O Argumento Teleológico (Design Inteligente)

Este é um assunto extremamente longo e envolve questões essenciais da religião, especialmente da ortodoxia cristã. Portanto, minha intenção é inicialmente delinear os aspectos mais importantes. O argumento teleológico é a proposta de que existe um propósito em tudo que existe: na vida, na ordem do universo, etc., donde se deriva que existe um autor para tal propósito.

É importante notar que as primeiras proposições de tal linha de pensamento foram criadas na grécia antiga — até onde se sabe. Assim como os outros argumentos (cosmológico e moral), ele foi e é usado para defender a existência de várias divindades, portanto não se trata de uma defesa de qualquer deus específico. Isto significa que o argumento pode ser irrelevante, ainda que fosse válido — e espero mostrar que não é.

De onde vem?

As duas formas principais do argumento teleológico são a ordem do universo e a existência da vida, sua diversidade e ordem. Em outras palavras, criacionismo. O criacionismo é tratado como seus proponentes como ciência, mas é importante notar que ciência de verdade é a prática da investigação seguindo métodos específicos sem compromissos com conclusões. Já os “cientistas” criacionistas têm compromissos com conclusões que não podem ser desfeitos — uma profissão de fé. O maior instituto de “pesquisa” criacionista é o Discovery Institute, cuja profissão de fé já foi divulgada e alterada diversas vezes. Graças ao Wayback Machine, podemos dar uma olhada nessa história:

[2004]
“O ponto de vista que o Discovery traz ao seu trabalho inclui uma crença na razão dada por Deus e a permanência da natureza humana.”

Nota-se que há dez anos já havia um compromisso anti-evolução e com a crença no deus cristão e o que ele teria feito. O mesmo se refletia em como eles selecionavam “cientistas”, exigindo cartas de recomendação de pastores e testemunhos. Mas com o tempo eles tiveram que disfarçar referências como essas, porém nunca as eliminando…

[2012]
“Nosso programa de Religião e Vida Civil defende a relevância contínua da fé religiosa tradicional à vida pública dentro de uma democracia pluralista. Especificamente, ele busca defender a importância dos conceitos Judaico-Cristãos de domínio e lei

[2015 (atual)]
“Ligando liberdade religiosa, política e econômica, a cultura Judaico-Cristã estabeleceu a justiça da lei, codificou respeito pelos direitos humanos e concebeu a democracia constitucional”

É importante notar que afirmações contidas na missão do instituto passaram de profissões de fé a mentiras absurdas, como essa de que a religião inspirou a democracia constitucional — só para esclarecer, foi o libertarismo germinado na Europa a partir do século XVI, que culminou nas revoluções francesa e americana. O mais importante, porém, é notar que o compromisso com crenças específicas passaram de abertos a disfarçados, mas nunca sumiram da missão do instituto. Isto significa que eles não têm qualquer interesse em ciência, e sim em religião — especificamente, no literalismo bíblico. Esse interesse é somente disfarçado de ciência e filosofia.

Problemas específicos

Como sempre, existe uma circularidade que também tentam disfarçar na proposta de design inteligente. Para diferenciar o que é intencionalmente projetado do que não é, é preciso identificar o que não é projetado. Porém, para criacionistas tudo é projetado. Para os que não defendem que tudo foi projetado, o projeto é identificado a partir do uso. Por exemplo: asas foram feitas para voar, pois pássaros as usam para voar. Mas o mesmo método não pode ser usado para aves que não voam, como o avestruz e o pinguim. E podemos chegar a casos ridículos: se eu jogar uma pedra na sua cabeça e você morrer, tal pedra foi projetada para matar você. Ou seja, propósito e efeito são tratados como a mesma coisa.

Negação da evolução natural

Uma consequência do design inteligente/criacionismo é que é preciso negar a evolução natural das espécies e/ou a inflação do universo sob qualquer pretexto. A primeira forma é a desonestidade/ignorância: “então você acha que o nada explodiu e criou planetas?”, “você realmente acredita que o homem veio do macaco, ou que a vida veio do nada?”. Esse tipo de frase é mera ignorância, já que nada dessas coisas é crida. A Teoria da Inflação não trata de uma explosão, e sim de expansão; a evolução natural não tem a ver com abiogênese (surgimento da vida) e o homem definitivamente não veio do macaco. Quando alguém fala essas coisas não há muito a dizer a não ser que vá estudar um pouco.

A segunda negação “fácil” é apontar para “elos perdidos”: onde está o peixe com pés, cadê o ser entre homem e macaco, etc. Se um elo é encontrado, basta apontar novos elos perdidos entre o encontrado e os anteriormente conhecidos. Novamente, entra em ação o compromisso com a conclusão: não importa quantos elos sejam encontrados, sempre haverá espaço para perder novos elos em defesa da criação. Normalmente quem advoga isso sequer conhece fósseis como o Archaeopteryx, Microraptor ou Tiktaalik (pergunte ao Pai Google).

Mas qual o problema da evolução natural? Na maioria das religiões, nenhum. Mas para o cristianismo ortodoxo acompanhado do literalismo bíblico, aparentemente a evolução natural acaba com o alicerce principal: o pecado original. Pois a evolução não deixa espaço para um primeiro casal de seres humanos; evolução trata de populações, portanto não é possível identificar um par de homo sapiens do qual todo descendemos e tiveram sua “queda” no paraíso. Sem um primeiro Adão literal não há segundo Adão; sem queda não há salvação, e mesmo que Jesus tenha existido e feito o que os evangelhos dizem, terá sido em vão. Então é preciso negar que a evolução natural seja um fato (o que é), ou ignorar a pergunta.

Negar a evolução natural significa negar a eficácia do método que a validou, e tudo que deriva deles: vacinas, antibióticos, transplantes, etc. Por isso que faço questão de expôr a propaganda vil de criacionistas e do design inteligente quando a vejo.

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