Argumento Moral

O “argumento moral” é a atribuição de uma origem à percepção de moralidade que temos. Existem várias formulações, mas parece-me que sempre é algum tipo de apelo à ignorância, como nas palavras de C. S. Lewis (em Cristianismo Puro e Simples, grifo meu):

a consciência revela-no uma lei moral cuja fonte não pode ser encontrada no mundo natural, apontando portanto para um Legislador sobrenatural.

Note que Lewis atribui a origem da lei moral a um “legislador” porque não sabe qual outra fonte poderia haver — a própria definição de apelo à ignorância. Outras formas são circulares, como o silogismo ao redor do qual se constrói o argumento:

  • P1: Como humanos, temos uma experiência moral
  • P2: Deus é a melhor ou única explicação para tal experiência moral
  • C: Deus existe

A conclusão está presente na premissa 2, daí a circularidade. Se o proponente do silogismo admite não ter conhecimento da existência do seu deus específico antes da conclusão, a premissa 2 não pode ser defendida. Na verdade, a premissa 1 pode ser totalmente descartada, assim como a conclusão.

Além dos problemas de formulação do argumento moral, é importante notar que, assim como o argumento cosmológico, este serve como justificativa para qualquer deus. Mas especificamente sobre o deus cristão, é preciso avaliar também o que se pode ou deve prever sobre tal deus, caso a justificativa proceda: esse deus deveria (1) determinar uma ordem moral no mundo, com recompensas naturais para os bons e punições para os maus, (2) ser ele mesmo moralmente bom, e (3) estabelecer uma ordem moral constante.

1. Há ordem moral no mundo?

O mundo é cheio de violência e injustiça: crianças têm câncer de todo tipo, gêmeos siameses, gêmeos parasitas, doenças congênitas, doenças autoimunes (em que não há um agente causador externo); ao mesmo tempo, criminosos ficam impunes, do assassino de rua ao político que rouba aos bilhões. Claramente não há uma ordem moral no mundo, muito embora haja várias percepções morais, muitas vezes conflitantes.

2. O deus cristão é moralmente bom?

Existem dois deuses cristãos: o do velho testamento, e o do novo testamento. Há cristãos que dizem ser o mesmo. O deus do velho testamento legaliza o escravismo (Êxodo 21, Levítico 25:44 e outros), e o deus do novo testamento não o abole. O deus do velho testamento diz que mulheres são propriedade do pai, transferida ao marido, e o que ela tem de mais valioso é a virgindade. O do novo testamento diz que mulheres não têm valor, que devem aprender em silêncio e serem salvas pela fertilidade (1 Timóteo 2:11-15). Todos estes são valores morais que hoje em dia todos reprovam. Existem inúmeros exemplos como estes, portanto podemos ver que ambos os deuses cristãos são moralmente falhos.

3. A ordem moral é constante?

Até 1977, no Brasil, o casamento era uma instituição vitalícia; existia o desquite, mas ele não eliminava o laço conjugal. Pesquisas indicam que a religião não influencia na taxa de divórcios no Brasil, e o mesmo pode ser observado em outros países. Embora o divórcio seja legal no Brasil contemporâneo, o mesmo não se pode dizer dos tempos bíblicos. Tanto no velho quanto no novo testamento, o divórcio era considerado imoral. Não só o divórcio, mas outros comportamentos antes impensáveis hoje são considerados aceitáveis ou até bons: homossexualismo, ceticismo, apostasia, ateísmo e desobediência são alguns exemplos.

Nada do que se esperaria de um deus que estabelece uma percepção moral se aplica ao(s) deus(es) da Bíblia cristã, portanto mesmo que o argumento moral fosse válido (o que não é), ele seria uma forma de provar que o deus cristão não existe.

Ver também: Moral Secular

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