A aposta de Pascal

A formulação da aposta de Pascal costuma ser mais ou menos assim: se Deus existe, eu (cristão) tenho tudo a ganhar e você (ateu) tem tudo a perder; se Deus não existe, eu nada perco e você nada ganha; portanto é melhor acreditar em Deus, mesmo que ele não exista. Existem muitas variações de linguagem, mas o conteúdo é o mesmo. Embora a formulação seja muito válida, ela tem sérios problemas.

A mentira da possibilidade

O primeiro problema é que a aposta é formulada como uma dicotomia: Deus (Jeová/Jesus) existe ou nenhum deus existe, portanto a chance do crente estar certo é de 50%. Só que não existem só estas duas possibilidades: os gregos poderiam estar certos e Zeus ser o deus verdadeiro; ou os hindus, os muçulmanos, os budistas, espíritas, mórmons, zoroastrianos, e tantos outros religiosos até chegar aos ateus. Existem dezenas de religiões, com inúmeras variações de doutrinas que dizem qual o destino da alma humana ou da sua existência. Então as únicas possibilidades não são algum deus específico existir ou não.

A mentira da probabilidade

A mentira da possibilidade já deixa claro que a probabilidade básica de um cristão estar certo é muito menor que 50% — talvez mais perto de 0,001%. Se considerarmos a nossa impressão de existência de possibilidade (Rápido e Devagar, Daniel Kahneman), então começamos já com a melhor aposta sendo a não existência de qualquer deus específico.

Mas se adicionarmos o nosso conhecimento do mundo, então quanto essa probabilidade aumenta ou diminui? Para isso podemos recorrer ao Teorema de Bayes, que usa o conhecimento passado para determinar as chances de um acontecimento relacionado. Mas não temos conhecimento passado algum sobre qualquer deus, pois qualquer obra divina deve ser reconhecida por fé e não conhecida de fato, portanto a chance de qualquer deus existir através do Teorema de Bayes (ou qualquer fórmula probabilística) é absolutamente zero (0%).

A mentira da crença

A última parte da aposta tem a ver com uma proposta: acredite, mesmo não tendo motivos. Esta recomendação envolve a idéia de que você pode decidir acreditar em algo, o que não é necessariamente verdade. Alguém pode acreditar que gatos não existem depois de ver e tocar um gato? Alguém pode acreditar estar mordendo uma maçã mesmo com a mão vazia? Se sim, isto é bom?

Até onde entendo, só é possível escolher crer em algo quando se é ignorante sobre tal coisa. A aposta de Pascal é, portanto, somente viável em um ambiente de total ignorância — sobre fatos e sobre probabilidades, em que 3 mentiras são contadas para que alguém faça de conta que acredita em um deus impossível.

A mentira do custo

Inerente à aposta está o conceito de ganho e perda. Ela afirma que alguém só pode ganhar ou perder algo após a morte. Mas ser cristão evidentemente tem um custo (o que é tema de muitas pregações): é preciso abdicar de riquezas, sonhos, gastar tempo e dinheiro. Além disso, é possível que haja também um custo moral e intelectual envolvido na vida religiosa — basta olhar para os extremistas islâmicos. Estar enganado sobre religião é uma perda tão grande quanto o seu nível de religiosidade, principalmente nesta vida.

Talvez eu possa reformular a aposta de forma mais inteligível depois de tudo isso:
A probabilidade de o seu deus específico existir é muito pequena. Se ele não existir, então você provavelmente viveu de forma imoral, desperdiçou seu dinheiro, deixou de ser o que você poderia ser, mentiu a várias pessoas, e possivelmente causou mal a tantas outras. Se qualquer deus existir, então existe uma pequena chance de ele mandar para algum tipo de condenação alguém para quem ele não se manifestou e que procurou viver de forma digna e moral com os recursos disponíveis, a mesma chance de, pelos mesmos motivos, receber uma recompensa. Se qualquer crente estiver certo, o ateu nada perde (a não ser injustamente); mas se o ateu estiver certo, quase todo crente perdeu a vida toda; e se nenhum dos dois estiver certo, então o ateu nada perde de novo, enquanto o crente perde a vida toda e a eternidade após a morte.

Uma explicação mais aprofundada em inglês:

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