É possível ser bom sem deuses?

Ah, o argumento moral! Coisa linda de se ver! Num primeiro momento, parece uma forma muito inteligente de se demonstrar a necessidade da existência de um deus. Mas no final das contas, ele não só está errado como é quase todo baseados em mentiras e demonstra que se algum deus existisse não poderia ser o deus bíblico — nenhum deles.

Este é um vídeo razoavelmente popular (traduzido ou legendado por diversas pessoas), e eu gostaria de analisar cada parte dele para mostrar quantas mentiras estão aí dentro.

1. Ações motivadas por crenças não demonstram o objeto da crença

A primeira coisa que o vídeo diz é uma versão da inversão do ônus da prova. Ele coloca um ateu fazendo uma boa ação — ele fez a boa ação porque não acredita em deuses. Opa! A falta de uma crença não motiva ações, e sim crenças positivas. Então o retrato da motivação de um ateu para fazer uma boa ação já está errada.

Mas existe uma coisa certa aí: uma ação motivada por uma crença não demonstra o objeto dela. Assim como uma pessoa fazendo uma boa ação sem depender da crença em deuses, uma pessoa fazendo uma boa ação por causa da sua crença em qualquer deus não demonstra que esse deus existe. Por exemplo: Fulano, da religião A, pára de fumar porque o deus dessa religião mandou que fizesse isso em uma visão; o fato de fulano parar de fumar não quer dizer que a visão não era uma alucinação, não demonstra o Aismo. Se assim fosse, o sucesso dos ataques terroristas em Paris (dezembro/2015) fariam com que muitos se convertessem ao Islamismo versão Estado Islâmico — suas ações foram alegadamente inspiradas por uma crença religiosa e tornaram-se possíveis graças à divindade dessa religião, enquanto a divindade da religião concorrente não impediu os atos teoricamente abomináveis cometidos, mesmo sob súplicas dos fiéis.

Isto tem a ver com a inversão do ônus da prova porque as outras mentiras têm o objetivo de minar a confiabilidade em um sistema moral secular. O apelo à ignorância é finalizado com mais omissões, como veremos.

2. Sem deus, a única opção é o relativismo moral

O segundo erro lógico também é comum na apologética: falsa dicotomia. Existem pelo menos três tipos de sistemas éticos: relativismo, objetivismo, e autoritarismo. O autor do vídeo oculta o objetivismo moral e usa esse título para o autoritarismo moral. O estabelecimento de uma dicotomia (X ou Y) aumenta o apelo da inversão do ônus da prova: se ele demonstrar que o relativismo moral é absurdo, sobra somente o autoritarismo e não é necessário apresentar evidências positivas para este. Cheque-mate, ateus!

Como sabemos que a outra alternativa é o absolutismo e não o objetivismo?

Deus manifestou a sua natureza moral para nós em forma de mandamentos (1:42)

Ou seja, o que é moral ou não é determinado por um indivíduo que exerce poder sobre os sujeitos a quem a moralidade é relevante. Existe um conjunto de regras independente de fatos a respeito dos indivíduos que determina o que é ou não moral. Isto é absolutismo, e não objetivismo. No final eu abordo melhor o que é objetivismo moral, porque ele volta ao tópico.

3. Se deus não existe, quem diz o que é certo ou errado? Ninguém!

Esta argumentação serve para reforçar a falsa dicotomia. O problema está na pergunta: quem diz o que é certo? O absolutismo é pressuposto! A demonstração está novamente em dizer que o a outra alternativa é o relativismo moral. Mas agora vamos aos dois problemas principais que o argumento moral revela para o cristianismo.

4. O ponto de referência

Seres humanos são diferentes. Um gosta de sorvete de morango, outro de chocolate. Mas existem muitas coisas em que todo ser humano em funcionamento normal experimenta e deseja evitar: dor e morte, por exemplo. Existem fatos observáveis ao redor dessas coisas desejáveis e indesejáveis que experimentamos. Tomar um sorvete de morango para alguém que tem uma memória boa associada a ele, ou uma preferência genética, causa uma sensação de prazer. Analogamente, a dor causa uma sensação desconfortável, além de possíveis consequências a longo prazo — como ficar aleijado.

O ponto de referência é o ser humano, e não deuses. A regra de ouro (que não foi inventada pelo cristianismo nem pelo judaísmo) reflete isso:

Ama teu próximo como a ti mesmo

Ora, se o ponto de referência fosse um deus, a regra deveria ser “ama teu próximo como eu digo”. A regra de ouro presume que seres humanos compartilham os mesmos gostos e preferências. Se você não gosta de ser agredido, não agrida; se você gosta de algo, faça isto aos outros. Mas mesmo a regra de ouro pode ser melhorada. Por exemplo, alguém que gosta de BDSM não deve bater num parceiro sem saber se ele compartilha esse fetiche. Seria a regra de ouro então uma forma de relativismo moral? Segundo o autor do vídeo, sim.

É por causa dessa regra que podemos aprovar ou condenar ações objetivas, tendo em mente… obedecer a uma autoridade? Não! Quando seguimos a regra áurea, temos em mente o bem-estar do indivíduo e o progresso da sociedade! Não só isso, mas é através desse ponto de referência — os anseios e sensações comuns — que podemos avaliar qualquer alegação moral, quer imperativa ou reguladora.

Alegações morais bíblicas

O argumento como um todo seria interessante — se não fosse um relacionamento íntimo entre falsa dicotomia, apelo à ignorância e mentira. E se estivesse certo, ele serviria como uma medida para testar se diversos deuses são verdadeiros. Assim, podemos avaliar o deus cristão sob esse mesmo critério.

Estamos todos bem conscientes de que o abuso de crianças, a discriminação racial e o terrorismo são errados para todo mundo, sempre. (3:55)

Suponho que outra coisa que deva ser errada “para todo mundo, sempre” seja vender uma filha como escrava sexual. Porém, esta prática é sancionada pelo deus cristão em Êxodo 21:7-11. A partir daí, é possível tentar reconciliar a idéia de moralidade com a existência do deus cristão de três formas (diga se houver mais, por favor):

  1. Deus estava regulamentando uma prática comum da época. Hoje isto não é mais permitido. Isto significa que algo não é errado para todo mundo, sempre. Você acaba de entrar no domínio do relativismo moral, invalidando o argumento moral inteiro ou demonstrando que esse deus não é real.
  2. Isto não sugere que alguém venda a filha; ninguém em sã consciência venderia a filha como escrava sexual! Então as pessoas da época tinham uma regra moral superior a Deus, já que ele não via problema em vender uma filha. Novamente, você demonstrou que o argumento moral é inválido.
  3. Isto não foi inspirado por Deus. A partir daí você precisa criar um método para determinar o que é ou não inspirado por Deus. Se o seu método inclui concluir que coisas más/imorais não podem ser atribuídas a Deus, isto significa que Deus não é o seu ponto de referência para determinar o que é certo ou errado, bom ou mau — novamente, invalidando o argumento moral ou demonstrando que seu deus não é real.

O mesmo exercício pode ser feito para diversos tópicos: escravidão, misoginia, genocídio/limpeza étnica, e por aí vai. Só aceita o argumento moral como demonstração do deus bíblico quem não conhece a Bíblia.

Conclusão

O argumento moral defende o absolutismo moral sob o rótulo de objetivismo moral, algo que é rejeitado tanto pela regra de ouro quanto pela análise de diversas das regras alegadamente ditadas pelo deus bíblico. Portanto, se o argumento moral estiver correto, o deus cristão certamente não existe; se estiver incorreto (como espero ter demonstrado), ele não é necessário.

Apêndice: ateísmo e moral

Ateísmo é o rótulo que se dá à falta de crença em deuses. Nele não há regras, dogmas, inclinações políticas ou morais. Um ateu não é obrigado a ser feminista, socialista, cientista, humanista, cético ou o que quer que seja, da mesma forma que um “não jogador de basquete” não é obrigado a torcer por qualquer time de futebol. O ateísmo não provê qualquer base moral porque não pode fazê-lo. O que provê uma base moral é qualquer outra coisa. Alguns exemplos: humanismo em “A Paisagem Moral” (Sam Harris), naturalismo metafísico em “Sense and Goodness without God” (Richard Carrier), ou até um sistema relativista ad hoc baseado em empatia com ou sem isonomia. Presumir que o ateísmo implica em qualquer dogma é um tremendo erro.

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