Fé demais não cheira bem

Algumas de minhas opiniões são controversas, e esta é uma delas. Este conteúdo é pesado em filosofia, então terei que ser um pouco prolixo. Se quiser pular a parte formal, pule direto para o tópico “Fé” — mas recomendo ler tudo antes de contestar.

Platonismo

Platonismo como epistemologia é a idéia de que o conhecimento é aquilo que reflete a verdade. Para Platão, tudo no mundo material se moldava a algo imaterial, transcendente. Isto significava que idéias como verdade, bem e mal eram coisas concretas e transcendentes, isto é, a verdade é uma coisa que existe por si só.

O problema do platonismo é que o conhecimento se torna a lente através da qual se enxerga a verdade. Logo, é impossível validar o conhecimento: você já está vendo a verdade. Claro que esta circularidade não impedia a contestação de conhecimento, mas faltava a este método de aquisição de conhecimento (aqui delineado de forma bem simples) um aspecto de auto-correção.

Epistemologia contemporânea

A forma de superar os problemas do Platonismo foi redefinir o que é conhecimento e, principalmente, para que ele serve. Verdade é um termo agora fora da mesa. Hoje em dia conhecimento é algo que se usa para explicar o que se experimenta e prever o que pode acontecer no futuro ou o que pode ser descoberto sobre o passado.

A partir da capacidade de fazer previsões, o método passa a ser auto-corretivo: uma previsão desmentida torna a hipótese que a gerou inválida (passível de correção). É da epistemologia contemporânea que emerge o método científico, um ciclo de:

  1. estudo de fatos
  2. criação de hipóteses
  3. inferência de previsões
  4. criação de experimentos
  5. revisão por pares

Este método pode ser aplicado a todas as áreas do conhecimento humano, variando somente a sua forma de aplicação.

Esta é uma palavra difícil, porque pode ter vários significados, como “crença” ou “confiança”. Devo dizer, de princípio, que dizer que fé é o mesmo que “confiabilidade” é incorreto; a palavra correta é “fidedignidade” (“Fulano é de fé” é o mesmo que “Fulano é fidedigno“). Qualquer que seja o significado, uma coisa é certa: fé é um atributo do seu portador, não do objeto da fé.

Como uma religião que emergiu da helenização do judaísmo, o platonismo é a base epistêmica do cristianismo. Quem não lembra de “eu sou a Verdade…”? Afirmações como essa, indicando que Jesus (ou o Espírito Santo, ou Deus) são as Formas de Platão, estão espalhadas pelo Novo Testamento. Eu argumento que a fé nada mais é do que platonismo aplicado da pior forma possível. Se é pela fé que alguém crê (em qualquer coisa), então não é preciso demonstrar a verdade da afirmação. E é só por fé que alguém pode crer que um deus indetectável se transformou em homem (ou engravidou uma mulher) e morreu para salvar almas que provavelmente não existem. Se tal crença é obrigatória (“quem não crê já está condenado”), então a fé é não só inútil como maléfica. Este é um vídeo é minha opinião resumida:

Pregação e ensino nas igrejas

A epistemologia da fé se ensina nas igrejas (e agora falando especificamente de cristianismo) nas pregações (sermões, homilias) e escolas dominicais. A forma padrão costuma ser: o mestre ensina (pastor, padre, pregador, etc.) e a platéia aceita. Às vezes existe espaço para dúvidas, mas nunca para discordância. Então você aceita o que é dito, ou sai. “Sair” significa procurar uma igreja que concorde com você, ou criar sua própria. Daí existirem milhares de denominações evangélicas pelo Brasil e pelo mundo.

Numa comunidade que aplique o método científico é bem diferente: quando um artigo é apresentado, ele passa por revisões antes e depois da publicação, e quando há erros em algo publicado, tanto autor quanto publicador fazem retratações. Enquanto a vergonha do religioso é dizer que estava errado quando alguém o prova errado, a vergonha do cientista (incluindo historiadores aí) é não admitir que estava errado quando o mesmo acontece.

Então a pergunta que fica para reflexão daquele que ainda não está convencido de que a fé é ruim é a seguinte: se você crê em algo por fé, o que seria necessário para fazê-lo deixar de crer? Se sua resposta for “nada”, então você fica entre duas posições epistêmicas: 1) todas as crenças que dependem de fé estão corretas (Jainismo); ou 2) as outras crenças estão erradas, mas é impossível fazer alguém mudar de opinião. Quase certamente você rejeita 1, e o fato de eu ter abandonado a minha crença antes baseada em fé mostra que 2 também deve ser rejeitada. Se sua crença é baseada em fé e nada pode mudá-la, ela é, por definição, irracional. Eu acho que crenças irracionais são perigosas, e você?

Anúncios

2 respostas para Fé demais não cheira bem

  1. Isaque daniel persson da silva disse:

    Em sua busca para definição da palavra fé, você coloca corretamente entre parênteses (em qualquer coisa).
    Outra afirmação correta é de que a fé é um atributo do seu portador, não do objeto da fé.
    Quando se tem fé (não em qualquer coisa), mas em DEUS, o que sabemos é que ELE É, independentemente da minha fé ou não, ELE continua sendo eu crendo ou não, e quando temos fé NELE, sabemos em quem temos crido, e temos provas do seu amor e poder em nossa própria vida.
    Grande abraço,
    Isaque

    • Henrique disse:

      “Quando se tem fé (não em qualquer coisa), mas em DEUS…”
      Então esse deus é diferente de tudo e algo que não serve para acreditar em qualquer outra coisa serve para acreditar nele. Péssima forma de se raciocinar.

Quer dizer algo sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s