Moral secular

Este é um assunto muito extenso. Serei suscinto e referenciarei o máximo de recursos externos — siga a seu próprio ritmo.

Tudo que diz respeito a certo e errado nas ações humanas é da área da moral. Esta é uma área da Filosofia, portanto é isto que alguém deve estudar para se aprofundar no assunto. Teólogos, sociólogos e psicólogos (além de outros profissionais) são obrigados a estudar muito pouco de Filosofia, principalmente no Brasil, portanto não os considero autoridades em qualquer nível para questões morais.

Uma questão moral é a que envolve o que se deve fazer com o objetivo de fazer o bem. Questões morais sempre têm a forma se você deseja X, então deve fazer Y. Daí deriva-se duas formas de responder questões morais: autoritativa e factual.

A forma autoritativa é a que oculta a primeira porção (se você deseja X), e formula questões morais somente com faça YTodas as religiões usam moral autoritativa, sob ameaça que substitui o termo condicional; por exemplo, nos ditos dez mandamentos, em Êxodo 20:5 (ACF): “… porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam”. Transformando para a forma normal de questões morais: se você deseja que eu não castigue você até sua terceira e quarta geração, mas tenha misericórdia de você, então deve guardar meus mandamentos. Todas as questões morais religiosas têm esse aspecto autoritativo de ameaça: bênçãos e maldições, céu e inferno, carma, etc.. A moral autoritativa não tem outras características, pois a autoridade pode definir as características do sistema moral que estabelece. Inclusive não se pode julgar a autoridade como sendo moral ou imoral, pois é a autoridade que define o que é moral. Portanto, se a autoridade moral mandar alguém matar o próprio filho, é impossível que o sujeito comandado julgue tal ato como imoral ou incorreto.

A forma factual é a que envolve fatos e consequências no primeiro termo, por exemplo: se você deseja que José não sofra, então deve evitar agredi-lo. Podemos então dizer que alguém que deseja que José sofra age moralmente? De forma nenhuma! Mas para isso, precisamos determinar mais fatos sobre a natureza humana. Por exemplo, é natural desejarmos a felicidade individual; também é natural sentir empatia. Portanto, causar sofrimento a alguém sem justificativa é contra a natureza humana e imoral por si só.

A parte V de Sense and Goodness Without God trata extensivamente, respondendo a praticamente todos os questionamentos sobre relativismo moral e demais oposições populares à moral natural. Sam Harris também tem um livro, A Paisagem Moral, e resumo dele no TED muito interessante:

Frans de Waal também tem um ótimo talk sobre fundamentos da moral em animais:

Ou seja, moral não é um atributo somente de humanos. Se nossa bússola moral é um atributo da alma, e algo que pode nos condenar a céu ou inferno, então animais também são sujeitos a julgamento eterno.

Considerando tudo, somente pelo humanismo secular, se pudéssemos voltar no tempo, seríamos capazes de explicar a qualquer povo por que escravidão, mutilação genital, e discriminação racial e étnica são atitudes imorais.

Relativismo moral?

Não sou defensor do relativismo moral. Se moral diz respeito a fatos que conduzem ao bem-estar de seres conscientes, então toda situação específica tem um conjunto finito de atitudes moralmente boas. Contudo, é possível que nem todas as informações estejam disponíveis para tomar uma destas atitudes moralmente boas. Por exemplo, é possível que minha casa seja invadida à noite por um homem bêbado com uma faca de plástico na mão. Suponhamos que eu tenha uma arma e, com o intuito de me defender, atire no homem, matando-o. No escuro eu não tinha condição de avaliar o risco, portanto as informações disponíveis davam a impressão de que defender-me ativamente era a melhor atitude. Eu teria então cometido uma atitude imoral (matei um homem que não poderia causar-me mal)?

Se usarmos a definição que dei até agora, a única resposta seria que uma atitude continua sendo errada (má, imoral, não conduzindo ao bem-estar dos seres conscientes envolvidos) mesmo que as informações disponíveis sejam insuficientes para a avaliar como tal. Contudo, a legalidade da ação não se dá só com base na sua moralidade, mas também com base em intenções. Tendo eu no direito de me defender de um agressor, estaria em meu pleno direito ao atirar em um homem que foi percebido como tal — conquanto eu pudesse demonstrar que esta era a percepção mais provável naquele momento, e que a ação foi compatível com tal percepção.

A moral secular, portanto, considera três aspectos da realidade: aquilo que pode-se saber nas circunstâncias atuais; os objetivos individuais e compartilhamos; e as liberdades e direitos individuais. Se uma ação proposta, dentro do que se sabe, tem maior probabilidade de conduzir a objetivos que não interferem em direitos e liberdades individuais próprias e de outrem, ela é moral.

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