Introdução à economia para eleitores

Há muita propaganda por aí sobre política e suas inclinações, do populismo ao individualismo, do assistencialismo ao liberalismo, mas pouco se fala sobre a economia em si, sobre princípios e consequências. Quando o eleitor não está ciente de princípios elementares de governança, pode votar em um candidato que promete aquilo que não pode cumprir mesmo que se alinhe aos seus próprios valores.

Meu propósito aqui é, portanto, lembrar meus compatriotas desses princípios, desses fatos praticamente auto-evidentes para que saibam identificar que candidatos são obviamente incompetentes. Claro que alguém pode enganar o radar, mas o populista que não liga para o bom funcionamento do país ou o incompetente que não conhece o mínimo para fazer um bom trabalho no comando de uma comunidade serão expostos.

A origem do dinheiro

Primeiro vamos olhar para o que move sociedades: dinheiro. A economia está no centro da operação de qualquer sociedade. É com ele que se faz tudo, de escolas a assistência social. Então é preciso entender de onde vem o dinheiro para fazer tudo isso.

Em primeiro lugar, é preciso entender que riqueza não é um jogo de soma zero. Embora dinheiro seja a grosso modo uma commodity, riqueza não é. É possível gerar riqueza “do nada”. Por exemplo: digamos que José tenha um quintal, um pedaço de terra que ele não usa para qualquer coisa. José compra um quilo de sementes de tomate por certo valor A, usa água e fertilizantes de valor B e seu trabalho para produzir tomates que vende por valor final C. Se C for maior que a soma de A e B, José efetivamente produziu riqueza. É possível fazer a mesma análise para o mercado de serviços, mas basta ver que não é necessário haver transferência de riqueza para que haja enriquecimento. Pode ser que tal transferência seja conveniente, mas ela não é obrigatoriamente necessária. E para tudo que segue neste assunto, eis a definição geral de geração de riqueza que usarei:

A transformação, através do trabalho individual ou colectivo, dos atributos de um objeto para um estado em que tem valor maior do que o original para o indivíduo ou grupo que o adquire

Quem pode gerar riqueza?

Se a geração de riqueza depende do trabalho, o corolário óbvio é que somente pessoas podem gerar riqueza. Isso pelo menos até que tenhamos robôs independentes. Empresas podem gerar riqueza por serem formadas por pessoas. Governos não podem gerar riqueza. Portanto, tudo que um governo faz é consumo — através da riqueza gerada pelo povo que ele representa. É possível fazer uma mescla através de empresas estatais: se uma estatal dá lucro, pode-se dizer que o governo gera parte da riqueza que usa. Em outro momento trato de estatais em si, mas pensemos em estatais como órgãos separados da governança. De qualquer forma, o governo não tem dinheiro ou riqueza. Daí o famoso discurso de Margaret Thatcher:

O estado não tem dinheiro a não ser aquele que o povo ganha. Se o Estado quiser gastar mais, ele só pode fazê-lo pegando as tuas economias emprestadas, ou cobrando-te mais impostos. E não faz bem pensar que alguém irá pagar, pois tu és esse alguém. Não existe dinheiro público, somente dinheiro do cidadão pagador de impostos.

Isto significa que quando o governo português paga 831 milhões de Euros ao FMI ou o governo brasileiro paga 491 milhões de reais em dívidas do Rio de Janeiro, a realidade é que o cidadão está pagando por uma dívida assumida em seu nome pelo governo. Não há problema em tratar do orçamento do Estado como sendo algo de responsabilidade do governo (é para isso que os elegemos), mas é responsabilidade do cidadão escolher governantes competentes.

Mas como essa responsabilidade do produtor de riqueza é cumprida? No Brasil, por exemplo, um governante não pode ser removido por incompetência. Dilma Roussef foi um desastre como presidente, mas somente um crime de responsabilidade pôde trazer fim prematuro ao seu mandato. E ao mesmo tempo em que o eleitor não tem capacidade para votar, uma vez que menos da metade dos brasileiros (31%) tem alfabetização funcional intermediária ou melhor, não há limites mínimos que eliminem candidatos obviamente incapazes do processo eleitoral (talvez o caro leitor tenha ouvido falar de Tiririca e Lula). Ainda não encontrei números sobre Portugal, mas algumas análises qualitativas não são animadoras. Só há voto responsável se o eleitor for capaz de determinar qual candidato é objetivamente os melhor para conduzir os asuntos de sua alçada, mas a maioria dos eleitores não parece ser.

Muito há ainda a tratar dentro deste assunto: a validade do processo democrático atual, a mitigação da pobreza e seus efeitos, as consequências de cada abordagem. Mas por enquanto fica a lição para quem gera riqueza: trata teu dinheiro como tal mesmo quando a responsabilidade pela sua gestão está nas mãos de outrem.

 

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Tim Mackie nada sabe, parte 3 (e última)

Esta é a última publicação sobre o podcast que recebi contendo uma conversa com Tim Mackie. Tenho um aviso final no último parágrafo, se não estiver interessado no resto eu peço que pule para o final. Como das outras vezes, versão também disponível em vídeo.

Resumindo, para recapitular. Alguém que nunca conversou comigo sugeriu um vídeo terrível com um pastor/apologista ignorante como se fosse uma autoridade em teologia ou qualquer outra coisa. Estou respondendo em texto e vídeo sem eufemismos. Se estiver interessado na fonte, volte para a primeira publicação. Aqui eu quero abordar somente uma besteira que Tim fala, talvez a maior: a Bíblia deve ser lida a partir de Jesus, dos evangelhos. Bem, e se Jesus for falso, uma lenda? Henrique, que horror! Como você pode dizer algo assim?!

Responda-me você: qual é a forma, a aparência de uma estória falsa contendo falsas promessas? Se eu lhe desafiasse a contar a maior mentira possível, como ela seria? Eis a minha versão:
  • Fama, grandes obras, milagres e mágica são coisa do passado. Eu não posso fazer nada disso agora, então qualquer mentira tem que ser no passado mais distante possível.
  • Se eu disser que fui um grande mágico, as pessoas exigirão que eu mostre, ou faça, mágica. Então tenho  que alegar que eu conheci um mágico. Eu vi com meus próprios olhos.
  • Digamos que eu queira seu dinheiro. Coincidentemente, estou em viagem de negócios e voltarei em uns meses. Então posso pedir um empréstimo e dizer que “pago em quatro meses”, aí fujo com a grana. Melhor ainda, eu digo que vou embora e “pago quando voltar”, mas nunca volto. Se o credor cobrar-me, eu sempre respondo “não se preocupe, eu ainda não voltei. Esere até que volte, aí pago” mas nunca volto.
  • Se eu for inventar uma mentira do nada, tem que ser algo que ninguém possa investigar. Não só no passado, mas em um lugar em que nenhuma evidência possa ser encontrada. Como num lugar devastado por um desastre natural ou guerra.
E se você ouvir uma estória que parece mentira, que outros sinais você deve procurar?
  • As pessoas que deveriam saber algo da estória parecem nunca ter ouvido falar nela.
  • Relatos independentes têm diferenças muito grandes. Como quando as coisas acontecem de forma diferente só para combinar com os objetios de quem conta cada versão.
  • Pessoas que contam estórias semelhantes têm um relacionamento ou interesses em comum. Como quando herdeiros de uma fortuna concordam sobre eventos improváveis que lhes beneficiariam.

E adivinhe o que encontramos nos evangelhos? Todas as alternativas acima! As estórias são contadas após a destruição de Jerusalém e do templo judeu, décadas depois dos fatos retratados. Jesus é famoso nas estórias, mas ninguém do mundo real jamais ouviu falar nele. Só Jesus (morto) e os apóstolos (mortos) podiam fazer milagres, e nem os autores dos evangelhos são conhecidos. Nenhuma promessa é cumprida (como Jesus voltar “em breve”) e as promessas pendentes são para depois que você morrer (bem-aventurados os humildes, pois serão exaltados — no céu). Os evangelhos discordam sobre quando, como e porque Jesus nasceu, começou e realizou seu ministério, morreu e ressurgiu. E isso tudo pode ser encontrado só lendo o maldito texto! Se voc~e sair um pouquinho da Bíblia, as coisas só pioram — leia qualquer coisa por Bart Ehrman para ter uma idéia.

axxvbov_700bEntão começar a ler a Bíblia por Jesus é como ler Star Wars acreditando em Luke Skywalker. É só uma mentira em que muita gente acredita. E eu garanto que se você primeiro estabelecer qualquer critério para acreditar ou rejeitar estórias, você se verá obrigado a rejeitar os evangelhos ou acreditar em qualquer golpe do vigário.

Finalmente, um aviso importante

Eu perdi duas horas ouvindo ao podcast e mais algumas respondendo em texto e vídeo. Chega. Se alguém quiser que eu veja algo, só abordarei se for uma conversa. A pessoa pelo menos apresentará seu caso E aresentará critérios para melhorar sua opinião OU o que levou a dar crédito às alegações. Não perderei mais tempo com pregação de igreja. Só para deixar claro, igreja é um lugar para concordar ou calar a boca e sair. Não comigo. Você fala, eu falo. Você ouve, eu ouço. Eu sou capaz de apresentar seu argumento tão bem quanto você, e espero o mesmo nível de respeito intelectual. Caso contrário, cai fora. Não sentarei mais na mesa das crianças. Compartilharei gozação quando achar engraçado, e darei risada de quem quiser pregar. De resto, tratarei de assuntos de adulto: política e sociedade. Vida longa e próspera!
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Tim Mackie nada sabe, parte 2

Ok, se você não viu a parte um, leia antes ou veja o vídeo caso não queria ler esta publicação. Pouparei introduções, e se você não estiver afim de ler, veja o vídeo. Tim Mackie continua falando merda na segunda parte do vídeo, entre os minutos 20 e 40 aproximadamente. Aqui ele fala sobre a surpresa de encontrar coisas na Bíblia. Suas idéias básicas são sobre a natureza da humanidade e como as pessoas deveriam reagir sobre ler a Bíblia. Para quem não escutou ao podcast, embora eu recomende que o faça (se entender inglês), aqui está um resumo. E como tem coisas obviamente estúpidas, já tirarei a maior parte do caminho.

Homeopatia cristã

Quando Deus faz algo, segundo Tim, é através das pessoas. Então quanto menos parece que Deus está fazendo algo, mais ele realmente está fazendo. É como homeopatia: quanto mais diluído for um componente, mais potente ele se torna. Todos sabemos que isso é coisa de retardado, e se você não souber volte para a escola. Nem é nisso que os cristãos acreditam. Deus criou o universo através das pessoas? Foi José de Arimatéia que acordou Jesus depois de três dias? Os discípulos na verdade eram médicos curando doentes? Não, vocês acreditam que isso era Deus fazendo coisas na frente das pessoas. Foda-se a homeopatia, cristã ou não.

Tendências cognitivas

Segundo Tim, você encontra os resultados que deseja porque escolhe usar um sistema que faz isso por si. Isto é errado, de acordo com Tim — e eu concordo, viva! Bem, dê uma olhada no próximo tópico, que também segue cronologicamente no podcast.

Não se preocupe com as porcarias

Deus mandou Noé construir uma arca para sobreviver ao dilúvio; você termina de ler a estória achando que tem que construir uma arca? Deus disse que pode comprar escravos de outras nações; você devera terminar de ler isso e concluir que pode comprar escravos da África? Veja, leis são dadas num certo contexto e para certas pessoas. E se você não entende porque algo está escrito, é um mistério que pode ser resolvido com fé: confie que o que está lá existe por uma razão, e é boa. Mesmo se você não entender. Fé entra na estória para dar paz de espírito sobre coisas que parecem ridículas.Quando as pessoas estudam a Bíblia de verdade, ao invés de acreditar em qualquer merda que pastor fala, elas encontram coisas que vão contra o que pensavam. Tim não menciona algo específico, porém; presumo que seja porque ele acha conveniente deixar  doença se espalhar até que as sequelas sejam permanentes. De qualquer forma, ele diz ter mente aberta — por causa de Jesus. Então se algum fato parece estranho ele consulta Jesus e o resolve através dos seus ensinamentos. Então ele está pronto para ser surpreendido sempre. Sua cosmovisão não é baseada na sua habilidade de encontrar coerência, mas em Jesus. Enfim, as pessoas não deveriam ficar surpresas ao aprender coisas sobre a Bíblia. Ela contém informação sobre como os livros foram compostos nela mesma.

Preciso dizer mais?

Sim, preciso! A burrice é forte neste indivíduo, mas algumas pessoas estão tão estragadas pela fé que não vêem o óbvio. Para começar, a descrição de “mente aberta” dada por Tim é o oposto do que isso significa. Se minha mãe diz algo e eu ouço de um amigo que ela está errada, o que chamamos perguntar de novo à mnha mãe e dispor-me a acreditar em qualquer coisa que ela disser? As únicas respostas correta são “ingenuidade”, “credulidade”, e “burrice”! Ele é tão “mente aberta” que perdeu o cérebro para a igreja! Tere a mente aberta significa não ter medo de dizer “não sei”, “eu estava errado”, não “tenho fé”. E que tipo de cosmovisão sem vício é essa?

— Cara, a Bíbia é cheia de falsidades.
— hmm, sei não. Jesus, que achas?

Claro, esta é a versão sem tendência. Ao contrário de “bem, se é falsa deveríamos encontrar informações conflitantes, relatos incompatíveis com a história conhecida, e por aí vai; por outro lado, se não for besteira deveríamos encontrar informações que nos levem a evidências empíricas, não acessíveis aos escritores mas confirmadas mais tarde (pense em ondas gravitacionais), esse tipo de coisa”. Mas não, eu estou sendo muito restrito.

Tim Mackey é exatamente como todo apologista: um hipócrita. Ele faz exatamente o que condena, mente na cara dura e é completamente ignorante acerca do mundo real. Mas ele é pastor, estudou por anos para isso! Claro, assim como xamãs estudam cura espiritual. Ele erra até sobre o que os cristãos acreditam! Quando fala sobre o dilúvio contendo regras que os cristãos não seguem, ele nem sequer descreve crenças que os cristãos possuem. Cristãos acreditam que homossexualidade é pecado não porque a lei mosaica ainda se aplica (embora alguns o digam porque alega-se que Jesus mencionou algo assim), mas porque o fato de Deus ter criado uma lei os banindo significa que Deus odeia bixas, como a Westboro Baptist Church diz. Não é a lei, mas porque a lei foi feita em primeiro lugar.

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Por fim, veja quão imoral o Deus de Tim é: ser bom significa somente amar e obedecer a Deus. Bondade não é algo sobre relacionamentos entre humanos, mas obediência. Eu espero que você entenda quão trivial é isso. Se não, considere Abraão e Isaque: quando Abraão ouve uma voz dizendo para sacrificar (matar) seu filho, a única resposta moral seria “vá se foder”. Ao invés disso, a louvada “moralidade” desse imbecil significa obedecer a Deus mesmo quando ele soa como um maníaco. Não, obrigado. Leve seu cristianismo para um manicômio.

Na próxima e última parte é hora finalmente de dar uma olhadinha sincera no evangelho de Tim Mackey.

 

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Tim Mackie nada sabe, parte 1

Recebi algo em inglês e esta é a resposta em português. Se você não tem atenção ou disposição para ler este texto, assista ao vídeo gravado por mim mesmo.

Foi-me sugerido escutar a um episódio de podcast, publicado por um canal que eu não conheço nem tenho interesse em descobrir. Como sempre, a fonte completa aqui: The Bible and Western Christians: Do We Got It All Wrong?. Não sei quem originalmente indicou isto para mim, já que veio por alguém que não fala inglês. Mas uma coisa eu sei: aquela pessoa não me conhece. Nem um pouco. Ou qualquer cético. Ou qualquer coisa.

Resumo

A fonte é um episódio de uma hora e o leitor pode não ter a fluência ou paciência necessária para escutar. sendo este o caso, tentarei resumir o que ouvi. E se você achar que não estou sendo justo, escute o podcast e julgue por si. Os anfitriões recebem Tim Mackie, quem quer que seja, e ele faz algumas afirmações durante a conversa/pregação, principalmente:

  1. A Bíblia deve ser lida com a perspectiva de que é tudo sobre Jesus.
  2. A Bíblia deve ser interpretada, isto é, ela não foi escrita para ser lida por todos, em todas as épocas, do mesmo jeito.

Esta é a descrição informal da Teologia, nenhuma novidade. Ele só descreveu com eufemismos a hermenêutica (arte de afirmar que um texto não quer dizer o que diz) e a doutrina da infalibilidade conforme expressada pela maioria do clero cristão.

Tim menciona uma ou outra crítica a essas afirmações, e as apresenta de forma desonesta sem um pingo de vergonha na cara. Explorarei algumas destas críticas, na intenção de tentar fazer com que a pessoa que recomendou este vídeo tenha um vislumbre da realidade. Provavelmente jamais alcançarei Tim e os apresentadores, já com seus cérebros tomados demais pela infecção religiosa.

Por que precisamos ter esta conversa?

Em primeiro lugar, só precisamos interpretar texto quando o autor está ausente. A própria existência da hermenêutica é um reconhecimento de que Deus não está no meio de nós, ou pelo menos que sua presença não é diferente da sua ausência. Quando discordamos sobre algo que está escrito, podemos invocar o autor e pedir que esclareça para qualquer número de pessoas ao mesmo tempo e pelos mesmos meios.

O fato de que duas pessoas, cristãos ou não, precisam debater sobre qualquer aspecto de Deus é o reconhecimento público de que Deus não existe ou não liga para a questão. E este é sempre o caso, então deus não dá a mínima para bosta nenhuma. Então por que eu deveria ligar para religião?

O velho testamento não é um manual atemporal

Para referência, meu comentário aqui é principalmente sobre o que Tim Mackie vomita principalmente entre os minutos 16 e 22. Ele alega que as pessoas presumem que a Bíblia deveria ser lida de forma linear, do começo ao fim, como se escrita particularmente a elas.

Céticos não presumem que a Bíblia Hebraica (ou Velho Testamento, OT daqui em diante) contém regras que se aplicam a cristãos hoje. Alguns certamente acreditam que sim, mas isto nada tem a ver com qualquer crítica das regras contidas no VT. Quando eu olho para as leis e estórias no VT, as questões que eu tento responder são:

  • Do que Deus gosta?
  • Do que Deus não gosta?
  • As preferências de Deus mudam com o tempo?
  • Deus introduz novo conhecimento? Esse “conhecimento” é falso?
  • As preferências de Deus são diferentes das preferências das pessoas que falam em seu nome?

E tudo isso já presumindo a perspectiva cristã: que Deus existe, que a Bíblia é verdadeira quando o descreve, que estórias escritas como história são reais e por aí vai — aliás, a maior parte disso é baboseira.

Aí olhamos para as estórias e regras e concluímos que isto não é, e nunca foi, um ser justo ou bom; estas coisas só podem ter vindo de um sociopata da Idade do Bronze.

Olhemos para um único dentre vários exemplos:

Quando pelejarem dois homens, um contra o outro, e a mulher de um chegar para livrar a seu marido da mão do que o fere, e ela estender a sua mão, e lhe pegar pelas suas vergonhas, então cortar-lhe-ás a mão; não a poupará o teu olho. (Dt 25:11-12, vergonhas = genitália)

Nós céticos não estamos dizendo que cristãos deveriam fazer isto hoje. Só defendemos a moral objetiva. Você e eu sabemos que essa lei é errada. Se alguém deveria saber disso melhor que todos, seria Deus. E estas palavras são atribuídas diretamente a Deus.

Claro, alguém poderia ter influenciado o texto. Quero dizer, o bárbaro que pensou nesta lei não foi inspirado por Deus naquele exato momento. Então ou Deus nunca ficou sabendo, ou nunca se importou o suficiente para consertar as barbáries ditas em seu nome. Mas como poderíamos responsabilizar o Deus onisciente por deixar uma coisa pequena dessa passar?

Portando ou Deus é um bárbaro, ou não liga para o que dizem a seu respeito. Hermenêutica nenhuma pode mudar isso. Só a ignorância pode. Cristãos podem cobrir os ouvidos e fingir que estas leis nunca foram dadas, e só olhar para as coisas bonitas que Deus diz (ou foi alguém colocando mais palavras na boca dele?) e esperar os evangelhos — e depois falo da merda que eles contém.

Não, nós céticos e eu em particular não pensamos que o VT contém regras para todas as épocas. Só as vemos como o produto de trogloditas.

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Como melhorar o feminismo, parte 3: o papel da mulher

Tem também a parte 1 e parte 2, que dão melhor contexto ao que vem a seguir.

Alerta: esta publicação inclui somente fontes feministas ou neutras. Mesmo que delas discorde, não argumento contra a validade de tais fontes nem verifico se as suas bases são sólidas, e sim tento mostrar para onde leva o caminho que elas propõem. Neste momento, fica a cargo do leitor ler e avaliar as fontes aqui citadas e as fontes destas.

nurachi-corso-casalingheA terceira maior busca, novamente na minha opinião, do feminismo é reposicionar a mulher na sociedade. Historicamente sendo responsável pelo lar enquanto o homem fica a cargo da proteção e sustento da família, a mulher que escolhe outro caminho — o desenvolvimento profissional e individualismo fora da família — encontra dificuldades injustas, as quais já mencionei anteriormente. Ou, nas suas próprias palavras:

Os movimentos feministas são movimentos políticos com a meta de ter igualdade de direitos entre homens e mulheres, garantindo a participação da mulher na sociedade de forma igual aos homens, na política, nas empresas e mesmo em casa. (grifo meu)

Finalmente, o símbolo da emancipação feminina é levar a mesma vida “bem sucedida dos homens”: trabalhar para ganhar dinheiro e aproveitar a vida.

E se a mulher não quiser?

Problema da mulher. Para o feminismo empoderar as mulheres, é preciso que a mulher trabalhe. Mulher e homem têm que trabalhar com renda. Mulher e homem têm que cuidar da casa e criar os filhos. E se alguma mulher quiser ser bonita, casar e se estabelecer como a cuidadora do lar, de forma a dar mais liberdade para que o marido se esforce mais intensamente em uma profissão, ela também é machista.

Para o feminismo alcançar seus objetivos, importa que as mulheres defendam o feminismo, não que o feminismo defenda as mulheres. A mulher tem que fazer o que o feminismo manda.

Afinal, o que é o feminismo?

O feminismo, conforme vimos:

  1. Precisa controlar as relações de trabalho
  2. Precisa controlar o mercado
  3. Precisa controlar o que as pessoas querem fazer com suas vidas

O feminismo, portanto, não é simplesmente um movimento em defesa dos direitos das mulheres. Ele é um movimento político, como afirma Márcia Tiburi, que precisa seguir as doutrinas comunistas para alcançar seus objetivos, intencional ou acidentalmente. E para responder à pergunta que dá título a esta série, para melhorar o feminismo é essencial divorciá-lo do autoritarismo político e do marxismo social.

Se o leitor quiser ir mais fundo, fique à vontade. Pesquise o que pensadores feministas afirmam e o que defendem. E prove-me errado em uma coisa para que eu reconsidere esta conclusão: mostre-me uma única feminista que defenda esses três princípios que apresentei (falta de representatividade de 50%, diferença salarial, e a necessidade de a mulher ter as mesmas vontades dos homens) e que defenda o liberalismo clássico (essencialmente escola austríaca de economia e ética com base em liberdades individuais) ou que no mínimo seja contra o socialismo. Eu procurei, e não achei uma única instância em que a pessoa não discorde de pelo menos dois dos três princípios.

Minha dica portanto é, para resumir: explore junto com seu interlocutor que ações são necessárias para alcançar seus objetivos, e quando essas ações têm fim. Até a próxima!

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Como melhorar o feminismo, parte 2: desigualdade salarial

Aviso: novamente, esta publicação parte do argumento feminista. Mesmo que discorde, usarei fontes feministas ou neutras e não atacarei os princípios em si; pelo contrário, apresentarei e usarei as fontes que apresentam a defesa do feminsmo na sua forma mais abrangente e convincente. Não analisarei se as afirmações delas estão de acordo com as fontes, se as fontes são confiáveis, se o método de obtenção dos dados foi apropriado ou se as conclusões são corroboradas pelos fatos. Recomendo, contudo, que cada leitor que faça isso. Finalmente, esta é uma página em Português e usarei somente fontes na língua portuguesa para facilitar a leitura pelo público que não entende inglês, embora a literatura nesta língua seja muito mais ampla.

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A segunda maior demanda do movimento feminista contemporâneo, a meu ver, é por salários iguais pelo mesmo trabalho. Diferenças salariais entre homens e mulheres na mesma função são uma injustiça, especialmente quando ambos têm a mesma qualificação. Essa injustiça é promovida — advinha — pelo patriarcado, pela consciência coletiva, pelo sistema que subjuga a mulher.

Que mal pode acontecer?

Novamente, suponhamos que tudo isto seja verdadeiro. Agora criemos algumas empresas fictícias, que fabricam e vendem um produto qualquer. Não sou formado em administração, então se alguém com maior conhecimento quiser corrigir algum princípio mal aplicado, por favor faça-o.

A empresa Doodle fabrica um brinquedo que é vendido por 100€. A Doodle pretende ter o máximo de lucro com a venda do brinquedo, claro. Para simplificar, digamos que o custo de produção de cada unidade seja 70€, sendo 50€ com mão de obra, de produção a pesquisa, e que homens e mulheres têm a mesma produtividade (novamente, esta é uma suposição para o âmbito deste experimento mental). Se a mulheres têm salários menores, a forma óbvia de a Doodle melhorar seus lucros seria empregar mais mulheres do que homens. Contudo, se homens tiverem salários maiores e forem a maioria dos funcionários, o custo de produção de brinquedos pela Doodle seria mais alto que o necessário.

Já que a Doodle tem um custo desnecessariamente alto pelo seu produto, um concorrente entra no mercado fabricando o mesmo brinquedo — a Chingling conseguiu driblar as patentes. Se não for patriarcal, a Chingling fabricaria um produto com a mesma qualidade e menor custo empregando mais mulheres do que a Doodle, eventualmente fazendo com que a Doodle empregue mais mulheres, equilibre os salários ou saia do mercado.

Implementemos ações afirmativas

Se Doodle e Chingling forem obrigadas a pagar o mesmo salário para todos os seus funcionários, o feminismo restituiu à empresa patriarcal a capacidade de competir no mercado. Agora Doodle e Chingling têm o mesmo custo para o mesmo produto, portanto para competir e destruir o patriarcado a Chingling tem que pagar menos para todos os seus funcionários, ou seja, as mulheres terão salários mais baixos que homens (em média). Contudo, se a Doodle quiser competir, os homens têm que ganhar menos que as mulheres (em média). O feminismo acabou de destruir a livre concorrência e a capacidade de empresas justas de destruírem as empresas patriarcais, o que mostraria exatamente o porquê da necessidade da igualdade salarial.

Para que as ações afirmativas sejam bem sucedidas no objetivo de igualar os salários, é preciso não só regular os salários como também regular a possibilidade de concorrência. E a falta de possibilidade de concorrência leva ao monopólio. Então o feminismo precisa que o estado, através de ações afirmativas, estabeleça que o mercado funcione através de monopólios — e isso só usando a igualdade salarial entre homens e mulheres.

Na próxima instância desta série, que se encaminha para o final, olharei para visão feminista sobre o que é ser mulher e o que isto representa para o feminismo e a sociedade em geral. Comentários, correções e adições são sempre bem vindos. Até a próxima, vida longa e próspera!

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O que torna um filme bom?

Tenho assistido um número maior de filmes e séries nos últimos dias, dada minha atual situação social. Alguns muito bons, outros nem tanto. Mas esta experiência permitiu-me refletir sobre o que faz um filme ser bom ou ruim, falando tão objetivamente quanto possível.

starship_troopers3_004Há filmes que assistimos, às vezes várias vezes, gostamos muito mas é difícil expressar o porquê dessa preferência subjetiva. A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, é um exemplo da minha parte. Outros filmes são tão ruins que também é difícil dizer exatamente o que é pior, como A Ascensão de Júpiter. Mas experiências pessoais à parte, existem características de filmes que podemos apontar, as quais têm a função ou consequência de inspirar certas reflexões ou reações cujo paralelo encontramos na vida real. Em Tropas Estelares, por exemplo, o paralelo entre o alistamento pela Federação e propaganda nazista é óbvio.

Existem muitas dimensões em que paralelos podem ser feitos (experiências emocionais, valores individuais, organização da sociedade, etc.) e muitos gêneros de filmes, de forma que falar de forma abrangente seria missão para um livro inteiro — infelizmente, só posso reter a atenção do leitor por alguns minutos. Então falarei sobre um aspecto, um gênero, e duas produções (spoilers aqui e ali).

A vida é em preto e branco, filmes não

Em qualquer dia somos confrontados com decisões difíceis. E num dia normal, temos que seguir a escolha mais segura para minimizar os riscos principalmente porque não podemos voltar atrás. Não estamos dispostos a questionar valores essenciais, sobre os quais entendemos que a sociedade se constrói. Mas filmes não são bem assim. Podemos explorar o que acontece quando o herói mata o vilão ao invés de prendê-lo, ou quando o herói não existe.

Na vida real temos que traçar limites, então é função dos filmes borrar estas linhas para que reflitamos se devemos redesenhá-las. Por isso filmes de fantasia e ficção científica são tão atrativos: gostamos de mundos em que nossos limites não se aplicam. Mas estes mundos têm os seus próprios limites, e é aí que mora a proposta da reflexão.

Blade Runner 2049

A questão proposta pelo filme é óbvia: o que significa ser uma pessoa? O que nos torna humanos? Ao criar um universo em que um corpo pode ser fabricado e embuído de memória e raciocínio semelhantes aos de uma pessoa “nascida”, a produção elimina, uma a uma, as diferenças que traçamos entre nós e o resto da natureza, o que permite questionar valores éticos presentes e futuros.

blade3-0Quem tem direito à vida e independência? K, Rachel, Joi? Wallace tinha o direito de eliminar qualquer replicante que não estivesse de acordo com as especificações? É justo replicantes lutarem por independência? Cada personagem representa um nível diferente a menos do que consideramos ser uma pessoa, e chegamos até a compartilhar do sentimento de K quando Joi “morre”. Rachel não nasceu, a replicante eliminada por Wallace não podia se reproduzir, K não tinha suas próprias memórias, Joi não tinha seu próprio corpo, mas em algum nível parece que todos eles são humanos. Parece errado “matar” qualquer um deles.

E toda essa reflexão, se trazida para o mundo real, se relaciona com a natureza do indivíduo, a existência da alma, o princípio da vida e a ética do aborto, livre arbítrio e a partir de que ponto a inteligência artificial passará a merecer direitos individuais. E o mais positivo, a meu ver, é que o filme faz isso tudo sem forçar a audiência a apoiar um ou outro lado de qualquer discussão.

Star Trek: Discovery

Do outro lado do espectro, temos a série da Netflix, agora no final da sua segunda temporada. Mas olhemos principalmente para os primeiro episódios: os Klingons são descritos como uma espécie que preza pela supremacia e pureza racial, alcançada através da violência, em que não há valores morais intransponíveis. Seu inimigo é a federação, defensora da paz e da integração entre os povos, defensora da justiça acima do perigo. E a linguagem usada para representar os personagens é a mesma que os membros eminentes da extrema esquerda norte-americana usam para descrever seus oponentes.

STAR TREK: DISCOVERY

Tenho a mesma reação em quase todo episódio, mas continuo assistindo

Apesar de uma tentativa razoável de borrar a linha na segunda temporada, é possível identificar o paralelo feito e qual o lado apoiado. A linha divisória se intensifica e as questões periféricas são borradas. Não há proposta de reflexão, só a tentativa de macular quem parece estar do lado Klingon (e seus equivalentes na vida real). Mesmo sendo uma produção cinematográfica muito bem executada pela Netflix, ela é de péssima qualidade.

 

Talvez seja meu interesse (e repúdio) por bolhas ideológicas, mas vejo essa diferença grotesca em produções como estas. E recomendo a todo mundo que chegou aqui que pense depois de assistir a um filme ou série se há uma tentativa de manipular a audiência ou despertar a atenção para algum tópico. Fique à vontade para sugerir filmes que tragam mais reflexões, ou se quiser conversar sobre algum filme específico. O canal do YouTube Wisecrack tem ótimas revisões de todo tipo de filme, para quem entende inglês.

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Como melhorar o feminismo, parte 1: representatividade

Para informação: toda fonte que eu apresentar abaixo será de fonte feminista ou neutra. Isto quer dizer que procuro apresentar o argumento a favor do feminismo na sua melhor forma, tão bem quanto qualquer feminista, mesmo discordando dele. Todas as fontes são informais; não aferi as fontes, exatamente para dar toda credibilidade possível para o lado do qual discordo. Mas recomendo que cada leitor verifique as fontes das fontes que aponto.

demographics2A idéia chamada de “representatividade” se apresenta como a proporcionalidade de identidades entre um grupo e todos os seus subgrupos. Quando falamos de feminismo, a idéia é que mulheres são 50% da população, então todo subgrupo deveria ser composto 50% por mulheres. E isso inclui todos os grupos que são vistos como tendo valor: empresários, engenheiros, médicos, matemáticos, e qualquer profissão em que se concede prêmios, do Globo de Ouro ao Nobel… enfim, tudo que ganha dinheiro, fama, e principalmente poder. Isso porque o patriarcado quer manter tudo isso para si.

O conceito quer dizer o seguinte: sempre que um número de pessoas se encontra desproporcionalmente em situação desfavorecida, ele é vítima de opressão; e a autoria de tal opressão só pode vir de fora, ou seja, do outro grupo. Bem simples, bem intuitivo.

Que mal poderia acontecer?

Digamos que as feministas consigam exatamente o que querem e troquemos funcionários de forma que as empresas tenham 50% de engenheiros do sexo masculino e 50% do sexo feminino. É óbvio que nem todas as pessoas com formação em engenharia estariam empregadas, então que proporção de desempregados teríamos. Agora precisamos entrar na área de exatas.

Digamos que homens e mulheres tenham interesses diferentes. Se isto parece absurdo, talvez você precise passar mais tempo com alguém do sexo oposto. E isso acontece de tal forma que o interesse de homens por engenharia seja maior e cada turma forme 70% de homens, desconsiderando que houve desistentes de qualquer sexo para simplificar. Se a oferta do mercado corresponder a 60% do número de engenheiros formados ou mais, todos os engenheiros desempregados serão homens. E qualquer número não muda esta desproporcionalidade. Ou seja, pelos próprios critérios feministas, a representatividade desejada acarreta em opressão contra os homens. Isso em qualquer área em que homens apresentem maior interesse do que mulheres.

man-couple-people-woman.jpgPartindo desses números óbvios, podemos dar um passo adiante: enquanto que a diferença inicial seria motivada pelo desejo e capacidade de cada indivíduo, o objetivo feminista seria alcançado pela coerção, através de ações afirmativas. Ou seja, poderíamos definitivamente apontar a fonte da opressão como sendo o feminismo.

Agora, olhemos novamente para as pessoas que se formam na universidade: do número total (ou seja, independentemente da área de interesse), 60% são mulheres. Pela lógica feminista, os homens estão sendo oprimidos, impedidos de concluir o ensino superior. Mas vamos ignorar isto, uma vez que o que apresento vale para este caso — e aí uma feminista provavelmente concordaria comigo.

Aplicando teoria de conjuntos

Aproveitando o tema, todo engenheiro deveria saber aplicar Teoria de Conjuntos. Todo filósofo também, aliás. E foi exatamente com a linguagem dessa área que comecei este texto. Formamos um grupo, a população total, e o dividimos levando em conta uma característica: sexo. E tomamos como óbvio que qualquer divisão igualitária deste grupo manterá sua proporção. Mas não há só uma forma de dividir um conjunto. Poderíamos também dividir por interesse; usando o exemplo anterior, qualquer ação afirmativa para empregar engenheiros dos dois sexos deveria objetivar ter 70% de homens e 30% de mulheres empregados na área, o que resultaria na mesma proporção de desempregados independentemente da oferta de vagas — dois subconjuntos com as mesmas características entre si e o superconjunto.

Portanto mesmo que as feministas estejam certas com relação à causa da desproporção percebida, a busca por representatividade não poderia ter o resultado que elas buscam. Na próxima entrada desta que espero ser uma série, abordarei a questão do mercado e se o feminismo também funciona ao contrário nesse aspecto.

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Como furar a bolha?

Você e eu não somos os clientes da internet. Nós somos o produto. Google, Facebook, agências de notícias e tudo que usamos de graça nos vende para seus verdadeiros clientes: anunciantes. É importante para estas empresas oferecerem conteúdo que agrade o usuário, que lhe estimule a clicar. É assim que elas vendem anúncios com a melhor relação de cliques por exibição, maximizando seus lucros. E não importa se o resultado das suas buscas ocultará conteúdo importante mas que não lhe agrada, ou a correção daquela notícia falsa, ou o opositor do seu político favorito.

O efeito disso é muito bem explicado por Eli Pariser neste TED Talk:

Talvez você ache que isso não é um problema. Muitos não acham, como a filósofa brasileira Márcia Tiburi, que simplesmente sair da presença de quem discorda é o caminho mais correto. No contexto desse episódio, quero por um momento que você ignore completamente o rótulo “fascista”, quer tenha sido bem ou mal aplicado. Veja as palavras da própria Márcia Tiburi em outro momento sobre o tipo abjeto que descreve:

não gosta de alguém aberto para conversa, […] corajoso, que mostra que o que ele pensa absolutamente não faz sentido.  […] nada que permita questionar é bem-vindo.

(Eu assisti o vídeo todo em que ela diz essas coisas para tentar encontrar algo de substância, mas ela só diz que o “fascista” é alguém inalcançável. A busca continua.)

E Márcia Tiburi não é exceção. Sempre que eu tenho algum período com um pouco de tempo livre eu escrevo para alguém que discorde de mim no âmbito da religião, de forma amigável, às vezes de forma mais contundente do que outras, mas o resultado é sempre o mesmo: depois de alguma conversa, em que a discordância é estabelecida, eu sou bloqueado e toda comunicação seguinte é ignorada. Às vezes nem o primeiro contato tem resposta. Isso já me aconteceu pelo menos 7 vezes nos últimos 3 anos, contando só as vezes em que consegui estabelecer o primeiro contato, por e-mail, redes sociais e pessoalmente. Sabe quantas vezes consegui passar para a fase de compreensão mútua? Nenhuma.

Este não é um efeito novo, resultado da internet. Os jornais de antigamente (e os de hoje também) dependem também de focar no público alvo. Se a Carta Capital publicar um artigo escrito por alguém do Instituto Mises ou na mesma linha de pensamento, ela será escrachada pelos leitores. De qualquer forma, temos um cenário pronto e precisamos descobrir o que fazer.

Como devemos moldar nossas relações sociais?

Boa pergunta, caro leitor. Eu não tenho dados à mão para dizer como as relações eram formadas no passado antes da revolução tecnológica. Dizer que sem a internet as relações ficam limitadas a encontros acidentais como trabalho, escola e igreja é tentador, mas sem dados não posso afirmar categoricamente. Mas dado que hoje a internet é um grande motor de formação de opinião e relacionamentos, e este motor tende a moldar o que cerca a cada pessoa, é preciso fazer algo que balanceie esta tendência. A fundação KIND fez uma iniciativa, mas infelizmente não é acessível para o público de língua portuguesa. Ao mesmo tempo, é exatamente porque já temos a tendência de moldar nossas relações voluntárias àquilo que nos agrada que podemos ser usados como produtos.

Eu acho que podemos usar esses dois fatores, que chamo de contrapeso e a atração, para moldar de forma mais saudável nossas relações sociais. Se cada um conscientemente fizer um esforço para impedir esse isolamento, acho possível usar a atração por pessoas semelhantes para criar contrapesos menos dolorosos. Por exemplo: digamos que as maiores influências para José sejam política, alinhando-se como conservador, e ciências exatas, tendo interesse maior em tecnologia; ele precisaria de duas pessoas como contrapeso, mas que mantivessem atração, como uma que seja liberal e compartilhe do interesse em ciência, e outra conservadora que use mais as ciências humanas como guia ético. Conquanto cada relação não esteja limitada ao fator em comum, a hipótese que proponho é que José teria uma rede de relacionamentos mais saudável.

Bem, eu tenho a hipótese… faltam os meios para testá-la. Se eu tivesse os recursos, poderia tentar fazer um aplicativo para Facebook. Se tivesse mais participação aqui, pelo menos uma enquete para um experimento mais limitado. Por enquanto continuarei tentando achar meios para furar as bolhas. A minha, como se vê pela quantidade de comentários e curtidas aqui e a quantidade de relações que perdi nos últimos anos nem existe mais.

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Laicidade em Portugal (e Brasil)

Hoje vi um painel muito interessante sobre laicidade em Portugal promovido pela e na Universidade Fernando Pessoa (UFP) no YouTube, que pode ser conferido abaixo:

Eu não tenho muito a adicionar aos pontos levantados no debate, mas gostaria de resumir como um estado verdadeiramente laico deveria funcionar (e fica para o leitor comparar isto com o seu próprio Estado):

  • Alguma religião é ensinada de forma confessional no ensino público?
    Não. A escola não se envolve com religião alguma. Professores não se envolvem em atividade litúrgica alguma dentro dos limites da escola nem enquanto docentes.
  • As igrejas e suas atividades precisam ser licenciadas?
    Não. O Estado não se envolve com a prática particular de religião alguma. Se algum grupo quiser abrir uma igreja, ele é livre para comprar quantos terrenos quiser, onde quiser e fazer seus templos do tamanho que quiser (dentro dos limites do Plano Diretor).
  • Igrejas e comunidades religiosas ganham subsídios ou isenções do Estado?
    Não. O Estado não se envolve com a prática particular de religião alguma. Como instrumento de associação particular, cabe à comunidade que se organiza em torno da religião custear a sua prática, e não ao resto dos cidadãos que não compartilham da mesma comunidade.
  • O Estado pode mediar interações entre grupos religiosos com interesses específicos?
    Sim, conquanto o assunto seja da esfera civil ou jurídica. Caso haja alguma disputa entre grupos, o estado pode mediar, dando espaço equilibrado para a manifestação pacífica das idéias e estabelecendo ações para a justa resolução dos conflitos.
  • O representante público (presidente, ministro, deputado, etc.) pode ir à igreja?
    Sim, conquanto fora do desempenho de suas funções. A prática da religião deve ser particular ao indivíduo e não ao serviço público.
  • Uma igreja quer fazer trabalho humanitário em conjunto com o Estado, como distribuição de alimento e recenceamento de desabrigados. O Estado pode subsidiar parte da ação?
    Sim, se nenhuma promoção da religião for feita associada a ela. Ou seja, se a igreja quiser distribuir Bíblias e folhetos ou pregar junto com o alimento, o Estado não deve se envolver. Em qualquer atividade do Estado deve haver fiscalização por parte de órgãos civis e qualquer desvio de finalidade deve ser punido.

Ou seja, o estado só se envolve com as religiões no âmbito civil, e deixa que as comunidades religiosas se virem com seus problemas particulares ou sua promoção. Do mesmo jeito que uma empresa deve se virar para continuar funcionando, uma igreja e a comunidade ao redor dela não deve depender do Estado para funcionar. E de forma pragmática, qualquer desvio disso deve ser feito igualmente para qualquer religião com alguma representação local, o que é impraticável. Se o leitor quiser, podemos conversar sobre exemplos em que princípio tão simples é completamente ignorado pelos diversos níveis da gestão estatal. Obrigado por colaborar!

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