar onde exatamente está a falácia”

Dawkins é um grande biólogo e divulgador de ciência, mas não tenho convicção na sua capacidade de avaliar apropriadamente um argumento que só se baseia no pensamento. Seria como pedir para alguém traduzir o que o Deepak Chopra fala. Mas existe essa sensação de que há algo errado. E essa foi uma das coisas que eu adorei no artigo: ele dá uma forma muito mais clara do argumento, em que pode-se enxergar perfeitamente onde estão os problemas.

Para auxiliar na compreensão do argumento, Alvin Plantinga, já mencionado anteriormente, o esquematizou de forma bastante didática conforme segue:

1. Deus existe no entendimento, mas não na realidade;

2. A existência na realidade é mais grandiosa do que a existência apenas no entendimento;

3. A existência de Deus na realidade é concebível;

4. Se Deus existir na realidade, então seria mais grandioso do que é;

5. É concebível que exista um ser mais grandioso do que Deus

6. É concebível que exista um ser mais grandioso do que o ser mais grandioso tal que nada maior pode ser concebido.

Dado o claro absurdo a que se chega na conclusão (6), que é autocontraditória, pode-se afirmar que:

7. É falso que Deus exista no entendimento, mas não na realidade.

Temos aqui  7 afirmações enumeradas, todas elas com seus próprios erros. Na tentativa de não cansar o leitor, tentarei sem bem suscinto em descrever cada um dos problemas, e posso detalhar melhor se for conveniente — comentar é gratuito e nada referente ao que digo é censurado.

Falsa dicotomia

1. Deus existe no entendimento, mas não na realidade;

O que impediria Deus, ou qualquer outra coisa, de existir no entendimento e na realidade? Por que tem que ser ou? Alguém pode criar um conceito a meu respeito, imaginar minhas reações, conceber interações comigo, isto é, eu posso existir no entendimento de alguém, e ao mesmo tempo ser capaz de interagir com essa pessoa.

A primeira afirmação do argumento parece divergir da epistemologia correta, que se propõe formular um modelo mental a partir dos fatos observáveis ao imaginar um fato e aceitá-lo antes de avaliar se podemos esperar alguma observação a partir do modelo. Como eu posso determinar se Harry Potter existe na realidade também, e não só na imaginação?

Non sequitur

2. A existência na realidade é mais grandiosa do que a existência apenas no entendimento;

3. A existência de Deus na realidade é concebível;

4. Se Deus existir na realidade, então seria mais grandioso do que é;

5. É concebível que exista um ser mais grandioso do que Deus

Donde se conclui que a existência na realidade é mais grandiosa do que a existência no entendimento? Se alguém afirmar o contrário, como podemos saber quem está correto? Da mesma forma, poder-se-ia dizer que a existência de Deus na realidade é inconcebível; como um ser inifinito poderia existir em um conjunto finito de dimensões (a realidade)? Como um ser onisciente seria possível no mundo real? E se os pontos 2 e 3 são infundados, 4 também o é.

Finalmente, se eu concebo algo maior do que o máximo anteriormente concebido, a conclusão a que se chega é de que eu estava errado da primeira vez. Se eu concebo algo mais grandioso do que Deus, o que eu imaginei que fosse Deus estava errado. Se eu acho que um pacote de arroz de 5kg é o maior que existe e dou de cara com uma saca de 60kg, eu simplesmente corrijo a minha referência de tamanho máximo.

Equívoco

6. É concebível que exista um ser mais grandioso do que o ser mais grandioso tal que nada maior pode ser concebido.

O erro aqui é semelhante ao truque em álgebra para mostrar que 2=1. Plantinga (ou Anselmo) usa uma definição inválida para fazer uma afirmação absurda a fim de concluir o contrário dela. Deus é definido como o ser mais grandioso. Se podemos imaginar algo maior que Deus, então esse é Deus e não o Deus anterior. Até pouco tempo atrás meu filho não conseguia conceber um número maior que mil. Agora que ele consegue, significa que existe um número que é maior que todos? Ou que sequer existe um limite para números maiores? Ou para o matemático de plantão, a imagem de f(x) = x não tem limite com o domínio no conjunto dos números naturais. Se a função do que é ser grandioso não tem limite, então também sempre haverá algo maior do que o maior número concebível. Analogamente, sempre haverá algo mais grandioso do que a sua concepção de Deus até que se estabeleça um limite de grandiosidade. Mas aí teríamos que afirmar que há um limite para Deus. E este beco sem saída não foi criado por mim.

E se o argumento estiver correto?

Bem, digamos que o Argumento Ontológico não tem uma falhazinha e mereça ir para a mesa dos adultos. Se eu conseguir conceber algo mais grandioso do que Deus, o deus cristão, então fica demonstrado que o deus cristão não é Deus.

Mas o que é ser grandioso?

Em nenhum momento foi apresentado o que os apologistas dizem que é ser grandioso e porque isso seria necessário para Deus. Será que ser grandioso é ser poderoso? Moral? Sábio? Que qualidades compõem essa definição? Se for alguma destas, eu consigo conceber algo mais grandioso que o deus cristão.

Consigo conceber um ser mais poderoso que o deus cristão, capaz de interagir com sua criação de forma objetivamente verificável, em quem a crença não dependeria de fé.

Consigo conceber um ser mais moral, mais bondoso que o cristão, que ao falar de escravidão seria só para condenar, e que incluiria um mandamento que diria algo como “não possuirás outro ser humano como propriedade” ao invés de “comprareis escravos e escravas das nações que estão ao redor de vós”. Um ser que não dependeria de sacrifícios humanos para conceder perdão. Um ser que, sendo incapaz de sofrer prejuízo, seria incapaz de sentir ira.

Consigo conceber um ser mais sábio, que faz coisas das quais não se arrepende, como criar uma raça superior a si, à qual não precisa matar afogada e depois perceber que isso é errado. Até mesmo a raça humana foi capaz de produzir computadores cuja capacidade excede a humana em muitas atividades.

Consigo conceber um ser tão mais poderoso que seria capaz de dar origem a todo o universo sem sequer existir.

Se o Argumento Ontológico fosse válido, eu teria acabado de demonstrar que os cristãos acreditam em um deus falso e precisam descobrir quem é Deus, se é que ele existe. Mas o fato é que o argumento estabelece que Deus pode existir se for somente imaginado. E é por isso que ele não merece sair da mesa das crianças.

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É só religião e política?

O que política, religião e software podem ter em comum? Mais especificamente, que abordagens nestas áreas da vida podem ter em comum? Eu gostaria aqui de mostrar por que eu vejo as três e muitas outras intimamente interligadas, e como alguém pode cometer erros que afetem suas visões em todas as áreas e uma correção que funciona para todas ao mesmo tempo.

Comecemos pelo discurso político. É comum se afirmar que o socialismo não funciona, e dar os vários exemplos de maus governos socialistas, da Rússia de Stalin à Venezuela de Maduro; e qual a resposta que os defensores do socialismo dão? Mas eles não implementaram o verdadeiro socialismo, e sim uma versão distorcida que satisfez seus próprios interesses. Ou, nas palavras de Luciana Genro:

nos sentimos obrigados a expor toda a nossa preocupação com o desvirtuamento do processo bolivariano iniciado em 1999

O mesmo fenômeno se observa no desenvolvimento de software. Quando alguém diz que o modelo cascata não é apropriado, alguém pode dizer que ele não foi aplicado corretamente ou que não é o processo apropriado para aquele projeto:

Não é culpa do processo se os que o põem em prática falham em fazê-lo com sucesso.

E exatamente o mesmo acontece com religião, como na associação entre cristianismo e guerras santas:

essas intensas campanhas e ações, chamadas de “Cruzadas” refletem o rumo equivocado que imperava na igreja conhecida como cristã

E eu poderia dar outros exemplos desse tipo de pensamento na sociedade. O fato é que o cérebro não é uma máquina de eliminação de erros, e sim uma máquina imperfeita — mesmo que muito boa — de formação de modelos. Diferentes mentes criam diferentes modelos (socialismo e liberalismo, cascata e ágil, religiões e naturalismo) e precisamos de meios para descobrir quais são os melhores. Só que para isso precisamos ser capazes de refletirmos a respeito dos modelos que já aceitamos e encontrar as falhas neles, e isso é extremamente difícil.

Para começar, não somos “telas em branco”. Desde a infância somos influenciados a criarmos nossos próprios modelos do mundo e desenvolvemos nossas tendências cognitivas — formas intuitivas de pensamento que podem nos levar ao erro. Naturalmente, também desenvolvemos resistência a abandonar nossas crenças. E tudo isso vale tanto para as crenças que correspondem à realidade quanto para as que não.

Enquanto alguém não é capaz de identificar suas tendências cognitivas e as contornar para corrigir crenças, parece-me inviável melhorar seu posicionamento político, religioso, social e profissional. É preciso abrir os olhos para os efeitos ruins do uso de um modelo da realidade falho para poder avaliar se o modelo em si é o problema. Alguém que descarta o efeito (produtos que não atendem a necessidade expressa ou prática do projeto, guerras santas e corrupção, por exemplo) como não tendo relação com a sua crença jamais poderá corrigi-la se estiver incorreta.

Minha postura como cético não afeta somente como eu abordo política e religião. Eu também aplico o ceticismo no trabalho, e com grande diferença nos resultados. Como desenvolvedor de software, ao identificar e contornar limitações e erros cognitivos, eu estou melhor capacitado a realizar meu trabalho. Consigo enxergar como a metodologia ágil responde a desafios que cascata não pode e como responder a novos. E isso só pôde acontecer porque eu fui capaz de reavaliar minhas crenças e como eu as formo.

Mas por que,  então,  focar em religião e política? Simples, porque são as duas áreas que afetam todos nós, mesmo quem não compartilha da crença do outro. Quando vivemos em sociedade, em especial numa democracia, as decisões são tomadas em grupo; e quando há grupos de interesse que usam suas crenças sem base sólida para tentar ditar como todos vivem, é preciso questionar a crença e afastá-la da esfera política se ela não for boa para todos. Do ensino religioso confessional à doutrinação partidária em escolas, da bancada evangélica aos partidos comunistas, das leis contra blasfêmia à restrição da liberdade de expressão, todas essas idéias me afetam diretamente. E enquanto crenças não  confiáveis forem usadas para justificar tentativas de controlar a minha vida, eu terei algo a dizer contra elas.

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A arma secreta

Ao olhar em retrospecto, o universo particular do convertido é um espetáculo à parte. Assim como alguém que percebe ter feito alguma cagada feia, o recém convertido livra-se de tudo que o liga à vida de perdição. Porque no começo a euforia da conversão em si torna as outras coisas dispensáveis, de forma que não é necessário ainda criar desculpas para mantê-las. Claro que comigo não foi diferente, e eu joguei fora os CDs de heavy metal e demais músicas mundanas, para trocá-las pelas suas versões gospel. E foi então que encontrei Petra, banda de rock muito famosa no final do século passado e que talvez até continue na ativa. E é do Petra uma das músicas que inspira este post: Secret Weapon. Seu refrão diz, em tradução livre: tenho uma arma secreta / orarei por você / tenho uma arma secreta / que vai lhe alcançar / importo-me muito com você / orarei por você.

Bem, e daí? Daí que eu tive a conversa que retratei anteriormente em vídeo e em texto, e me deparei com uma terceira alternativa à qual eu não havia dado importância. Deixe-me resumir o argumento, que transcorreu exatamente como eu previa.

  • Premissa 1: alguém que se importa com o bem estar de uma pessoa a alertará insistentemente sobre um perigo iminente com o objetivo de livrá-la de tal perigo.
  • Premissa 2: minha família se importa com meu bem estar.
  • Premissa 3: minha família acredita que o inferno é um periogo iminente para mim.
  • Conclusão: minha família me alertará insistentemente sobre o perigo iminente do inferno.

Mas a realidade é contrária à conclusão, então uma das premissas tem que estar errada. Se as premissas 2 e 3 estiverem corretas, a incorreta só pode ser a primeira, que pode ser reformulada para: alguém que se importa com o bem estar de uma pessoa fará de tudo para que seja livrada de um perigo iminente. Ao mudar esta premissa, é possível introduzir uma nova ação como alternativa ao diálogo: a oração.

Mas afinal, que vantagem isso traz? Claro, permite que o crente mantenha as outras premissas intalteradas, já que são essenciais à crença. Mas não faz sentido dentro do contexto geral. Eu sou alguém que está disposto a considerar a oposição e apresentar suas justificativas tão bem ou melhor que seus proponentes; mas porque eu também posso mostrar que são inválidas, o diálogo não é um caminho conveniente para convencer-me. Então o único caminho que resta é pedir para que Deus intervenha, altere seu plano, interfira no meu livre arbítrio ou manipule as circunstâncias com este fim. Isso se Deus existisse.

Oração e a soberania divina

Mesmo no Calvinismo, este é um grande problema. Se Deus é soberano e tem um plano perfeito para cada ser humano, então a oração não muda o que Deus vai ou não fazer. Se Ló orasse pela sua mulher ela não olharia para trás? Se Samuel orasse por Davi ele não enviaria o marido de Bate-Seba para morrer? Se Jesus tivesse orado por Judas ele não teria sido traído? Na verdade, a desculpa para o caso de Jesus, por exemplo, é que ele conhecia a vontade de Deus e por isso não orou para não ser traído. Mas ele orou para ser livrado da cruz, como se não soubesse que esse era seu destino.

E se Deus quiser que eu seja ateu, se quiser que eu vá para o inferno? Como dizem os calvinistas, ele separou alguns para a salvação e muitos para a condenação, então não seria uma idéia de forma alguma estranha. Se sim ou não, não tem como alguém saber — e se tiver, gostaria de avaliar como para ganhar um Nobel.

Oração e livre arbítrio

Mas digamos que o plano perfeito de Deus continue perfeito mesmo se sofrer mudança. A outra opção é mexer com o livre arbítrio, lembrando que essa é uma das desculpas para o dilema de Epicuro. Pois se Deus dá liberdade para que as pessoas escolham no que crer de acordo com os métodos e informações disponíveis, orar para que ele mude a opinião de alguém a respeito de qualquer assunto requer um de dois caminhos possíveis:

  1. forçar, através do controle mental, a mudança — como alega-se que fez com faraó (Ex 7:3)
  2. criar circunstâncias para que uma mudança seja inevitável, como fazer com que um fóssil de pégaso apareça no meu quintal

Qualquer destas opções acaba com a possibilidade da existência do livre arbítrio como algo que não pode ser alterado de acordo com a vontade divina, restando a quem ora o ônus nem um pouco pequeno de motivar a divindade.

E precisa?

Mas afinal, para quê tudo isso? Com toda humildade, acho que seria mais fácil conversar comigo do que convencer Deus de que ele tem a idéia errada ou deve infringir a regra que lhe livra do dilema de Epicuro. E o que é este blog senão exatamente uma das muitas tentativas de estabelecer essa conversa?

 

Mas essa é uma conversa que eu também terei sozinho, pois se alguém estivesse disposto a dialogar eu não precisaria estar escrevendo este post. E se alguém lesse e se engajasse, provaria que eu não estou certo. No final das contas, estamos todos falando sozinhos e é exatamente com isso que desejo acabar.

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Isolamento ideológico (argumentum ad confidentia)

Também disponível em vídeo para quem tem preguiça de ler.

Imagine que alguém que você ama muito — um familiar ou melhor amigo — está na beira de um penhasco não sabe (está cego, sob efeito de drogas, escolha um motivo). Essa pessoa deseja ir a algum lugar e não acredita que diante de si há um penhasco, e sim um campo verdejante. Eu aposto que, se você realmente ama esta pessoa, você faria de tudo para que ela não caia. Pessoalmente, eu não a deixaria em paz até convencê-la de que ela cairá no penhasco ou de que há um caminho melhor para onde quer chegar, mesmo que precisasse segurá-la e forçar a examinar melhor o que está fazendo.

Agora, se fosse um desconhecido, alguém com quem eu não me importo ou até um desafeto, eu não faria o mesmo. Talvez eu até alertasse — “ei, tem um penhasco aí na frente!”, mas se a pessoa debochasse de mim eu poderia simplesmente esperar a queda e gritar enquanto a pessoa cai, “há! Eu avisei!”.

Agora, se eu acreditasse que há um penhasco à frente mas eu o pudesse ver por causa de uma densa névoa e eu não pudesse convencer a pessoa somente através da visão, eu não desistiria: jogaria pedras, procuraria por eco, faria de tudo para, junto com a pessoa que discorda, chegar a conhecer os fatos. De qualquer forma, só há duas formas de eu deixar a pessoa em paz: não me importar com ela, ou não ter confiança de que ela está em perigo.

Argumentum ad confidentia

Antes de dar um tempo de falar sobre religião, gostaria de apresentar um argumento contra a religião não muito visto. Provavelmente nem é um argumento contra a religião em si, e sim contra a confiança que as pessoas têm nela. Filósofos gostam de nomes em latim, então batizei este de argumentum ad confidentia — apelo à confiança.

Eu fui evangélico fundamentalista por uns 12 anos, dos 19 aos 32 anos aproximadamente. Não foi uma questão de infantilidade ou doutrinação, eu realmente acreditava em toda a estória. E em determinado ponto eu passei a ter pena das pessoas que não criam; elas estavam condenadas a uma eternidade de sofrimento no inferno. Mas alguns fatores me impediam de me tornar um pregador de rua:

  • já há bastante gente fazendo isso, e não parece dar tão certo assim
  • eu tenho que trabalhar para sustentar a mim e minha família nesta vida
  • eu não tinha os recursos para mostrar sem dúvida que eu estava certo — crença era questão de fé
  • eu sou tímido e poderia terceirizar o evangelismo a alguém mais capaz

Mas o mais importante é que ninguém próximo a mim estava condenado ao inferno. Minha família era, e ainda é, de crentes, e todos os meus amigos eram da igreja. Mas este não é mais o caso. De fato, o cenário é exatamente aquele que eu nunca tive que enfrentar quando eu era crente: se o cristianismo na versão evangélica é correto, então eu com certeza estou a caminho do inferno, para dizer o mínimo.

É aqui que entra o exemplo hipotético do início deste discurso: eu estou a caminho do penhasco, e ninguém se coloca no meu caminho. No máximo eu escuto um “ei, cuidado! Você não sabe o que vai acontecer quando morrer!”; e quando eu digo que sei — nada, permite-se que eu siga no eu caminho.

Nenhuma conclusão é boa

Bem, este é o ponto em que as coisas ficam um pouco tenebrosas para mim nesta vida. Pessoalmente, eu não gosto de nada que segue as considerações anteriores. A primeira possível conclusão é que minha família, as pessoas mais próximas a mim, não se importam comigo. É a conclusão direta da desculpa “prefiro ter paz a ter razão“; o fato é que, exceto pela minha própria disposição em procurar pastores para descobrir se o que eu estava descobrindo era incorreto, em nenhum momento alguém quis me abordar para convencer-me que céu e inferno são reais — e isto é algo que eu estou totalmente disposto a fazer. Na verdade, isto é o que eu faço sempre — olhe para este blog/site. E só eu.

Se eu presumir o contrário, que na verdade as pessoas se importam comigo, com meu bem-estar, as coisas melhoram só um pouco. Aí a conclusão é que elas não acreditam de verdade. Ninguém que se importa comigo realmente acredita que céu e inferno são reais, ou em salvação, ou qualquer coisa do tipo. Cada um acredita no que quiser, porque no final das contas todo mundo está andando sem saber seu destino ou por que está indo na direção que tomou. E mesmo assim dão 10% do seu salário para a igreja torrar com pastores, dedicam tempo e esforço para parecer que acreditam, brigam com quem não parece acreditar, formam falsos professores e fazem cursos sem propósito. Convenhamos, o que parece mais provável?

Existe lado bom?

Enquanto termino este post, eu tento terminar com algo positivo. Aprender algo é bom, e eu não gosto de ser entristecido por algo novo que porventura tenha descoberto. Mas convenhamos, isto não é verdade. Digamos que eu tivesse câncer e tivesse uma vida perfeita. Mesmo que descobrir ter câncer terminal estragasse um pouco dessa felicidade, eu iria querer saber. Mas existe uma possibilidade boa: talvez alguém perceba o que demonstra através de suas ações, ou falta delas, e decida mudar. Isso seria fantástico.

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Re[3]: Ciência e fé cristã

fireworksEste é um momento histórico, que merece uma comemoração: um apologista cristão decidiu responder a crítica. Talvez isto pareça sarcasmo, mas realmente não é. Meu sentimento de gratidão é sincero, e os fogos simbolizam essa comemoração. Note-se que a comemoração não tem relação direta com o diálogo, e simplesmente porque o fato de ele ser evitado a todo custo por crentes é algo de que sempre reclamo.

Vamos tentar não nos perder aqui. Djesniel Krause escreveu sobre a não existência de um alegado conflito entre ciência e fé cristã, eu respondi tentando esclarecer onde o conflito está e ele respondeu de volta dizendo que eu não entendi a proposta inicial. Afinal, quem não está entendendo quem? Esse é um problema recorrente em conversas sobre qualquer assunto. Então ao invés de responder diretamente à questão principal, do conflito entre ciência e fé, quero dedicar a maior parte deste post a esclarecer o que entendo do Djesniel e o que quero dizer quando me refiro a termos como ciêncianaturalismocosmovisão, e cristianismo.

Meu problema inicial com o texto do NAPEC foi a criação de um espantalho que impediu de abordar as questões que alguém como eu teria dentro da proposta do texto. Recapitulando:

Em primeiro lugar, quando vejo um título desse, algumas expectativas surgem. Ao ler o artigo, espero encontrar uma desambiguação de “ciência” e “fé cristã”. O primeiro diz respeito ao conhecimento obtido através do método científico, ou ao método em si? Semelhantemente, o último é sinônimo de “crença” ou de “confiança” em uma?

A tréplica do Djesniel continua deixando quase todos esses pontos não respondidos. História da ciência e argumentos apologéticos, mesmo que eu discorde de todos, são irrelevantes. Nem entrarei nessas distrações.

Cosmovisão

A primeira coisa a se notar é que o Djesniel fez questão de corrigir-me no que diz respeito ao escopo do conflito:

Trata-se, portanto, de uma guerra de cosmovisões, com pessoas como Sagan ou Dawkins advogando uma visão de mundo naturalista, que elimina qualquer possibilidade de intervenção divina a priore, e uma visão de mundo teísta, que está aberta a possibilidade da crença na intervenção de Deus na ordem criada.

Existem duas coisas das quais eu discordo, e em virtude do tempo não apontarei todas as fontes para minha opinião. Djesniel diz que:

  1. O Naturalismo eliminia qualquer possibilidade de intervenção divina a priori.
  2. O teísmo dá a possiblidade da crença na intervenção de Deus na ordem criada.

E devo corrigir isto para:

  1. O Naturalismo não presume a possibilidade de intervenção divina, ficando limitado à investigação do mundo natural até que seja demonstrada a existência do que hoje se chama sobrenatural. Quando isto acontecer, ele será incluído no natural.
  2. O teísmo (e aqui falo especificamente do cristianismo) presume, a priori, que a intervenção divina é constante, da criação aos tempos atuais e não permite a dispensa de tal suposição.

Mas afinal, o que são Naturalismo e Cristianismo? A minha definição de cosmovisão preferida é quase a mesma que, coincidentemente, está na Wikipédia; uma cosmovisão é qualquer sistema filosófico que trata das seguintes áreas, ou responde às perguntas principais de cada uma:

  • Epistemologia: o que é conhecimento e como pode ser obtido?
  • Física: quais são os fatos que podem ser conhecidos?
  • Metafísica: o que vai além dos fatos conhecidos? (linguagem, por exemplo)
  • Ética: quais comportamentos sociais são desejáveis?
  • Estética: o que é beleza e onde ela pode ser encontrada?
  • Política: como a sociedade deve ser organizada?

Eu e Djesniel concordamos, aparentemente, que ciência diz respeito a Epistemologia e Física. Isto é exatamente o que quis dizer quando disse informalmente que alguém pode chamar de ciência tanto o método de aquisição de conhecimento (epistemologia) quanto o conhecimento adquirido ao aplicá-lo ao mundo real (física). Acho que também concordamos com a importância dessas duas áreas para as outras dentro de uma cosmovisão: não se pode construir um sistema ético sem saber qualquer coisa sobre os fatos do mundo real, por exemplo.

Naturalismo

Em primeiro lugar, devo desfazer a confusão comum entre Naturalismo Metafísico e Naturalismo Metodológico. Este diz respeito à epistemologia da ciência, e aquele é a cosmovisão que a usa como única abordagem. Isto quer dizer que um naturalista rejeita a noção de algo sobrenatural não como um pressuposto, mas como uma limitação. Se o sobrenatural está fora do alcance da epistemologia, ele não deve ser considerado ao se responder às outras questões na cosmovisão. É esta a abordagem de autores Richard Carrier ao dar uma visão completa do Naturalismo Metafísico em Sense and Goodness without God (sem versão em português). Eu, como cético, adoto as linhas gerais do Naturalismo até que se dê um meio válido para se investigar o sobrenatural. Essa abertura ao diálogo é essencial também dentro da minha cosmovisão particular. Então note como o Naturalismo é secular por inevitabilidade, não por qualquer pressuposto.

Reitero a principal característica do Naturalismo para esta conversa: a única abordagem para a epistemologia é o método científico, pois nenhuma outra se mostrou válida — e podemos nos aprofundar no porquê se este se tornar um ponto de discordância.

Ressalto, contudo, que não precisamos e nem devemos falar sobre Naturalismo Metafísico. Se a ciência está restrita à Física, isto é, a investigar os fatos a respeito do mundo natural, e se cristãos não adotam o Naturalismo Metafísico, qualquer conflito entre este e o Cristianismo é irrelevante. O que devemos averiguar é se existe conflito entre a ciência (Naturalismo Metodológico) e Cristianismo. Somente devemos usar o Naturalismo Metafísico se desejarmos investigar qual a melhor aplicação do método científico.

Cristianismo

O cristianismo também pode ser entendido como uma cosmovisão, e é assim que Djesniel parece usá-lo. Supondo, novamente, que esta conversa diz respeito somente a duas áreas da filosofia, Epistemologia e Física, que modelos o cristianismo usa? Ao alegar que não há conflito entre ciência e fé cristã, sou obrigado a concluir que o método científico está no conjunto de abordagens epistêmicas. Se for o único não há diferença entre o Naturalismo, então tem que haver mais alguma coisa. O meu argumento é que esta outra coisa é a abordagem chamada .

Oh, não! Eu usei a palavra proibida! Pois é, eu prefiro que meu interlocutor defina o que é ou usar um sinônimo adequado à situação. Infelizmente, Djesniel não o fez e eu cheguei à única situação em que sou obrigado a usar o termo. Ao fazê-lo, tento ser fiel à sua construção usando a mesma fonte que ele usaria: a Bíblia.

Hebreus 11 descreve extensivamente o que é  e como ela é usada para construir crenças, e podemos remeter às estórias referidas ali para avaliar melhor a aplicação do método. No que se pode construir um padrão, o método parece ser de crença a partir da revelação divina individual, ou seja, uma pessoa recebe uma revelação direta, que deve ser tomada como fato sem evidências. Devo acrescentar uma suposição: a de que o Djesniel é evangélico reformado. A partir disso, concluo que a revelação divina seria através da Bíblia (Sola Scriptura).

Então o cristianismo abordaria, segundo Djesniel, Epistemologia e Física através de uma combinação de ciência e fé. E como estou somente tentando esclarecer os termos, fica a definição aberta a esclarecimentos, especialmente porque eu usei mais suposições do que gostaria — a saber, que fé é vista como método de epistemologia, definida biblicamente e entendida à luz do cristianismo reformado.

Conflitos? Lacunas?

Recapitulando o que procurei demonstrar até aqui:

  • Naturalismo é a cosmovisão em que o sobrenatural é considerado irrelevante por não interagir com o natural de forma perceptível, tornando-se indistinguível do inexistente. O método científico é sua única abordagem para a Epistemologia e o conhecimento por ele produzido, toda a sua Física.
  • Cristianismo é a cosmovisão que combina o método científico e fé como Epistemologia, e sua Física é a combinação das conclusões obtidas através do exame das escrituras (Bíblia) e da natureza através da ciência.

Se eu retormar o questionamento inicial, posso jogar toda a bagagem sobre Naturalismo Metafísico fora. Afinal, se estamos avaliando os possíveis conflitos entre ciência e fé cristã dentro da cosmovisão do cristianismo, não há necessidade de olhar para o Naturalismo Metafísico.

Voltemo-nos, portanto, para o Cristianismo. Esta cosmovisão adota pelo menos dois métodos de epistemologia, como já disse, o que pode causar conflitos. Na ciência, acredita-se quando a evidência não deixa margem razoável para dúvida. E aquilo que não é aceito permanece no conjunto de coisas desconhecidas. Ou seja, a ciência divide a realidade em três conjuntos: o que sabe-se ser verdadeiro, o que sabe-se ser falso, e o que não se sabe. Já que a fé não tem as mesmas restrições da ciência, ela pode pegar coisas do último conjunto e colocar em um dos outros. Isto é, literalmente, preencher lacunas do conhecimento. E como Deus não é alcançável pela ciência, ele necessariamente é, na cosmovisão cristã, o “deus das lacunas”. Mas isso somente se a ciência for superior à fé.

Se a fé for superior à ciência, então acontece o contrário: a análise da realidade através das escrituras (assumindo meus pressupostos) determina os três conjuntos e a ciência serve para preencher as lacunas — aquilo que não é abordado pela Bíblia de acordo com interpretação pessoal, de saneamento básico à exploração espacial, da medicina à criminalística. Mas se a fé é usada para olhar para o mundo natural, então fé e ciência podem, por princípio entrar em conflito. Elas jamais entrarão em conflito no que diz respeito ao sobrenatural, então para saber se de fato existe algum, temos que olhar para os relatos históricos e princípios que tratam da natureza. Ao fazermos isso, se encontrarmos conflitos sobram algumas alternativas ao cristão:

  1. Ignorar a ciência e não usá-la para investigar aquilo que em que se crê por fé
  2. Alterar a ciência para se conformar à crença adotada por fé
  3. Escolher e fabricar evidências para tornar as conclusões compatíveis
  4. Adaptar a crença para ser compatível com o conhecimento científico

Eu poderia citar muitos conflitos que advêm de olhar para os mesmos fatos através da fé e da ciência dentro da mesma cosmovisão. Também poderia demonstrar porque ninguém deve incluir fé no seu cinto de ferramentas epistêmicas (dissonância cognitiva). Mas antes eu gostaria de saber do Djesniel se eu reproduzi com fidelidade aquilo que ele entende por cosmovisão e fé, e se minhas suposições a respeito de como ele a define estão corretas.

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Mas o que é “verdade de Deus”?

Eu sei que não ando falando de outra coisa, mas é difícil ouvir alguém falando bobagem perto e não se meter na conversa. E quando alguém fala de você, direta ou indiretamente, é ainda mais difícil. Pois é o caso mais uma vez com o NAPEC. E mais uma vez tentando falar sobre o conflito entre ciência e fé. Devo começar parabenizando por, sendo um artigo traduzido, trazer um link para o original; muitos canais de comunicação não fazem isso, e é algo muito importante. Às vezes algo fica dúbio na tradução ou há algum erro e é sempre bom poder conferir de onde a informação foi tirada.

Mas vamos lá, o artigo é chamado “Toda Verdade é Verdade de Deus“, e chamou minha atenção porque tem “ateu” logo no primeiro parágrafo. Citarei algumas partes por conterem escolhas de palavras muito interessantes. Por exemplo, o primeiro parágrafo:

Imagine um químico ateu no século XIX, usando métodos científicos para estudar a água. Depois de realizar seus experimentos, ele conclui que a água é feita de dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio. Em outras palavras, ele descobre que a água é H20. Ele utilizou princípios científicos seculares para adquirir um pouco de conhecimento anteriormente desconhecido para o mundo. Sua descoberta é anti-cristã? Viola a verdade bíblica? Esse novo conhecimento é contrário a Deus?

Por que o químico precisa ser ateu? Nada muda para a ciência se o cientista é cristão, ateu ou muçulmano. Conquanto a metodologia seja seguida, os resultados são válidos. E o que é uma “verdade bíblica”? Existem vários tipos de verdades? Ou será que o autor presume que aquilo que a Bíblia diz é verdadeiro até que se prove o contrário? Veja como essas nuances introduzem conceitos não demonstrados, como “verdade bíblica” ou “Deus”, como se fossem conhecimento já estabelecido.

Mas de fato, uma descoberta científica qualquer não invalida modelos não relacionados a ela. Seria o mesmo que perguntar se a descoberta da explosão de Coulomb contradiz a gramática da língua portuguesa. Quando falamos em uma coisa contradizendo outra, primeiro precisamos deduzir uma expectativa ligando ambas. Por exemplo: alega-se que o arco-íris é uma ilusão de ótica, e não um objeto voador; deduzimos dessa hipótese que podemos reproduzir um arco-íris através da manipulação de um feixe de luz; e, ao produzir um arco-íris com água pulverizada ou um prisma, demonstramos que a segunda hipótese (de o arco íris ser um objeto) é inválida, pois é incompatível com os fatos, enquanto que a primeira (de o arco íris ser uma ilusão de ótica) é não só compatível mas capaz de produzir previsões. Vejamos se podemos observar essa distinção no texto ou se ele somente explora a falta de relação entre hipóteses e fatos selecionados para argumentar que as hipóteses religiosas não são incompatíveis com os fatos descobertos através da ciência.

Isto se dá porque a pesquisa científica é um método epistemológico. Esta é uma forma bonita de dizer que é uma ferramenta para descoberta de conhecimento sobre o mundo onde vivemos. É importante lembrar, contudo, que é apenas uma ferramenta e não a única ferramenta.

E temos, diferentemente do artigo criticado anteriormente, uma distinção clara entre conhecimento científico e método científico. Só que mais perguntas surgem: se há mais de um meio de obter conhecimento, como podemos saber se o conhecimento obtido por determinado método é correto? Resumindo nas palavras do biólogo Richard Dawkins:

…se você se basear na ciência para projetar aviões, eles voam; se você basear o projeto de foguetes na ciência, eles chegam à lua. [Ciência] funciona!

Ou seja, na ciência, conhecimento é definido como o conjunto de hipóteses que permitem fazer previsões precisas ou controlar interações na realidade. Existem outros métodos que permitem chegar ao mesmo resultado? Como sabemos que outras ferramentas funcionam, que produzem resultados objetivos?

Podemos usar testemunhos (relatos de outras pessoas), lógica (2+2=4), introspecção (o que estou experimentando dentro de mim?) o método científico (observação e experimentos), pesquisa histórica (estudar relatos escritos do passado), e revelação divina (a Bíblia). O conhecimento adquirido de qualquer um destes métodos é igualmente verdadeiro.

Eu não li isso. Diga-me que eu estou vendo coisas. Quer dizer então que alguém dizer que foi abduzido por alienígenas é igualmente válido a usar a perturbação gravitacional de Urano para descobrir a localização de Netuno!? Ou que o relato de uma testemunha vale tanto quanto a impressão digital em uma arma!? E que revelação divina eu devo considerar correta, a do cristão ou a do muçulmano? O método científico é o único destes que produz consistentemente resultados que funcionam. Nenhum outro foi capaz de demonstrar essa capacidade. Eu poderia considerar o autor relativista e encerrar por aqui, mas acho que vou seguir só mais um pouco.

1: O método científico não deve ser contrastado com a revelação bíblica: Como mencionado anteriormente, uma descoberta científica não é anti-Deus ou anticristã.

Como princípio, corretíssimo. Mas não como expectativa geral. Devo voltar à idéia original: se podemos derivar uma dedução a partir da hipótese original e se essa dedução pode ser verificada, a sua ausência invalida a hipótese, que deve ser modificada ou descartada. Por exemplo: no cristianismo, é essencial que exista uma alma, um centro de emoções, sensações e decisões independente e que sobrevive ao corpo físico; mas hoje sabemos que isso não existe. E se não existe alma ou espírito também não existe céu, inferno ou salvação. Usar o argumento de que o método científico não é suficiente para refutar a crença no sobrenatural para dizer que o conhecimento obtido através dele também não é suficiente é absurdo.

É por isso que é importante distinguir entre dados científicos e sua interpretação. Por exemplo, a pesquisa científica revelou que os morcegos tem dois ossos em seu antebraço, assim como os humanos. Isso é o que os dados revelam. Alguns interpretam estes dados como evidência de que tanto os morcegos quanto os humanos tem um ancestral em comum e que a evolução darwiniana levou a uma estrutura de antebraço similar. Outros interpretam isto como evidência de que tanto os morcegos como os humanos tem um designer comum, que usou uma estrutura similar em ambas as criaturas.

Como disse, conhecimento é o conjunto de hipóteses que permitem criar previsões precisas. E a Teoria da Evolução é o único conjunto de hipóteses capaz de explicar e prever esse e muitos outros dados sobre a anatomia, filogenia e genética dos seres vivos e fósseis encontrados até hoje, enquanto que a hipótese do “Design Inteligente” não pode. Enquanto a Teoria da Evolução faz previsões sobre coisas que se pode descobrir no futuro, como foi a descoberta do Tiktaalik, DI só se adapta com as falhas.

Mas isso só revela o que já destaquei: que apologistas e teólogos colocam um filtro na frente dos dados, em especial da Bíblia, de forma que qualquer interpretação está sujeita a mudança sem que o dogma da infalibilidade esteja em risco. A Bíblia está sempre certa, mesmo que esteja errada.

3: Os cristãos devem aprender a abraçar todos os métodos de descoberta da verdade: A maioria das pessoas não é cristã e não consideram as declarações bíblicas como verdadeiras. Se quisermos ser embaixadores sagazes de Cristo, devemos aprender a usar o conhecimento adquirido nas Escrituras e os meios seculares como a ciência. Dessa forma, poderemos persuadir as pessoas usando quaisquer recursos que a nossa audiência considere autoritativo.

Ou seja, descubra aquilo que apóia suas crenças e mostre somente isso para quem não acredita. Ou então alegue que conhecimento científico não relacionado com a sua crença não a contradiz e isso prova que a ciência não é contra sua crença. Ninguém vai achar que você está sendo desonesto, principalmente se for alguém que nada sabe de epistemologia ou ciência. E com certeza, quem estudou filosofia nunca achará que apologistas são ignorantes ou mentirosos. Parabéns, NAPEC.

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Re: Ciência e fé cristã

Mais uma da NAPEC. O assunto é um dos meus favoritos, desde que era evangélico. Infelizmente apaguei o que havia escrito sobre o tópico (a mesma vergonha pós-desconversão que faz um novo convertido jogar fora seus álbuns do Ozzy Osbourne), mas a NAPEC fez o favor de publicar algo sobre o mesmo assunto e, até onde pude ler, com o mesmo conteúdo. Acho que é uma ótima oportunidade de responder à altura.

Em primeiro lugar, quando vejo um título desse, algumas expectativas surgem. Ao ler o artigo, espero encontrar uma desambiguação de “ciência” e “fé cristã”. O primeiro diz respeito ao conhecimento obtido através do método científico, ou ao método em si? Semelhantemente, o último é sinônimo de “crença” ou de “confiança” em uma? E se mudássemos o título para “Ciência e fé terraplanista”, o conteúdo também se aplicaria? No decorrer do texto também procuro avaliar se a oposição à qual o autor responde é bem representada, isto é, se ele não distorce a visão do oponente para torná-la vulnerável ou até tola (o que os debatedores chatos chamam de “espantalho”), e se suas respostas estão à altura do desafio. Quem sabe até eu posso mudar de opinião? E será que o mesmo pode ser esperado do autor ao se deparar com suas expectativas atendidas?

Antes de qualquer outra coisa, como sempre, a fonte. Mesmo que eu discorde de um ponto de vista, eu sempre procuro informar aos meus leitores de onde tiro a informação. Eu posso ter entendido mal, ou tirado do contexto; mas qualquer que seja o caso, quero que tenham acesso total à informação para tirarem suas próprias conclusões.

Infelizmente, os 7 primeiros parágrafos são o contrário do que eu inicialmente esperava. O autor apresenta “ciência” como sendo um conjunto de conclusões derivado diretamente de “pressupostos naturalistas”. Nada poderia ser tão longe da realidade. A ciência, e mais especificamente as ciências naturais (geologia, biologia, física, química e suas  subdivisões), usa o método científico para criar modelos que representem da forma mais precisa possível a realidade. É neste sentido que existe uma diferença entre “ciência” e “conheciemento científico”: o primeiro termo diz respeito ao método e o segundo, às conclusões (conhecimento). E quando se trata do método científico, o naturalismo (metodológico) é uma fatalidade e não um pressuposto. O sobrenatural não pode ser considerado na ciência porque ninguém proveu uma forma verificável de acessar o sobrenaural; se isto um dia for feito, a pessoa que der este meio cerá celebrada no meio acadêmico, e é neste sentido que se diz que ela ganharia vários prêmios Nobel. Dawkins, Sagan e Tyson são apresentados como autoridades, enquanto que a abordagem cética (e científica) é avaliar alegações e não seus autores.

Esta má representação do método científico e do naturalismo metodológico é importante porque é exatamente onde começa a diferença entre crença religiosa e conhecimento científico. A crença religiosa, e mais especificamente a cristã (note como substituí “fé” para representar melhor a idéia a transmitir) é adotada mesmo na falta de evidências, ou as substituindo por confiança no texto sagrado ou revelação pessoal, como é afirmado na Bíblia cristã em Hebreus 11. Esta forma de se adotar crenças é contrária ao método científico, pelo qual se obtém conhecimento somente através de hipóteses apoiadas por evidências, capazes explicar fenômenos, prever sua ocorrência e até permitir que sejam controlados. Fé e ciência são duas formas opostas de chegar a conclusões sobre a realidade, e o autor do NAPEC ignorou completamente este ponto de vista — supondo que ele não o fez intencionalmente. Mas esse é só o primeiro conflito.

Nos parágrafos 8 a 12, o autor apresenta o segundo conflito entre ciência e religião de forma velada, que é derivado do que apresentei resumidamente acima. Como são formas diferentes de chegar a conclusões, ciência e religiões chegam a conclusões diferentes sobre os mesmos assuntos. Faço questão de colocar no plural para que o nobre leitor também considere outras religiões e sua validade ao considerar conclusões conflitantes. Por exemplo, as civilizações antigas do oriente médio acreditavam que a Terra era plana, coberta por uma abóboda Sol e Lua a orbitavam (ou assim se aprende no ensino médio e pode-se conferir na Bíblia); quando se pôde verificar que este não era o caso, e devo argumentar que isto foi feito através do método científico, as religiões tiveram que se adaptar ao conhecimento ou se isolar. Verificamos que a religião precisa residir no desconhecido, ou alegar ter conhecimento em áreas ainda não descobertas através do conhecimento científico ou não contrariadas por este. É neste sentido que as citações no trecho que critico são plenamente válidas: Sagan fala em como as religiões exploram a cura pela fé somente enquanto a medicina não avançou o suficiente e Pinker menciona como a crença em uma interpretação literal da Bíblia quanto à criação do universo e da vida não é compatível com o conhecimento científico.

E por falar em conhecimento científico, há algo que eu devo ressaltar quanto ao autor, não para difamá-lo, mas para ilustrar como o ceticismo é importante e deve ser aplicado sempre. Ele menciona Ravi Zacharias falando sobre uma fonte que diz ter lido um artigo em que Richard Dawkins diz algo. Independentemente de concordar ou não com a opinião atribuída a Dawkins, o autor apresenta como fato um boato de fonte anônima relatado por um mentiroso. Eis mais um exemplo de alguém adotando uma crença por ser conveniente, e não demonstrável (o método religioso).

A partir daí, o artigo do NAPEC apresenta os mesmos argumentos de sempre, na voz autoritária de outros apologistas: o pressuposicionalismo e os argumentos cosmológico, ontológico, teleológico e por aí vai. Todos eles já respondidos exaustivamente, especialmente através das ciências naturais, da comprovada inexistência do que dizem ser a alma ou espírito, às origens dos mitos presentes nas escrituras tidas como sagradas.

Mas voltando às minhas expectativas originais, nenhuma foi atendida. Em nenhum momento foi esclarecido o que é “fé”; pelo contrário, o termo foi usado de formas diferentes ao longo do texto. E os conflitos com a ciência foram obscurecidos com o aparente intuito de apresentar novamente os mesmos argumentos apologéticos decrépitos.

Edição: Djesniel Krause responde em http://www.napec.org/apologetica/ciencia-e-fe-crista-uma-resposta/

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Re: Não tenho fé suficiente para ser ateu

Mais uma resposta a mais um artigo extremamente mal escrito, mas novamente que espelha muitas das opiniões de religiosos. O Núcleo Apologético de Pesquisas e Ensino Cristão (NAPEC), publicou alguns artigos sobre ateísmo, basicamente o mesmo de sempre: um religioso falando sobre algo que não entende. Como já disse antes, a minha recomendação é que você ouça sobre algo da fonte: se quer saber sobre religião, vá a uma igreja; para ciência, vá para a escola; e sobre ateísmo, converse com um ateu. E a sorte do NAPEC está boa hoje: eu sou ateu!

Este artigo em particular cito e você pode encontrar aqui.

O ateísmo é um movimento que tem crescido nas últimas décadas, segundo o IBGE (1). Tal movimento se divide em ateus práticos (não apresentam nenhum tipo de religiosidade), ateus teóricos (se preparam filosoficamente), e os ateus militantes (2) (propagam a “fé” ateia (3) ).

O autor não faz questão de citar as fontes (1), mas eu faço: o censo 2010 mostra um aumento pequeno no número de “sem religião”, que inclui mas não é formado só por ateus, de 7,4% para 8% entre 2000 e 2010. Contudo, pelo menos uma pesquisa mais recente indica um número bem maior entre jovens, chegando a 19%. Problemas metodológicos impedem a obtenção de um número mais preciso da representação de ateus na sociedade, mas a impressão que se tem de fato é de um crescimento grande nas últimas décadas.

A divisão entre diversos tipos de ateus (2) é irrelevante e incorreta, pois ateísmo é a rejeição de uma crença e não uma crença positiva. Se alguém não crê em divindades, esse indivíduo é ateu. Não importa se rejeita por ser comunista ou humanista, materialista ou revoltado, por ter estudado ou nunca ter ouvido falar em deuses (ver Pirarrãs). Pelo mesmo motivo, não existe “fé” (aqui usado como “crença”) atéia (3). Para mim, por exemplo, o ateísmo é resultado do meu ceticismo. Por isso que prefiro me denominar cético antes de ateu.

A afirmação de que não existem evidências científicas para se provar a existência de Deus, tem se tornado o argumento mais freqüente dos ateus (4), porém, esses deveriam saber que, semelhantemente, não existem provas científicas para a não existência de Deus (5). Todas as evidências científicas apontam para a existência de um Criador. Por isso, tantos cientistas na atualidade têm abandonado o ateísmo para se converterem a Cristo e adotarem o Criacionismo (6).

Até (4) o autor está falando sobre ceticismo, que resumidamente significa que alguém aceita algo como verdadeiro se e somente quando se pode demonstrar (provar). O que é algo perfeitamente razoável: se alguém quiser lhe vender um bilhete de loteria premiado, você deve pedir que a pessoa demonstre que o bilhete é premiado e o prêmio não foi sacado para não cair num golpe.

coin-jarEm seguida (5), o autor inverte a posição cética, como se alguém tivesse que provar que algo é falso para rejeitar a idéia de que é verdadeiro. Por exemplo, veja esta imagem de um pote cheio de moedas. Em verdade lhe digo, o número de moedas neste pote é ímpar. Espero que você não acredite em mim, uma vez que eu não consigo demonstrar que existe um número ímpar de moedas no pote. Mas você pode provar que o número de moedas é par? Ou, uma vez que você não acredita que o número é ímpar, você se vê obrigado a acreditar que o número é par? Pois rejeitar as duas afirmações até que alguma possa ser demonstrada é exatamente a posição do cético — algo que o autor não demonstra entender.

Finalmente, devo rejeitar a afirmação (6) de que cientistas abandonam o ateísmo porque o criacionismo foi provado cientificamente porque ambas as afirmações não foram demonstradas. Em primeiro lugar porque o primeiro indivíduo a dar uma única evidência científica em favor do criacionismo seria aclamado mundialmente e ganharia pelo menos um Prêmio Nobel (não Templeton) e isso ainda não aconteceu até onde eu me informei. Em segundo lugar porque o autor não deu qualquer estatística ou qualquer exemplo que indique conversões devido à validade científica do criacionismo. Em terceiro e último lugar, porque existem várias provas de que o criacionismo é irreal.

O ateísmo afirma que Deus não pode ser observado epistemologicamente  portanto não faz parte da ciência. Tal afirmação é falha, porque a Ciência nunca negou a existência de Deus. Na verdade, os cientistas decidiram deliberadamente nunca estudar a questão DEUS! Os cientistas simplesmente decidiram não tratar de tal assunto (7). Agora, decidir não estudar sobre uma pessoa é uma coisa, e afirmar que tal pessoa (que nunca foi estudada) não existe (8) é outra totalmente diferente.

Não é o ateísmo que exclui todos os deuses e o sobrenatural da ciência (7), e sim o naturalismo metodológico. Novamente, o ateísmo não é um conjunto de dogmas, nem o naturalismo metodológico impede alguém de ter religião e muito menos afirma que algo não existe por não ser estudado (8). De fato, muitos cientistas têm religião — mas nenhum deles chegou a ela através da ciência, uma vez que o método científico é separado do sobrenatural.

O ateísmo afirma que a religião é má e responsável pela morte de milhões de pessoas na história (9). Tal argumento pode, em parte, ser verdadeiro. Porém, se partirmos desse pressuposto, iremos observar que o ateísmo foi responsável por um número de mortes muito maior que a religião (10), a exemplo da China ateísta, ou da Coréia do Norte, ou da antiga URSS, ou ainda através de Lênin, Stalin etc., que foram responsáveis, juntos, pela morte de mais de 100.000.000 de pessoas no mundo, através da história.

Acho que não preciso mais ressaltar que “o ateísmo” não afirma coisa alguma, né? Pois também não afirma que a religião é má por ser responsável pela morte de milhões (9). Na verdade, se alguém afirma que Deus matou milhões é a Bíblia, do dilúvio a Ananias e Safira.

E como associar comunismo a ateísmo não pode faltar (10), eu já escrevi a respeito mas vou repetir. O comunismo não é uma consequência do ateísmo, e sim o contrário. E nem é uma consequência necessária. Podemos dizer que um muçulmano cometeu um atentado por causa da religião se e somente se a interpretação pessoal da religião pelo muçulmano encorajar o ato. Como o ateísmo não contém ensinamentos, nada pode ser atribuído ao ateísmo.

Então, onde está Deus? Diante de tal pressuposto os ateus ironizam acerca da existência de Deus (11), já que O mesmo não pode ser visto fisicamente.

Utilizando-nos da mesma falácia, podemos concluir que um ateu não raciocina, pois não podemos ver fisicamente o seu raciocínio. Um ateu não tem inteligência, pois não podemos ver fisicamente a sua inteligência. Um ateu não tem amor, pois não podemos ver fisicamente o seu amor. Um ateu não tem sentimentos, pois não podemos ver fisicamente os sentimentos. Na verdade, utilizando-nos da mesma falácia, podemos até dizer que um ateu nem tem cérebro, pois não podemos enxergar o seu cérebro, e muito menos a sua capacidade de pensar. Já que não podemos ver essas coisas fisicamente, poderíamos dizer que um ateu é simplesmente um corpo físico que anda vagando, sem cérebro, sem capacidade de pensar, sentir e amar, sem inteligência e sem raciocínio. Seguindo a mesma falácia, utilizada pelos ateus, podemos dizer que um ateu é simplesmente um corpo físico vazio, oco, sem nada por dentro. (12)

Se Deus e o sobrenatural não podem ser investigados pela ciência, então realmente: onde está Deus? Ninguém sabe (11). E se ninguém sabe, ele não é diferente de outras coisas que ninguém sabe mas acredita. Não sei se há ironia nisso. É a confusão do autor em relação ao ceticismo que desperta esse furor.

Agora, se não sabemos e não podemos investigar Deus, o que sabemos sobre outras coisas? Bem, sabemos tudo que podemos investigar (12). Sabemos que todos temos cérebros, independentemente de quão bem o usamos, porque todas as pessoas que morrem e passam por necrópsia têm cérebro (indução). E sabemos que é no cérebro que se processam os pensamentos e sentimentos porque um cérebro danificado acarreta em danos também ao processo de pensamento ou sensação (abdução). E podemos medir a inteligência lógica intuitiva através dos testes de QI, os sentimentos através de hormônios como a Ocitocina, enfim… sabemos tudo que é conhecido a respeito do homem e do resto da natureza através do método científico. E foi sempre o método científico que esclareceu idéias erradas a respeito do universo introduzidas pelas religiões, nunca o contrário. A visão não é o único sentido nem a única ferramenta disponível para avaliarmos e descobrirmos a realidade ao nosso redor, e isso em nada depende de acreditar em dimensões sobrenaturais.

Por fim, lembro-me de Nietzsche, que disse: “Se realmente existe um Deus vivo, sou o mais miserável dos homens”. E realmente o foi.

Não conheço a obra de Nietzsche, então não posso comentar sobre qualquer opinião a seu respeito.

PROFECIAS BÍBLICAS PRECISAS OU MERA COINCIDÊNCIA?

A Bíblia possui 985 profecias que alguns julgam se tratar de “coincidências”, das quais 573 estão no Antigo Testamento e 412 no Novo Testamento.

Dessas 985 “coincidências” mais de 500 já aconteceram, por “coincidência” exatamente como estavam escritas, “coincidentemente” cumprindo datas, locais, contextos e personagens. (13)

Quando Jesus Cristo estava pregado numa cruz por causa dos pecados da humanidade, 30 “coincidências” aconteceram num período de 6 horas – das 09:00h às 15:00h. (14)

Novamente, referências faltam (13). E o que é afirmado sem evidências pode ser igualmente rejeitado sem elas.

Já Jesus é um caso bem interessante (14). O personagem histórico quase certamente nem sequer existiu, e para avaliar melhor o assunto recomendo algumas obras: Quem Escreveu a Bíblia?, de Bart Ehrman; e dois tomos acadêmicos que passaram por grande escrutínio, Proving History e On the Historicity of Jesus, de Richard Carrier.

E finalmente, o único trecho cuja enrolação pularei:

Essas “coincidências” são mais semelhantes a “Cristocidências”. Por exemplo, o Livro de Daniel capítulo 9 e versículo 25 nos diz que desde que a ordem fosse dada para reedificar Jerusalém até que as obras estivessem prontas seriam decorridas 9 semanas. E desde que a cidade estivesse edificada até a chegada do Ungido (Messias = Cristo) seria decorridas 62 semanas.

(…)

Todavia, não acabou por aqui! O fato, isto é, a “coincidência” é que essa profecia foi feita no Livro de Daniel, que foi escrito em 537a.C. (15) (537 anos antes de Cristo nascer), iniciada no livro de Neemias, que foi escrito entre 445a.C. e 425a.C (~430 anos antes de Cristo nascer), detalhada no livro de Zacarias, que foi escrito entre 520a.C e 518a.C. (~520 anos antes de Cristo nascer), e cumprida no livro de Mateus, que foi escrito entre 60d.C. e 70d.C. Se cumpriu nos mínimos detalhes. Que “coincidência”! (16)

Toda essa estória de profecia seria muito bonita, se não fossem dois fatos: o livro de Daniel foi escrito em torno de 165AEC (Antes da Era Comum), e não em 537AEC (15). O consenso acadêmico é esse por vários motivos, um dos quais é que não há qualquer referência ao livro antes de 200AEC.  Ora, se o livro é escrito depois de todas as “profecias” que ele profere, elas não são profecias — mesmo que fossem precisas. E se um outro livro, também de ficção (e mesmo que não fosse) é escrito depois e com conhecimento da profecia, tendo seu cumprimento como objetivo, este é fabricado! Sinto muito, mas não há “coincidência” nem “profecia”. E se as outras centenas forem como estas, acho melhor o autor voltar para a prancheta.

Resumindo

Ao ler o título do artigo, eu esperava um texto que explorasse algumas coisas:

  1. O que é e porque ela seria algo bom para se usar no cristianismo e ruim no ateísmo ou na formação de qualquer outra opinião
  2. O que é ateísmo e porque seria preciso fé para o adotar

Ao invés disso, vi um desfile de enganos a respeito do que é ateísmo, ceticismo e ciência, e alegações vazias ou demonstravelmente falsas. Se você é cristão e espera ser respeitado intelectualmente, jamais faça isso.

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Re: Mensagem de um comediante aos ateus

 

Esta é uma longa história, então separe algum tempo para ler ou esteja pronto para ler em partes. David Smalley é um radialista dos Estados Unidos, e apresentador do podcast Dogma Debate há vários anos. O objetivo do referido programa é conversar sobre idéias dogmáticas, que normalmente são religiosas, com um ou dois convidados com conhecimento e/ou experiência no assunto do dia.

Num programa recente, ele recebeu o comediante Jay Mohr, que não tem expressão no Brasil, mas que aceitou a tarefa de deixar uma mensagem após o programa para os seus ouvintes. É uma carta extensa, que eu traduzo abaixo (eu tenho essa mania de dar a fonte completa e preferencialmente acessível para meus leitores, e traduzir isso deu um baita trabalho, faça-me o favor de ler com atenção), e o que me saltou aos olhos é como ela é recheada de argumentos que ouvimos no dia-a-dia, mas raramente tão concentrados. Eu destaco-os e comento como a maioria deles é extremamente tolo. Sem mais delongas…

Eu sou cristão. E eu sei que você é um ateu. Você me contou. Escreveu-me.

Eu o ouvi dizendo a alguém. Está no seu nome do Twitter. O nome da sua reunião semanal. Sua noite de pôquer. Seu podcast tem a palavra “ateu” nele.

Bordado na frente da sua blusa de softball (n.t.: como o nome na camiseta de futebol) está algo secular como sem fé ou sem deuses. Seu time de futebol de no videogame tem um nome como ‘Ave Marta’.

Para entender como este trecho é uma idiotização de dois problemas importantes, resumo da seguinte forma: ateísmo não é uma religião, um conjunto de dogmas ou costumes; não se pode dizer que todo ateu é como alguns ativistas são retratados. E recomendo assistir ao resumo do YouTuber Alex O’Connor (Cosmic Skeptic) do encorajamento da normalização do termo no vídeo abaixo (em inglês e sem legendas, sorry; posso esclarecer se houver demanda). Agora, se algo assim é negativo, porque falar só dos ateus? Por que não criticar os cristãos que fazem o mesmo, da mensagem diária à camiseta, das várias reuniões semanais ao adesivo no carro? Lembre-se disso mais tarde.

Eu contei ao meu amigo David Smalley, apresentador do Dogma Debate, que eu queria mandar uma mensagem a todos vocês. ENtão ele perguntou se eu escreveria um post de blog para ser lido pela sua audiência.

O podcast de David é muito importante. Ele é um investigador e digno de uma audiência enorme. De ouvintes como você.

Eu aprendi ouvindo ao Dogma Debate que você é o 4º ouvinte, a espinha dorsal, os ouvidos cobiçados para algo tão importante quanto as discussões profundas e às vezes acaloradas que David apresenta.

Então quando David pediu-me para escrever meus pensamentos a serem publicados aqui, minha resposta foi “Absolutamente. Sim, eu o farei.”

E estou muito feliz por você ainda estar lendo isso e não ter me dispensado para o espaço onde meu “Papai Celestial” vive ao lado do meu unicórnio mágico.

Novamente, o estereótipo falso. Eu entendo que Deus (note o uso proposital do D maiúsculo) é uma fantasia conveniente, e posso demonstrar de diversas formas. Mas não só não vejo todo cristão como sabendo que Deus é um personagem imaginário como estou disposto a ouvir os seus motivos para acreditar nele — e até mudar de crença caso eu esteja errado.

Quando olho para a lista de convidados que apareceram no Dogma Debate, fico surpreso por ela ser, na sua totalidade, binária. Pessoas de todas as origens, diferentes cidades, idades, sexos, ouvintes e acadêmicos, todos separados em duas categorias.

Ateu ou Religioso.

Contudo, parece mais ser: Certo ou Errado.

Posso dizer ao olhar quem é o convidado (Certo ou Errado) a que tipo de hora ouvirei.

Argumentando ou concordando. Refutando ou validando. Cara doido ou cara que entende.

Para mim, um dos maiores problemas — se não O maior — da religião é o que notei sobre essa lista de convidados.

Ela é BINÁRIA.

Há muito para destrinchar aqui, então aguentem um pouco.

Quando escuto ateus e cristãos discutirem, fico impressionado com o quão pouco cada lado de fato escuta o outro.

Ambas as vozes ficam mais altas conforme a conversa continua. Perguntas simples são respondidas com “Deixe-me responder sua pergunta com uma pergunta” (GRRRRR).

Um pequeno item num longo parágrafo será analisado e dissecado à exaustão até deixar os dois lados confusos quanto a como chegaram tão longe nos detalhes.

Mas os ouvintes nunca estão confusos.

Um cara está certo, não importa o que diga. O outro cara está errado, não importa o que diga.

Não sei se você notou, mas fica claro que Mohr não entende a natureza do debate, que é parte do nome e da proposta do programa. Para um debate acontecer, você precisa de dois lados opostos. Um debate começa com uma proposta BINÁRIA. Se ele escutasse o programa pelo menos de vez em quando (como eu), saberia que nem sempre existe essa característica da imutabilidade de opiniões, especialmente do David. Certa vez ele recebeu um defensor da idéia de moral subjetiva e terminou o programa concordando com ele (não lembro quem era o convidado). Depois recebeu Matt Dillahunty defendendo moral objetiva e mudou de idéia. E finalmente juntou os dois convidados para tirar a prova.

Mesmo que existam — e existem — ouvintes que não mudam de opinião, isso não serve de medida para o propósito do programa, alcançado não só no apresentador como em muitos ouvintes. Agora, à opinião que não muda porque é valiosa demais chamamos dogma. E é exatamente o que o programa tenta desfazer.

E como é que se desfaz dogmas? Analisando as propostas, destrinchando significados, discordando, argumentando e apresentando evidências em busca do que a realidade tem a mostrar. E a atenção às minúcias pode servir tanto para argumentar corretamente quanto para fugir do argumento. É inútil dizer que a atenção às minúcias é inútil sem observar seu propósito.

Independentemente da veracidade de um ponto, ou da significância histórica do outro, ninguém parece ser flexível em sua crença. Claro que falo em superlativos para argumentar mas o argumento em si permanece sem resposta.

Por que sempre uma discussão?

Tanto o cristão quanto o ateu correm dos portões como num torneio de cavaleiros. Uma batalha de rancor intergalático.

Bandeiras GIGANTES entram na arena muito antes dos indivíduos.

Lanças enormes seguem as bandeiras e nelas se lê JESUS SALVA ou NÃO HÁ DEUS.

Finalmente, os competidores entram atrás de muita fanfarra e fazem o seu melhor para derrubar um ao outro do cavalo, longe da sua bandeira e sobre seu traseiro.

BINÁRIO. Não está funcionando.

Ao se pedir para provar o que não pode sê-lo, o cristão sempre acabará no seu traseiro.

O ateu sempre será vitorioso nesses duelos.

Se você é um ateu, pode estar pensando: “Então ESTÁ funcionando, o cristão acabou de ser derrubado.”.

Certo, o cristão está ensanguentado, partido, e feito de bobo.

Minha pergunta aos ateus é simples: O que você ganhou?

Raramente o religioso sai do debate com uma mente mudada e lança sua fé na lixeira mais próxima.

E mesmo que o fizesse, qual foi sua vitória? Um crente a menos?

Não estou sendo sarcástico, estou genuinamente em dúvida.

Veja quantos parágrafos gastos com algo que é simplesmente falso. As pessoas mudam de opinião, e eu estou aqui para provar isso, como muitos outros. A exposição de uma crença como dogma não serve para mudar a cabeça de quem detém a crença, mas de quem ouve ela sendo defendida como dogma e não como conhecimento. Matt Dillahunty explica muito melhor que eu, só que em inglês novamente…

Ou como Peter Boghossian recomenda (A Manual for Creating Atheists), o cara com a opinião não dogmática deve estar disposto a mudar de posição de acordo com os argumentos e evidências apresentadas. E eu já vi, como mencionei, David mudar de opinião de acordo com o que seus convidados apresentaram. O problema não é e nunca foi o fato de o cristão acreditar e o ateu não, e sim o quão bem as pessoas formam suas opiniões, independentemente do lado em que estão.

Como disse, há muito que dissecar aqui então deixe-me trocar de malas e contar meu ponto de vista pessoal sobre religião.

Antes que você possa mandar memes da Caça às Bruxas de Salem ou da Inquisição, eu, como você, sei que a religião foi a maior razão para assassinatos e confusão no nosso planeta.

Eu também sei que religião não é FÉ. Religião não é CRENÇA. A Bíblia não foi escrita por Deus.

Ninguém começou a escrever o que é conhecido como a Bíblia mais de 65 anos depois dos eventos no livro aconteceram.

Isso seria como escrever o livro absoluto sobre a Guerra da Secessão hoje à tarde.

Minha Fé, minha crença em Deus, e a impossibilidade do mundo ao meu redor NADA tem a ver com a Bíblia ou religião. Às vezes eu levo minha Fé apesar da Bíblia.

Note que aqui Mohr admite que ele inventa a própria religião, seu próprio conjunto de regras para crer. É a definição mais desonesta de dogma que pode existir. E ele faz isso deliberadamente e não porque é compatível com a realidade, mas porque é cômodo. Veja como ele admite isso com todas as palavras a seguir.

 

Já fui chamado de católico de cafeteria (n.t.: o equivalente a “não praticante” no Brasil, mas com sentido pejorativo) e levo como elogio.

SIM, eu escolho no que acreditar. Para mim, é para isso que o livro serve.

Eu rejeito a noção de que Jonas viveu no cu de uma baleia por uns dias.

Eu não acredito em Adão e Eva, nem no Jardim do Éden. Se acreditasse, também acreditaria que duas pessoas popularam a Terra com crianças que provavelmente sofreram de problemas genéticos devido a incesto.

Sou um cristão porque amo os ENSINAMENTOS de Jesus Cristo. Sou budista porque amo os ENSINAMENTOS do Buda. Sou um investigador, porque tenho uma necessidade insaciável por mais conhecimento e informação de pessoas que não pensam como eu. E você?

O primeiro dever de um professor é falar a língua do aluno. O único dever do aluno é ESCUTAR.

Então eu escuto. E ao permanecer quieto, e abrir minha mente e coração, eu aprendi mais sobre ateísmo em quatro conversas com David Smalley e Pen Gillete do que numa vida inteira perguntando pelo caminho.

Só uma nota, apesar de achar que toda linha escrita por Mohr tem sérios problemas: todo aluno precisa um dia deixar de sê-lo e questionar tudo que ouve ou já ouviu. A criança cresce e deve parar de se comportar como aluno, ou tudo que fará será defender as palavras, os dogmas, do professor. Mohr claramente ainda não cresceu.

Pessoas ardentes e passionais na sua religião provavelmente acabaram assim porque precisavam de ajuda.

Precisavam de realinhamento. Talvez estavam perdidas, sentindo-se mal e procuraram desesperadamente por um lugar que lhes desse instruções BINÁRIAS.

Religião é perfeita para o perdido porque tem um conjunto de regras e crenças pelos quais viver já ajustados.

A pessoa que precisava de realinhamento tem milhões de colegas que pensam o mesmo e finalmente vêm significado para suas vidas.

Infelizmente, parte deste significado é o malfadado dever de “COMPARTILHAR” sua religião.

James Thurber disse, “coisas lindas não precisam de atenção”. Se seu amor por Cristo é tão grande e poderoso que salvou sua vida, você não deveria ser impulsionado a bater na porta de um estranho para explicar tudo a ele.

Isso não é compartilhar, é recrutar. Recrutar é, no longo prazo, arrecadar dinheiro.

Só duas vezes na Bíblia Jesus perde a cabeça, e em ambas é enquanto está num templo, por causa de dinheiro.

O fato de Cristo ser RIGOROSO ao ver os comerciantes se perde para quase todos os cristãos. Em particular para os ricos.

Minha campainha tocou algumas vezes e os horríveis palhaços do “Você já ouviu a grande Palavra?!” estavam lá.

Eu digo, “Já ouvi e não, obrigado”.

O que eu não tento fazer é explicar para eles, passo a passo, batida a batida, e de verso em verso, porque eles estão errados e eu estou certo.

“Coisas lindas não precisam pedir atenção”. Minha Fé é linda para mim. Eles que se fodam e saiam da minha propriedade e sigam em frente.

Ateus, gentilmente, não batem de porta em porta para explicar porque cristãos estão errados e por isso agradeço.

Mas a pergunta que permanece para mim, é qual é a vitória em reverter o sistema de crenças de uma pessoa que funciona para elas, lhes dá estrutura e propósito, as mantém fora da cadeia, ou lhes dá motivação para servir?

Uma observação simples: pessoas sem religião são presas com menor frequência onde existe liberdade de credo. Desafio você, caro leitor, a pesquisar a respeito. Mas veja não só o desinteresse como  a clara noção de que a realidade é algo que não é comum a todos. Se alguém crê que alienígenas existem e isso faz com que a pessoa se comporte bem para ser abduzida daqui cinco anos, que mal tem?

 

Se eu pudesse resumir todo este artigo a uma única frase, seria a seguinte…

Você não acredita em um Deus (n.t.: aqui o uso do D maiúsculo é incorreto), eu acredito num Deus. Não entendo por que estamos discutindo.

Porque temos que viver em sociedade, e quando chegar a hora de tomar uma decisão que afete a nós dois, quero que ela seja baseada em fatos objetivos, em argumentos e evidências, não em um sentimento de que algo é lindo ou conveniente. E se cada um usar seu próprio método para chegar a conclusões ou seguir dogmas, a sociedade será separada de acordo com eles.

Embora o ônus esteja sobre o crente de provar um desconhecido, o fato é que nenhum lado sabe com certeza. Como ateu, você deve ter tanta prova de que não há Deus quanto eu tenho de que há.

Mohr mostra que não sabe de nada. Não há prova de que o sobrenatural não existe (porque não pode ser definido), mas com certeza há provas, e muitas, de que Deus (uso correto do D maiúsculo) não existe. É só pensar em conjuntos: se você estiver me procurando num grupo de pessoas e todas forem brancas, você saberá com certeza que eu não faço parte do grupo, mesmo sem conhecer os outros atributos de todos os elementos do conjunto. Com Deus é a mesma coisa: não sabemos quais são as características do sobrenatural, se é que existe, mas as de Deus com certeza não estão lá.

Não só isso, como ele desconsidera a chamada responsabilidade epistêmica; assim como você tem responsabilidade de se comportar bem, todos temos a responsabilidade de acreditar em coisas que são demonstravelmente verdadeiras. E nisso todo religioso falha.

Alguns cristãos provaram não serem muito espertos. Eles continuamente aparecem em podcasts e programas de TV e falam em coquetéis sem parar sobre como Cristo morreu pelos seus pecados.

Não foi bem assim.

Cristo, de acordo com a Bíblia, e perdoe-me por ser lógico ao usar um livro de referência de fato… Cristo morreu porque foi condenado por heresia.

Cristãos continuam sentando-se atrás do microfone do Dogma Debate para explicar passionalmente porque o homossexualismo é um pecado.

Eu pularei a heresia e amore sendo um pecado direto para os mesmos versículos bíblicos sem graça que eles citam para provar seu argumento.

Convenientemente, eles nunca são tão passionais sobre Ló fazendo sexo com ambas as suas filhas e populando uma cidade inteira com filhos incestuosos (Gênesis).

Repetidamente, o ateu dá uma surra no cristão nessas discussões. A única forma de um cristão um dia ganhar um Dogma Debate é simplesmente não aparecer.

Como no filme JOGOS DE GUERRA, a mensagem final do simulador de guerra nuclear é “O ÚNICO JEITO DE GANHAR É NÃO JOGAR”.

Se cristãos não estivessem sempre tentando explicar para você como você vai para o inferno, ou como você está vivendo da forma errada, ou tentando escrever legislação para controlar seu comportamente, eu não sei se veríamos um movimento secular tão poderoso e lobby como vemos hoje.

Meus amigos, somos muito mais interessantes do que nossas crenças ou a falta delas. Orar para um Deus não torna um único homem, mulher ou criança interessante. Não aumenta sua importância ou moeda social.

Eu não dou mais valor a alguém porque é religioso. Eu espero que você não pense menos de mim porque eu sou. Porque isso o tornaria estranhamente parecido com os cristãos em quem você passou anos batendo com uma vara.

Honestamente, não me importo com a religião de alguém. NEM. UM. POUCO.

Eu não tenho interesse no seu Deus. Nâo me importo se você tem um ou não. Se você não acredita em Deus, garanto, essa é a coisa menos interessante a seu respeito. Eu sei disso porque estamos na mesma tribo.

Concordo com Mohr na questão da irrelevância da religião para o valor de uma pessoa. Pena que os evangélicos e cristãos em geral, na sua grande maioria, e até a Bíblia, discordam dele. E não são os ateus que batem nos cristãos; isso talvez seja verdade no campo das idéias. Mas na vida real o jogo é invertido.

Você busca. Você é curioso e duvida. É cuidadoso e destemido. Você tem sede. Mais informação. Mais amor. Mais divertimento. Mais, mais, mais. (Você ainda está lendo, né?)

Há um evangelista que espuma pela boca e me diz pela minha TV que eu vou para o inferno por ser pecador. Esse cuzão nem me conhece e está em Vegas apostando sobre a minha salvação. Foda-se esse cara e seu terno caro e sua mulher que carrega sua água e corta a lenha para a conta conjunta.

Sem um programa de TV ou talvez o terno caro, os ateus que eu encontrei são igualmente intrusivos e espumam pela boca para dar a mensagem dos meus limites e vida falha.

OK. Digamos que o evangelista esteja certo e você realmente vai para o inferno. Importa se ele espuma pela boca? Digamos que o ateu esteja certo de que você não está aproveitando sua vida como poderia. Importa se ele espuma pela boca? Posso concordar que alguém deve ser comedido num diálogo, mas enquanto ouvinte não deveria importar como a mensagem é entregue e sim o seu conteúdo. Principalmente quando o babaca no poder resolve dar liberdade a charlatães para explorar o povo e ainda roubar do contribuinte (Dória, essa é com você)!

Sou tão grato a pessoas como David que têm a capacidade de simplesmente ouvirem. Ouvir minha verdade e tocar a vida com a de que o mundo ficará bem comigo e meu amog a Cristo nele.

Só para reforçar: minha verdade (relativismo epistêmico) é um conceito idiota e não se deve usar a palavra enquanto sinônimo de crença ou esperança se a intenção não for confundir a si ou a audiência.

Você pode não acreditar em um Deus mas conhece muito mais escrituras do que qualquer pessoa que já conheci.

Você pode não achar que o mundo foi criado divinamente mas você atravessa ele com alegria, e eu amo você por isso.

Quem quer que você seja, tendo lido este meu ensaio, agradeço por ser paciente e tolerante comigo.

Orarei por seu bem-estar e felicidade.

Simplemente porque quando estou só, calmo e com privacidade, é o que faço. E isso jamais deveria lhe incomodar.

Paz.. Amor… Gentileza… tolerância… boa sorte…

Realmente desejo-lhe estas coisas.

Que tortura! Espero, caro leitor, que você entenda que a má escrita e os palavrões são palavras escolhidas por Jay Mohr e não por mim. E peço perdão pelas referências em inglês, eu as coloco simplesmente porque a sua disponibilidade é maior e tenho mais familiaridade com elas, e de forma nenhuma a minha intenção é me gabar de qualquer coisa.

Finalmente, espero que veja como um conjunto de idéias falsas (o estereótipo do ateu, da discriminação, da motivação) e os erros filosóficos se combinam para criar uma visão completamente distorcida da realidade. E se você vir algumas dessas coisas nesse idiota chamado Jay Mohr, procure-as em si e ache um jeito de tirá-las. É o que tento fazer todos os dias.

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