Argumento cosmológico (Kalam)

Grande parte das pessoas que têm uma religião falam algo assim quando descobrem que alguém é ateu: “se Deus não existe, de onde veio tudo que existe?”. Alguns elaboram mais, mencionando o Big Bang (Inflação), Causa Primeira e outras coisas, como o pastor evangélico neste vídeo: http://youtu.be/lTtelJcv68k?t=2m38s. Pelo jeito para começar a ser ateu é preciso ser físico teórico ou cosmólogo.

Esse tipo de questionamento é só a forma popular do argumento cosmológico, e o nome mais famoso a defendê-lo é William Lane Craig. Eu pouparei adjetivos à pessoa para ir diretamente à forma como ele apresenta o argumento, um silogismo:

  • Premissa 1: Tudo que passa (ou começa) a existir tem uma causa
  • Premissa 2: O universo passou a existir (teve um início)
  • Conclusão: O universo tem uma causa

A partir daí, qualquer apologista encaixa a sua definição preferida de universo e causa, e Craig define o universo como toda a realidade material, portanto a sua causa tem que ser transcendente, logo deus (Jeová/Jesus, cheque-mate, ateu!).

Quem olha para essa formulação pode ficar confuso a princípio, e precisar de alguma ajuda para entender [o que é silogismo], e se tudo faz sentido. Ao analisar bem, existem vários problemas não só com as premissas como também com a forma como os apologistas as apresentam. Craig, por exemplo, erra até em matemática de colegial. Mas vamos lá:

Premissa 1

A premissa 1 é de natureza filosófica, e é… falsa! É possível demonstrar isso por contradição, como Scott Clifton faz aqui:

(o vídeo tem legendas, tem um botão no canto inferior do vídeo caso não apareçam de cara).

Ou seja, o universo pode ter tido uma causa (material ou eficiente), assim como pode não ter causa alguma. Não é possível, somente através de elocubrações filosóficas metafísicas, determinar qual tipo de causa, se alguma, é necessária e suficiente para o início do universo.

Premissa 2

A premissa 2 é resultado de uma extrapolação da física: o universo como conhecemos teve seu início no Big Bang (Inflação). Mas há um erro grave nessa extrapolação: a teoria da Inflação não marca o surgimento da matéria do universo, e sim o evento em que a matéria que hoje forma o universo, antes concentrada em um espaço infinitesimal, se expandiu rapidamente e transformou-se no que hoje chamamos de universo. Este é o primeiro erro da premissa 2: ninguém sabe se o universo teve um início.

O segundo erro é um pouco mais complexo, e se mistura com a premissa 1. O universo não é só matéria, e sim também o que se chama de espaço-tempo. Se o Big Bang marca o início da forma do universo que conhecemos, então ele também marca o início do tempo como o conhecemos. Logo, não se pode dizer que houve algo antes do universo que pudesse causá-lo.

Conclusão

Para o silogismo ser falso ou inconclusivo, bastaria rejeitar uma de suas premissas. Contudo, com base na filosofia e nas ciências naturais, podemos rejeitar completamente as duas premissas como no mínimo inconclusivas, e provavelmente falsas. Então o argumento cosmológico Kalam é incapaz de esclarecer qualquer coisa a respeito do sobrenatural.

Mas, como alegoria, digamos que o argumento fosse válido. Ele nada diz sobre o número de causas do universo ou seus atributos. Tudo que Craig diz nesse aspecto é arbitrário — exceto, talvez, pela transcendência. Em última instância, o argumento Kalam fala de uma ou várias divindades que fizeram um ato (a fagulha do Big Bang) e depois abandonaram o barco, morreram ou deixaram de se importar. Mesmo que fosse verdadeiro, o argumento cosmológico Kalam trabalharia contra o cristianismo e qualquer outra religião que professa divindades pessoais.

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